"Uma vez ordem, por fim progresso. Certo que isso não muda. Buscar os objetos imutáveis da sociedade a organiza na medida em que se conserva os valores fundamentais para a mesma. Estão nos princípios os direitos e deveres, a submissão, a coerção, a estabilidade, as instituições coercitivas. Estes encaminham o cidadão para o progresso afinal. Um valor, uma ideologia dominante são as bases a serem seguidas, mas não a serem questionadas ou transformadas. Mas então como encaixar as revoluções, manifestações, reformas, movimentos populares, insatisfação pública dentro de uma política linear? Política sem retrocessos, sem sair dos eixos, da mesma forma que os astros se organizam em um único sentido. Justamente porque a humanidade se transforma. As necessidades de cada época se modificam, as prioridades mudam. Encaixar a sociedade na modernidade é uma tarefa complexa para um positivista. Logo, como a inseri-la nas modificações atuais? Como lidar com isto? Se não com a ruptura de paradigmas arcaicos, que acorrentam o corpo social a preceitos que muitas vezes ferem a dignidade humana e que hoje são repensados sobre suas formas? A ausência de consenso científico, a anarquia intelectual e a falta de uma moral positivista é o que causam a desordem no positivismo, sem estes, o progresso está as portas, e nada pode o deter, a não ser a ruptura com a ciência, a moral e o positivo. E então, o que será feito para satisfazer as necessidades da massa na contemporaniedade sem ferir a ordem? ".
Este é um espaço para as discussões da disciplina de Sociologia Geral e Jurídica do curso de Direito da UNESP/Franca. É um espaço dedicado à iniciação à "ciência da sociedade". Os textos e visões de mundo aqui presentes não representam a opinião do professor da disciplina e coordenador do blog. Refletem, com efeito, a diversidade de opiniões que devem caracterizar o "fazer científico" e a Universidade. (Coordenação: Prof. Dr. Agnaldo de Sousa Barbosa)
Total de visualizações de página (desde out/2009)
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Positivismo e controle social
Augusto Comte, em 1830, começou a publicar uma série de obras que viriam a receber o título de “Curso de filosofia positiva”, nas quais ele elabora sua teoria principal: o Positivismo, uma nova vertente cientifica que buscava, de maneira inédita, analisar problemas sociais e resolve-los. Para isso, essa “ciência da sociedade” utilizava os mesmos critérios das ciências exatas, como a física e a matemática: procurava leis gerais que determinassem o funcionamento da sociedade.
O tema de “problemas sociais” encontrava-se em alta no
contexto das publicações de Comte, visto que a Europa se encontrava tomada por
ondas revolucionárias, responsáveis por subverter a ordem aristocrática vigente
e consolidar o poder político da burguesia. A princípio, essa classe saiu
vitoriosa desses processos de mudança, finalmente garantindo a si tratamento de
elite, como a aristocracia detinha exclusivamente até então, porém, essas
mobilizações não almejavam apenas fortalecer a classe burguesa, pelo contrário,
a maior parte das pessoas que foram as ruas também buscavam maiores direitos
para as classes mais baixas.
Assim, com a mudança de regime político e a permanência da
miséria das classes mais baixas, o povo continuou a se amotinar, fazendo greves
e manifestações, perturbando constantemente a recente formada ordem política
liberal, o que comprometia os interesses políticos e econômicos da burguesia.
Portanto, surge a necessidade de coibir essas “problemáticas” que afetavam a
vida europeia do século XIX, sendo do interesse da elite a manutenção da
estabilidade social após garantir seus próprios interesses.
A ciência em si, na verdade, era uma espécie de vertente
ideológica própria, que na visão de Comte, deveria substituir entendimentos teológicos
e metafísicos sobre a sociedade. Ele argumentava por uma sociedade que prezasse
pelo progresso civilizatório e ordem social, aspectos que deveriam ser
sobrepostos a qualquer vontade individual, já que esses preceitos uniriam os indivíduos
entre si, gerando coesão social.
No processo de “positivação” da sociedade, a moralidade, por
exemplo, que se estendeu em parte graças a visões religiosas, principalmente a
cristã (no ocidente), deveria mudar em sua essência. Se até então, a moralidade
religiosa tinha como fim a salvação individual, a moralidade positiva agiria em
prol da manutenção do “bem comum”, que se associa aos aspectos essenciais supracitados.
Logo, fica claro a visão coletivista dessa doutrina sociológica, mas de que
forma ela se organiza e se manifesta em contraposição às reinvindicações
sociais?
Com essa revisão dos sistemas de crença e moral, Comte
reserva à população o papel de mantenedora da moralidade, sendo função dela
reproduzir essa nova visão de bem comum e ordem, suprimindo ideias de melhoria
social que acabariam por comprometer o equilíbrio da sociedade. Isso traduz numa
clara espécie de controle social e manipulação, em que os interesses burgueses
são reproduzidos e tomados como prioritários, e aqueles que não são diretamente
contribuintes da ordem econômica são deixados de lado, tanto por atrapalharem o
andamento da mesma, quanto por ameaçarem a adesão daqueles que são oprimidos de
maneira semelhante.
Já nas camadas mais altas, o positivismo age para descredibilizar
revisões criticas da sociedade e justificar as desigualdades sociais. Por reivindicar
para si o título de “ciência”, ele nega legitimidade a outras concepções críticas,
por mais factuais que sejam, atribuindo a essas títulos como “ideologia” e “corrente
de pensamento”, que pressupõe que sejam apenas teorias ou baseadas em entendimentos
limitados da realidade. Com isso, o positivismo domina o debate acadêmico e
desqualifica seus opositores, permitindo que a status quo burguesa se mantenha.
Portanto, mesmo nascido a séculos atrás, o positivismo ainda
contribui para a manutenção das desigualdades sociais e preservação das dinâmicas
de poder.
