{Este texto parte das discussões na mesa chamada "Estamos no Fim do Mundo? Trump, Ecossocialismo, Palestina e Cotas Trans"}
Daqueles que ainda acreditam nos preceitos da bandeira nacional, resta inevitavelmente a dúvida a respeito do método de obtenção e do momento de acontecimento da finalidade do escrito ("Ordem e Progesso").
Resumidamente, pensa-se em como fazer o básico (ou basilar, "a ordem") para atingir o objetivo, "progresso por fim", que tanto pregava Auguste Comte, influência dos militares republicanos brasileiros. Observando, não obstante, o mundo, nota-se que tal suposto progresso não necessariamente ocorre e, ao invés de discordar da prerrogativa comtiana, tal como fizeram brilhantes brasileiros, (a exemplo o bruxo do cosme velho, ou Machado de Assis) procura-se respondê-la em seus próprios meios.
À despeito da ordem, indaga-se, como um aluno errante dos positivistas: está essa no mundo? E na negativa, foge o mundo da ordem ou a ordem do mundo?
Primeiramente, parte-se de uma análise de um positivismo ordenativo: a teoria pura do direito, de Hans Kelsen. Para o autor, a norma parte de si mesma, como boa cadeia lógica, científica e objetiva. E então argui-se o fundamental para a compreensão da relação (ou apreensão da 'relacionante', no sentido de estrutura da interligação apreendida em sua existência) entre o mundo e a ordem: a concatenação ordenativa dos fenômenos é um necessário axioma do entendimento humano. Isto é, a cadeia de eventos e desdobramentos sucessivos é um método de interpretação cognitiva da realidade.
Isto não é novidade, de maneira alguma, uma vez que já defenderam isso Baruch de Spinoza, David Hume, Thomas Hobbes e tantos outros, que a atribuição de factualidade (verossimilhança [o verdadeiro e o falso] e causalidade) são modos de sensação do mundo, tal como a unidade de tempo (por exemplo, para Albert Einstein). O que é demonstrado, em síntese, é que a ordem é obrigatoriamente metafísica, designada para absorver e lidar com a apreensão do sensível, que a ordem serve como elemento de ordenação da própria mente.
Por isso, desdobram-se dois caminhos para a resolução das indagações em negativa: à respeito do mundo fugir à ordem, antes se entende que a materialidade nunca poderia se tornar subalterna a qualquer ordenação, pois mesmo seguindo uma visão hegeliana e idealista de mundo, compreenderá-se que esse atributo abstrato é dependente da consciência ou atitude humana, então o empenho mental ou físico deste será indispensável para que a ordem, utilizando-o de receptáculo, afete o tecido material.
Agora, ao mais interessante, (sobretudo àqueles que presenciaram a palestra "Estamos no fim do mundo? Trump, Ecossocialismo, Palestina e Cotas Trans") responde-se à segunda possibilidade: a ordem foge ao mundo? Três pontos são necessários para desenvolvê-la, primeiro, a metafisicidade da ordem, segundo, a compreensão do mundo, especialmente no molde da "alienação", como discutiram os palestrantes, (em geral um representante do movimento estudantil e político, "Le Magalhães", e particularmente, sobre a hegemonia da mídia [ou cultural, seguindo Antonio Gramsci], o presidente da Federação Árabe-Palestina no Brasil, Ualid Rabah) e terceiro, também abordado na palestra, "Neofascismo".
Sobre a alienação, tem-se como prioridade a análise de deturpação dos sentidos (ou uma ampliação distorcida e selecionada de algumas afetividades) por parte de comentários sociais e culturais que concebem o mundo em uma subjetividade ressentida e indignada unitária, qual busca, isoladamente de outras subjetividades alheias, tal como a norma positiva, o positivismo e toda ciência que busca pela perspectiva pura e objetiva apuração de tudo, (em toda sua ingenuidade e perigo enquanto tal) uma explicação do mundo. Essa construção específica de mundo, em sua essência solitária e, por isso, nebulosa, permite apenas uma opinião limitada e restritiva da sociedade, enxergando de modo acrítico o meio a partir de sentimentos conflituosos sem sua devida reflexão psicológica. Logo, a alienação parte da imperícia intelectual, (de gênese na negligência do ser para consigo mesmo,) e possui como resultado uma perspectiva de um mundo parcialmente inverossímil tomado como totalmente verossímil, um universo paralelo de existência.
Em paralelismo, muito pode ter-se pensado em conteúdos e produções quais, no mínimo, flertam com visões extremistas de direita na promoção de imperativos metafísicos como a moralidade (Deus), a identidade exclusiva (Pátria), e o vínculo afetivo fundamentador e exaltantes de parte intimíssima das relações sociais (Família). Dessa forma, pouco falta para relacionar o ressentimento e seus objetos de preocupação e medo com o último ponto, o Neofascismo.
Todavia, uma digressão. Muito se sabe do horror fascista italiano e do terror nazista alemão, seu lema de "Deus, Pátria e Família", mas pouco se entende de fato de seu caráter metafísico de existência. Quando foi comparada a visão inicial neste texto a "um aluno errante dos positivistas", foi adjetivada "errante", porque qualquer positivista que se preze seguirá afinco a ideia de que "a partir da ciência virá mais ciência", ou pela contraparte jurídica, que a norma define a si própria (independentemente de questões externas, tais como o contexto social ou a estrutura e dinâmica econômico-política), ambas ad infinitum. Em outras palavras, a ordem, enquanto concepção da esfera cognitiva, vem (ou só pode vir) da ordem e resulta em ordem, não vem do mundo nem se direciona a ele (até um ser efetivá-la).
Daí que decorrem todos os fundamentos e encadeamentos lógicos. Em primeiro lugar que, a partir do momento em que o ser humano não é capaz de sentir a nível mundial, está em certa medida alienado mais ou menos deste, necessitando de uma mínima ordenação (nem que da sequência temporal dos fatos) para compreender o meio. Em segundo lugar, à medida que se frustra na desconexão entre o metafísico e o físico (considerando que aquele parte de um entendimento parcial deste), procura entender: o que está errado? Meus valores e perspectivas ou o próprio mundo? Então, em terceiro lugar, uma vez convicto de suas ideias, pois estas carregam o passado (suas memórias, vivenciadas no presente) e a interpretação do momento que vê, crente de que dois universos (o da empiria e o de suas sensações do instante) superam um (o material em sua totalidade), renuncia do real ao paralelo, pois o imaginado atende às suas vontades e perspectivas.
Dessa maneira, a ordem mentalizada é tida como elemento do progresso (ou marcha, considerando o caráter militarístico do nazifascismo) do mundo ao que tanto se deseja, o mundo idealizado e paralelo. Mas aí mora justamente o metafisicismo e o absurdo horripilante dessa ideologia. Na materialidade, em seu caráter "essencial" ou "puro", desvinculados do humano, a ordem e o universo alternativo inexistem, isto é, são nada. Pensa-se no famoso dizer "do nada nada vem", mas, vem aqui a proposição de uma leitura radical (na raiz) disto, de que "do nada vai ao nada". Isso pode ser justificado de algumas maneiras, selecionando duas: pela inércia: o que está parado permanece parado (sem nada de energia cinética vai ao nada de energia cinética); e pelo desejo, qual, pela via spinozista, parte do excesso e, por isso, reflete em mais desejo.
Muito sabe-se que a primeira explicação pode ser muito mais clara para entender a proposta, mas a segunda é fundamental para entender o caráter demasiadamente humano da situação hipotética. Seguindo Georges Bataille (autor de livros como "A Estrutura Psicológica do Fascismo"), a morte se trata de uma interdição do desejo. Encontra-se, deste modo, um fundamento do nazifascismo: a interrupção, o cessar, ou a morte. Como doutrina imersa no campo metafísico em seu mais absoluto desentendimento entre o "sensível" e o "inteligível" (descrição infelizmente platônica, dualista/dicotômica e limitada de mundo; contudo necessária para entender o ideário fascista), nada surpreende que, priorizando a resolução de si em si própria, desvinculada à materialidade, possua como objetivo a existência estritamente metafísica, a completa (e mais niilista, pois abraça o vazio da matéria no campo do ideal) negação da matéria, e, consequentemente, da vida.
Deduz-se que o nazifascismo, justamente por originar do "nada" (a abstração em totalidade, como o mundo ideal paralelo, a ordem e os desafetos pela matéria que foge da "perfeita", ou idealizada, conclusa e morta, concepção do mundo ordenado pelo psíquico) seguirá até o nada, a morte. Ou seja, deseja-se que o mundo "retorne" temporalmente até censurar o incômodo, regressão impulsiva que acarretará, após certo desenvolvimento (pelo menos na mentalidade nazifascistal, ao retorno do instante pré-nascimento; essa ideia é conceituada (em partes) pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud, como "pulsão de morte", isto é, um desejo pela morte, pela paz absoluta (o congelamento de qualquer movimentação, tal como o zero absoluto da escala Kelvin).
Sintetizado, a partir do nada, do vazio, ou da ausência de sensação de uma parte do mundo, promovem-se ferramentas cognitivas que preenchem as lacunas, tal como a ordem, o que será utilizado para a construção de um novo mundo¹ {¹parte disso que é falado pode ser pensado a partir da imaginação composta de Thomas Hobbes, encontrada na metade da seção I (denominada "Dos Homens") em sua notória obra "Leviatã"} na psique, o que permite toda a ação política nazifascista percorrer seu objetivo a morte, o destino é o nada, o vazio, a ausência da sensação de todo o mundo, (e portanto da própria vida). Do nada nada vem, mas do nada se vai ao nada, pelo menos enquanto busca ampliar sua parcialidade até torná-lo absoluto.
Concluir-se irá que, uma vez que a ordem não é concreta (em exceção à sua execução por um corpo humano), o mundo não pode fugir dela, mas ela pode fugir dele. Mas, em maior importância, nota-se que a percepção de que o mundo encontra-se em desordem é uma perspectiva de instabilidade de tudo que, antes sólido, agora se desmancha no ar, o sentimento do medo, angústia, desespero, impotência e paranoia os quais, bagunçam a apreensão do mundo e o raciocínio (pois para Espinosa os "afetos baixos", que partem do medo ou ódio, influenciam negativamente na compreensão e na produção lógica), e abrem terreno fértil para o neofascismo, a ordenação imperativa e absoluta que aparenta subordinar o "caos" e a "degeneração" do mundo à uma "bela" e "coesa" existência, "idêntica" à alienada idealização da realidade, rumo ao "progresso" em direção a um único fim: a morte.
1º ano de Direito – Matutino – Henrique Pinheiro Campanella