O filme Parasita (2019), dirigido por Bong Joon-ho, apresenta uma narrativa marcada pela desigualdade econômica e social entre duas famílias: os Kim, que vivem em uma situação de extrema precariedade, e os Park, uma família rica que ocupa uma posição privilegiada na sociedade. Embora o filme possa ser interpretado a partir de diferentes perspectivas sociológicas, a Sociologia Compreensiva de Max Weber permite uma análise particularmente interessante ao buscar compreender não apenas as condições sociais nas quais os personagens estão inseridos, mas também os sentidos que eles atribuem às próprias ações.
Para Weber, a Sociologia deve buscar compreender interpretativamente a ação social, ou seja, ações às quais os indivíduos atribuem um sentido e que levam em consideração a existência ou o comportamento de outras pessoas. Dessa forma, analisar Parasita por uma perspectiva weberiana significa perguntar não apenas "o que os personagens fazem?", mas principalmente "por que eles fazem isso?" e "qual significado essa ação possui para eles?".
No início do filme, a família Kim vive em condições econômicas precárias. Os integrantes da família estão desempregados ou possuem trabalhos instáveis e enfrentam dificuldades para garantir condições básicas de vida. A oportunidade de Ki-woo trabalhar como professor particular da filha da família Park representa, portanto, uma possibilidade concreta de mudança. A partir desse momento, suas ações passam a ser orientadas por determinados objetivos: conseguir uma fonte de renda e melhorar a situação da própria família.
Essa situação pode ser relacionada ao conceito weberiano de ação racional com relação a fins. Nesse tipo de ação, o indivíduo estabelece determinado objetivo e procura escolher os meios que considera mais adequados para alcançá-lo. Ki-woo percebe uma oportunidade e utiliza seus conhecimentos, relações e estratégias para alcançar um resultado desejado. Posteriormente, a entrada dos demais integrantes da família Kim na casa dos Park demonstra que essa lógica se amplia: cada membro passa a ocupar uma função dentro daquela estrutura, construindo uma estratégia coletiva de ascensão econômica.
Entretanto, reduzir as ações da família Kim à simples busca por dinheiro seria insuficiente para uma análise compreensiva. Ao longo do filme, também é possível perceber a importância do reconhecimento, da dignidade e do desejo de ocupar uma posição social diferente. Os personagens não buscam somente recursos materiais; existe também uma tentativa de aproximação com um universo social ao qual não pertencem. A família Park representa, para os Kim, não apenas uma fonte de renda, mas também um modo de vida associado a conforto, segurança e prestígio.
Essa diferença entre as famílias pode ser relacionada ao conceito weberiano de estratificação social. Para Weber, as desigualdades não se resumem à posse de riqueza. A posição de um indivíduo na sociedade também está relacionada ao seu status, ao prestígio social e ao poder que possui. Em Parasita, a distância entre as duas famílias é apresentada por diversos elementos simbólicos: a casa dos Park, suas profissões, seus hábitos, sua maneira de falar e até a forma como percebem os trabalhadores que os cercam.
A própria arquitetura da casa contribui para representar essa hierarquia. Enquanto os Park vivem em uma residência ampla, iluminada e localizada em uma região privilegiada, os Kim vivem em um apartamento semienterrado, vulnerável a problemas como enchentes. A diferença espacial funciona como uma representação visual da distância social existente entre os grupos. Entretanto, para uma análise weberiana, é importante perceber que essa desigualdade não está presente apenas nas condições materiais: ela também é percebida, interpretada e reproduzida pelos próprios indivíduos.
Um dos exemplos mais significativos disso é a questão do "cheiro" da família Kim. O Sr. Park percebe nos empregados um odor que associa às pessoas que vivem em determinadas condições sociais. O cheiro, nesse contexto, ultrapassa uma característica física e adquire um significado social. Ele passa a funcionar como um marcador simbólico de diferença entre "nós" e "eles". O Sr. Park reconhece a competência profissional dos trabalhadores, mas estabelece um limite que não deseja que seja ultrapassado.
Essa situação permite observar uma dimensão importante da ação social: os indivíduos interpretam determinadas características e atribuem significados a elas. A distância social, portanto, não é mantida apenas por diferenças econômicas objetivas, mas também por percepções, valores e classificações sociais.
A relação entre a família Park e seus empregados também permite discutir o conceito de dominação. Weber compreende dominação como a possibilidade de encontrar obediência a uma determinada ordem. Na casa dos Park, existe uma relação claramente hierárquica entre empregadores e empregados. Os Park possuem recursos econômicos que lhes permitem contratar, supervisionar e dispensar trabalhadores. Os Kim, por outro lado, dependem daquela relação para obter renda.
Essa relação não significa necessariamente que os empregados sejam obrigados fisicamente a obedecer em todos os momentos. A dependência econômica e a própria estrutura da relação profissional já produzem uma assimetria de poder. A família Park possui a capacidade de determinar as condições da relação de trabalho justamente porque ocupa uma posição social e econômica superior.
Também é possível observar como os personagens procuram adaptar suas ações às expectativas daqueles que possuem maior poder. A família Kim precisa compreender o comportamento dos Park, identificar seus gostos, suas exigências e suas limitações para conseguir permanecer naquela posição. Isso demonstra que as ações de um indivíduo não existem isoladamente: elas são orientadas pela maneira como ele interpreta as ações e expectativas dos outros.
É nesse ponto que a perspectiva da Sociologia Compreensiva se torna especialmente interessante. A família Kim não age simplesmente porque "é pobre". Essa explicação seria determinista e não daria conta da complexidade de suas escolhas. Os personagens interpretam a situação em que se encontram, identificam oportunidades, estabelecem objetivos e desenvolvem estratégias. Suas condições sociais influenciam suas possibilidades de ação, mas eles também atribuem significados a essas condições e agem a partir deles.
O mesmo pode ser observado na família Park. Seus integrantes também possuem interesses, valores e formas próprias de interpretar o mundo. O comportamento do Sr. Park diante dos empregados, por exemplo, não pode ser compreendido apenas pelo fato de ele possuir dinheiro. É necessário observar como ele entende as relações entre patrões e empregados, quais limites considera aceitáveis e quais comportamentos interpreta como inadequados.
Assim, o filme apresenta indivíduos que ocupam posições sociais distintas, mas que constantemente orientam suas ações a partir da interpretação que fazem uns dos outros. A família Kim tenta compreender os Park para alcançar seus objetivos, enquanto os Park estabelecem expectativas sobre o comportamento dos Kim. Essas ações se encontram e produzem consequências que ultrapassam as intenções individuais dos personagens.
O final do filme evidencia justamente essa dimensão. As estratégias desenvolvidas pela família Kim tinham como objetivo melhorar sua situação econômica, mas acabam produzindo consequências que nenhum dos personagens parecia controlar completamente. Isso demonstra que, embora a Sociologia Compreensiva procure compreender o sentido subjetivo das ações, compreender uma ação não significa afirmar que seus resultados serão necessariamente aqueles pretendidos pelo indivíduo.
Nesse sentido, Parasita permite compreender que a vida social é construída pela interação entre indivíduos que possuem diferentes posições, interesses, valores e interpretações da realidade. A desigualdade social cria condições distintas para esses indivíduos, mas as relações sociais também são constantemente produzidas e reproduzidas pelas ações daqueles que participam delas.
Portanto, uma leitura weberiana de Parasita permite ultrapassar a interpretação de que o filme simplesmente apresenta uma oposição entre ricos e pobres. A obra pode ser compreendida como uma representação de indivíduos que, inseridos em posições sociais diferentes, orientam suas ações por interesses, valores, expectativas e interpretações do comportamento dos outros. A partir da Sociologia Compreensiva, torna-se possível compreender que a desigualdade não está presente apenas na distribuição de recursos, mas também nas relações de poder, no status, no reconhecimento e nos significados que os indivíduos atribuem às posições que ocupam.
Dessa maneira, o filme demonstra uma questão fundamental para a perspectiva de Weber: para compreender a sociedade, não basta observar suas estruturas externas; é necessário compreender o sentido das ações dos indivíduos que, por meio de suas relações, constroem e reproduzem a própria realidade social.
Mariana Bertholino Barion - Direito matutino