Este é um espaço para as discussões da disciplina de Sociologia Geral e Jurídica do curso de Direito da UNESP/Franca. É um espaço dedicado à iniciação à "ciência da sociedade". Os textos e visões de mundo aqui presentes não representam a opinião do professor da disciplina e coordenador do blog. Refletem, com efeito, a diversidade de opiniões que devem caracterizar o "fazer científico" e a Universidade.
(Coordenação: Prof. Dr. Agnaldo de Sousa Barbosa)
Hoje mamãe me bateu na frente de todo mundo. Eu 'tavo' com muita fome e não tinha nadinha em casa, então fui pegar uma manga na árvore da Dona Marta sem pedir. Mamãe disse que a surra foi para meu próprio bem porque se as outras crianças vissem e pegassem a manga seria um 'pobremão' para nossa vila. Papai me contou a história de que o Brasil não 'tava bão', ninguém conseguia 'trabaiar' certinho e a nossa vilazinha não recebia mais comida para alimentar todo mundo. Por minha causa, mamãe e papai tiveram que ir lá na frente da igreja para conversarem com o Coronel, ele 'tava' zangado e falava que não podia acontecer de novo, que Dona Marta não gostou nadinha d'eu ir pegar a manga dela. Seu Coronel falou 'ingual' minha mamãe "estou fazendo isso porque preciso que os outros entendam que é errado e não façam isso, seria ruim de viver juntos." Quando papai me viu com as pessoas, me mandou ficar na casa da minha amiguinha Júlia, mas ouvi a mamãe dela falando para outra vizinha que agora meu papai vai ter que trabalhar muito mais e pagar pra Dona Marta um tantão de dinheiro por não sei quantos meses. Escrevendo para você, me lembrei do meu primo Túlio, ele é da cidade e muito inteligente e uma vez falou sobre um tal de 'Durcain' e que o nosso jeito de 'falá', de 'vesti', de 'cumê' aqui na vila era algo que 'agente' não escolhia e era tão forte na gente que se 'agente' não fizesse 'ingual' todo mundo, 'agente' ficava envergonhado e ficava de castigo. Acho que o Túlio 'tava' certo, depois que mamãe me bateu eu não queria mais ir na rua brincá e papai chegou todo triste em casa, até se trancou no quarto. Mas ninguém 'intende' que eu só peguei a manga porque eu não tinha comido ontem, espero que papai me desculpe, nunca mais irei pegar a manga da Dona Marta.
Durkheim, em sua visão funcionalista, defende um pensamento visivelmente organicista, segundo o qual a sociedade atuaria como um organismo biológico, composto por fragmentos correlatos e em uma coexistência hierárquica que, para o funcionamento pleno, precisam de um ordenamento. Sob essa perspectiva, caso exista ocorrência de algum empecilho, é sinal de que o desempenho das partes que integram o corpo social não está sendo consumado. Dessa forma, é dever da Sociologia identificar quais são as esferas que manifestam disfunções na sociedade, indicando os componentes que estariam ‘desalinhados’ e desagregados da estrutura social. Com isso, o equilíbrio, a harmonia e a ordem voltariam a existir no corpo social.
À vista disso, Durkheim salienta a diferenciação entre fatos sociais comuns e os fatos sociais ‘patológicos’. Nesse sentido, o que não funcionava com normalidade era considerado patológico; desse modo, as patologias necessitariam ser combatidas a partir do uso da repressão. A coerção perpetra de modo direto na vida do indivíduo quando este realiza ações contrárias às vontades da coletividade, contra a ordem social. Sob esse prisma, pode-se dizer que há um aspecto conservador nas premissas de Durkheim. Partindo desse pressuposto, entende-se que o homem não pode dar início a processos revolucionários, a fim de romper com a ordem, e, justamente por isso, naturaliza a desigualdade social e minimiza questões basilares da sociedade fundada por classes.
Dessa forma, o pensamento conservador durkheimiano propõe o emprego de normas coesivas, morais, e, em seguida, intervenção por meio do controle social. Sendo assim, os elementos considerados disfuncionais e divergentes da normalidade são identificados como impasses morais, suscetíveis de ‘reparação’ por meio de uma ação social coercitiva. Então, movimentos que contestam a ordem vigente e que pretendem alcançar uma mudança social serão estreitamente reprimidos e rejeitados pelo ideal de Durkheim. Trata-se, portanto, de um plano político conservador.
Em síntese, é importante romper com esse princípio da análise durkheimiana. Constituída por ideologias naturalistas, organicistas e evolucionárias da sociedade, essa teoria favoreceu a legitimação da ordem social burguesa, corroborando com o rótulo de ‘conservadorismo’ que incide sobre a sociologia de Durkheim.
Sem
dúvidas Émile Durkheim é um dos nomes mais marcantes da sociologia. Nascido na
segunda metade do século XIX, Durkheim teve clara influência do positivismo, que
buscava entender a sociedade a partir do estudo das ciências da natureza. Em decorrência
disso também, o sociólogo achava que para refletir sobre a sociedade e os fatos
sociais que a moldam era necessário certo distanciamento, afastando emoções e
parcialidades fazer científico social.
Uma contribuição
importante que o sociólogo trouxe foi a reflexão sobre a Anomia social, esta presente
em vários momentos da solidariedade orgânica pós-capitalista, outro tema de
discussão do autor. Anomia é um conceito criado por Durkheim para se definir a
mudança abrupta da sociedade, quando o progresso é interrompido de alguma
forma, gerando crises econômicas. De acordo com ele, a anomia ocorre no processo
complexo de solidariedade orgânica, com o desenvolvimento das sociedades
modernas, que tendem a tornar confusas a relação entre indivíduos, passando da
fase pré-industrial para a industrial. Assim, as pessoas perdem a referência momentânea
na sociedade, agindo individualmente. Não é difícil encontrar exemplos de
momentos em que se deu este fenômeno. Em 1929, durante A Grande Depressão, a
maior crise econômica da história dos estados unidos, instalou-se entre a
sociedade um intenso momento anomico, assim como na época do governo Collor,
devido à inflação e ao fisco que levou ao desespero milhões de brasileiros.
Infelizmente, hodiernamente, em maior ou menor grau, a anomia pode ocorrer,
seja em escala nacional ou mundial. A pandemia do novo Coronavírus veio à tona para
mostrar o quão frágil o ser humano é perante a um vírus tão pequeno, o qual se calcula
que todos os exemplares do mundo caberiam em uma lata de refrigerante pequena e
ainda sobraria espaço. É evidente que além das mais de 4 milhões de mortes em decorrência
da Covid, houve também uma crise de ordem econômica em diversos países. Muitos
dos postos de emprego foram fechados, comércios e empresas faliram e muitas
outras reduziram a produção, fazendo com que o progresso e a dinâmica da
sociedade de uma hora para a outra mudasse completamente, trazendo por consequência
um estado de anomia social. Agora, depois de quase dois anos desta tragédia
velada que assolou o mundo, é possível enxergar uma retomada na ordem tanto econômica,
com os empregos e produção, quanto afetiva e social, com a volta gradual da possibilidade
e segurança de haver contato entre as pessoas de maneira presencial.
Fica
evidente também que a questão do suicídio abordada por Durkheim não deve
exatamente ser levada como verdade absoluta, mas ajuda a compreender a alta desse
tipo de ação. Tendo em vista o cenário de distanciamento social, mortes e danos
econômicos, o número de afetados por depressão aumentou consideravelmente desde
o começo de 2020. O mesmo foi observado nos números de suicídio, que poderiam
ser explicados, não descartando também outras explicações para tal ação, a
anomia social a qual o país e o mundo vivem.
Em suma, apesar de toda a dificuldade imposta por crises como a pandemia do novo Coronavírus, espera-se que gradualmente a sociedade supere a anomia sobre a qual Durkheim versava e prossiga com segurança para um momento onde a ordem econômica e social estejam reestabelecidas.
Matheus O. de Carvalho Direito, noturno, primeiro semestre.
Poucas vezes em minha vida tive a sensação exata de que um certo dia valeu a pena ser vivido... Aquele 12 de novembro era um deles.
O senhor Silva é alguém que encontro nos bares perto de minha casa há alguns anos. Homem de meia idade, cabelos brancos e família bem estruturada. Estudou nas melhores universidades e fez fortuna Brasil a fora... Diz que só voltou para o interior porque sentia falta da tranquilidade da cidadezinha natal. Apesar de ser um empresário bem sucedido, nunca havia o ouvido se gabar de seus magníficos feitos ou de suas enormes empresas. Ele sempre me pareceu alguém muito humilde e com um coração gigante... Nessa noite, porém, senti que estava um pouco mais apático que o usual.
- O senhor está bem, Silva? - Ah, meu filho... quem me dera... Quanto mais velho fico, mais pareço questionar a validade das decisões que fiz até aqui. - Pô, seu Silva... Como é que pode? O senhor é bem sucedido... fez uma grana aí e tem uma família de dar inveja! - Vocês que são jovens pensam que isso é tudo? Nunca quis ser empresário, filho... Quando tinha sua idade queria ser artista de rua. Desses que fazem apresentação lá na Paulista, sabe? Desisti do sonho porque ouvi baboseira de todos os lados... Uns diziam que era coisa de vagabundo, que eu não queria trabalhar e que meus pais iam ter que sustentar filho "viado"... Fico mais triste ainda quando vejo que hoje em dia esse discurso tomou conta do país, e tem gente de sobra pra chamar louco de "mito"... - Ah, mas mesmo assim, né?! O senhor chegou onde muita pouca gente consegue... Pode não ter atingido seu sonho, mas contribuiu bastante para a vida de muitos brasileiros... Quanto é que o senhor já empregou nesse nosso Brasilzão? - Que é que importa? Fiz dinheiro fazendo pai de família trabalhar dez horas por dia repetindo o mesmo movimento... Ainda por cima, era obrigado a dizer que as coisas eram assim mesmo, que a vida era desse jeito... Tudo funcionando como um corpo humano, em ordem e organicamente, cada um com sua especialidade! Desde quando apertar parafuso e pintar caixa faz alguém ser especial? Um bando de mentira corporativa... Sabe, quando eu fundei a empresa não era isso que eu tinha em mente... Queria inovar e fazer diferente, ser bom com a maioria, de verdade! Mas você bem conhece esse mundo... Ou a gente se entrega, ou é engolido pela concorrência. Hoje sou esse velho bem vestido aqui, mas já fui idealista! Queria um mundo mais justo, menos desigual... acho que o tempo é que apagou meu brilho. O que eu quero que você entenda, querido... É que quando alguém disser para você que toda essa desgraça é parte do mundo, e que basta aceitar, você deixa entrar por um ouvido e sair pelo outro, entendeu? O mundo tá cheio de gente ruim achando que sabe demais... Eu perdi muito tempo acreditando na mentira que me ensinaram, que o que importa é ter o verde dentro da carteira e consegui-lo de forma honesta. Aliás, não sei que honestidade é essa que tanto dizem... O que é que difere o grande corporativista que eu sou do ladrão de sabonete? Um deles rouba o tempo da vida de seus irmãos, o outro, um pedaço de gordura... Enfim, eu nunca fui pro xadrez, mas o irmão que queria tomar banho foi... pegou pena máxima ainda. Aposta quanto? Esse é o mundo que você vive, jovem... E ainda tem quem diga que tá tudo funcionando exatamente como deveria...
Sendo sincero, não me lembro bem como é que a conversa terminou. Afinal, era sexta de noite e eu tinha acabado de sair da faculdade... Eu merecia uns shots... O fato é que talvez o senhor Silva esteja certo... Infelizmente, depois daquele dia nunca mais o vi. Talvez, tenha decidido ignorar o mundo e viver o sonho de ser artista... Só o tempo dirá. A verdade é que no dia doze de novembro eu aprendi duas coisas. Uma delas é que eu nunca quero perder meu idealismo, porque se existe uma coisa que não me apetece é estar sozinho em um bar questionando minhas escolhas no auge de meus 50 e tantos. A outra, é que mais de três shots já me mandam direto para a cama... vivendo e aprendendo.
O fato social é composto pelos
costumes e maneiras de agir e de pensar que uma sociedade domina, para
Durkheim, essas tradições resultam em regras morais as quais causam uma coesão
social. A moral, tanto no Direito quanto para o conceito do sociólogo Durkheim,
possui o poder de reprimir os indivíduos a praticar tal ato, quando esse é
considerado errado pelo conjunto social. No entanto, o sociólogo aponta duas
definições de solidariedade que influencia diretamente na coesão social, são
elas: a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica. De acordo com
Durkheim, a primeira citada é aquela que caracteriza as sociedades
pré-capitalistas, nas quais há baixa consciência individual, predominando a
consciência coletiva que controla a sociedade. Contudo, a orgânica caracteriza
a sociedade moderna, a qual abrange uma grande divisão de funções,
consequentemente há maior independência individual, dificultando a harmonização
da sociedade.
Tendo em vista isso, é
extremamente notável a atuação da moral no emprego desses dois conceitos de
solidariedade em contextos de temporalidade diferente. Para exemplificação
disso são utilizáveis os avanços tecnológicos e o surgimento das redes sociais.
A sociedade atual está sendo regida pela tecnologia, através de computadores e
telefones celulares as informações estão sendo transmitidas simultaneamente,
dessa forma, a divisão do trabalho tem sido imensamente maior. Logo, as redes
sociais tem sido um espaço que facilita as pessoas se expressarem melhor, muita
das vezes através do anonimato, tal característica possibilita maior liberdade
para afrontes e intersecções de opiniões, consolidando a solidariedade
orgânica.
Por conseguinte, a solidariedade
mecânica pode ser relacionada a época que não existia internet e computadores
em casa, por isso não ocorria tantas oportunidades para conflitos anônimos,
visto que não havia redes sociais e, portanto, dificultava a consciência
individual. Com isso, muitos grupos minoritários eram mais prejudicados do que
são hoje, uma vez que suas pautas eram frequentemente ignoradas. Numa sociedade
mecânica, temas considerados como “polêmicos” dificilmente eram discutidos,
como, por exemplo, a legalização do aborto. Todavia, numa sociedade orgânica as
redes sociais têm possibilitado essas ações, daí surge mais questionamentos e
opiniões diferentes que consequentemente resulta na desarmonia social.
Em suma, Durkheim expõe
metodologias da sociologia que são facilmente observáveis. A moral ainda
permanece nas sociedades, no entanto, de forma mais aberta, facilitando assim a
discussão de pautas que antes eram ignoradas. Antigamente certos
questionamentos não eram feitos por receio da moral social e atualmente, não só
são feitos como reivindicados. Nesse sentido, a moral possui dois lados, o bom
que pode evitar atos realmente repudiáveis, como a violência, mas também possui
o mal, que é o de restringir o questionamento de coisas que têm de ser questionadas.
Não é segredo pra ninguém que pra vocês estarem lendo esse texto, escrito por uma mulher, antes muitas mulheres tiveram que lutar frente a diversas castrações que foram impostas ao gênero feminino durante o percurso histórico. Porém, para além disso é primordial estabelecer que o papel social definido as mulheres na sociedade não surgiram naturalmente, mas sim foram logicas impostas para garantir o controle reprodutivo da humanidade, pois seja numa crise humanitária ou numa ascendente progressão econômica há de se prever e controlar a natalidade dentro da lógica capitalista.
O evento mais marcante e que aqui irei chamar de genocídio das mulheres, em alusão ao debate histórico de Silvia Friedericci em seu livro “O Calibã e a Bruxa”, foi a Caça às Bruxas. É também sabido que o patriarcado e toda a coerção que ele engendra sobre as mulheres não nasceu ali, porém, muito do que é institucionalizado e até hoje age de forma coercitiva nasceu naquele momento. Contudo, pode se admitir que é partir deste momento histórico que a feminilidade, bem como sua leitura social, hoje pode ser entendida como um fato social.
Para Durkheim, o fato social não se trata necessariamente de um evento, como está no imaginário do que é fato, mas tudo aquilo que é um construto humano, ora, nenhuma menina ao atingir sua maturidade (outro conceito não muito natural) desejaria em sã consciência submeter-se a procedimentos estéticos doloridos, como a extração com cera de seus pelos em partes sensíveis, por exemplo.
A problemática maior dentro da imposição da feminilidade é que existe uma serie de micro agressões que são naturalizadas em nome de um “bem maior”, em nome de uma estética ideal da fêmea humana na sociedade. Porém para além do que significa idealizar um ser humano, o que o torna mais objetificado, todos esses rituais impostos levam consigo em algum grau a naturalização da dor e do sofrimento para serem atingidos e, portanto, naturalizam pouco a pouco a falácia de que certos sofrimentos são normais para que se possa atingir os objetivos.
Por fim, o que quero deixar claro aqui é que, o “ser coletivo”, que existe até hoje e imprime represália sobre todos aqueles que fogem dos padrões de gênero que por ele foi estabelecido, nasceu em circunstancias históricas onde o estado e a igreja católica e protestante unidos institucionalizaram a violência e a castração da liberdade da mulher em nome de uma lógica de controle capitalista aos meios de reprodução. O que hoje temos por “correto” para o comportamento feminino dentro da lógica imperativa do senso comum, é um fato social que desde muito antigamente vem sendo exigido e até hoje não ceder a ele, significa, dadas às devidas proporções, ser jogada na fogueira.
Durkheim ainda que rejeitasse
formalmente muitas ideias de seu antecessor, Augusto Comte, absorveu
seu método e tentou refiná-lo. Sua proposta para os estudos da
sociedade, os quais ele próprio inaugurou como matéria acadêmica
com o nome dado por Comte; Sociologia, era extremamente similar às
dele em muitos aspectos. Seguindo a tendência de sua época, seu
método era uma tentativa de cientificizar este campo de estudos por
meio de realiza-los baseando-se em dados quantitativos. Teorizando
ele que assim, seria possível prever com exatidão quais seriam os
efeitos sociais que um dado fato acarretaria, como um aumento da
miséria, do desemprego ou qualquer outro.
Em seu estudo sobre o suicídio, ele
buscou verificar a tese de que o suicídio é um ato pessoal. Nela,
analisando os dados, descobriu que existiam predisposições para
taxas mais altas para certos grupos de pessoas: católicos se
suicidavam menos que protestantes, casados menos que divorciados,
cidadãos de países mais estáveis menos do que cidadãos de países
turbulentos etc.. Porém também notou que quando elas aumentavam ou
diminuiam, o faziam proporcionalmente ao seu número inicial. Um
país que aumentasse em 20% seu número de suicídios em dado ano,
quando estudados os dados mais profundamente, se descobria que os
suicídios de católicos, protestantes, casados, divorciados e outros
haviam subido em porcentagens semelhantes uns aos outros, ainda que o
número absoluto fosse diferente, o que indicava que este aumento era
resposta a um fator externo, que ainda que amenizado ou
potencializado em seus números por características próprias dos
váriados grupos, era comum a todos percentualmente. Comprovando assim, ser este não mais um ato puramente pessoal, pois se assim
fosse, esta variação seria randômica entre os componentes dos
diferentes grupos.
Uma das causas sugeridas por ele como
causa dessas variações era a desintegração social causada pela sociedade moderna, onde os laços tradicionais entre as pessoas por
meio da religião, da família e da comunidade próxima começam a
ruir em face as novas dinâmicas sociais da vida moderna, acreditando
ele que esta ruína poderia ser remediada com a substituição orgânica
destes laços por novos baseados na necessidade de cooperação para
a produção nos regimes modernos de divisão de trabalho que esta nova sociedade impõe.
Porém isto não é o que se apresenta
na realidade moderna. Esta crescente modernização das relações
criou sociedades doentes, composta por indivíduos literalmente
doentes e isolados de seu meio. Hoje não é raro encontrar pessoas
que nunca tenham conversado com seu vizinho, ainda que sejam vizinhos
há anos, e muito menos raro é descobrir que estas mesmas pessoas
tomam anti depressivos ou ansiolíticos diariamente por se sentirem muito sozinhos. A total
interação social diária de um crescente número de pessoas do
mundo moderno se resume a meia dúzia de palavras trocadas com o caixa do
mercado ou da padaria antes de voltar para a mais absoluta solidão
em uma sociedade que não se importaria se esta pessoa morresse,
obviamente causando graves danos psicológicos e emocionais
decorrente desta forma de “solidão compartilhada” do mundo
moderno.
Além dos danos psicológicos desta
desintegração, pode ser citado o agigantamento do papel do
estado na vida social. Anteriormente relegado a situações de
conflito violento, como briga de vizinhos e violência doméstica,
hoje é de seu papel em alguns países legislar sobre a altura da
cerca de um jardim, horário permitido para uso de equipamento de
construção barulhento, como furadeiras ou martelos, que apesar de terem mérito em sí, poderiam e seriam
resolvidos há 50 anos atrás com uma breve conversa entre vizinhos ou uma discussão na associação de moradores do próprio do bairro, que nem sempre era amigável, mas que era muito mais próxima e menos robotizada do que a inflexível frieza de uma regra estatal a ser imposta por policiais a quem sequer quem chama conhece.
Portanto se mostram objetivamente superiores as formas de vida tradicionais para a organização social de forma
pacífica e amigável, bem como para a saúde mental e psicológica de
seus integrantes. Um radical poderia dizer que a sociedade industrial
somente serviu para a perda pelos povos do pouco de liberdade e vivência comunitária que tinham para a
concentração de riquezas em grandes grupos por trás das indústrias,
empreendimentos de grande porte e seus lacaios na esfera pública em troca de
farelos de conforto alienante, que os algema ainda mais à esta cadeia nefasta de produção irracional de bens e serviços que mais e mais claramente se
revelam como sendo pagos discretamente com a alma, saúde e liberdade de seus compradores.
Rafael C. M. Martinelli, Direito, Noturno, 1º Sem.