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sexta-feira, 27 de março de 2026

Entre o ideal e a realidade.

 

Eu estava na biblioteca, com o notebook aberto, tentando desesperadamente montar o texto para o blog de sociologia. No rascunho, nomes como Descartes e Bacon pareciam grego para mim. Eu lembrava do professor falando algo sobre "ciência moderna" e "dominar a natureza", mas, sinceramente? Olhando para a janela, nada daquilo parecia fazer sentido na vida real. Parecia papo de gente que viveu há séculos e não entende nada do que acontece hoje.

Dei uma pausa, respirei fundo e resolvi dar uma olhada no feed de notícias para ver se o mundo ainda existia fora da biblioteca. Foi aí que li a manchete: "Qual crime cometi? O crime de ser preto?". Era a frase de um estudante, baleado por um PM no Rio. Senti um soco no estômago. O nó na garganta veio na hora.

Olhei para o lado e vi João, um colega de sala, encarando o celular com uma cara de quem queria quebrar tudo de tanta indignação.

— João, você viu isso? — perguntei, quase sem voz.

— Vi. É bizarro, né? A gente entra no Direito achando que vai mudar o mundo e vê que nada muda, não importa o quanto a gente estude — ele respondeu.

— Pois é. Engraçado... — falei, voltando pro meu texto confuso. — Eu estava aqui tentando entender esse tal de "progresso" que o Descartes e o Bacon prometeram. Eles diziam que a ciência ia servir pro bem da humanidade. Mas esse tiro... esse tiro é o oposto de qualquer lógica, de qualquer razão.

João puxou a cadeira, interessado.

— Então! Bacon dizia que a ciência era tipo um reflexo da realidade. Mas se a realidade que a polícia e o sistema enxergam é uma onde a cor da pele te faz ser um alvo, que tipo de "razão" é essa que a gente aprendeu?

— Faz todo sentido! — eu disse, e as peças começaram a se encaixar na minha cabeça. — É o que o professor falou daquele Wright Mills, sobre a tal Imaginação Sociológica. A gente vê um caso desses e fica mal, acha que é só uma tragédia individual, mas na verdade é um problema público, sabe? Não é um erro qualquer, é o sistema funcionando errado de propósito.

João ficou pensativo e completou:

— Então a tal "dúvida" do Descartes não devia ser só sobre se a gente está sonhando ou não. Devia ser uma dúvida sobre as certezas desse sistema que a gente estuda. Se a gente não usar a cabeça para questionar por que uns têm paz e outros levam tiro, o que a gente estuda aqui vira só um monte de palavras bonitas e vazias.

Ficamos em silêncio. O ar abafado da biblioteca pareceu até ficar mais leve. Pela primeira vez desde que comecei o semestre, aqueles nomes deixaram de

ser chatice e viraram ferramenta para entender aqueles que sofrem com a estrutura da sociedade.

— Valeu, João! — eu disse, voltando a digitar com pressa. — Acho que agora eu entendi o que é essa Imaginação Sociológica.

Saí da biblioteca logo depois, com a cabeça bem mais clara sobre o assunto.

Mariana Moraes Lobato Rodrigues - Matutino