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quinta-feira, 26 de março de 2026

Imaginação sociológica e violência de gênero.

“Isso é coisa de mulherzinha”, “lugar de mulher é na cozinha”, “mulher tem que se dar ao respeito”: todas essas sentenças, por séculos, se naturalizaram e se empregaram no tecido social. Nesse sentido, refletem a subalternização, desclassificação e objetificação dos corpos femininos. A linguagem atua como ferramenta que reflete os valores de uma sociedade. Mesmo com o desuso de muitas dessas expressões, a lógica de conceber o feminino como inferior ainda prevalece, perpassando relações marcadas pelo machismo.


Nesse contexto, os papéis de gênero impõem certos valores ao feminino, como a ideia de delicadeza, maternidade e submissão ao masculino. Pela ótica de Francis Bacon, esses comportamentos esperados se classificam como “ídolos”, alegoria de noções falsas que impedem o verdadeiro conhecimento, reforçando estereótipos. A propagação de tais “ídolos” ocorre, atualmente, principalmente por meios imateriais, como as redes sociais, em que grupos denominados “red pills” destilam seu ódio contra as mulheres. Nessa perspectiva, há uma passividade e falta de imaginação sociológica desses grupos. Para o filósofo René Descartes, não deve-se tomar nada como certeza, e sim fazer uso do método cartesiano, se utilizando da dúvida metódica para tentar alcançar uma verdade indubitável.


Ademais, a ausência de racionalismo crítico nesses grupos “red pills”, ao difundir ainda mais ideais misóginos e machistas, promove não apenas violência simbólica, mas também a naturalização da violência física e do feminicídio.


Casos como o de Tainara Souza, que foi atropelada e arrastada por mais de um quilômetro, ou o de Alana Rosa, que foi esfaqueada quinze vezes, estão se tornando cada vez mais comuns e refletem o machismo. Esses não são casos isolados. Na visão de Charles Wright Mills, é necessária uma abordagem para além do indivíduo, sendo assim, a violência contra a mulher não é um caso isolado, mas resultado de uma estrutura social acrítica que naturaliza padrões comportamentais sem reflexão. Ademais, ele também sinaliza a presença da “Idade do fato”, na qual há grande quantidade de informações, entretanto, a capacidade de perceber o que está ocorrendo no mundo e no próprio indivíduo é limitada.


Em suma, a violência contra a mulher não surge de forma isolada, mas está diretamente relacionada à ausência de pensamento sociológico e crítico, o que favorece a naturalização de discursos preconceituosos e a perpetuação de estruturas sociais desiguais.

Positivismo e a questão trabalhista.

Débora de Araújo, mestre em Direito do Trabalho, e Matheus Rigonatti, ativista pelas causas trabalhistas, promoveram uma palestra no que tange à inovação tecnológica aplicada à realidade do trabalho no Brasil, questionando os rumos dessa interseção.

Um positivista, ao assistir a essa abordagem, a conceberia como incorreta, infantil e passível de desestabilizar a ordem social, não compreendendo a problematização do avanço tecnológico.

O positivismo é um movimento do século XIX que visualiza a sociedade de maneira objetiva e racional, concebendo o avanço tecnológico como progresso.

Nesse sentido, Débora critica a razão instrumental, em que as mudanças tecnológicas são percebidas, entretanto, não há questionamento sobre se a sociedade as deseja ou por que ocorrem, o que pode resultar na uberização e no desemprego. Para o positivista, essa visão seria considerada ingênua, pois o avanço tecnológico é entendido como natural e como o ápice da civilização.

Ademais, a pesquisadora realiza um revisionismo histórico quanto ao ludismo (movimento de trabalhadores que destruíam máquinas) e, de certa forma, o enaltece por sua organização e por se opor à imposição da Revolução Industrial. Esse pensamento enfureceria o comtiano, tendo em vista que, para essa corrente, o desenvolvimento tecnológico e a ciência são o objetivo maior, enquanto a quebra das máquinas é considerada irracional.

Além disso, Débora também salienta que a tecnologia deveria servir aos trabalhadores, possibilitando, por exemplo, a diminuição da carga horária. Sob essa ótica, a inovação tecnológica seria valorizada por sua capacidade de gerar mais lucro e resultados, sem priorizar, necessariamente, a qualidade de vida ou o bem-estar dos trabalhadores.

Acrescido a isso, Matheus defende, principalmente, o fim da escala 6x1, critica a falta de reflexão das massas e a ausência de consciência de classe, além de apontar o incentivo à competição entre trabalhadores e máquinas. O positivista poderia analisar a questão da escala 6x1 por uma ótica cientificista, avaliando se ela geraria melhores resultados a longo prazo, entretanto, o bem-estar das massas não seria a prioridade. No que tange à consciência de classe e à organização da força produtiva para reivindicar melhores condições, essa perspectiva seria contrária, pois tais ações poderiam levar à desordem social. A competição entre o trabalhador e a máquina, por sua vez, seria vista de forma positiva, ao estimular a produtividade e a maximização dos resultados.

Dessa forma, a palestra seria encarada com desconfiança e reprovação, já que questiona o avanço tecnológico(entendido como positivo e progressista) e propõe formas de organização e reivindicação que poderiam ser vistas como ameaças à ordem social.

Positivismo no trabalho: a persistência da escala 6x1

A Segunda Revolução Industrial exigiu uma produção em larga escala, com maior eficiência, o que permitiu o surgimento do fordismo, modelo baseado na padronização, na divisão rigorosa das tarefas e no controle do tempo, transformando o trabalhador em parte do sistema produtivo, como uma peça que deve ser altamente produtiva e organizada. Essa lógica dialoga com os pensamentos positivistas de Auguste Comte, que defendem a ordem, a disciplina e a racionalidade como fundamentos para o progresso social.

Apesar das transformações tecnológicas, sociais e trabalhistas no mundo, a lógica positivista permanece presente. A manutenção da escala 6x1 revela uma dificuldade de adaptação dos meios de produção às novas demandas sociais, pois a rotina do trabalhador é estruturada em função da produção, sem prioriza-lo como indivíduo, com necessidades como lazer, descanso e saúde mental, ou seja, sem preocupações com sua qualidade de vida.

Paralelamente, a chamada uberização do trabalho, embora apresentada como flexível e autônoma, reproduz essa mesma lógica sob novas formas. Os algoritmos criam uma falsa sensação de autonomia, enquanto, na realidade, trazem instabilidade e exigem longas jornadas de trabalho, sem garantias trabalhistas, precarizando o mercado de trabalho.

Dessa forma, tanto a escala 6x1 quanto a uberização evidenciam um modelo produtivo estático, com valores positivistas, no qual o progresso econômico se sobrepõe ao indivíduo. Ao priorizar a eficiência e a estabilidade do sistema, negligencia-se o bem-estar social, sendo necessário repensar essa organização para que seja possível conciliar a produtividade com a dignidade humana.

Amanda Akemy Henrique Takii - Direito matutino