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domingo, 15 de março de 2026

Isolamento virtual — o individualismo frente a uma demanda plural

 Na contemporaneidade, é notório o uso desenfreado de tecnologias virtuais, o que acarreta uma mudança significativa na perspectiva sociológica da população. O cenário revela que, cada vez mais, os indivíduos mantêm-se conectados à internet durante quase todo o seu tempo livre, retirando de suas rotinas momentos valiosos, como os de autoconexão. Além do uso excessivo, observa-se também uma extrema seleção promovida por algoritmos — ferramentas que filtram os conteúdos a serem exibidos —, o que tende a fazer com que as pessoas vejam apenas aquilo de que GOSTA. Dessa maneira, consumindo durante a maior parte do tempo apenas conteúdos que lhe agradam, os indivíduos acabam perdendo parte de sua capacidade de imaginar sociologicamente, por estarem constantemente sob a influência de outras pessoas — muitas vezes, os denominados “coachs”. Assim, ao ingerirem apenas recortes da sociedade previamente processados, não resta nada para esses indivíduos analisarem por conta própria; cabe-lhes, então, bastar-se com um produto já consumado da sociedade da qual fazem parte.
  Dentro de uma sociedade totalmente plural, a escolha de ignorar a necessidade de compreender e visualizar como as estruturas sociais realmente se impõem sobre os indivíduos — especialmente em um contexto marcado por lacunas de igualdade social — é assustadora. Quando um cidadão escolhe manter sua visão limitada apenas ao seu próprio núcleo, ele falha como mesmo, tornando-se apenas um indivíduo “cego sociologicamente”. Sob a óptica de C. Wright Mills, é necessário ir além das experiências pessoais e perceber como fatores econômicos, históricos, etários, hereditários e biológicos-sexuais influenciam a vida das pessoas. O sociólogo estadunidense aponta que existe uma estrutura que fomenta as relações sociais e as faz acontecer mutuamente, demonstrando que não é possível viver individualmente em um ambiente coletivo. Assim, faz-se necessário um olhar inclusivo e múltiplo sobre a sociedade, capaz de analisar e interpretar toda a complexidade das demandas sociais existentes na população.

Gabrielle Stefani de Araujo,
1° Ano de Direito - Matutino 

O Trump [não] é um problema? Uma análise baseada na bibliografia: MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1965

  Em seu atual mandato, Donald Trump tem implementado o caos como meio de ordenação. Recentemente começou uma guerra como meio de pacificação. Mas segundo a imaginação sociológica, a qual se define como "capacidade de ir das mais impessoais e remotas transformações para as características mais íntimas do seu humano" (MILLS, C. Wright, 1965), o que isso representa? Isso é um problema? Criado por quem/pelo que? Destinado a afetar quem/o que?

    Baseado em senso comum, até seria possível afirmar que essa situação - a título de exemplificação: a guerra iniciada contra o Irã - é culpa da loucura, sadismo, narcisismo, ganância e ignorância da pessoa Donald Trump. E pessoalmente, ele deve achar que é o grande responsável e feitor de tudo isso, que o poder está centrado em si. Entretanto, isso se deve em menor medida a ele como governante dos Estados Unidos, e em grande escala, a um mundo polarizado, conservador, preconceituoso. 

    Pode-se dizer que a afirmação "nossa época é uma época de inquietação e indiferença" (MILLS, C. Wright, 1965) é muito mais atual que o autor seria capaz de imaginar. Se a personificação de Trump existe, é porque nós permitimos, seja repudiando-o ou aplaudindo-o. O preconceito contra o Islamismo e o Oriente Médio, de maneira geral, permitiram o crescimento da extrema direita, principalmente em um país em que sistematicamente predomina-se o capitalismo em sua essência (EUA). 

    É devido a essa xenofobia, que Trump conseguiu vencer as últimas eleições presidenciais - mesmo já demonstrando seu caráter pessoal (instância íntima da imaginação sociológica) agressivo politicamente, de quem busca o caos e guerra - com o voto de 312 dos 538 delegados (CNN Brasil, 2024). Dessa forma, o problema é estrutural (instância maior da imaginação sociológica) de uma sociedade pautada por discursos personalistas, pelo desejo de atacar o oponente ao invés de preservar o debate e a discussão. 

    Portanto, levando em conta o conceito cunhado por Charles Wright Mills e a concepção acerca do Direito, pode-se afirmar que o cenário político mundial no que envolve Trump é um problema, mas esse não é sua pessoa, e sim das instituições sociais, políticas e econômicas que o permitiram chegar à posição de poder que o torna um problema, inclusive para o mundo como um todo. A polarização e a popularização da extrema direita xenofóbica evocam o mau-caráter e as características pessoais desse presidente... bem como a guerra provoca o caráter e as características pessoais dos homens, fazendo-os "escolher" a frente de atuação dentro dela, na visão de C. Wright Mills. Assim, racionalmente segundo o Direito, como meio de resolução, sanções internacionais que buscassem o frear seriam mais efetivas que tentar desmoralizá-lo, já que nos encontramos diante de uma sociedade que o apoia e segue a mesma diretriz de pensamento [não] sociológico. 


Ana Clara Cestari Diniz

Direito matutino - turma de 2026.

Entre a Igualdade Formal e a Justiça Social: A Imaginação Sociológica na Interpretação do Direito Brasileiro


A interpretação das leis e normas brasileiras, quando analisada a partir da Sociologia do Direito, exige aquilo que C. Wright Mills descreveu como uma “qualidade de espírito” capaz de relacionar as experiências individuais com as estruturas sociais mais amplas. Para o autor, um dos grandes problemas da sociedade contemporânea não está na falta de informação, mas na dificuldade de desenvolver a chamada imaginação sociológica. Essa capacidade permite compreender que muitas dificuldades vividas pelos indivíduos não são apenas questões privadas, mas também reflexos de problemas públicos e estruturais. No contexto brasileiro, contudo, esse tipo de análise nem sempre está presente no debate jurídico. Frequentemente, afirma-se que determinadas leis violam o princípio da isonomia sem que se leve em consideração o contexto social em que essas normas são aplicadas.

A ausência desse olhar sociológico pode levar a interpretações do Direito que valorizam apenas uma igualdade formal, sem considerar as condições concretas existentes na sociedade. Um exemplo disso pode ser observado na maneira como o poder público e parte do debate jurídico tratam grandes desastres ambientais. Desastres ecológicos, como o rompimento da barragem ocorrido na cidade de Brumadinho, muitas vezes são apresentados apenas como tragédias isoladas ou como resultado de falhas pontuais. Entretanto, uma análise mais abrangente revela que o episódio também está relacionado a fatores estruturais, como fragilidades na fiscalização estatal, limitações regulatórias e pressões econômicas que podem influenciar decisões institucionais.

De forma semelhante, quando o Direito é aplicado sem considerar a relação entre história social e experiência individual, podem surgir distorções na interpretação das normas. Em alguns casos envolvendo o crime previsto no artigo 217-A do Código Penal, por exemplo, decisões judiciais já geraram forte debate público ao relativizar situações de violência contra pessoas vulneráveis com base em interpretações sobre consentimento ou vínculos afetivos. Um caso amplamente discutido foi o episódio envolvendo a influenciadora Mariana Ferrer, ocorrido em Florianópolis, no qual a condução do processo e os argumentos utilizados durante a audiência provocaram críticas de juristas e movimentos sociais por supostamente desconsiderarem a condição de vulnerabilidade da vítima. Além disso, a seletividade penal frequentemente observada no sistema de justiça demonstra como a posição social dos envolvidos pode influenciar a aplicação das leis, contribuindo para tratamentos distintos entre diferentes grupos sociais.

Diante desse cenário, torna-se evidente que a efetividade das leis e normas brasileiras depende de uma interpretação que vá além da leitura literal das normas. É necessário que os operadores do Direito considerem também os fatores sociais que influenciam tanto os conflitos quanto as decisões judiciais. Dessa maneira, o sistema de justiça pode evitar a repetição de erros históricos baseados em julgamentos precipitados e pressões sociais. O desenvolvimento da imaginação sociológica, portanto, mostra-se fundamental para aproximar a prática jurídica das reais demandas de justiça presentes na sociedade brasileira.


Lucas Valério Santos da Silva - 1° ano Direito Noturno



O que é racional no direito?


O que é racional no direito?

Queria poder dizer: respeito.

Mas, diante da escravidão do passado,

E a bolha da branquitude que não desce do salto.

O racismo continua frequente na sociedade,

Nada mudou, ainda não há igualdade.


Mas hoje é mais fácil levantar as mãos e dizer que vidas negras importam.

Porque, segundo eles, hoje os negros “se comportam”.

Mas eles não sabem o que nós sente 

Quando nos olham diferente.

Apontam pro nosso cabelo e comparam com utensílio,

Que, por acaso, é a nossa mãe que usa muito pra limpar a casa do vizinho,


Que sempre é maior que a nossa.

Porque a vida sempre será oposta.

Por isso, até pra achar trabalho,

Eles passam nas entrevistas, mas eu continuo desempregado.

É perceptível que tudo é estrutural.

Pedir nota fiscal só da minha bike, é puro racismo e violência institucional.


Minha mãe sempre me ensinou a ter “autopreservação”.

Mas, diante disso, sei que era para minha proteção.

Sempre ensinado a ter obediência.

Mas por que não ensinam eles a pensar com consciência?

Tô cansado de ser chamado de vagabundo.

Eu suplico por razão, por outra visão de mundo.

 Por que avançar se podemos regredir?

O Brasil contemporâneo está marcado pela polarização política, a qual dificulta o exercício da chamada “imaginação sociológica” apresentada por Wright Mills, esta expressão refere-se à capacidade vital de compreender e conectar-se com o mundo considerando noções reais, fora de sua própria “bolha”. Nesse sentido, é notável que, a priori, agentes políticos de cargos renomados como deputados tivessem essa “habilidade” durante o mandato, no entanto, percebe-se que, cada vez mais, há casos de projetos no mínimo tendenciosas e deslocadas da realidade. Nesse contexto, o deputado Pastor Eurico relatou em 2023 um projeto que buscava proibir o casamento homoafetivo.  

Desse modo, o projeto configura-se como uma grande marca do retrocesso atual, visando eliminar uma conquista aprovada pelo STF, que obrigava o reconhecimento em cartório de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, o qual expandia os direitos da minoria LGBTQIAPN+Assimé visível que no cenário de embate político travado entre conservadorismo e progressismo pautas ideológicas extremas chegam à tona, fruto de uma perspectiva puramente individualista e até mesmo prejudicial ao outro, gerando escassez da “imaginação sociológica”.


Phelipe Tarosso Maravilha - Direito Noturno 1o ano


A romantização da desigualdade no Brasil

 Um dos maiores problemas da sociedade brasileira é a desigualdade social; porém, sua estrutura tende a ser “louvada” em diversas manifestações culturais. Sobretudo, apologias ao crime organizado, à prostituição e ao tráfico de drogas são comumente identificadas em letras musicais, pronunciamentos de famosos e outras expressões subjetivas de grande popularidade.

As pautas sociais cobram grande demanda da política brasileira; no entanto, a romantização de fatores consequentes da pobreza pode resultar na normalização do sofrimento e na negligência de soluções reais para essas questões. Sob a perspectiva de Friedrich Nietzsche, a tendência de romantizar ou trazer estética ao sofrimento e os problemas sociais pode obscurecer suas causas reais e impedir transformações efetivas.

No Brasil, não faltam momentos em que dificuldades reais foram tratadas quase como símbolos culturais positivos: a ideia do “brasileiro que se vira com pouco”, por exemplo, muitas vezes transforma a precariedade cotidiana em prova de criatividade e resistência; em algumas narrativas sobre comunidades pobres, a falta de infraestrutura aparece diluída pela exaltação da “alegria do povo”, como se isso compensasse carências básicas; e até o famoso “jeitinho brasileiro” às vezes é celebrado como traço de genialidade nacional, mesmo quando nasce da necessidade de contornar sistemas ineficientes. Nessas situações, o problema continua existindo, mas passa a ser envolto em um discurso que suaviza sua gravidade.

Fonte: Nietzsche, F. (1886). Além do bem e do mal. Leipzig: C. G. Naumann.

Felipe André Pereira Miranda

1º ano – Direito (Noturno)

“Algumas pessoas se aproveitam de auxílio ...”

           última grande revolução mundial foi o surgimento da Internet. Com alguns cliques você pode ter acesso a qualquer informação, em qualquer lugar, sem precisar de muito tempo ou grande esforço. Seria de imaginar que com essa ferramenta as pessoas teriam mais facilidade em compreender e saber o que ocorre no mundo, fora de seu cotidiano, mas essa presunção estava incorreta.  O Direito, como outras áreas, precisa acompanhar a sociedade com suas evoluções e discussões, sempre atualizando seu ordenamento para englobar todo o povo, e nesse momento a internet torna-se um espaço para discussões e manifestações. 

Em primeiro momento, sem o uso do mundo digital, o ser humano tem a tendência de se interessar e entender apenas o que está presente no seu dia a dia. Suas experiências e histórias constroem sua moral e costumes, mas anteriormente podia haver a desculpa de não ter acesso ao conhecimento necessário para compreender outras facetas de pessoas, e nos tempos atuais, a única resposta seria a escolha da ignorância (retirando dessa equação parte da sociedade que realmente não tem acesso, mas que em alguns casos têm mais consciência devido a sua vivência).  O sociólogo Charles Wright Mills desenvolve sobre esse tema ao elucidar que o ser humano, normalmente, está encurralado por sua rotina e não consegue visualizar além do que conhece. Sua imaginação sociológica, sua complexidade e entendimento, são básicas, e após o advento da internet, a população é soterrada com tantas informações e pontos de vista diferentes que não conseguem compreender, e consequentemente, não aprofunda o conhecimento disponibilizado. Esse fato atinge também o legislativo, o qual precisa filtrar quais discussões e entendimentos realmente ajudam a manter os direitos fundamentais das pessoas. 

Trazendo a um contexto atual, a relutância encontrada na sociedade acerca de auxílios é muito recorrente, principalmente, na internet. A ignorância e a falta de pesquisa, ou até mesmo o mau-caratismo, acarretam a disseminação de informações completamente sem nexo, por exemplo, que algumas mulheres iniciam várias gravidezes para receber mais dinheiro do governo (argumento que poderia ser facilmente derrubado se pesquisassem o valor recebido e os gastos comuns com uma criança).  

Portanto, é preciso haver esse entendimento que as pessoas não têm o mesmo ponto de partida, acesso a todas as oportunidades, e principalmente em salário que proporcione uma vida com dignidade, e os auxílios - independente da motivação- permitem a possibilidade de uma vida “confortável” na medida do possível. O Direito, que também é atingido por essa avalanche de discussões rasas, e que em alguns casos, chegam até mesmo para votação no Congresso, precisa combater o retrocesso que essas pautas sem fundamentos carregam. Devemos utilizar a internet e os meios de comunicação para acolher mais a população e não isolar. 

Fonte: MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, Capítulo 1: A Promessa.

Thamiris Custódio Fernandes -  1º ano/ Direito - Noturno


Do clichê à verdade: o que está por trás da falta de emprego entre a juventude

 

Cartaz afixado em restaurante de São Paulo, que culpava 'o pessoal do Bolsa Família' pela falta de funcionários, viralizou nas redes sociais.


    A questão da ausência de trabalho é usualmente ligada à moleza e à ausência de dedicação, principalmente quando se trata dos mais novos, que frequentemente precisam lidar com essas falsas ideias. Além disso, há também um forte juízo negativo sobre auxílios governamentais, como o que hoje é chamado de Bolsa Família. Falas do tipo “Viciados no Bolsa Família”, proferida por Ricardo Faria, proprietário da Global Eggs, ilustram como essa ótica está impregnada na nossa sociedade. Fica a dúvida, então: a dificuldade dos jovens em ingressar no mercado de trabalho é, de fato, uma dificuldade pessoal, ou está ligada a cenários sociais de maior escala? 

    Para o sociólogo C. Wright Mills, idealizador da noção de imaginação sociológica, é crucial distinguir entre adversidades particulares e dilemas coletivos. Em seu texto, ele argumenta: “Quando, numa cidade de cem mil habitantes, somente um homem está desempregado, isso é seu problema pessoal [...]. Mas quando numa nação de 50 milhões de empregados, 15 milhões de homens não encontram trabalho, isso é uma questão pública”. A visão de Mills se aplica ao quadro atual, pois frequentemente dilemas intrincados são simplificados demais, fazendo com que a culpa recaia sobre pessoas ou grupos específicos. Isso pode levar a classificações depreciativas, como “a galera do Bolsa Família”, que acabam solidificando preconceitos sociais. No tocante ao desemprego, por exemplo, perto de 5,5 milhões de brasileiros, o que corresponde a 5,1% da força de trabalho, estavam sem ocupação no último trimestre de 2025, segundo o IBGE. Quando uma dificuldade atinge milhões, ela transcende a esfera individual e se estabelece como um tema público, demandando uma investigação mais profunda sobre suas raízes, como a disparidade no acesso à instrução e às oportunidades laborais. 

    Portanto, usando a imaginação sociológicavista como a habilidade de mudar a lente e conectar vivências singulares com arranjos sociais maiores, é imperativo analisar aspectos como a carência de postos para o primeiro emprego, a exigência de experiência prévia e o próprio panorama econômico do país. Assim, percebe-se que o obstáculo para a inclusão dos jovens no ambiente de trabalho não pode ser explicado somente por traços de caráter impulsionador por programas socioeconômicos. Pelo contrário, representa um desafio social mais abrangente, o que evidencia que boa parte das ideias preconceituosas e dos estereótipos ligados a este tema não se sustentam na realidade social. 


CARRANÇA, Thais. O Bolsa Família é culpado pela dificuldade das empresas em contratar? Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj45n2qzrkqo. Acesso em: 15 mar. 2026.

MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.


Ana Julia Generosa Gabriel Dionizio 

1º ano de Direito - matutino

A misoginia está presente no meio jurista? Até que ponto as absolvições são racionais?

A misoginia está presente no meio jurista? Até que ponto as absolvições são racionais? 


      Os discursos de ódio contra as mulheres são amplamente divulgados nas redes sociais, através dos algoritmos baseados em uma sociedade masculinista e sem legislações rigorosas sobre quais conteúdos podem ser promovidos, fica cada dia mais fácil para os “red pills” alcançarem um público masculino suscetível à manipulação. Tendo em vista esse cenário e o aumento alarmante de crimes de ódio contra as mulheres, nos questionamos se as violências relacionadas com esses estímulos midiáticos também vem aumentando pela falta de penalidades no âmbito jurídico. 

      Esse questionamento se estende quando analisamos os dados do Portal CNJ que no levantamento de 2018 revelou o perfil sociodemográfico da magistratura brasileira: majoritariamente formada por homens, brancos, católicos, casados e com filhos. Esses profissionais vivem em uma bolha social diferente da maioria das vítimas: mulheres que sofrem com a misoginia e o patriarcalismo desde suas infâncias. A diferença nas vivências e nos elementos observados durante a vida por pessoas de ciclos distintos pode resultar em uma imaginação sociológica mais limitada ou mais ampla. 

      Segundo Descartes, para construirmos um conhecimento verdadeiro, precisamos questionar a veracidade dos costumes e das opiniões que nos foram ensinadas. Algumas pessoas possuem limitações imaginativas e levam as percepções construídas para o ambiente profissional, quando um jurista realiza o mesmo no exercício do seu ofício, ele limita os julgamentos apenas a sua visão de mundo, o que pode prejudicar na concordância com uma realidade social muito mais extensa. Além disso, o filósofo aborda sobre a racionalidade das ideias, no trecho “Pois, enfim, quer estejamos despertos, quer dormindo, jamais devemos nos deixar convencer exceto pela evidência de nossa razão.” fica evidente que para uma decisão ser racional é necessário analisar e não somente usar como base a opinião e a emoção. 

       No cargo de magistratura, mais da metade (59,53%) são homens e, em sua maioria, brancos. Para que as decisões sejam mais acuradas é necessário alterar o panorama do meio jurídico, com mais figuras femininas ocupando cargos altos e trazendo suas vivências para a construção do pensamento racional. 



Heloísa Vacarela Vigorito 

1º ano - Direito matutino 



Fontes: https://www.cnj.jus.br/juiz-brasileiro-e-homem-branco-casado-catolico-e-pai/

https://www.cnj.jus.br/cnj-20-anos-juizes-e-juizas-formam-justica-cada-vez-mais-plural/#:~:text=A%20pluralidade%20na%20magistratura%20ainda,%2C%20em%20sua%20maioria%2C%20brancos.

 

"A necessidade de imaginar e a dor em conhecer" - Uma crônica por Aiça Santana Santos.

Foi em um dia quente, daqueles de início de verão, quando eu estava no laboratório de informática da faculdade estudando. Estava lendo através do computador um livro de sociologia, de C. Wright Mills, que o professor havia passado e cujo conceito seria cobrado na prova. “Imaginação Sociológica” era o título da obra, mas afinal o que isso significava? Eu não fazia a menor ideia, tampouco conseguia compreender o texto, ainda mais naquele calor que os ventiladores da sala não davam conta de amenizar. Como não compreendia o excerto da obra resolvi fazer uma pausa, passei as mãos pelo cabelo, e me convenci que depois de tomar um ar me sentiria melhor.

Peguei uma banana que estava na minha mochila para comer, e me levantei para sair da sala, quando reparei no rapaz que estava sentado no computador à frente do meu. O moço, de óculos; camisa azul escuro; aparentemente um pouco mais velho do que eu; acabou por chamar-me a atenção, mas não devido a sua aparência e sim por causa da sua expressão de choro.

Olhei para os lados e como apenas nós estávamos na sala resolvi perguntar o que se passava com ele.

- Oi amigo, você está bem?

Ele levantou a cabeça, para me encarar, e depois de passar as mãos pelo rosto me respondeu.

- Não, eu não estou bem.

Fiquei um tanto atordoado com aquela resposta que não me dava muitas explicações. Logo, pensei que ele pudesse estar estressado com algum trabalho da faculdade então, movido pela curiosidade, resolvi olhar o que estava na tela do computador, pois não era possível que ele estivesse lidando com um conteúdo mais chato do que eu. Porém, para a minha aflição, o que vi naquele computador era pior do que esperava. Na tela estava a imagem de uma escola destruída, pessoas correndo e um verdadeiro cenário de ataque militar. Ao ver as imagens acabei me assustando um pouco e encarei o rapaz.

- É por causa dessas notícias que você está assim?

- Sim, estou lendo essas notícias por conta da matéria de Ciência Política, para me manter atualizado, mas eu não aguento mais ler tanta desgraça!

- É, te entendo, lidar com a realidade pode ser difícil porquê algumas coisas acabam se tornando inerentes ao sistema das relações entre as pessoas e até países. À medida que isso acontece vamos nos sentido impotentes, para resolver esses problemas que surgem, já que estamos limitados pelo nosso ambiente.

- Então qual o sentido em ler isso e saber dessas mazelas se no fim eu não consigo fazer nada, e ainda fico com problema emocional? Não tem a menor lógica!

Ele me questionou parecendo motivado a bater no computador e chorar ao mesmo tempo.

- Olha não é bem assim, por mais que te cause incômodo e até dor, ler essas notícias se faz necessário para você entender o cenário da realidade por completo.

- Só que nem os mais sábios conseguem ver o quadro todo.

- Talvez ninguém consiga ver por completo, mas se você puder com um pouco de imaginação relacionar a sua perspectiva individual com outras, e englobá-las com o cenário da realidade, você vai conseguir ver grande parte do quadro. Pode ser que não o cenário todo, mas com certeza bem mais do que enxergava antes.

Aquele moço ficou me encarando como se a minha resposta, por mais estruturada que fosse, não lhe ajudasse muito já que não resolvia seu impasse. Por isso, resolvi continuar falando.

- Sabe, ter consciência dessa estrutura social em que vivemos e saber fazer essas ligações a respeito do que acontece com o que sentimos é ter sensibilidade, uma característica importante, para se resolver um problema estrutural que tenha nos impactado intimamente.

O garoto, agora sem muita reação, estava com uma expressão pensativa e eu, me dando conta do tempo que estava gastando ali, resolvi ir embora para finalmente tomar um ar fresco.

- Mas relaxa aí amigo, você consegue, eu vou indo porque estou precisando sair um pouco desse abafado.

Não me lembro mais se na época percebi o que aconteceu naquele dia. Agora anos depois, posso não recordar se tirei uma boa nota naquela prova de sociologia, mas lembro que através da razão junto com a experiência que tive naquela sala cheia de computadores, abafada e com aquele rapaz, eu aprendi o que era imaginação sociológica.


Ilusão digital do século XXI e a capacidade de pensar

O século XXI é marcado pelo uso intenso das redes sociais e pela globalização das informações. Esse cenário trouxe uma grande democratização do conhecimento, mas também gerou uma onda de fake news, notícias falsas ou distorcidas disseminadas para manipular opiniões, gerar engajamento e produzir verdades instantâneas.

O ponto de partida de Descartes é a constatação de que “os nossos sentidos às vezes nos enganam” e de que, se nossa razão não interferir, jamais poderemos garantir a veracidade do que percebemos. Relacionando essa ideia com a teoria dos ídolos de Bacon, para alcançar o conhecimento verdadeiro é necessário libertar-se de falsos preconceitos. Esses preconceitos também estão presentes em conteúdos de desinformação que, ao explorarem essas “antecipações da mente”, despertam hábitos mentais já enraizados e fazem com que as fake news pareçam verdadeiras.

Assim como precisamos de ferramentas para construir pontes, a mente também necessita de mecanismos para não seguir seu “movimento espontâneo” de acreditar naquilo que é mais conveniente. Nesse sentido, práticas como a checagem de fatos e a busca por diferentes fontes de informação tornam-se fundamentais para compreender as notícias de forma crítica.

Vivemos em uma sociedade do espetáculo, na qual algoritmos e bolhas de informação geram doutrinas viciosas, transformando a desinformação em um problema público que afeta a democracia, a confiança nas instituições e a coesão social. A partir da imaginação sociológica, é possível compreender a informação de maneira mais racional, permitindo perceber com maior lucidez o que está acontecendo no mundo.

Amanda Akemy Henrique Takii

Direito matutino

 

 

A Deusa da Justiça nunca esteve vendada

  No célebre filme brasileiro Que Horas Ela Volta?, dirigido por Anna Muylaert, a protagonista Val, uma mulher nordestina que deixou sua região para trabalhar como empregada doméstica para uma família rica de São Paulo, é vítima de constantes opressões e julgamentos, principalmente devido à sua origem e classe social, atitudes que são gradativamente normalizadas pela personagem. No entanto, quando sua filha, Jéssica, muda-se para viver com Val, essas visões são veementemente contestadas pela jovem, que se recusa a aceitar essas barreiras invisíveis - mas extremamente rígidas - impostas entre as classes sociais. Paralelamente à realidade pós-moderna em que vivemos, as classes hegemônicas buscam se afastar, por meio de muros - sejam eles concretos ou ideológicos - daqueles que julgam "indignos" de sua companhia, fato não restrito, lamentavelmente, dentro da sétima arte. Dentre essas formas de segregação, a meritocracia é a mais forte e persuasiva forma de desunir a sociedade, sendo o mais podre fruto da ausência de imaginação sociológica.

  Charles Wright Mills, ilustre sociólogo norte-americano, publicou, em 1959, o livro denominado A Imaginação Sociológica. Nessa obra, intitulada a partir da teoria central do livro, Mills destrincha a importância do pensamento crítico e racional acerca da realidade individual, considerando os contextos histórico, econômico, político e social que afetam e são afetados pelos cidadãos simultaneamente. A imaginação sociológica é a capacidade de associar experiências individuais a estruturas sociais mais amplas. Mills descreve isso da seguinte forma no primeiro capítulo de sua obra: "(...) E apesar disso, os homens não definem, habitualmente, suas ansiedades em termos de transformação histórica e contradição institucional. O bem-estar que desfrutam não o atribuem habitualmente aos grandes altos e baixos das sociedades em que vivem. Raramente têm consciência da complexa ligação entre suas vidas e o curso da história mundial."

  Além disso, a meritocracia - palavra que significa "poder do merecimento" - está diretamente relacionada à maneira como a imaginação sociológica é suprimida na contemporaneidade. Esse termo, nos dias atuais, tenta exprimir a falsa realidade de que qualquer indivíduo, independentemente do contexto que o cerca, é capaz de alcançar seus desejos caso se esforce suficientemente. O que é deixado de lado nessa linha enganosa de raciocínio é o fato de que não há equidade nas relações humanas: a grande maioria da população nasce em um contexto sufocante e precisa nadar contra uma maré que é, frequentemente, desfavorável para conseguir progredir em sua vida. Logo, nessa realidade fundada por princípios burgueses e neoliberais, na qual a riqueza aparenta ser o único sinônimo de sucesso em uma vida, são bem vistos aqueles que detêm essa fortuna - mesmo que por herança - enquanto o resto da população, para se provar honroso, precisa vencer os desafios ao seu redor "por mérito próprio". Essa visão é fundamentalmente oposta à imaginação sociológica, por desconsiderar a influência das estruturas sociais na vida dos indivíduos e servir apenas como plataforma para legitimação do poder de uma classe hegemônica e manutenção dessa realidade.

  Para o Direito, é necessário que, na formação de cada jurista, a imaginação sociológica esteja profundamente enraizada em seu conhecimento, a fim de evitar a perpetuação de uma realidade injusta e desigual, rompendo muros ideológicos, como o da meritocracia, que segregam os indivíduos. Assim, quando os operadores do Direito forem capazes de agir veementemente segundo a imaginação sociológica, a sociedade estará mais próxima de se libertar de julgamentos impregnados de preconceitos, como o classismo, o machismo e o racismo estrutural, e, somente então, a deusa Têmis, representada na estátua da Justiça, estará, de fato, vendada.

  Portanto, é notório que, na realidade atual, marcada pela forte segregação entre os indivíduos, especialmente em razão de suas classes sociais, a meritocracia é usada como ferramenta de manutenção do poder de uma classe dominante. Nesse contexto, apenas a imaginação sociológica pode conduzir à emancipação de uma visão de mundo carregada de preconceitos. Assim, realidades como a de Val, vítima do racismo estrutural e da desigualdade social, poderão tornar-se, progressivamente, menos comuns na sociedade.


Pedro Raszl Malerba de Oliveira

1° ano de Direito matutino

Nova Ferramenta na Era da IA: Desinformação por IA nas Eleições de 2024

  A inteligência artificial se encontra cada vez mais presente no cenário global, e as eleições globais de 2024 nos mostram quão impactante a IA pode ser em um cenário político. Com mais de 2 bilhões de eleitores em países com EUA, Índia e na União Europeia, ferramentas como a IA generativa - deepfakes e conteúdos manipulados - espalharam desinformação de maneira inédita. Vídeos falsos de lideres políticos como Joe Biden e Narendra Modi, viralizaram em plataformas plataformas como o X (Twitter) e TikTok, resultando na influencia de opiniões políticas e até resultados eleitorais. Relatórios da ONU e da Comissão Europeia alertam para o risco de polarização e erosão da democracia.

 Essa crise contemporânea ecoa as preocupações de Francis Bacon (1561-1626),  em sua obra Novum Organum (1620) o mesmo identificou os "ídolos da mente" - preconceitos que distorcem o conhecimento humano - e propôs uma "Grande Instauração" para renovar o aprendizado tendo como meio a observação empírica e da eliminação de vieses. Esse ensaio interpreta o caso da desinformação por IA que ocorreu nas eleições de 2024 a luz da teoria baconiana argumentando que os deepfakes representam "ídolos digitais" modernos, e que o método de Francis Bacon oferece ferramentas para o combater.

 Bacon classificou os obstáculos ao conhecimento verdadeiro em quatro categorias de ídolo:

-Da Tribo: distorções inerentes à natureza humana, como a tendência a impor ordem fictícia sobre o caos ou a acreditar em aparências sem verificação. Bacon alertava que "o intelecto humano é como um espelho falso, que, recebendo raios desigualmente, distorce e descolora a natureza das coisas". Nas eleições de 2024, deepfakes exploram exatamente isso: vídeos "realistas" de candidatos dizendo frases manipuladas enganam o público, que assume veracidade baseada em percepções sensoriais.

-Da Caverna: experiências e predisposições pessoais, confinadas como em uma caverna platônica. Bacon observava que cada indivíduo "tem uma caverna ou antro próprio, que refrata e descolora a luz da natureza". No contexto eleitoral, algoritmos de redes sociais criam "bolhas" personalizadas, onde deepfakes são interpretados de acordo com crenças prévias.

-Do Mercado: são erros decorrentes da comunicação imprecisa, onde "palavras impõem-se ao intelecto" e criam confusão. Deepfakes e posts virais exemplificam isso: rótulos como "humor" ou "satírico" mascaram intenções maliciosas, espalhando desinformação como um "comércio falacioso". 

-Do Teatro: "falsas filosofias" ou dogmas teatrais que substituem a realidade por encenações. Bacon comparava-os a peças de teatro, cheias de "mundos fictícios". Nas eleições americanas de 2024, narrativas como "eleições roubadas" (ecoando 2020) foram amplificadas por IA, criando "teatros" conspiratórios que ignoram evidências empíricas.

 Esses conceitos, originalmente direcionados à filosofia natural, revelam-se surpreendentemente aplicáveis à era das inteligências artificiais, onde algoritmos e dados digitais amplificam vieses humanos. O caso da desinformação por IA nas eleições de 2024 ilustra como o progresso tecnológico pode amplificar os ídolos da mente, transformando ferramentas de avanço em vetores de ilusão. Porém as ideias Bacon podem combater os problemas atuais com sua ênfase no empirismo e na indução oferece um roteiro para mitigar esses riscos.

Direito a manifestação e a opressão policial

O direito a manifestação é caracterizado por uma reunião social, em espaço público ou privado, afim de manifestar suas opiniões e pensamentos, podendo também ser utilizado como uma forma de ato político, sendo considerado constitucionalmente como um pilar da democracia brasileira. Entretanto, a garantia dessa prática social é colocada em perigo a partir do abuso de autoridade e práticas de controle incorretas para a situação.

O abuso de autoridade ocorre a partir do momento em que o poder é empregado fora da lei e de forma desproporcional. O ato pode vir a ocorrer por diversos fatores, o mais citado seria a falta de punição por parte do estado e o apoio político que tais agressões recebem do movimento conservador. Porém, para além disso, existe a normalização da utilização da violência policial, infelizmente aceita socialmente como uma forma de proteção contra grupos “violentos”. 

A perspectiva apresentado pelo sociólogo Wright Mills, aborda que quando certos valores estimados pela sociedade são colocados em risco, se inicia uma crise, sendo um problema pessoal ou público. Dessa forma, quando certos valores são questionados a partir de protestos, a primeira reação para o grupo que se opõe à ele e deseja defender seus valores é a opressão. Entretanto, a prática representa uma ameaça aos direitos individuais, o artigo 19 e 20 da declaração universal dos direitos humanos, prevê a legalidade da reunião pacífica e a de se expressar sem interferências, recebendo e transmitindo informações por qualquer meio. 

Portanto, as interferências policiais abusivas em manifestações se caracterizam como um ato infracionario, mas, para além disso, ultrapassa o direito, sendo fomentado pela invisível ameaça aos valores sociais.

Yasmin Moreira de Sousa Paulo,

Turma XLIII, matutino

A Racionalidade Jurídica como imperativo de ordem.

 A sociologia clássica tem desafiado há séculos a compreensão do direito como fenômeno estritamente lógico. Assim, a fim de entender a racionalidade do direito, é necessário enxergá-lo como uma resposta as necessidades da sociedade em que se insere. Para Auguste Comte, o Direito sustenta a estrutura social, medindo sua racionalidade pela capacidade de manter a coesão e o progresso.
 A racionalidade jurídica e científica pode ser exemplificada na atualidade com o caso da regulamentação da IA. O avanço das legislações internacionais e nacionais(PL 2338/23) demonstram a busca por uma "ordem positiva" do direito frente as mudanças tecnológicas. 
 Do ponto de vista da aplicação de Comte, percebe-se o legislador se esforçando para criar uma norma escrita, baseada na observação dos riscos reais. Trata-se da tentativa da sociedade moderna de criar novas normas para um novo fato social.
A racionalidade do Direito, portanto, não reside em uma lógica pura interna, mas em sua aderência à realidade social. Seja na organização técnica de Comte ou na função integradora de Durkheim, o Direito se prova racional quando consegue traduzir a complexidade do mundo — das relações de trabalho às redes neurais artificiais — em um sistema estável que assegura a sobrevivência do corpo social.