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sábado, 8 de agosto de 2020

PRESOS ENTRE REDES E CORRENTES

   Émile Durkheim, em sua perspectiva, analisa a sociedade visando seu máximo proveito. Analisar, então, os eventos dela, é ir além do cotidiano pessoal sem deixar de enxergar nele sentidos universais. Os fatos sociais estão em cada parte por estarem no todo, e, fazendo parte do todo, somos também universais, adotando sentidos que esse geral nos incutiu, tornando ímpetos, que não sabemos muito bem as origens, nossas características. Sempre estiveram ali, antes de nascermos, antes dos nossos avós ou tataravós estarem aqui neste plano, convenções do mundo que exprimiram forças sobre nossos comportamentos atuavam.  

   Por isso, fica tudo muito nebuloso. Quais são, então, os limites entre minha identidade e o que me foi expresso? São essas mesmo minhas vontades? O meu gosto é o que eu gosto ou qualquer coisa que me digam ser o apropriado para que, no fundo, a norma seja seguida? Que será que sou eu? Que norma é essa e até aonde ela vai? Não sei bem a resposta para tais questionamentos, assim como você, leitor, também não a sabe, uma vez que fomos todos colocados em corpos nesse tempo, nesse espaço e nessa experiência terrena, sendo expostos à todas essas mazelas a evitar o colapso social. Evitariam, aliás?  

   A anomia passa a ser, para os físicos sociais contemporâneos ao Durkheim, algo que deveria ser evitado ao máximo, a resignar os sujeitos em quaisquer tipos de resistências que fujam do ideal normativo, carregando junto a si uma reação punitiva que busque o restabelecimento das regras que mantêm a coesão social. A exemplo, a noção Durkheimiana de CORRENTES SOCIAIS, onde indivíduos perdem um pouco de sua racionalidade a serem levados pela multidão e pelo seu pensamento coletivo, como movimentos externos que arrebatam contra – ou não - a vontade de cada um. A exemplo a efetivação de danos e atrocidades cometidas por pessoas que, em condições “normais”, não os teriam feito, tendo sido levados pela energia do bando.  

  Dessa forma, ainda hoje, ferramentas contemporâneas também atuam e sofrem a atuação desse fato, como as REDES SOCIAIS. Essas redes representam um recorte expressivo da sociedade, mostrando como as pessoas se expressam se não tivessem esse contato contínuo e direto, passando a seguir algum tipo de padrão propagado por essas mídias. Musa fitness, e-girl, TrendSetter, cantores, modelos ou qualquer influenciador digital com mais de 50k followers parecem inundar o feed de qualquer um, propagando um ideal de vida que se torna a meta de muitos seguidores e usuários dessas redes. REDES, assim como as CORRENTES, são mecanismos sociais que não só etimologicamente aprisionam o indivíduo, os moldando de acordo com os interesses de um coeso funcionamento da sociedade, operado com maestria por aqueles que sabem fazer com que o desejo pelo aprisionamento seja real, uma vez que os prisioneiros estarão ávidos por aquilo que os mantém em cárcere. 

  O que remete à famosa frase de Aldous Huxley “Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão". Com isso, é visto hoje esse vínculo entre Correntes e Redes Sociais, em que multidões anseiam por ideais sem racionalizar a realidade, permitindo que as convenções do mundo digital perpassem suas vidas, a alterar o escopo de cada um, como uma boiada, animais irracionais que são levados pelo desejo que os foi instigado e não refletido.

   Com isso, a destruição desses grilhões que nos atormentam na contemporaneidade parece quase impossível, uma vez que somos atonitamente bombardeados por todos os cantos, mesmo fazendo apenas o necessário dentro do Home Office ou mesmo outro trabalho que não exija diretamente dessas ferramentas, a tentativa de te deixarem coeso para funcionar para a sociedade é contínuo e está internalizado em todos os seus aspectos, como uma engrenagem perfeita. Agora, eu, escrevendo este texto para a Universidade. Você, o lendo para algum fim produtivo. Nós, enquanto crianças, sentados em fila ouvindo por horas nos dizerem sobre as palavras e sobre os números, e também como o mundo funciona e como poderíamos usar esses aprendizados no mercado de trabalho, pra sermos alguém no nosso futuro emprego dos sonhos, onde trabalharemos duro até conseguirmos a nossa casa perfeita, com um carrão na garagem. E seremos felizes assim. Né?  


Anita Ferreira Contreiras - 1º ano de Direito - Noturno.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A unificação do método


            O universo contemporâneo vive um momento de “crise do método”. Com relação à sociologia, José Machado Pais (1995, p. 3) chama esse fenômeno de desregração de métodos, sendo as regras do método um elemento unificador. Entretanto, sua análise pode ser aplicada a outras áreas do conhecimento, sobretudo considerando o volume de informações e influências que caracteriza os meios de comunicação em massa, as mídias sociais e a própria globalização.
            No direito isso fica evidente. A professora Kelly Canela, responsável por ministrar a disciplina de História do Direito na Universidade Estadual Paulista, frequentemente cita a “crise do código” existente no direito contemporâneo. Enquanto os países que se enquadram no sistema de common law nunca produziram tanta legislação, a tendência nos países de tradição romanista é o crescimento da importância dada a jurisprudência, o que representa uma total inversão de valores.
            Por outro lado, no direito também é possível observar a necessidade que as pessoas têm de voltar ao método. O povo brasileiro reivindica sempre acerca de leis. A própria atividade parlamentar gira em torno da proposição de leis, basta observar as atualizações quase diárias da legislação. Da mesma forma, não há notícias de cidadãos britânicos reivindicando o desenvolvimento de códigos.
            Nesse sentido, a obra de Durkheim atualmente surge com um caráter unificador. Da mesma forma, o estudo do direito romano marca um “ancestral comum” para o estudo do direito em diversos países de tradição romanista, possibilitando uma compreensão mais ampla do direito seja de forma prática ou abstrata. Além disso, ambos – o primeiro para a sociologia e o segundo para a ciência jurídica – nos dão as diretrizes para compreender tudo aquilo que precederam.
            José Machado Pais (1995, p.4) faz uma análise muito pertinente, que baseou a última colocação, com a qual encerro o texto:
As Regras do Método não nos dão apenas – nem principalmente – as regras de qualquer método. Mais do que isso, dão-nos uma visão institucionalizada de um novo campo do saber. Creio que só tomando as regras neste sentido é que seremos capazes de interpretar alguns enigmas da sociologia durkheimiana.

Heloisa de Maia Areias
Direito – Diurno
BIBLIOGRAFIA:

PAIS, José Machado. Durkheim: das Regras do Método aos métodos desagregados. In Análise Social, volume XXX (131 – 132), 1995.

domingo, 15 de maio de 2011

Solidariedade para quem?

Émile Durkheim é visto como um dos pais da sociologia moderna não só pelo que desenvolveu sobre o fato social e o método sociológico, mas também pelo que expôs acerca da divisão do trabalho.

Primeiramente, é necessário ressaltar que para o autor, a função da divisão do trabalho diz respeito às necessidades a que ela corresponde, e não propriamente ao que faz. Durkheim afirma que esta é a fonte da civilização, tendo portanto a capacidade de torná-la possível, pela sincronia que o trabalho provoca na sociedade. O autor também questiona se a civilização é imoral, considerando que a atividade industrial, apesar de ser útil, não responde a necessidades morais. De fato, é nos maiores centros industriais, que poderiam ser considerados mais civilizados, que ocorre maior número de crimes, suicidios e tragédias do gênero.

Durkheim estabelece por fim o principal aspecto da divisão do trabalho: seu efeito moral é a geração de solidariedade, elemento central na organização social. Pode-se tomar como exemplo as sociedades conjugais contemporâneas, nas quais a divisão do trabalho cria uma grande dependência, pois "a imagem daquele que nos completa é inseparável da nossa", e isso contribui para a fortificação dos laços sociais e a coesão da nossa sociedade, adquirindo portanto, sob esse prisma, um caráter moral. Portanto, a divisão do trabalho tornaria as funções divididas solidárias, indo além da esfera dos interesses econômicos: consiste, essencialmente, no estabelecimento de uma ordem social e moral. Essa ideia pode ser verificada também no pensamento de Comte, que acredita na prevalência do todo sobre o indivíduo. O importante para Durkheim é que cada um precise da sociedade de forma orgânica, e que a intensa diferenciação se incorpore à ordem.

O Direito também tem um papel importante dentro dessa sociedade sincrônica: seria o reflexo do desenvolvimento social, a organização das relações entre os indivíduos. Reproduz, portanto, todos os tipos essenciais de solidariedade, tendo como base os costumes, e é composto por dois tipos de sanções: a repressiva (predominante no direito penal) e a restitutiva (reposição da ordem), sendo a primeira característica das sociedades primitivas e esta última, das sociedades complexas e modernas, dotadas de maior liberdade para se pensar e agir.

A divisão do trabalho garante então o equilíbrio e a unidade do corpo social, pressupondo-se a aceitação do que é diferente, com cada qual exercendo sua função e dependendo dos outros para sobreviver, daí surgindo a necessidade de se manter solidário ao próximo. Essa ideia de aceitação das funções também está presente em Comte, e suscita, como já discutido nesse outro autor, discussões controversas sobre a ideia de progresso, evolução e ascensão social. Será que, desse ponto de vista, ela é acessível a todos ou apenas àqueles que estão nas classes superiores? A grande questão é se essa solidariedade também é buscada pelos que já estão no topo e subjugam os outros.

Em suma, fica bastante claro na obra de Durkheim que o elemento básico e central da sociedade é, em uma palavra, a solidariedade, e esta só pode ser atingida com a divisão do trabalho. Essa preocupação com o todo destaca mais uma vez a prevalência da sociedade em sua concepção, da conexão existente entre cada um. Uma pena que esse pensamento seja raramente incorporado nos dias de hoje, quando se vê a divisão do trabalho como um mero instrumento de poder e enriquecimento, com total indiferença a princípios morais. Por isso, não há como negar que Durkheim estava coberto de razão ao dizer que a civilização tem pouca influência positiva sobre a vida moral. E a dúvida continua surgindo nos dias de hoje: solidariedade, afinal, de todos para todos ou apenas para os "grandões"?

sábado, 14 de maio de 2011

Vamos?









É interessante enxergarmos o quão atual Durkheim é no mundo empresarial. Nos dois vídeos que vimos acima, podemos notar um discurso positivista, mostrando que o bem da empresa vem a partir do bem individual, sendo o bem individual uma derivação do bem coletivo. Durkheim afirmava que a Divisão do Trabalho levaria a uma solidariedade entre os seres, e está muitíssimo superior ao progresso obtido: “Neste caso, os serviços econômicos que ela pode prestar são pouca coisa ao lado do efeito moral que produz, e a sua verdadeira função é criar, entre duas ou várias pessoas, um sentimento de solidariedade” (Émile Durkheim, “A Função da Divisão do Trabalho”).

Mas não seria este um discurso para justificar uma exploração autoritária de empresários interesseiros que não estão dispostos a trabalhar nas esteiras e sujarem suas mãos? Comte já tratou da função de cada elemento para o bem-estar do corpo. Durkheim re-afirma o que foi dito e aprofunda seu pensamento. Se avaliarmos o primeiro vídeo aqui apresentado, comprovaremos que não se trata de um simples interesse autoritário. Um funcionário que trabalha em uma empresa, ganhando menos do que gostaria, faz o mesmo serviço, de maneira superior, sem receber nada, em uma Escola de Samba. Seu desejo é sentir a emoção da avenida, ver sua obra desfilar ao som da bateria. É a realização pessoal que ele não sente na fábrica. Enquanto este serralheiro pouco se importa com o projeto de seu patrão; na Escola de Samba, ele se completa ao ver seu carro alegórico. O diferencial está no envolvimento, no “sonhar junto”. Poderia reclamar das más condições de trabalho do barracão da Escola, mas nem se dá conta disso, estando ele ocupado demais TRABALHANDO, empenhando-se, pondo seu máximo para atingir a perfeição. Não é o salário que faz a diferença para o trabalhador, e, sim, a satisfação trazida pelo produto final, o orgulho de ter feito parte daquilo.

Empresários fazem palestras sobre “Qual o seu sonho?”; “Vamos fazer juntos”; “Responsabilidade social”. No segundo vídeo vemos frases como: “Queremos trabalhar por algo maior que nós mesmos, maior que um produto”, “Você tem de se entusiasmar ao ver o crescimento dos outros”, “Vislumbre algo melhor”. A maior de todas, eu diria, é a do presidente norte-americano John F. Kennedy, que genialmente afirmou: “Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país.” Tudo parece novo, ideias fantásticas de empreendedores visionários. Mas a proposta já fora anunciada em 1891. Após mais de um século, lemos as palavras deste francês sem conseguir entender, pois nossos olhos estão manchados de um tom vermelho revolucionário. Não percebemos que aquilo que ele disse é o que as empresas hoje chamam de cooperativismo.

Como foi dito por Waldez Ludwig, a empresa não tem por objetivo promover o individuo, mas um projeto que o ajudará a se desenvolver. Cada um é responsável por administrar sua própria carreira, mas este só conseguirá crescer se desempenhar sua função com excelência, demonstrando comprometimento e disposição. Ludwig chama de escravo o trabalhador que odeia seu emprego. Afirma que cada um deve viver o “Sonho do Artista”, realizar-se profissionalmente. Não se contentar com o medíocre, mas correr em busca do melhor. Esse melhor não é apenas para si, mas para o projeto, e dessa forma, para o todo. Não é passando por cima de outros, nem tomando o que não nos pertence, mas trabalhando que alcançaremos nossos objetivos. E também não olhar só para si, mas se alegrar quando seus companheiros são vitoriosos em suas empreitadas. Doar-se pelo bem comum é favorecer o progresso de outros, sabendo que é para seu próprio bem também.

Certa pessoa, que eu admiro muito, uma vez me disse: “Sozinho, anda-se mais rápido; junto, vai-se mais longe”. Nunca me esquecerei disto. Autoritário é aquele que diz “uni-vos”. Imperativo, segunda pessoa. Ele não se inclui, apenas ordena. Para Durkheim, todos estão inseridos neste corpo social. É um trabalho em conjunto, onde cada elemento se dispõem a pelejar pelo progresso. Faço agora uma proposta: Vamos?

domingo, 8 de maio de 2011

A força da coerção

        No  livro " As regras do método sociológico" de Émile Durkheim é fundado na análise do fato social e na objetividade que o perquisador deve ter ao desenvolver sua teoria.Para Durkheim, esses fenômenos sociais podem ser diferenciados pois eles se passam no interior da sociedade, e são dotados de um poder imperativo e coercitivo; essa coerção porém, embora indireta, não é menos eficaz. O fato social, apresenta uma característica fundamentalmente relevante, visto que, ele consiste nos modos de agir, pensar, sentir exteriores ao indivíduo , sendo assim, é classificada como social. A maioria dessas atitudes nos são ensinadas pela educaão infantil e com o passar do tempo, deixaos de perceber por qual motivo agimos dessa maneira; os atos são tão convencionais que acreditamos seres feitos por escolhas individuais.
        Para Émile, o único modo de analisar corretamente os fatos é através da objetividade, como se eles fossem coisas, partindo dessas para chegar as ideias, difrentemente das análises ideológicas. A passionalidade dos homens distorcem sua pesquisa e seu foco afetando seu exame científico pois eles não conseguem agir de modo racional: os sentimentos não permitem que as pessoas analisem friamente.É importante também , além desvinculação dos sentimentos, que as pesquisas realizadas distanciem-se dos conceitos ideológicos, que podem atrapalhar uma análise correta.
       Durkheim afirma que o autor positivista Comte se distancia da verdade sociológica pois não se preocupa apenas com os fatos , valorizando sua ideia propria sobre a história. Para o autor, a educação errôneamente forja o ser social, ela cria e perpetua regras de convívio que não seriam naturais aos homens, e a partir disso forma-se um tipo de cultura social.Por exemplo: as crianças , quando bem pequenas, agem de maneira natural, pois não sabem o que é "certo" ou "errado", com a educação aplicada pelos pais elas passam a agir não por vontade própria mas sim, de acordo com a regras sociais. Passam a usar roupas, comer com talheres, tomar banho e escovar os dentes; tudo isso é feito pela convenção social, até que chega um ponto que acreditamos que tudo isso é fruto de uma escolha social e não da força de coerção da sociedade.
       Todos somos pessoas não em nossa maneira social mas, seres influenciados pela sociedade; por isso, é tão estranho a nós quando alguém age em desacordo com essas regras: é muito estranho pessoas adeptas ao nudismo. As comunidades indíginas são tidas por nós como "selvagens" pois seus membros foram educados de acordo com outras regras e doutrina.
        A análise da obra de Durkheim é importante por ser tão  facilmente percebida em nossa sociedade contemporânea e influente no nosso estudo do Direito.