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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Um Ato (Ir)Racional: uma análise weberiana de “Parasita”

No premiado longa-metragem Parasita, de Bong Joon-ho, as relações entre as famílias Kim e Park podem ser compreendidas a partir da teoria de Max Weber. Para o autor, a realidade social é complexa e, por isso, deve ser analisada por meio de modelos teóricos, os tipos ideais, que auxiliam na compreensão dos fenômenos sem representar fielmente a realidade. À primeira vista, a sociedade retratada no filme aproxima-se do tipo ideal de uma estrutura dividida entre patrões e empregados: de um lado, a rica e prestigiada família Park; de outro, a família Kim, que aceita empregos precários como forma de garantir sua sobrevivência. Contudo, essa imagem é desconstruída ao longo da narrativa, revelando que as relações sociais são muito mais complexas do que parecem.

Segundo Weber, toda ação social possui um sentido por quem a pratica. Desse modo, as escolhas da família Kim não decorrem apenas da pobreza, mas também da maneira como seus integrantes interpretam sua condição e enxergam a possibilidade de ascensão social. Ao elaborar um plano para ocupar os cargos na residência dos Park, eles constroem estratégias que modificam sua posição dentro daquela relação social, demonstrando que as ações sociais não podem ser explicadas apenas pelas circunstâncias em que ocorrem, mas também pelo sentido que lhes é atribuído.

Logo, essa transformação muda diretamente as relações de poder presentes no filme. Inicialmente, a família Park exerce dominação sobre os Kim em razão da posição de autoridade legitimada pela relação entre patrões e empregados. Porém, à medida que os Kim manipulam informações e passam a controlar, silenciosamente, o cotidiano da casa, essa estrutura começa a se enfraquecer. Eles tornam-se capazes de influenciar os acontecimentos sem que seus patrões percebam, evidenciando que o exercício do poder depende não apenas da posição social ocupada, mas também da capacidade de dominar as ações dos outros.

Por fim, o filme atinge seu clímax quando o senhor Kim assassina o patriarca Park, representando o colapso definitivo dessa ordem. O acúmulo de humilhações desfaz a aparência de estabilidade construída ao longo da narrativa e culmina em um ato que, embora pareça irracional para quem o observa, possui um sentido para quem o pratica. Sob a perspectiva de Weber, compreender esse sentido não significa justificar a violência, mas reconhecer que ela é resultado das relações sociais vividas pelo personagem. Desse modo, Parasita evidencia que ações, relações de poder e formas de dominação somente podem ser compreendidas quando analisadas em conjunto, demonstrando que a realidade social sempre é mais complexa que os tipos ideais criados para interpretá-la.


Laura Falvo Lima - Direito Matutino

A assinatura

A Assinatura

Dona Zefa julgava embaixo do pé de manga. Não havia processo, só a voz dela, que valia porque vinha do avô, e do avô do avô. "Sempre foi assim" bastava.

Marina cresceu vendo aquilo. Via os vizinhos chegarem com a raiva estampada no rosto e saírem, horas depois, conformados. Nunca entendeu direito por que obedeciam. Zefa não tinha força nos braços nem posição de destaque na cidade. Tinha apenas aquele banco de madeira e um jeito de falar que parecia vir de muito antes dela.

Uma vez, um homem se recusou a aceitar a decisão sobre a cerca torta. Ficou dois dias sem falar com ninguém, mas no terceiro dia mudou a cerca de lugar. Não porque temesse Zefa. Temia romper com algo maior do que ela, algo que todos ali compartilhavam sem precisar nomear.

Anos depois, na cidade grande, Marina entrou na Sala 214 do Fórum Central com uma pasta debaixo do braço. Trinta e duas páginas grampeadas, o processo do apartamento que o ex-marido se recusava a dividir.

O juiz nem levantou os olhos quando ela sentou. Falava baixo, quase monótono, lendo trechos de um papel que parecia ter lido centenas de vezes antes. "O imóvel será partilhado, conforme o artigo 1.581 do Código Civil."

Marina não conhecia aquele homem. Nunca o tinha visto antes daquela manhã e provavelmente nunca mais o veria. Ainda assim, sentiu o mesmo peso que sentia quando Zefa falava debaixo da mangueira. Uma decisão que se cumpre.

Só que era diferente. O juiz não tinha carisma nem história contada de geração em geração. Era substituível. Se adoecesse no dia seguinte, outro assumiria a cadeira, vestiria a mesma toga, leria o mesmo código, e a sentença pesaria igual.

Ninguém ali obedecia a um homem. Obedeciam a um número de processo, a um carimbo, a um procedimento que continuaria existindo mesmo que aquele juiz específico desaparecesse amanhã.

Na saída, Marina parou na escadaria e observou a fila. Cada pessoa com sua pasta, cada uma confiando que o número seria chamado e a regra cumprida, ainda que nenhuma delas tivesse visto o juiz antes daquele dia.

Não era medo de apanhar se descumprissem a sentença. Era outra coisa, mais discreta e mais forte: a certeza tranquila de que existia um sistema, e de que todos ali acreditavam que aquele sistema deveria funcionar assim.

Marina pensou em Zefa, no banco embaixo da árvore, e no juiz, atrás da bancada de mogno. Duas autoridades que nunca ergueram a voz, nunca empunharam nada, e mesmo assim eram obedecidas.

A diferença não estava na força de nenhuma delas. Estava na razão de cada uma ser aceita. Zefa mandava porque sempre fora assim, desde o avô, desde antes do avô. O juiz mandava porque existia um procedimento correto, escrito, previsível, e cumpri-lo era, em si, a fonte da obediência.

O ex-marido ia embolsar o troco e reclamar pelos corredores do Fórum, xingar o sistema inteiro, dizer que a Justiça era cega e injusta. Mas ia assinar o acordo. Porque, no fundo, acreditava mais naquele papel do que acreditaria em qualquer grito, mesmo o seu próprio.

Direito não era uma cerca torta resolvida debaixo de uma árvore. Era uma mangueira nova, sem raiz, sem história de família, mas plantada tão fundo em regras e formulários que ninguém mais perguntava por quê.



Pedro Dutra de Melo - matutino 

Direito: instrumento de legitimidade

Segundo Max Weber, o papel da sociologia é compreender a ação social e os sentidos e valores que orientam a conduta dos indivíduos. Nesse contexto, a dominação pode ser entendida como a possibilidade de encontrar obediência a uma determinada ordem. Assim, o Direito pode ser compreendido como um instrumento de dominação, na medida em que estabelece normas que orientam e limitam as ações dos indivíduos em sociedade. Além disso, o Direito também pode atuar como instrumento de legitimidade ou de contestação, uma vez que pode reconhecer certas ações sociais como legítimas ou considerá-las ilegítimas.

Em vista disso, um exemplo da atuação do Direito como instrumento de legitimidade pode ser observado no reconhecimento jurídico e social do casamento homoafetivo. Até o início dos anos 2000, os casais homoafetivos não possuíam reconhecimento jurídico como família. Ao longo da década de 2000, entretanto, diversos tribunais passaram a reconhecer determinados direitos a casais do mesmo sexo em casos específicos. Paralelamente, houve mudanças sociais relacionadas ao aumento da aceitação da diversidade sexual e à compreensão de que casais homoafetivos também constituem uma família. O movimento LGBTQIA+ passou a reivindicar a igualdade de direitos, denunciando situações de discriminação e buscando o reconhecimento jurídico dessas relações.

Tais transformações sociais contribuíram para que, em 2011, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidisse, por unanimidade, que as uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo constituíam entidades familiares, garantindo-lhes os mesmos direitos conferidos às uniões heterossexuais. Apesar desse avanço, ainda havia cartórios que se recusavam a celebrar casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo. Para uniformizar o procedimento em todo o país, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou, em 2013, que nenhum cartório poderia negar a habilitação, a celebração do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo ou a conversão da união estável em casamento.

A partir das mudanças nos valores e nas relações sociais, o Direito atuou como instrumento de legitimidade, ao reconhecer juridicamente uma forma de organização familiar que já existia na sociedade. Assim, o reconhecimento do casamento homoafetivo demonstra como as ações sociais e suas transformações podem influenciar o Direito, o que contribui para transformar e organizar a sociedade.


Gabriela Escavassini Palhares - 1º ano de Direito matutino