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segunda-feira, 6 de abril de 2026

O que causa a desordem?

   "Uma vez ordem, por fim progresso.  Certo que isso não muda. Buscar os objetos imutáveis da sociedade a organiza na medida em que se conserva os valores fundamentais para a mesma. Estão nos princípios os direitos e deveres, a submissão, a coerção, a estabilidade, as instituições coercitivas. Estes encaminham o cidadão para o progresso afinal. Um valor, uma ideologia dominante são as bases a serem seguidas, mas não a serem questionadas ou transformadas. Mas então como encaixar as revoluções, manifestações, reformas,  movimentos populares, insatisfação pública dentro de uma política linear? Política sem retrocessos, sem sair dos eixos, da mesma forma que os astros se organizam em um único sentido. Justamente porque a humanidade se transforma. As necessidades de cada época se modificam, as prioridades mudam. Encaixar a sociedade na modernidade é uma tarefa complexa para um positivista. Logo, como a inseri-la nas modificações atuais? Como lidar com isto? Se não com a ruptura de paradigmas arcaicos, que acorrentam o corpo social a preceitos que muitas vezes ferem a dignidade humana e que hoje são repensados sobre suas formas? A ausência de consenso científico, a anarquia intelectual e a falta de uma moral positivista é o que causam a desordem no positivismo, sem estes, o progresso está as portas, e nada pode o deter, a não ser a ruptura com a ciência, a moral e o positivo. E então, o que será feito para satisfazer as necessidades da massa na contemporaniedade sem ferir a ordem? ". 



Positivismo e controle social

 Augusto Comte, em 1830, começou a publicar uma série de obras que viriam a receber o título de “Curso de filosofia positiva”, nas quais ele elabora sua teoria principal: o Positivismo, uma nova vertente cientifica que buscava, de maneira inédita, analisar problemas sociais e resolve-los. Para isso, essa “ciência da sociedade” utilizava os mesmos critérios das ciências exatas, como a física e a matemática: procurava leis gerais que determinassem o funcionamento da sociedade.

O tema de “problemas sociais” encontrava-se em alta no contexto das publicações de Comte, visto que a Europa se encontrava tomada por ondas revolucionárias, responsáveis por subverter a ordem aristocrática vigente e consolidar o poder político da burguesia. A princípio, essa classe saiu vitoriosa desses processos de mudança, finalmente garantindo a si tratamento de elite, como a aristocracia detinha exclusivamente até então, porém, essas mobilizações não almejavam apenas fortalecer a classe burguesa, pelo contrário, a maior parte das pessoas que foram as ruas também buscavam maiores direitos para as classes mais baixas.

Assim, com a mudança de regime político e a permanência da miséria das classes mais baixas, o povo continuou a se amotinar, fazendo greves e manifestações, perturbando constantemente a recente formada ordem política liberal, o que comprometia os interesses políticos e econômicos da burguesia. Portanto, surge a necessidade de coibir essas “problemáticas” que afetavam a vida europeia do século XIX, sendo do interesse da elite a manutenção da estabilidade social após garantir seus próprios interesses.

A ciência em si, na verdade, era uma espécie de vertente ideológica própria, que na visão de Comte, deveria substituir entendimentos teológicos e metafísicos sobre a sociedade. Ele argumentava por uma sociedade que prezasse pelo progresso civilizatório e ordem social, aspectos que deveriam ser sobrepostos a qualquer vontade individual, já que esses preceitos uniriam os indivíduos entre si, gerando coesão social.

No processo de “positivação” da sociedade, a moralidade, por exemplo, que se estendeu em parte graças a visões religiosas, principalmente a cristã (no ocidente), deveria mudar em sua essência. Se até então, a moralidade religiosa tinha como fim a salvação individual, a moralidade positiva agiria em prol da manutenção do “bem comum”, que se associa aos aspectos essenciais supracitados. Logo, fica claro a visão coletivista dessa doutrina sociológica, mas de que forma ela se organiza e se manifesta em contraposição às reinvindicações sociais?

Com essa revisão dos sistemas de crença e moral, Comte reserva à população o papel de mantenedora da moralidade, sendo função dela reproduzir essa nova visão de bem comum e ordem, suprimindo ideias de melhoria social que acabariam por comprometer o equilíbrio da sociedade. Isso traduz numa clara espécie de controle social e manipulação, em que os interesses burgueses são reproduzidos e tomados como prioritários, e aqueles que não são diretamente contribuintes da ordem econômica são deixados de lado, tanto por atrapalharem o andamento da mesma, quanto por ameaçarem a adesão daqueles que são oprimidos de maneira semelhante.

Já nas camadas mais altas, o positivismo age para descredibilizar revisões criticas da sociedade e justificar as desigualdades sociais. Por reivindicar para si o título de “ciência”, ele nega legitimidade a outras concepções críticas, por mais factuais que sejam, atribuindo a essas títulos como “ideologia” e “corrente de pensamento”, que pressupõe que sejam apenas teorias ou baseadas em entendimentos limitados da realidade. Com isso, o positivismo domina o debate acadêmico e desqualifica seus opositores, permitindo que a status quo burguesa se mantenha.

Portanto, mesmo nascido a séculos atrás, o positivismo ainda contribui para a manutenção das desigualdades sociais e preservação das dinâmicas de poder.

Positivismo: a arma por trás das fake news

  Um fenômeno bastante recorrente no que se refere ao mundo cibernético é a presença das Fake News, notícias falsas que buscam convencer ou manipular informações. Nesse sentido, observa-se a presença da corrente sociológica de Auguste Comte, o Positivismo, no que diz respeito a busca pela cientificidade e manutenção de poder. Então, questiona-se: de que forma esse pensamento se relaciona com esse artifício informacional fraudulento e suas características anteriormente citadas? 
  Em primeira observação, nota-se a necessidade de legitimação dessas notícias através de uma aparência científica. A exemplo disso, há a ampla divulgação, em redes sociais, de dicas de saúde e de alimentação que baseiam-se em dados inventados ou até existentes, mas que não possuem ligação alguma com a sugestão dada ao usuário. Assim, os influenciadores recorrem a uma linguagem técnica e convincente e artigos, os quais muitas vezes nem possuem respaldo no meio científico, para manipular o visualizador a crer na sua dica . Dessa forma, vê-se a existência de uma forma de notícia se tornar científica em sua essência, mas sem necessariamente ser.
 Em segunda análise, pode-se citar a busca pela ordem, característica dessa corrente, através da disseminação de tais informações. Nesse viés, quando há uma situação que foge daquilo que é considerado comum ou normal a uma sociedade, certos indivíduos utilizam desse instrumento para coordenar o que consideram errôneo e convencer o público daquilo que lhe convém, com o intuito de trazer a ordem social novamente. Assim, as fakes news são pontos cruciais para a manutenção de uma forma específica de poder.
 Em conclusão, torna-se visível como essa ferramenta é altamente relacionada a uma visão positivista para perpetuação e convencimento de determinados ideais. Desse modo, a busca por validação científica funciona como uma forma de legitimação de um ideal, enquanto o compartilhamento desse tipo de noticiamento, num contexto “anormal” transforma-se na preservação da estabilidade.