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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Batman e o fato social

     A Sociologia passou a ser formalmente considerada como uma ciência após as contribuições do pesador francês Émile Durkheim, responsável pelo desenvolvimento de uma teoria sociológica que continua sendo estudada na atualidade. Um dos temas abordados no pensamento de Durkheim é o estudo do conceito chamado “fato social”, o qual diz respeito sobre a maneira de agir das pessoas, ele possui três características, a generalidade, ou seja, se aplica a todos, a exterioridade, logo ele está fora dos indivíduos e por fim, a coercitividade, isto é, a imposição de um certo padrão por parte da sociedade aos indivíduos que nela se encontram. Além disso, Durkheim também discorre sobre o conceito de solidariedade orgânica, que corresponde as sociedades atuais e complexas marcadas pela divisão de tarefas e tem seu funcionamento próximo ao de um organismo vivo, por isso orgânica.

    O conceito do fato social pode ser percebido não só em análises sobre a realidade, mas também em elementos artísticos, os quais não deixam de ser análises do mundo real. A exemplo disso temos o filme Batman o Cavaleiro das Trevas, que ao olhar menos atento de muitos se resume a simples trama envolvendo a fórmula quase secular dos super-heróis, do mocinho simbolizado pelo batman tentando prender o vilão, que no caso é do filme é o coringa.

     Porém, uma observação mais atenta ao que cada personagem representa, além do maniqueísmo, nos permite ver o conflito entre a as normas sociais, as quais definem qual comportamento é socialmente aceito e a partir disso o coringa é atraído para Gotham City, pois este não acredita na ordem e é incapaz de se adaptar às normas de convivência social e a cidade é o símbolo da ordem devido a presença do batman que realiza justiça com as próprias mãos. Assim, o embate analisado sobre a perspectiva de Durkheim nos permite classificar o batman como um fato social exercendo sua coercitividade sobre o coringa, pois este comete atos que não são tolerados por aquela sociedade configurando um empecilho para o funcionamento orgânico da sociedade. 



Lucas Passos Duran Netto    1ºano direito diurno

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Normatividade conciliadora

A relação entre o que se conhece como pós-modernismo e o Direito é problematizada por diversos motivos. A começar pela vida virtual ter se tornado uma extensão da vida real. Voluntaria ou involuntariamente, o privado pode tornar-se público, sendo uma violação de liberdades individuais a segunda hipótese.
O Direito deve, portanto, lidar com essa nova realidade. As demandas sociais pós-modernas envolvem direitos das minorias, dos animais, a limítrofe dúbia entre o que é privado e o que é o público, e exigem a regulação de tudo isso no âmbito jurídico.
A tradição possui caráter absoluto e afeta a construção das normas. Não parece possível modificar uma cultura até que uma ruptura seja feita. Só então percebe-se o poder de transformação que o Direito pode ter sobre a superestrutura da sociedade (cultura e moral).
Para Weber, o subjetivismo do conceito de justiça deve ser excluído da norma, porque o caráter "passional" inibe a racionalidade e a efetividade da mesma. As reivindicações de minorias devem ser contempladas no ordenamento jurídico, mas é preciso cuidado para que o sentimentalismo do desejo de justiça não deforme o Direito e sua finalidade: regulação social e isonomia no processo jurídico. O apelo ao sentimento de justiça pode sim inverter a opressão, mantendo-a.
Por isso, o autor defende que o Direito seja o mais abstrato possível, para que seja cada vez menos arbitrário. Que as normas explicitem cada vez mais a vontade de coletividades, mesmo que minoritárias, sem perder de vista os princípios básicos do Direito.
É preciso saber conciliar as variadas demandas sociais dentro da normatividade. Para isso, é preciso isentar-se das emoções para elaborar um projeto jurídico efetivo e justo de fato.

A racionalização do direito

Nos primórdios, os acordos se davam sem a preocupação com a coação jurídico-política; eram feitos na base do juramento, da lealdade, sendo a maldição aquela que cumpria o papel coativo das partes.
Com o passar do tempo, muitos atos se difundiram e acabaram tornando-se um consenso. Isso tornou possível o surgimento da coação jurídica, pois os "acordos" tornavam-se mais gerais, mais comuns, facilitando uma norma geral que os regula-se. "Hábitos e costumes universalmente divulgados somente são permanentemente ignorados pelos aparatos coativos quando estes se vêem absolutamente obrigados a isso por determinados motivos formais ou pela interferência de poderes autoritários" [p.70]
Essa racionalização, essa coação jurídica é de estrema importância ao direito. Vejamos dessa forma: tendo antes o direito um caráter mágico, as regras se classificavam não como norma elaborada por homens pensantes, ponderados, mas sim por uma revelação de uma entidade superior feita aos sacerdotes, druidas.. Isso fazia com que para cada caso houvesse um procedimento diferente, dependia da pergunta que era feita pelo sábio.
Com a racionalização das normas, que regulam os acordos, os procedimentos, a coação é unificada, difundida, una. A norma geral não é mais uma revelação, mas sim algo pensado, calculado, ponderados, que foi discutido até que se mostrasse adaptado às situações.
Esse processo de cientifização do direito ocorreu sobretudo no período pós-guerra, por ser o momento mais propício às tendencias racionais do direito.
Entretanto, a cada reivindicação de um grupo social, que busca garantir certos direitos e se integrar de uma melhor forma à sociedade, criam-se normas para garantir que isso ocorra. Essa excessiva criação de normas específicas faz algo como se fosse o caminho contrário da racionalização do direito que vinha acontecendo. Deixa-se uma norma geral para cada vez mais termos mais normas específicas para cada grupo: "quanto mais o direito caminha para focos específicos, muito mais abre-se espaço para irracionalidade ou a interesses de certos grupos".

TEMA 2: a profissionalização do direito entre a ciência e a corporação.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O meio ambiente e o direito à vida

Muitos são os motivos pelos quais a Constituição brasileira de 1988 é conhecida por "Constituição cidadã". Um deles é o artigo 225, que normatiza a preservação do meio ambiente como dever do Poder Público e de toda a coletividade.
A preocupação com a degradação do meio ambiente existe há muito tempo no meio intelectual. Sua expansão no senso comum, no entanto, é recente. ONGs e outros grupos ambientalistas lutam contra a exploração insustentável da natureza por parte das grandes corporações capitalistas.
O conflito entre progresso tecnológico e manutenção da qualidade do meio ambiente ganhou espaço no âmbito judicial. O artigo anteriormente citado atrela o desenvolvimento sustentável ao direito à propriedade por meio da função social da propriedade. Os grandes latifundiários veem tal artigo como uma violação a um direito privado. Os ambientalistas o veem como uma medida tímida contra o descaso do consumismo exacerbado e alienante.
Então qual a solução para o descompasso entre o direito individual e a garantia de sobrevivência do coletivo (atual e futuro)? Tomando por base o positivismo, percebe-se a tentativa de conciliação: a propriedade é um direito, mas para mantê-lo é preciso exercer o bem à sociedade e à Natureza. Portanto, por uma perspectiva puramente jurídica, a sustentabilidade tem de ser exercida, mesmo que para efetivá-la, o Poder Público deva constranger um direito privado.
De uma perspectiva moral, nota-se a necessidade de reformas imediatas no modelo produtivo atual. Muito além da discussão direito privado e público, está a conservação do meio ambiente como um direito à vida. E contra esse direito, Poder nenhum irá atuar.

domingo, 18 de setembro de 2011

Jogo de cartas: eu aposto no Judiciário.

Até que ponto existe uma delimitação concisa entre as esferas público/privada? É dessa questão que trata Max weber quando em seu texto questiona o transito que se dá entre essas duas esferas muitas vezes com uma sobrepondo-se à outra.

Há entre essas duas esferas, posso concluir, uma película permeável ou até inexistente, permitindo a todo tempo a comunicação entre essas esferas ou até mesmo a necessidade de se abolir a dicotomia publico/privado diante de tal amálgama. O problema ocorre quando essa comunicação pende para os interesses privados; Nitidamente perceptível na atual situação do judiciário frente a grande quantidade de demandas muitas vezes até desnecessárias.

O judiciário é cada vez mais encarado como um superego humano, demandas assistenciais de caráter político acabam caindo nas mãos desse instituto que, por ineficiência dos outros, se vê todos os anos abarrotado de processos que uma hora ou outra precisam ser resolvidos. A mim me parece, que algumas vezes o resquício de sentimento público se manifesta com relação ao judiciário,mesmo que por interesse próprio, tendo em vista o descrédito no sistema vivido, conseqüentemente, assim como num jogo de cartas, as pessoas apostam tudo como última esperança, no judiciário. Nunca se viu tantos mandados de segurança em face de resguardar Direitos liquidos e certos mas que não são postos em pratica pela nossa velha e boa política. Resultado: judiciário deliberando sobre medicamentos, sobre a inadimplência e sobre diversas outras conseqüências da privatização dos lucros e socialização das perdas.

É o privado no público.

O Público e o Privado e suas Balbúrdias

A confusão do público com o privado é fato muito presente e parece que cada vez mais a diferenciação do que concerne a cada âmbito fica mais difícil e custosa. Inclusive Max Weber em sua obra, Economia e Sociedade – Fundamentos da Sociologia Compreensiva, cap. IV, chama essa discussão.

Segundo Carlos Roberto Gonçalves, “Não se pode, com efeito, dissociar o interesse público do interesse privado, como se fossem antagônicos (...). As normas não costumam atingir apenas o interesse do Estado ou do particular, mas entrelaçam-se e interpenetram-se (...). Os interesses particulares são também de natureza pública, tendo em vista o bem comum, e vice-versa”. O grande problema é quando esse equilíbrio entre o público e o privado é comprometido em decorrência da hipertrofia de um sobre o outro de maneira a prejudicar os interesses de um lado, passando dos limites saudáveis.

Dentre as mazelas causadas pelas estrepolias de um setor sobre o outro está o patrimonialismo, constantemente exemplificado em atitudes de políticos apossando-se de patrimônios públicos para benefício próprio; a invasão do Estado nas esferas particulares delimitando e regulando, e.g., a maneira como as crianças devem ser educadas dentro do ambiente familiar; e até a intensa vigilância e falta de privacidade a que somos frequentemente submetidos por meio de câmeras e inúmeras outras inovações tecnológicas, extirpando da vida dos indivíduos, cada vez mais, os espaços indevassáveis.

Desta forma, percebe-se que essa confusão de interesses e âmbitos de atuação ainda trás repercussões negativas e fragiliza a complementaridade que deveria provir da relação entre a esfera pública e a privada. Essa relação, primordialmente saudável, ainda esta impregnada de vermes que denigrem sua estabilidade e sustentação, que devem ser combatidos veementemente para a busca do equilíbrio em vista do bem comum, previsto, por Carlos Gonçalves, como o fundamental para a identificação dos interesses públicos e privados.

domingo, 21 de agosto de 2011

Lutar por mim ou pelo social?



Fotos estrangeiras tão emblemáticas como as ao lado apenas extirpam um tipo de fenômeno raro no Brasil: o sentimento de bem público. O que muitas vezes acontece na França ou mesmo na vizinha Argentina poucas vezes toma forma no Brasil – a não ser por minorias momentâneas.

Não há como negar que o individualismo é a bandeira do século. O liberalismo econômico trouxe consigo não só a possibilidade de uma vida pessoal promissora, mas também o medo e a insegurança, fazendo com que as pessoas se voltem exclusivamente para si, num abismo egocêntrico. Assim não é tão difícil ver levantes de grupos distintos defendendo ideais que privilegiam apenas minorias, já que é impossível num país de regionalidades como o nosso se falar de união de forças por um fim público.

Nem é preciso ir longe. Em Franca, há algum tempo, o prefeito decretou que todas as barraquinhas de lanches veiculadas em espaços públicos – ruas, calçadas, etc. – fossem proibidas de continuar nesses locais. (ver reportagem completa). Imediatamente nunca se viu tantas pessoas na câmara dos vereadores de Franca, repetidas vezes, em sua totalidade vendedores de lanches, clamando pela não aprovação do decreto. Pergunta: quantas vezes essas pessoas já haviam ido às seções semanais anteriormente para ao menos acompanhar o que seus eleitos vereadores discutiam sobre as escolas, os hospitais o transporte da cidade? Arrisco-me a dizer que sequer se lembram em quem votaram. É um erro, admito, de todos nós. Mas essa situação só deixa claro o quanto as paixões privadas estão presentes em nosso dia – a – dia. Ou quando somos bombardeados cotidianamente por notícias de corrupção, suficientes para nos contrariar, mas incapazes de nos fazer mover do sofá. Porém, se roubam meu tênis, minha casa, aí sim, defendemos de pronto, a pena de morte. Paixões públicas.

Durkheim, na leitura da semana, discorre sobre essas paixões como resultado de uma consciência coletiva ainda marcada por pontos arcaicos. Ou sobre a racionalização, presente em sociedades mais esclarecidas, que as possibilitam um juízo mais próximo da utilidade. O que falar do Brasil? Um país tão regionalizado a ponto de ser difícil encontrar um consenso econômico, mas que, ao mesmo tempo, esta tão longe do racionalismo, pois encontra dificuldades com questões do tipo a união homoafetiva.

Assim , o que se cria no Brasil, nas pessoas, uma aceitação das condições políticas e por parte dos eleitos, um descaso pela população, em partes por conta de nossas más escolhas eleitorais; Alimentando paixões, cada vez mais, individuais e muito menos as públicas.

segunda-feira, 20 de junho de 2011


Quando Marx/Engels escreveram o Manifesto era uma época de Estado minimo, no qual o ordenamento juridico tratava de legitimar a não intervenção do estado na economia bem como das igualdades formais que na verdade positivavam uma igualdade abstrata e que não tratava de maneira especifica o que acontecia na época. Ou seja, fazia parte do regime de governo o não reconhecimento das assimetrias sociais e mais que isso havia um aparato estatal que regia essa legitimação.

A obra em questão surge, entao, num contexto segundo os autores, de opressão por parte da classe burguesa que era a casta com o acesso aos meios de coerção. Contudo o que mais me intriga na fala dos autores é o grau de atualidade no que escreveram já há mais de cem anos. Tratam da necessidade de renovação permanente de mercados, das crises cíclicas e ate mesmo das instalações supra- nacionais e toda a insegurança que traz o mercado.

Assim, se considerarmos desde a época das navegações, o capitalismo está instaurado há seculos e o que se tem visto é a dialética habitual se mantendo, tentando modificar e evoluir juntamente com o ordenamento juridico as condições de vida.

Portanto seria possivel pensar de uma maneira bem caricatural, se é que o momento permite, a idade da pedra não terminou por falta de pedra, o capitalismo então terminará por falta de mercado?

Força Social x Liberdade Individual

Quero debater aqui três visões sobre a relação homem-sociedade. Em ordem cronológica, analisaremos Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber. Pretendo tratar com maior cuidado a visão weberiana, por ser o texto de concentração a obra “A ‘objetividade’ do conhecimento na ciência social e na ciência política”.

Émile Durkheim afirmava que a sociedade se sobrepunha ao indivíduo, já que ela, através de suas instituições, impunha normas coercitivas a este. A estas normas modeladoras ele chamou de “fato social”. Elas têm por objetivo educar e disciplinar. Elas traçam um perfil ideal, com características únicas que identificam seus membros como a ela pertencentes.

Karl Marx criou a teoria do “materialismo histórico”, e por muito tempo ninguém ousou questioná-lo. Weber chegou a dizer que tal visão se tornou um dogma no mundo científico, objeto de fé incontestável, prejudicando o desenvolvimento do pensamento sociológico. De acordo com o materialismo histórico, as relações interpessoais são frutos da condição material da sociedade. “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”, nas palavras de Engels e Marx, no Manifesto Comunista. Assim, o homem é levado a agir e pensar devido a sua condição de vida (abundância ou escassez). É o meio externo que define o ser.

Weber dizia que a sociedade era definida pelas ações sociais dos seres. Toda ação que estabelece uma comunicação entre indivíduos é uma ação social. O indivíduo, por sua vez é definido pelas ligações que faz com outros indivíduos. A sociedade é a soma desses indivíduos e suas inter-ligações. E como podemos avaliar tais ações? Classificando-as em quatro categorias, cada uma com características próprias. São elas:

- Ação afetiva: Seria aquela que o indivíduo realiza movido por suas emoções apenas, sem calcular seus efeitos. É impulsiva, guiada por estados sentimentais. Podemos considerar um exemplo disso uma agressão realizada em um momento de nervosismo; mas também uma palavra de amor que escapa naturalmente em determinado momento de carinho.
- Ação Tradicional: Seria a ação que o indivíduo realiza por simples costume, ou hábito. Não possui um sentido importante, trata-se de uma simples atitude de rotina.
- Ação Racional com relação a valores: Diferente das outras duas, esta é feita de forma racional e tem como motivação um valor, algum conceito, visão, crença que a pessoa carrega dentro de si.
- Ação Racional com relação a fins: Da mesma forma que a anterior, é feita de forma racional, porém esta tem como objetivo alcançar um fim determinado. Seria exemplo disso um atleta que compete pela medalha, um trabalhador que busca um bom salário, um estudante que na véspera da prova almeja uma boa nota.

Nessas três visões apresentadas (durkheimiana, marxista e weberiana) onde se deve realizar uma reforma para transformar a sociedade? Para Durkheim, nas instituições que impõem as normas aos indivíduos. Para Marx, através da Revolução, transformar-se-ia a economia, fonte de toda desigualdade existente. Para Weber, a transformação deve ser feita no indivíduo, já que é ele que caracteriza a sociedade.

Cabe aqui um comentário. Será que Weber estava certo? É o homem que, através de seus atos define a sociedade? Eu creio que em condições ideais seria. A sociedade nada mais é do que o conjunto de indivíduos autônomos. Porém, o que vemos é diariamente uma maior padronização dos seres. Alguns, através de normas coercitivas, estabelecem padrões modulares. Estranho ouvir falar em respeito à diversidade, quando todos os diversos possuem o mesmo discurso vazio e demagógico. Interessante quando nos dizem para respeitar opiniões, utilizando-se de um discurso autoritário. Eu realmente possuo meu “Direito de Discordar”? Por que querem me forçar a aceitar algo em prol da “diversidade”? E quanto ao meu direito de expressão? Eu realmente tenho direito a ir para o lado que eu achar correto? Posso me opor a uma legislação especial para os homossexuais sem ser chamado de “retrógrado homofóbico”? Posso me posicionar contra o apoio brasileiro ao governo venezuelano sem ouvir a palavra “imperialista”? Com a sinceridade científica que devemos ter em nossas análises sociológicas, digo que Durkheim estava correto, a sociedade impõe uma fôrma e modela os indivíduos de acordo com sua vontade. E não necessariamente através de instituições, porque o que se vê hoje é uma luta contra as instituições tradicionais.

Eu gostaria que a sociedade fosse como Weber diz, onde indivíduos escolhem as ligações que desejam fazer e realizam suas ações sociais, ainda que às vezes guiados por opiniões alheias, mas sem haver coação. É triste ver que a maioria segue o que é imposto e não faz ideia do “porque”. Eu sinto pena de quem segue a corrente, sem ao menos pensar no que está se passando. Não quero que ninguém se posicione contra algo apenas para não seguir a maioria; todavia, que tenhamos o direito de ser contrários quando assim considerarmos melhor. Enfim, eu sei que poucas vezes me darão este direito de lutar contra a corrente, mas estou disposto a executar minha “ação social relativa a valor”.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Revolução e Distribuição

“A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes” (Karl Marx e Friedrich Engels, O Manifesto Comunista)


É assim que se inicia o texto do Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels. Nele, discute-se que na evolução da história, sempre houve a exploração de uma classe por outra, sendo o capitalismo mais um exemplo disso. Contudo, este sistema possui particularidades, e Marx aponta duas: a burguesia é revolucionária, transformando constantemente os meios de produção; criaram-se forças produtivas nunca antes imaginadas. Por essa natureza revolucionária, vinda da cobiça de enriquecer a cada dia mais, a burguesia incentiva a criatividade humana a inovar sempre, gerando desafios a serem superados intelectualmente. Marx elogia esse aspecto. Os avanços trazidos e a riqueza gerada são maravilhosos!


Mas o desenvolvimento é uma necessidade que vem de onde? O mercado criou uma cobrança, pois se não há inovação, não há consumo, o sistema quebra. Porém, trata-se de uma cobrança apenas. A verdade, e até Marx e Engels concordariam comigo, é que essa é uma necessidade do próprio homem de crescer, desenvolver-se, criando mais e mais, não por causa do consumo, e sim pelo seu próprio desejo de evoluir. E isso é bom, Marx elogia tal aspecto em sua obra. Na idade média, o senhor feudal deveria ser auto-suficiente, vivendo apenas dos impostos pagos por servos. Houve avanços nesse período? Sim! Mas foi uma verdadeira Idade das Trevas se compararmos com os avanços trazidos pela burguesia no renascimento (a própria expressão renascimento mostra o período de dormência que foi a Idade Média). Finalmente há um estímulo para a produção.


Provo o que acabei de dizer. Quando a pintura evoluiu? Havia pintura nas igrejas medievais? Sim. E nas igrejas renascentistas? Sim. Qual é superior? Aquela em que o artista foi pago para pintar. Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Giotto, Verrocchio, respectivamente, “La Gioconda”, Capela Sistina, Capella degli Scrovegni, “Batismo de Cristo”. Diga-me agora um grande nome da pintura medieval. Pintura anônima, coletiva, feita por servos sem remuneração. Um exemplo moderno, mais evidente, é a Guerra Fria. Os Estados Unidos e a URSS disputavam o posto de maior potência econômico-científica. Contudo, as descobertas feitas nos Estados Unidos eram introduzidas no mercado, enquanto a Rússia (por não haver mercado consumidor) transformava tudo em sucata. Enfim, o sistema soviético foi superado e, posteriormente, veio à falência. Não digo que todo ser humano seja um mercenário, mas há muito mais interesse em produzir quando há expectativa de retorno. Os cientistas soviéticos receberiam o mesmo salário, independentemente do que produzissem. Os servos medievais trabalhavam para saldar uma dívida com o senhor feudal. Não há interesse na produção.


E se não houver mercado? E se o homem se contentar com o que foi criado até aqui e não desejar produzir mais nada? A medicina atual é suficiente. Não precisamos desbravar o espaço, nosso planeta é suficiente. Nossas bibliotecas estão abarrotadas, não precisamos mais escrever, tudo já foi dito. Por que motivo construir aviões maiores, prédios mais seguros? Responda-me tudo isso quando seu filho estiver doente, quando você olhar para o céu à noite (em um lugar afastado da poluição luminosa) e encontrar uma imensidão estrelada, quando em suas entranhas penetrar o desejo de se expressar, quando você desejar ir a algum lugar distante e precisar disso rapidamente, ou quando sua casa desabar. Voltaremos à Idade das Trevas? Retrocederemos séculos? Karl Marx deve se revirar em seu túmulo ao ouvir algo do tipo. Um homem revolucionário, que odiava o servilismo. Todo avanço É necessário!


A grande questão, no entanto, não é esta. É claro que o homem precisa produzir. A natureza hoje necessita que o homem desenvolva novas fontes de energia, utilize cada vez mais recursos virtuais (dinheiro imaterial, em um cartão de crédito, ao invés de metais e papel; arquivos digitais, no lugar de gigantescos bancos de dados inutilmente guardados ao mofo em porões; etc.). A questão essencial, para Marx e Engels, é a contradição criada pelo capitalismo. Discute-se a pobreza que ainda existe no âmago desta riqueza, a carência em meio à abundância. Por que uma classe possui tanto, enquanto a maioria, tão pouco?


E ninguém seja tolo de negar tal fato. A desigualdade é evidente até hoje. Algum dia será resolvida? Para os autores do Manifesto Comunista, será resolvida quando vier a revolução. E eu concordo, quando vier a Revolução Proletária tudo será nivelado... ou seja, nunca. A revolução dos sonhos não veio até hoje, pois na classificação de Marx, o que ocorreu até este momento foi a disseminação do modo de produção asiático, onde o Estado submete todos ao mesmo julgo exploratório. Se o capitalismo cria uma pauperização das classes subalternas (o que não é verdade), o socialismo real apenas socializou a pobreza e aumentou a exploração pelo governo.


Todavia, se o capitalismo não gera a pauperização das classes subalternas, conforme eu disse agora, por que há então acentuado aumento da desigualdade social? Isso se deve ao fato do aumento da riqueza generalizado de forma desigual. O industrial investe em máquinas, reduz custos, e aumenta seu lucro. E tais produtos vão para onde? Toda a sociedade deve consumir, o que implica em possuir dinheiro, e no caso do proletário, receber um bom salário. O salário deve assim aumentar, garantindo o consumo. O dono da fábrica recebe mais, aumentando, com maior rapidez, seu patrimônio. Quanto ao proletário, este também aumentou seu patrimônio e qualidade de vida. Por ocorrer de forma desigual (e não digo injusta, pois é mérito do dono dos meios de produção administrar bem seu negócio) tem-se a impressão de que uma classe sugou a outra, o que não é verdade. Não se pode comparar, em dois momentos diferentes, apenas a distância entre dois grupos, mas a evolução de cada grupo de um momento para o outro. Todos cresceram, diferentemente apenas em quantidade.


Dessa forma, concluo dizendo que Marx e Engels estavam certos, as inovações trazidas pelo capitalismo são incríveis; e discordo em dois pontos: Não há progresso sem o estímulo do mercado; não há pauperização de uma classe. Uma sociedade não pode caminhar sem o mercado. A China Socialista só se desenvolveu ao investir capital na indústria para aumentar sua produção e invadir o mercado global. A URSS, quando se aproximou da falência, abriu seus portões para empresas transnacionais, com os planos de Gorbachev. E todos enriqueceram com o advento do capitalismo, cada um conforme sua contribuição (o industrial investiu tempo, capital, intelecto e esforço; o proletário investiu sua força). O mercado é rotulado sempre como o vilão, talvez seja em muitos casos, mas sem o qual eu não estaria publicando neste blog.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Máscaras.


Durkheim discorre sobre a divisão do trabalho afirmando que esta vai além do preceito econômico, ou seja, cada indivíduo assume e aceita sua posição já pré-determinada a fim de que o todo seja beneficiado por esta solidariedade - que esta longe se ser filantrópica.As iniciativas pública e privada, de posse desse discurso, que procura legitimar também papéis e condições relativamente baixos, criaram lemas que mascaram o real interesse: o individual.

" Brasil, ame-o ou deixe-o" lema que extirpa o imperativismo do período.Amar um Brasil que crescia sem medidas, que se erguia com obras faraônicas que entretia as massas e que iludia a classe media com shopping centers;a fim de desviar as atenções dos estranhos sumiços, da divida exorbitante e da falta de políticas publicas nas cidades. Um discurso que entusiasmava as classes baixas, justamente estas classes que ao fim ficaram sem a parte que lhe cabia do bolo.

Mesmo a iniciativa privada, cria com esse discurso uma falsa sinergia no ambiente de trabalho que leva a um novo arranjo no atendimento e execução das tarefas, com lemas do tipo 'vamos fazer juntos?', 'cuidando para um mundo melhor' mascarando o real interesse que fica especificamente interno à seus prédios - e não o bem comum.

Se Durkheim, no entanto, rechassava o pensamento individualista, percebemos que seu discurso por muitas vezes usado, serve para legitimar uma máscara que se diz coletiva mas que atende a demandas de pequenos grupos.

domingo, 15 de maio de 2011

Durkheim e a Origem da Divisão do Trabalho

No cerne de uma sociedade, marcada pelo advento do capitalismo global e com ele a mentalidade individualista e hedonista; Eis que surge (já na sociedade contemporânea de Durkheim),o que talvez possa parecer para nós uma utópica teoria em razão de seu principio fundamental: a divisão do trabalho ,no tocante de sua função social de promover a solidariedade.

É através do trabalho, na sua perspectiva, que buscamos nos encaixar na sociedade e cumprir nossa função social, tudo isso com o objetivo de sermos solidários uns com os outros, pois essas funções se inter-relacionam e se completam, à medida que o individuo depende tanto de tantos outros serviços quanto dos seus próprios, que provém seu próprio sustento. Sendo assim define-se como nocivo o modo de pensar individual que não prima pelo bem-estar do social.

Para Durkheim, tal divisão remonta de maneira análoga à divisão sexual do trabalho, “a única maneira de se manter a sociedade conjugal”. Nos primórdios dos tempos homens e mulheres possuíam basicamente a mesma função na sociedade, sendo mínima a diferenciação sexual nesse sentido. Consequentemente, a relação de solidariedade entre os cônjuges era muito frágil, o casamento era tão rudimentar que nem a fidelidade era exigida. Hoje em dia, com a luta pela igualdade integral entre os sexos é possível depreender, a partir disto, que estaríamos chegando a uma “homogeneidade primitiva”, aonde “caminha-se para apenas deixar subsistir ligações sexuais meramente efêmeras”.

Quanto ao direito o autor define-o como “manifestação sensível, observável das formas de solidariedade social e cita-o como mecânico ou orgânico. O primeiro diz respeito as sociedade aonde as crenças e a religião predominam no modo de pensar, sendo este muito pouco diferenciado, dessa forma é menos complexo e reproduz mecanicamente o modo de pensar coletivo, além disto, as sanções são destinadas exclusivamente a punir o que se acha de prejudicial a sociedade e esta em desacordo ou fere tal consciência coletiva. O segundo é mais complexo pois como há maior diferenciação no pensamento dos indivíduos, é impossível tomar como base uma consciência que seja tão sólida e resolva todos os conflitos, para isso existem sanções jurídicas e vários estatutos e tipos de direito nos quais se basear.

sábado, 14 de maio de 2011

Vamos?









É interessante enxergarmos o quão atual Durkheim é no mundo empresarial. Nos dois vídeos que vimos acima, podemos notar um discurso positivista, mostrando que o bem da empresa vem a partir do bem individual, sendo o bem individual uma derivação do bem coletivo. Durkheim afirmava que a Divisão do Trabalho levaria a uma solidariedade entre os seres, e está muitíssimo superior ao progresso obtido: “Neste caso, os serviços econômicos que ela pode prestar são pouca coisa ao lado do efeito moral que produz, e a sua verdadeira função é criar, entre duas ou várias pessoas, um sentimento de solidariedade” (Émile Durkheim, “A Função da Divisão do Trabalho”).

Mas não seria este um discurso para justificar uma exploração autoritária de empresários interesseiros que não estão dispostos a trabalhar nas esteiras e sujarem suas mãos? Comte já tratou da função de cada elemento para o bem-estar do corpo. Durkheim re-afirma o que foi dito e aprofunda seu pensamento. Se avaliarmos o primeiro vídeo aqui apresentado, comprovaremos que não se trata de um simples interesse autoritário. Um funcionário que trabalha em uma empresa, ganhando menos do que gostaria, faz o mesmo serviço, de maneira superior, sem receber nada, em uma Escola de Samba. Seu desejo é sentir a emoção da avenida, ver sua obra desfilar ao som da bateria. É a realização pessoal que ele não sente na fábrica. Enquanto este serralheiro pouco se importa com o projeto de seu patrão; na Escola de Samba, ele se completa ao ver seu carro alegórico. O diferencial está no envolvimento, no “sonhar junto”. Poderia reclamar das más condições de trabalho do barracão da Escola, mas nem se dá conta disso, estando ele ocupado demais TRABALHANDO, empenhando-se, pondo seu máximo para atingir a perfeição. Não é o salário que faz a diferença para o trabalhador, e, sim, a satisfação trazida pelo produto final, o orgulho de ter feito parte daquilo.

Empresários fazem palestras sobre “Qual o seu sonho?”; “Vamos fazer juntos”; “Responsabilidade social”. No segundo vídeo vemos frases como: “Queremos trabalhar por algo maior que nós mesmos, maior que um produto”, “Você tem de se entusiasmar ao ver o crescimento dos outros”, “Vislumbre algo melhor”. A maior de todas, eu diria, é a do presidente norte-americano John F. Kennedy, que genialmente afirmou: “Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país.” Tudo parece novo, ideias fantásticas de empreendedores visionários. Mas a proposta já fora anunciada em 1891. Após mais de um século, lemos as palavras deste francês sem conseguir entender, pois nossos olhos estão manchados de um tom vermelho revolucionário. Não percebemos que aquilo que ele disse é o que as empresas hoje chamam de cooperativismo.

Como foi dito por Waldez Ludwig, a empresa não tem por objetivo promover o individuo, mas um projeto que o ajudará a se desenvolver. Cada um é responsável por administrar sua própria carreira, mas este só conseguirá crescer se desempenhar sua função com excelência, demonstrando comprometimento e disposição. Ludwig chama de escravo o trabalhador que odeia seu emprego. Afirma que cada um deve viver o “Sonho do Artista”, realizar-se profissionalmente. Não se contentar com o medíocre, mas correr em busca do melhor. Esse melhor não é apenas para si, mas para o projeto, e dessa forma, para o todo. Não é passando por cima de outros, nem tomando o que não nos pertence, mas trabalhando que alcançaremos nossos objetivos. E também não olhar só para si, mas se alegrar quando seus companheiros são vitoriosos em suas empreitadas. Doar-se pelo bem comum é favorecer o progresso de outros, sabendo que é para seu próprio bem também.

Certa pessoa, que eu admiro muito, uma vez me disse: “Sozinho, anda-se mais rápido; junto, vai-se mais longe”. Nunca me esquecerei disto. Autoritário é aquele que diz “uni-vos”. Imperativo, segunda pessoa. Ele não se inclui, apenas ordena. Para Durkheim, todos estão inseridos neste corpo social. É um trabalho em conjunto, onde cada elemento se dispõem a pelejar pelo progresso. Faço agora uma proposta: Vamos?

A Divisão Social do Trabalho e sua Enfermidade

No Livro Um de “ Da Divisão do Trabalho Social”, Émile Durkheim expõe sua visão positivista em relação à importância dos lugares sociais e da função de cada indivíduo dentro da sociedade. Fala também da solidariedade como explicação da divisão do trabalho e do direito como fixador das principais premissas sociais.

Segundo ele, as pessoas são diferentes e é exatamente esse singularismo que permite a existência da divisão do trabalho. Opondo-se à visão individualista capitalista, o indivíduo se insere em um contexto social e, a partir daí, não é visto em sua unicidade mas sim como propenso e com a finalidade do bem social, como parte integrante de um todo o qual tem suas necessidades supridas em detrimento das vontades particulares.

Cada um tem características diferentes, somos completos em certos quesitos e incompletos em outros. Assim, dentro de uma sociedade, um precisa do outro, cada um desempenha melhor certa função. Unindo-nos, então, não nos sentiríamos mais incompletos pois cada um cumpriria sua função de acordo com suas facilidades. Sob essa égide, Durkheim embasa a ideia de solidariedade presente na divisão de trabalho.

Com essa visão de solidariedade global, Durkheim defende o lugar social de cada um, porém, de certa forma, exclui o aprimoramento pessoal, a grande probabilidade da existência de desigualdades nas diversas “funções sociais”. Se todos possuíssem, independente de sua “função social”, condições salubres e dignas de trabalho, a visão durkheimiana poderia ser vista como aplicável e realmente propícia ao bem comum mas a realidade se mostra muito diferente.

Homeostase






A que necessidade social corresponde a divisão do trabalho?
Émile Durkheim, partindo dessa interrogativa, discute a importância, para a sociedade, da separação de tarefas. Todavia, isso perpassa por um questionamento: tal feito é moral ou imoral?
Imoral seria aquilo que supervaloriza o individualismo e que não possui caráter nobre, valores. Nesse aspecto, de acordo com o autor, encontram-se a civilização industrial, o desenvolvimento artístico e das ciências. No que tange à primeira, acredita ser útil e possuir “a sua razão de ser”. Como exemplo, há substituição de barcos à vela por transatlânticos, oficinas por manufaturas, porém, “essas necessidades não são morais” (cf. DURKHEIM, p.65). Da mesma forma, a arte “é um luxo (...) que talvez é bom possuir, mas que não se pode ser obrigado a adquirir” (DURKHEIM, p.66). Anexando-se a essa linha há a ciência, também à margem da moral.
Esta (moral), por sua vez, engloba aspirações e valores elevados, “é o mínimo indispensável, o pão quotidiano sem o qual as sociedades não podem viver” (Idem). Concatenando-se a esse sentido, revela-se a divisão do trabalho: ultrapassando papel de manter a civilização sob a ótica puramente econômica, baseada na produtividade e no interesse, ela gera efeitos morais, como a solidariedade.
O fato de haver diferenças entre indivíduos e os papéis por eles desempenhados promove uma aproximação (caráter solidário) entre eles e sua consequente complementaridade. Disso, advêm o equilíbrio, o sustentáculo e organização sociais.
No início, todavia, a ínfima diferença anatômica e de funções entre homens e mulheres impedia a existência de vínculos fortes e duradouros. Com o tempo, as características distintas apresentaram-se e, assim, a ligação entre os seres aumentou: surgiu a sociedade conjugal. Tal comunidade possuía divisão sexual do trabalho, e unia-se (ainda de forma tênue) pelas crenças e costumes (solidariedade mecânica). A partir dos tempos modernos, por sua vez, a complexidade expandiu-se, coexistindo aspectos filosóficos, religiosos e científicos, passando a unir-se pelos diversos trabalhos, organicamente (solidariedade orgânica).
Hoje, constatamos a necessidade da outra pessoa para nos completar. Exemplificando, de modo simples e aleatório: um professor, para consertar seu veículo, depende de um mecânico. Esse, para obter as peças, precisa do trabalho do engenheiro, que, por conseguinte, para um tratamento odontológico, depende de um dentista. Esse, assim, para se atualizar, necessita da pesquisa e do ensino de professores (e assim por diante). Ou ainda, numa organização de eventos, as diferentes comissões formadas (ex. marketing, contatos, logística), cada qual desempenhando seu papel, interligam-se com o fim de obter sucesso na realização dos mesmos.
Sem dúvida, essa divisão do trabalho, defendida por Durkheim, permite uma idéia de solidariedade, integração entre nós. O problema, porém, reside na frieza de interesse de nossos relacionamentos, deixando o vínculo de ir além do curto período de troca de serviços (nem todos realmente se solidarizam). Além desse dado, a obrigação de estar exercendo uma função que não lhe agrada é desfavorável. Tais são brechas para uma patologia social.
Diante do exposto, assim como vários são os órgãos que contribuem para o funcionamento de um corpo, seria ideal que inúmeros trabalhos permitissem a solidariedade; todavia, infelizmente, muitas vezes essa homeostase social não é concreta e completa.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O "Um" impondo-se sobre o Todo


Émile Durkheim fala de um fator que rege o comportamento social, um fator externo ao indivíduo, coercitivo, generalizante e inato, o Fato Social.

Para ele, as pessoas estão constantemente sujeitas à modeladores sociais e regras de comportamento. Suas ações são regidas por essa "força maior" que seria o Fato Social, formado pelo consenso e aceitação de todos sendo o grande movedor das personalidades e atitudes sociais.

O homem, inscrito nessa sociedade padronizada e coercitiva, quando foge dos costumes gerais e do comportamento aceito, é sujeito a sanções aplicadas pela sociedade como forma de repreender aquele que age destoando dos procedimentos impostos.

Durkheim chega a negar o pensamento, estilo e escolhas próprias, alegando que tudo não passa de ideias anteriormente impostas pela sociedade. Segundo ele, estamos tão imersos e inegavelmente sujeitos ao Fato Social que, erroneamente, acreditamos ter pensamentos próprios quando, na verdade, não passam de meras assimilações.

A ideia de Fato Social exprimida por Durkheim reafirma o positivismo Comteano uma vez que exerce sobre o indivíduo a vontade da maioria (sacrifício de um em prol do todo) além de conter uma forte ideia de ordem como elemento essencial e de constante busca na sociedade.

Dentro dessa ideia de Fato Social, o homem parece ínfimo, a individualidade, transgredida, e a sociedade mostra-se alienante com indivíduos inválidos. Observa-se um certo imobilismo nessa sociedade formadora de seres sem escolhas, sem opinião própria, sem forças para vencer as barreiras da coerção social.

Acredito que essa visão da impossibilidade de rejeição às imposições sociais, ao consenso, não seja fatalidade. A atitude transgressora é árdua porém possível, e, mais que isso, necessária! É nela que se encontram as melhorias sociais, as grandes mudanças e evoluções no modo de enxergar o mundo. Sem a trasgressão, sem as mudanças radicais de pensamento, o mundo ficaria eternamente estagnado, etéril. Ser igual é fácil, dificil é se destacar e dar início a uma grande mudança; a unicidade deve ser valorizada!

domingo, 8 de maio de 2011

Objetos de um predicado coletivo

“(...) consistem em maneiras de agir, pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo, dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (DURKHEIM, p.3)
Os fatos sociais, desse modo definido por Durkheim, correspondem,em suma, a determinações advindas da sociedade sobre os indivíduos que as compõem.

Tais fatos, por conseguinte, devem ser objetos de estudo de uma ciência sociológica, sendo tratados como “coisas”. Além disso, pré-noções, juízos de valor provocam obstáculos ao conhecimento científico, recomendando-se, então, que sejam evitados. Nessa perspectiva, defende, primeiro, a observação do concreto e, posteriormente, a ideologia.

Ao realizar essa análise, adentram-se exemplos como o da educação. Ensina-se a maneira correta de comer, beber, a ter hábitos de higiene, a respeitar as pessoas. Essas regras, portanto, contribuem para a permanência de uma ordem, uma sincronia, passando pelo respeito mútuo.

Porém, há casos “negativos”, os quais, preceitos já adquiridos se contrapõem aos do grupo em que, no momento, insere-se. Diante disso, existem dois caminhos. Um deles consiste na adesão aos novos valores para integrar-se ao círculo social: muitas vezes, a referida atitude gera “desgaste” físico, psicológico e emocional no indivíduo, prejudicando-o. Exemplo clássico da Literatura, pode tratar-se do personagem português Jerônimo, da obra O Cortiço: adentrando ao ambiente promíscuo do cortiço, abandonou, ao longo do tempo, sua tradição, passando a ter hábitos desse meio, permitindo seu envolvimento com Rita Baiana, fato este que provocou a dissolução de seu matrimônio, além de torná-lo pródigo.

Outra possibilidade encontra-se na recusa às normas de determinado grupo. Quanto a isso, o autor deixa clara a exclusão sofrida: “(...) a consciência pública(...) reprime todo ato que a ofende” (DURKHEIM, p.2), ou, ainda, exemplificação mais estrita: a vestimenta utilizada em desacordo com a ocasião gera relativo impacto nos demais.

Confrontando-se, portanto, os casos expostos, percebe-se, de fato, a preponderância da sociedade nos modos de se expressar, de falar, de ser educado. O conflito, todavia, reside na validade de se abandonar o que se tem como certo, objetivando a aceitação do circulo social; ou na recusa dessas imposições (o que deve ser analisado em cada situação). Porém, caso o objeto esteja em consonância com o predicado coletivo em que se insere, ressaltando o respeito aos demais complementos, contribui-se para um bom funcionamento desse corpo social.

sábado, 7 de maio de 2011

Pra viver?

Toda vida em sociedade tem seus problemas. Nunca na história houve um agrupamento humano em que a totalidade de seus elementos estivesse satisfeita. Incomodados, os homens passam a avaliar como deveria ser a sociedade,contestam suas falhas. Alguns, mais revoltados, dizem que o sistema vigente é insustentável. Com todos esses nervos à flor da pele, passam a formar certas ideologias e a elas se tornam dependentes. Criam um mundo novo, um “País das Maravilhas”, e, como Alice, deslumbram uma realidade que não passa de um sonho à sombra de uma árvore. Durkheim, em sua obra As Regras do Método Sociológico, trata desse assunto logo no capítulo inicial. Nele, explica que a sociologia é a ciência responsável por analisar os “fatos sociais”, não se prendendo ao “como” deveria ser a sociedade. “A reflexão é, assim, incitada a afastar-se do que é o objeto mesmo da ciência, a saber, o presente e o passado, para lançar-se num único salto em direção ao futuro.” (Émile Durkheim).

Mas por que seria a ideologia tão prejudicial? Não consigo não pensar na música “Ideologia”, da extinta banda Barão Vermelho, para responder esta pergunta. Ela diz: “Meus heróis morreram de overdose, /meus inimigos estão no poder”. Neste trecho, quando Cazuza cantava “overdose”, não se tratava de entorpecentes, nem mesmo remédios, mas de uma overdose mental. Seus heróis, que pregaram com tanta força idéias revolucionárias, perderam-se na irrealidade, na fantasia. Ao fim, seus inimigos continuavam no poder, e até hoje, anos depois, continuam. Os primeiros versos da canção confirmam a análise agora feita: “E as ilusões /estão todas perdidas./ Os meus sonhos/ foram todos vendidos.” A ideologia é como óculos de lentes divergentes. Através deles, podemos ver objetos distantes com mais clareza, mas deixam embassado tudo que está a nossa volta. A ideologia é capaz de nos alienar. Nela, tudo é belo, tudo é harmônico. Ela se opõem a todas as falhas, tudo que é feio e odioso na sociedade. Sua teoria faz nossos sangues ferverem e nossas vozes clamarem por justiça...mas nada é real.

Durkheim explica que as ideias não podem anteceder os fatos concretos, e sim o inverso. São os fatos concretos que nos embasam para a formulação de teorias. Durkheim é empirísta. Seu conceito é tão radical que chega a considerar Augusto Comte um tanto quanto metafísico. Ele diz que o “fato social” deve ser visto estudado como uma coisa, da mesma forma que as ciências naturais avaliam seus objetos de estudo: “O que existe, a única coisa que realmente é oferecida à observação, são as sociedades particulares que nascem, se desenvolvem, morrem, independentemente umas das outras”(Émile Durkheim). Citando Bacon, a ideologia é um tipo de preconceito (ídolo) que não pode ser trazido para o estudo da sociedade. Os valores, os pensamentos do cientista social não podem violar o experimento.

A grande pergunta é: Será que isso é possível? Será que somos capazes de julgar a sociedade sem lançar mão de nossos conhecimentos pré-existentes? Será que somos capazes de elaborar leis baseadas apenas na realidade, nas relações entre os indivíduos, não passando tudo antes pelo rigoroso crivo de nossa consciência? O nosso “bom-senso” pode ser silenciado? Como pode um elemento, que foi criado sob (de acordo com Durkheim) as pressões exercidas pela coletividade, foi forçado a acatar hábitos que não lhe eram naturais, forjado a partir dos interesses alheios, “arrastado por todos”, exercer juízo sobre essa mesma coletividade? Como poderia uma cadeira contestar seu marceneiro; um candelabro avaliar o trabalho de seu próprio ferreiro? É uma só pergunta, que pode ser feita e pensada de diversas formas, sem nunca alcançar uma resposta objetiva.

Durkheim diz que sim, é possível o cientista social se separar do meio em que está inicialmente inserido e o definir. Entendo que sobre este assunto, jamais haverá consenso. Jamais desaparecerão as bandeiras e gritos de justiça, nem as reprovações de conservadores. Eu creio que sim, é possível a produção de estudos sociais neutros, a publicação de leis baseadas na análise e não em conceitos deturpados. Foi assim que surgiu o “Penso, logo existo” de Descartes. Como disse Bacon, alcançaremos tal objetivo através da análise fria, sem nos deixarmos levar pela retórica. Não é errado possuir convicções e valores, mas estes devem provir da realidade, e não de devaneios. Seria a ideologia forte o suficiente para resistir à prova do mundo concreto?

A ideologia é viciante. Ela pede a cada dia doses maiores, até nos aprisionar de maneira irreversível. Pode ser que seus heróis estejam morrendo de overdose e você nem saiba. Ela nos aliena. Talvez enquanto você gasta seu tempo correndo atrás de ilusões, seus inimigos continuem no poder. Você ainda quer uma para viver?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Simples peças

Desde muito pequenos, somos moldados sutilmente, a fim de que possamos nos encaixar em padrões sociais estipulados bem antes de nossa existência. Somos submetidos à formas de comportamento, de vestimenta, de pensamento, rotuladas pela sociedade e suas instituições como "ideais", "adequadas". Estes padrões "vêm a cada um de nós do exterior e são suscetíveis de nos arrastar sem que queiramos", como já concluía Durkheim. Obedecemos leis formuladas anteriormente, seguimos ritos e cremos em dogmas religiosos previamente estabelecidos, utilizamos moedas e um sistema financeiro alicerçados há tempos. A nós resta apenas a inserção, visto que todos estes aspectos independem de nós para serem o que são, afinal já estavam devidamente consolidados. Tomamos, assim, a dimensão de simples peças que se movimentam segundo comandos no tabuleiro da sociedade.

Somos donos de nossas próprias ações dentro do âmbito abordado? Não, apenas nos enquadramos em padrões prévios. "Estamos, pois, diante de maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a propriedade marcante de existir fora das consciências individuais" e somos meramente "vítimas de uma ilusão..." quando "... acreditamos ser produto de nossa própria elaboração aquilo que nos é imposto do exterior", nas palavras de Durkheim. Segundo ele, não existe ninguém imune a sociedade, por mais revolucionário e contestador que possa ser.

E nós, apesar de simples peças que buscam o encaixe perfeito, somos também dotados de paixões, preferências, opiniões, credos,convicções. Como, então, analisaremos os fatos sociais que se apresentam a nós de maneira objetiva e isenta de juízos de valor? Seria o método instrumento capaz de conseguir tamanho distanciamento de nosso ser e nossos sentimentos? Durkheim acredita que sim e afirma ser perfeitamente possível. Para ele, tais fatos devem ser tratados como "coisas". Mas será que a realidade obedece às ordens de seu pensamento? E o sentir é sempre escravo da Razão? Inquietações que nos vêm ao debruçarmos sobre a visão de Durkheim, tão atual e presente.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Unindo o passo firme a trilha do dever

Augusto Comte acreditava que o Positivismo era a sucessão lógica ao tom metafísico da construção de conhecimento (ulterior a fase teológica), pois o Homem já teria adquirido capacidade suficiente para explicar o mundo sem necessitar recorrer a deuses. Apesar de obsoletas frente ao progresso, frente ao Positivismo, elas eram necessárias a fim de permitir chegar no discernimento requerido pelo Positivismo. Uma proposta positiva nas ciências é uma 'interdisciplinariedade', uma maior integração entre as ciências, pois algo muito especializado seria vago, sem aplicação prática, enquanto um panorama geral das ciências poderia elucidar e revelar mais coisas.

Outro aspecto importante desta interdisciplinariedade proposta na área das ciências, é sua aplicação no estabelecimento dum papel social. Vendo a importância de sua participação na imagem geral, um simples trabalhador industrial aceitaria sua posição, a compreenderia. O exemplo de um trabalhador industrial não foi aleatório, Comte diz que o proletariado deve ser o foco das ideias positivas, pois teriam mais afinidade com elas quando comparados as elites, que estariam com a cabeça cheia de ideias sem aplicação, metafísicas.

O título é uma verso do hino dos escoteiros do Brasil, “Rataplan”. Logicamente é uma canção patriótica, mas este verso em especial mostra um conteúdo positivo. “Seguir a passo firme a trilha do dever” ilustra a ideia de Comte. Para ter o progresso deve-se ter a ordem, com cada um fazendo sua parte visando o bem coletivo, o dever. Na anarquia não haveria avanço pois não teria-se ordem. Não é coincidência que os militares brasileiros foram influenciados por ideias positivas. A ordem e progresso forma uma simbiose com a disciplina exigida na vida militar.