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segunda-feira, 4 de julho de 2022

 A eterna contradição humana

  O ser humano é definido por suas contradições. Na literatura, por se buscar a captura simbólica de valores, ideais e ações universais à Humanidade, observa-se a presença recorrente dessa temática. Como exemplo, figura o conto “A Igreja do Diabo", de Machado de Assis, que tem como narrativa principal a tentativa do diabo de fundar uma igreja própria, com regras de sua autoria, baseada em uma negação sistemática das leis divinas. Com o passar do tempo, narra-se como o diabo logo conquista uma vasta legião de seguidores, atraídos pelas facilidades de prática dos vícios em relação às virtudes e fidelizados pela validação de seus impulsos mais animalescos. O resultado final da liberdade de culto de tais valores deturpados, contudo, surpreende o próprio diabo: uma vez que há uma inversão coletiva de princípios, muitos fiéis da nova igreja passam a praticar boas ações, moralmente alinhadas com os valores de outrora, escondidos. Irritado e confuso com as transgressões, o diabo questiona o próprio Deus sobre a motivação incompreensível do homem aos seus olhos, ao que recebe como resposta conclusiva da divindade: “É a eterna contradição humana”.

Nesse sentido, é perceptível como o conflito e a complexidade na formação do indivíduo e na influência de suas ações é amplamente abordada na filosofia e literatura- da filosofia do confronto entre as tendências apolíneas e dionisíacas de Nietzsche à multifacetada construção psicológica do protagonista de “Angústia”, de Graciliano Ramos; abundam exemplos nessas áreas que exploram a complexa teia de relações e influências que constroem o caráter humano e suas atitudes. Em oposição a essa análise de especificidades, na sociologia observou-se por muito tempo uma lacuna quanto a tentativa de compreensão do indivíduo, focando-se demasiadamente no conceito abstrato de coletividade e buscando estabelecer ideais e justificativas generalizadas a grupos muito extensos e plurais. Max Weber, intelectual alemão, foi um dos primeiros teóricos do estudo da sociedade a romper com essa perspectiva: Weber defendia o que apelidara de “sociologia compreensiva”, uma análise pautada no entendimento aprofundado dos valores, contextos e influências culturais que motivariam o sentido das atitudes socialmente significadas, as “ações sociais”. Assim, tecia duras críticas à concepção materialista de tentativa de estabelecimento de uma conduta dos grupos sociais, definindo valores e atitudes generalizadas a todo um grupo pautado na ideia de “consciência de classe”- Weber acreditava que a ciência não deveria tentar “ensinar” os sujeitos, mas sim compreendê-los.

Como constatação do pensamento de Weber, pode-se facilmente perceber no Brasil contemporâneo como muitas vezes um entendimento restrito a um único âmbito da vida dos indivíduos, como a partir de suas classes sociais ou identitárias, pode não ser suficiente: muitos indivíduos agem a partir de interesses que prejudicam diretamente a si próprios e a sua coletividade, motivados por justificativas contextuais e culturais particularizadas. Exemplo nítido dessa situação é o considerável apoio prestado por grupos pertencentes a minorias sociais ao atual presidente Bolsonaro, apesar de suas reiteradas falas e comportamentos que ameaçam a própria existência destes. Frases como “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”1 não impedem que 29% dos LGBTs constituam seu eleitorado2. Sua constatação que “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”3 não impediu movimentos como “Mulheres com Bolsonaro”4. A explicação para tais fenômenos só pode ser construída a partir dos âmbitos psicológicos e culturais dos indivíduos analisados, possivelmente influenciados por uma criação moral conservadora e alinhada com muitos dos valores defendidos pelo presidente, ainda que de maneira contraditória com a sua própria identidade.

Portanto, como observado por Weber, as ações dos sujeitos possuem um sentido que se justifica por valores construídos de forma complexa, por vezes até contraditória. Somente em uma perspectiva compreensiva, atenta ao contexto e às construções simbólicas, é possível traçar uma lógica das ações sociais e, como consequência, das relações que constituem a sociedade- “É a eterna contradição humana”.


¹. “O que Bolsonaro já disse de fato sobre mulheres, negros e gays”, El País, 2018.

<https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/06/politica/1538859277_033603.html>

². “Por que 29% dos LGBTs votam em Bolsonaro?” El País, 2018.

<https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/27/opinion/1540592921_823943.html

³. “Relembre declarações com ofensas às mulheres feitas pelo presidente e a família Bolsonaro”, O Globo, 2022,

<https://oglobo.globo.com/politica/relembre-declaracoes-com-ofensas-as-mulheres-feitas-pelo-presidente-a-familia-bolsonaro-25423642

⁴. “Grupo "Mulheres com Bolsonaro" reúne mais de 440 mil integrantes em dois dias”, Época Negócios, 2018,https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2018/09/grupo-mulheres-com-bolsonaro-reune-mais-de-440-mil-integrantes-em-dois-dias.html >


Isabella Neves- 1º ano matutino

AÇÃO SOCIAL

 Segundo Weber, diferentemente de Durkheim, as pessoas possuem a capacidade de modificar a sociedade a partir de ideais individuais, movidas por ações que elas mesmas estabelecem. Para Weber, os indivíduos influenciam a sociedade, ou seja, as ações e comportamentos não são puramente moldados pela sociedade, eles têm opiniões próprias.

 Espera-se que o indivíduo através da Ação social ‘’influencie’’ uma outra pessoa ou então, a partir dessa ação, interagir com outras. Ainda segundo ele, essas ações são movidas por coisas pessoais, seja motivada pelo lucro, ou até mesmo pelo afeto. Um exemplo seria o de Caetano Veloso, quando compôs a música Tropicália, tinha como ideia movente, a motivação em mobilizar a massa e criticar o regime militar da época.

Essas ações se dividem em:

Costumes, quando motivadas por hábitos pessoais, ou tradições;

Afetiva, quando envolve sentimento, seja ele de amor ou de ódio

Racional, escolhe a melhor maneira de chegar a um objetivo, ou quando movida por um ideal, por política, por religião etc.

Em suma, ele defendia que apesar da sociedade influenciar os indivíduos, eles não são de tudo influenciáveis, são passiveis de gostos pessoais, e vontades individuais de modificar a sociedade, dessa maneira ele contradiz Durkheim, que defendia a ideia de que o meio controlava e moldava os indivíduos.

 


 

Educação e dominação segundo Weber

        O sociólogo Max Weber é responsável pela criação de um método de estudo sociológico chamado de ação social, subdividido em: ação social afetiva, ação social tradicional, ação social racional com relação a valores e ação social com relação a fins (Viana, 2004). Nesse contexto, destaco a concepção de educação formulada pelo pensador alemão, fundamentada na tipologia da ação social e dominação legítima. Para Weber


A dominação, ou seja, a probabilidade de encontrar obediência a um determinado mandato, pode fundar-se em diversos motivos de submissão. Pode depender diretamente de uma constelação de interesses, ou seja, de considerações utilitárias de vantagens e inconvenientes por parte daquele que obedece. Pode também depender de mero ‘costume’, do hábito cego de um comportamento inveterado. Ou pode fundar-se, finalmente, no puro afeto, na mera inclinação pessoal do súdito. (Weber, 1971, p. 128).

 

Partindo do conceito de tipo ideal, Weber constitui três tipos básicos de dominação legítima. A primeira seria a dominação racional-legal, exemplificada pela burocracia, e que tem por fundamento o cumprimento da lei, prescritos por regras estatuídas, além da impessoalidade nas relações, por uma crescente especialização, pela disciplina, pela tendência ao nivelamento, pela plutocratização e por uma crescente racionalização dos quadros e meios administrativos (Viana, 2004). 

Na distopia “1984”, de George Orwell, a burocracia é fundamental para a manutenção do sistema autoritário vigente, em outras palavras, ela é a única materialização do poder. O Grande Irmão nunca é visto, nunca é encontrado. Ele paira como uma legitimação simbólica do sistema, não como uma figura atuante. 

 

“Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado.”

 

O segundo tipo de dominação é a tradicional, que valida o poder exercido por um chefe, tendo como principal exemplo a dominação patriarcal. Por fim, a dominação carismática baseia-se inteiramente na emoção e na crença “cega” a um líder, que acredita-se possuir poderes “sobrenaturais”. Este tipo de dominação não está sujeita às regras tradicionais e é capaz de superar a vida cotidiana, “sua base está no fato deste líder acreditar estar a serviço de uma missão” (Viana, 2004). 

O pensador utiliza-se dessas definições prévias na formulação da educação weberiana, composta por três tipos fundamentais: a) o tipo carismático, b) o tipo tradicional, e c) o tipo burocrático. A relação entre os tipos de educação com os tipos de dominação legítima, evidencia o fato da educação carismática e tradicional serem comuns nas sociedades pré-capitalistas e a educação burocrática é comum na sociedade capitalista (Viana, 2004). 

 

Referências

 

VIANA, Nildo. Weber: tipos de educação e educação burocrática. Guanicuns–Revista da FECHA,(1), p. 117-132, 2004.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 2a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1971. 

 

Sarah de Jesus Silva dos Santos

1° ano Direito - Matutino.

domingo, 3 de julho de 2022

O sangue dos que não se calaram

    Max Weber, sociólogo alemão, foi imprescindível ao materializar a compreensão da sociologia, a qual se difere de uma ciência nomológica. Nesse viés, a concepção sociológica está vinculada a uma percepção da realidade factual, tornando-se objeto de aspiração. Logo, a compreensão sociológica corresponde a uma atribuição de uma explicação de cunho interpretativo que circunda a realidade, divergindo da nomologia.
    Ademais, Max Weber consolida a perspectiva de ação social, tendo em vista que a condução da vida, protagonizada pelos indivíduos que compõem uma conjuntura coletiva, corresponde a uma integração de valores que dependem de uma construção histórica e cultural. Outrossim, o somatório de duas ações sociais revela uma complexa relação social consolidada por meio de uma competição anômica por vontades.
    Do mesmo modo, o sociólogo analisa as matrizes do tipo ideal, conceito que está atrelado à racionalização do real e à noção do objetivamente possível. Logo, o tipo ideal de Weber representa uma referência que pleiteia a compreensão da realidade factual, seja ela um estereótipo idealizado ou um retrato real. Além disso, é notório ressaltar que os valores inerentes à ação social permeiam a gênese e a criação de um tipo ideal, visto que a construção cultural corresponde a um artifício basilar para a formulação dos valores supracitados.
    Weber também analisa as matrizes teóricas de uma relação de dominação, tendo o exercício do poder como recurso intrínseco. Sendo assim, o sociólogo caracteriza o poder como a imposição da própria vontade em uma relação social, anulando e omitindo a manifestação da vontade de terceiros reprimidos socialmente. Sob essa ótica, a definição de dominação equivale a um relacionamento de obediência e de coerção, tendo, como consequência, a consolidação da legitimidade, aspecto que corrobora a aceitação da dominação, seja por motivos racionais ou por motivos atrelado ao carisma, compondo a concretização de um cabresto social. Portanto, a racionalização do poder e da dominação é materializada por meio do direito, o qual atribui uma expectativa de um tipo ideal vinculado a uma conduta desejada. 
    Ambientada no cenário brasileiro, a Ditadura de 1964 corresponde a um golpe executado pelos militares que não só infringiu a luta democrática, mas também transgrediu os direitos humanos devido às brutais torturas e aos impiedosos homicídios. O período ditatorial brasileiro é demarcado pela ininterrupta censura, violando a liberdade de expressão dos civis e silenciando todos os indivíduos que se opunham ao comportamento coercitivo dos ditadores e do exército. Nesse viés, como alternativa resolutiva vinculada à censura dos revolucionários, os militares impunham sua própria vontade por meio da exprobração inerente aos atos da vida civil, concretizando, no imaginário individual, uma admissão desse estado autoritário, e por meio da censura física, tendo em vista que a tortura, bem como o desaparecimento dos manifestantes, eram medidas que firmavam o poder dos militares e silenciavam os revolucionários.
    Desse modo, a concepção weberiana de poder é elucidada pelo comportamento coercitivo do exército ditatorial, alicerçando a dominação representada pelos opressivos militares e consolidando uma relação de obediência protagonizada pelos oprimidos civis. Cabe salientar que a questão da legitimidade, conceito proposto por Weber, estava explícita em situações vinculadas à aceitação social da postura dominatória dos militares, visto que a ausência de contestação ou oposição à Ditadura legitimava o poder e a dominação dos ditadores. Entretanto, os guerrilheiros que desprezavam o opressivo comportamento militar são antagônicos à perspectiva de legitimidade weberiana, preterindo a dominação e renunciando a censura. É imprescindível ressaltar que os revolucionários que contestavam o cunho coercitivo ditatorial eram as principais vítimas desse sistema cruel e nefasto, sendo silenciados por meio da tortura e dos homicídios.
    Portanto, a título de exemplificação, cabe reiterar a obra musical de Chico Buarque intitulada como “Cálice”. Sob essa perspectiva, o autor elucida, fazendo uso de metáforas ambíguas, como o regime autoritário é prepotente sobre os civis, tornando-os vítimas silenciadas pela dominação coercitiva executada pelos militares. Logo, no trecho “beber dessa bebida amarga” corresponde às dificuldades de viver nesse cenário autoritário e permanecer inerte nessa situação, sendo constantemente calado pelo exército. Em suma, beber do cálice de Chico Buarque correspondia ao ato de beber e usufruir do sangue dos indivíduos que lutavam contra a ditadura.

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Pai, afasta de mim esse cálice, pai
Afasta de mim esse cálice, pai
Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta

Nome: Maria Yumi Buzinelli Inaba 
1° ano Direito - Matutino

TIPO IDEAL

 

TIPO IDEAL

Max Weber, a respeito de seu conceito sobre fato social discorre que o fato social de um individuo compreende-se pela sua interação com a realidade, assim o individuo é o foco do estudo de Weber.

Essas chamadas ações sociais são influenciadas majoritariamente pela cultura, diferente de Marx que acreditava que a maior influencia partia do fator econômico da pessoa. Consoante Max, o local no qual a pessoa esta inserido cria possíveis característica que se esperam daqueles desse tal local, isso ele denomina como tipo ideal (simplificação e generalização da realidade.), é válido pontuar que não é o que a pessoa é, mas que ela poderia ser. Por exemplo, se colocássemos em uma situação hipotética que há duas pessoas, uma mora em um condomínio de alto padrão e a outra mora em uma periferia e pontuássemos que uma escuta MPB e a outra escuta Funk, a conclusão precipitada que se obteria é que o morador do condomínio escuta MPB e o morador da preferiria escuta Funk. Isso não significa que todos que moram na periferia realmente escutam funk e vice e versa, contudo devido ao local e a cultura que essas pessoas estão inseridas, pressupõe-se determinados gostos e ações.

Analisando-se fatos particulares é notado fatores em comum de certas pessoas em certos lugares, todavia, apesar de muitas vezes essas afirmativas serem compatíveis com a realidade é necessário atenção pois pode-se criar falsas noções e julgamentos baseados em generalizações muitas vezes preconceituosas.

A constante anomia na sociedade contemporânea - Durkheim

 O sociólogo francês Émile Durkheim, considerado o pai da sociologia, possui, por meio de sua teoria funcionalista, o objetivo de explicar a sociedade, com suas ações coletivas e individuais. Para ele, a sociedade molda o indivíduo e exerce sobre ele uma coerção social no modo de agir e se comportar, visando a continuidade do funcionamento da sociedade como um organismo vivo e complexo, no qual todas as partes, ou seja, todos os indivíduos, devem cumprir seus papéis e funções para o pleno funcionamento do todo.

Caso haja interrupção dessas ´´regras``, que regem os indivíduos,  um estado de anomia será criado na sociedade e ela perderá sua plenitude de funcionamento. Nas sociedades atuais, há uma mudança nos modos de produção (estabelecendo uma nova divisão social e uma intensa urbanização), o que complexifica seu funcionamento, transformando sua moral e suas tradições. Desse modo, a sociedade enfraquece suas estruturas que orientam as ações dos indivíduos e, tal ausência de ´´regras`` e controle social cria um estado anômico, no qual os indivíduos passam a ser individualistas e seguir seus próprios interesses, deixando, em segundo plano, os interesses coletivos.

Tal anomia se encontra presente na contemporaneidade com o excesso de informações e complexidade da vida moderna. Nesse contexto capitalista, acelerado e urbanizado, os interesses individuais superam, e muito, os coletivos, assim, ações como corrupção, crimes políticos e destruição do meio ambiente tornam-se, cada vez mais, constantes e absurdos.

 Segundo a análise sociológica weberiana, o sociólogo deveria interpretar e compreender as ações sociais dos indivíduos. Estas, movem a conduta de vida, e possuem sempre um sentido que contribui para uma finalidade. Além disso, Weber destacava que as ações sociais são formadas a partir de valores, os quais divergem conforme os contextos nos quais os indivíduos estão inseridos. 

Ademais, diferentemente de Marx, Weber acreditava que a cultura- síntese de todos os valores do indivíduo- possui tanto ou mais influência no modo de agir do que a economia e o sistema de produção. Desse modo, ao analisarmos os casos de letalidade policial no Brasil, percebe-se a interferência dos valores nas ações dos agentes de segurança pública, os quais, majoritariamente, utilizam-se dos tipos ideais que consideram verdadeiros para basearem suas atividades.  

Nessa perspectiva, ao determinar para si, que homens, negros, jovens de classe baixa e moradores da periferia têm maior probabilidade de cometer crimes, os policiais, influenciados pelos próprios valores, agem de modo agressivo e violento contra esse tipo ideal estabelecido- razão pela qual, a maioria das vítimas decorrentes de intervenções policiais são pessoas cujas características se enquadram nessas.  

Diante disso, constata-se, atualmente, que por meio da análise de Weber, podemos compreender a manutenção de diversas ações na sociedade, as quais são fundadas e moldadas por valores e pelo contexto em que os indivíduos estão inseridos.

Constrói e se Refaz com Base no Social

            De maneira a contrariar a tradição dos primeiros sociólogos que, até então, focavam suas analises da imagem de sociedade como um corpo em geral, Max Weber, jurista e economista alemão, foca suas considerações acerca do indivíduo buscando analisa-lo de acordo com todos os mecanismos sociais que o cercam. Nesse sentido, Weber faz uso do conceito de “Tipo Ideal”, referente a como um ser pode ser visto de forma idealizada, não correspondendo, de fato, a como ele se apresenta de maneira real, corroborando a ideia de que os indivíduos não podem ser colocados em caixas que os tipifiquem diretamente, uma vez que esses sempre conterão traços de outros “Tipos Ideais”. Nesse interim, o individuo aqui se colocaria como produto final de peças de blocos de montar, composto de inúmeros fatores, não só – mas também – relacionados ao trabalho, como igreja, família, escola, região, cultura, sendo peças, e mesmo com claras instruções – Tipo Ideal – rotuladas na caixa, podem-se formar inúmeros outros produtos finais. Dessa forma, faz-se imperioso analisar como o Tipo Ideal se difere do Real, assim como suas implicações no campo do mercado laboral.

            Nesse sentido, primeiramente, Weber discorre acerca do Tipo Ideal e sua discordância no plano real. Dessa forma, segundo uma visão Weberiana, o Tipo Ideal se coloca quando se imagina, por exemplo, características de um determinado grupo, pautadas em traços como roupas, ideologia, religião, costumes, entre outros, dessa maneira, idealiza-se certa pessoa por participar de determinado grupo com essas características. No entanto, Weber traz a ideia de que essas características postuladas aos grupos não se afirmam, com exatidão, no plano real, isso se dá uma vez que os indivíduos, como seres diversos, preservam em si “Blocos”, como em legos,  que não necessariamente se encaixam ao ideal pensado ao grupo na qual ele pertence, dessa maneira, por exemplo, ao se imaginar um profissional das artes cênicas, envolvidos com questões humanísticas, não se espera que este tenda a questões relacionadas com pautas do campo político da Direita, contudo, materialidade este fato é encontrado em Regina Duarte. Assim, observa-se que o Tipo Ideal de Weber se encontra na ideia de que os “Blocos” idealizados na construção de determinado grupo não se refazem com exatidão no indivíduo, uma vez que, dada sua formação compartilha de várias características de acordo com os mecanismos sociais que o cerca.

            Ainda, tendo visto a questão do Tipo Ideal, é preciso contextualizado no campo do mercado de trabalho. Nesse panorama, tal perspectiva é uma critica de Weber ao Ideal de Classe Trabalhadora postulada por Marx e Engels, que colocavam a massa trabalhadora como grupo que detinha dos mesmos ideais, e não como um corpo heterogêneo em propósitos e culturas. Nessa continuidade, Weber coloca o Trabalho como uma, e não a única, característica que compõe um dos “Blocos” de formação do ser, considerando que o individuo leva ao trabalho demandas inerentes a sua cultura. Com efeito, observa-se que o Tipo Ideal Marxista, de uma Classe unida em ideais pró socias, e o Tipo Ideal Burguês, de uma classe mecanizada, não são correspondidos, em nenhuma das faces, de forma completa. Dessa maneira, pode-se analisar a cultura e formação do indivíduo, colocada por Weber, pode ser uma forma de resistência ao mundo Capitalista de Produção Idealizado pelo lado Burguês, tal panorama pode ser reiterado por manchetes comuns ao Brasil contemporâneo que retratam um cenário no qual o ser um “Ser Humano” com necessidade, fome, doenças, pensamentos é coibido pelo ideal de maquinas mudas e inexpressivas: “Trabalhador é morto no RS após tomar café fora do horário determinado, A Sulcromo, de São Leopoldo, onde ocorreu o crime, tem histórico más condições de trabalho, diz sindicato dos metalúrgicos, em nota de repúdio. A nota exige que o crime seja apurado e punido” Redação CUT 07/2022; ADOECIMENTOS E MORTES NO MERCADO A depredação do trabalho no Brasil A despeito da gravidade e da abrangência, a relação entre saúde e trabalho é um assunto normalmente pouco destacado na cena política LE MONDE DIPLOMATIQUE, Acervo Online | Brasil por Vitor Filgueiras 03/2018; VERGONHA E RAIVA NA FILA DA FOME Uma psicóloga conta mudanças na rotina de atendimento em um centro de assistência social cuja fila agora tem de engenheiros a artistas desempregados, Olga Jacobina, REVISTA PIAUI, 05/2022;  Prefeitura de Araraquara é obrigada a explicar atestados negados Município negou atestados e descontou salários de servidores que se afastaram por terem casos de covid-19 na família Com informações da CBN A CIDADE ON/Araraquara – 06/2022; Falta de segurança e desrespeito ao ser humano é rotina nas agências do Bradesco CONTRAFAT CUT,05/2017; A precarização do trabalho e os “frilas fixos” Edição 863 por Phellipe Marcel da Silva Esteves, OBSERVATORIO DA IMPRENSA, 08/2015. Os dados caos, referentes a condições de trabalho e questões culturais, revelam a diversidade referente ao real dos Tipos Ideais, revelando como muitas vezes, o próprio ser humano é rejeitado em casos trabalhistas no qual o ideal é ser máquina.

            Depreende-se que, portanto, o Tipo Ideal de Weber monta o indivíduo com caraterísticas estigmatizadas que, assim como blocos em jogos de montar, revelam passo a passo para formação de determinado individuo de um certo grupo social, no entanto a factibilidade deste Tipo Ideal não se faz materializável uma vez que esses mesmos blocos se reorganizam, em razão de questões religiosas, familiares, culturais, que formam o indivíduo de formas diferentes das previstas no plano ideal. Destarte, para Weber o ser é colocado como objeto principal na produção da Sociologia Compreensiva, sendo necessário olhar de maneira ampla para o ser, e não se limitar a uma imagem produzida pela embalagem, contendo o Tipo Ideal. Logo, o Indivíduo, para Weber, assim como lego, se constrói e se refaz com base no social. 

Retirado de : <https://education.lego.com/pt-br/>

Assim como o Tipo Ideal, o jogos de montar se apresentam com manuais cujo intuito é dar resultado ao produto estimado a principio e assim postulado pelas características do Tipo Ideal, montando todas as características corretamente, os blocos dariam origem ao Ideal.


Retirado de :< https://www.lego.com/

Entretanto, dada a grande quantidade de peças, pode-se ter a formação de diversos produtos finais, inclusive com os mesmos blocos - características- em composições diferentes e até mesmo destoantes.


Larissa Vitória Moreira - 1º Semestre de Direito Noturno - UNESP Franca

Weber e sua relação com o direito no Brasil

 Weber, em sua obra, cria uma ruptura em relação ao conceito de sociologia presente em Émile Durkheim, pois enquanto Durkheim trabalhava a sociologia no mesmo patamar das ciências naturais, buscando uma total objetividade da mesma, Weber inaugurou o conceito de objetividade possível. Para o sociólogo, seria impossível separar a mínima subjetividade na produção do conhecimento humano, ou seja, para Weber, o cientista social necessitaria buscar ao máximo essa objetividade, mas ela nunca alcançaria em sua totalidade.


Já na sua teoria em si, para Weber, a ação individual (a qual ocorria na relação do indivíduo com a sua cultura) era a melhor forma de análise da sociedade. Nesse sentido, Weber tem como método o que ele denominou “tipo ideal”. Trata-se de uma estratégia para analisar as causas das ações sociais, isto é, para compreender as interações que os indivíduos mantêm entre si formando um “emaranhado social”, ou seja, um corpo social. Dessa forma, esse tipo ideal, carregado por juízo de valor do próprio pesquisador, sem, no entanto, comprometer a objetividade do conhecimento, entrará, por sua vez, em conflito com os fatos reais. E é justamente nessa comparação que se obtém a verdade científica.


No campo do direito, para Weber, a dinâmica de racionalização deveria ir do material para o formal, reduzindo as decisões a princípios tecnicamente pré-determinados e o estabelecendo um sistema de regras com lógica interna, de modo que toda decisão jurídica seja a aplicação de uma disposição jurídica abstrata a uma constelação de fatos concreta; que para todo fato concreto deva ser possível encontrar, com os meios da lógica jurídica, uma decisão a partir das vigentes disposições jurídicas abstratas; e que, portanto, o direito objetivo deva constituir um sistema sem lacunas.


Apesar do conceito parecer utópico, a ideia de um direito sem lacunas é retirada pelo próprio código civil brasileiro. Uma vez que ele traz uma ideia de que “não há lacunas porque há juiz”, dado que caso não haja lei específica para algo, o juiz deve se utilizar das morais e dos costumes para julgar um caso. Logo, é possível afirmar que essa análise do Direito é pertinente à modernidade do Brasil.


Paulo Henrique Illesca Da Costa


 Max Weber e a Dominação


Para Weber, a ação social é executada pelos indivíduos, dando sentido à existência social ou seja há uma intencionalidade sobre a ação social. Não sendo possível substituir uma ação que não tenha racionalidade e objetivo. Muitas vezes esse objetivo é a dominação.

De acordo ele, há dominação legal ou dominação burocrática, a qual estabelece normas estatutárias, hierarquia funcional, administração baseada em documentos, demanda por aprendizagem profissional, exigência de rendimento . A segunda forma de dominação é a tradicional que é baseada na autoridade, normas (fundadas na tradição) e estabilidade pela tradição e consciência coletiva.. E por fim a dominação carismática, que é exercida por autoridade e normas arbitrárias ou subjetivas (dependendo do líder). 

A dominação legal , para Weber segue os contratualistas, portanto um pacto, um acordo entre todos membros da sociedade, que se submete à um conjunto de leis e regras. Nesse sentido, o Estado é o sujeito das ações sociais que subordina o povo à sua autoridade para próprio bem desses. Não é atoa que o Estado detêm o monopólio da força de forma legal. Para ele, se as pessoas não fossem violentas não seria necessário, o Estado como instituição. 

Na dominação tradicional, o que há é uma relação moral implícita em que os valores morais, conferem a tradição do poder por exemplo do patriarcado. Outros exemplos, segundo Weber, são a autoridade divina de Deus e o poder conferido por ele à um sacerdote, para ser seu representante. Nesse tipo de liderança, no patriarcado, como citado, a figura do patriarca é tradicionalmente obedecido, porque exerce um poder. Assim,  a tradição faz esse tipo de dominação se perpetuar em determinadas sociedades.

Na terceira e última forma de dominação, que é a carismática, ocorre pela influência do carisma que uma pessoa pode ter e mobilizar pequenos grupos ou até multidões. O que ocorre, é que as pessoas ficam submetidas e devotas ao líder que tem carisma,  não apenas por sua liderança, mas há também certa crença e fé nesse tipo de liderança. Nessa linha, há certo misticismo sobre o líder, porém é um tipo de dominação instável, pois pode haver uma quebra de expectativas e encanto sobre esse líder. Pode-se citar Antônio Conselheiro em Canudos, Hitler na Alemanha nazista e Mahatma Gandhi na Índia (quando era colônia Britânica). 

Desse modo, as relações sociais estão no cerne do contexto dos interesses por poder e até mesmo da economia. Havendo uma aceitação entre dominantes e dominados. E no período moderno, de acordo com Weber há um desencantamento com o mundo, na forma que se dão as relações de poder pela racionalização e pela burocracia, enfim na forma que o Estado e a gestão dos negócios privados exercem seu poder, de modo impessoal, perante a sociedade. Enfim, no modo em que o mundo é manipulado pela razão e mecanização das relações sociais. 


Joel Martins S. Junior

1º Ano de Direito - Noturno



Sociedade do Tipo Ideal e a Ameaça à Democracia

Título: Sociedade do Tipo Ideal e a Ameaça à Democracia

Tese: A utilização do tipo ideal na desconstrução da democracia

     Segundo Weber, todo coletivo dentro de uma sociedade compartilha de um conjunto de valores morais e quando este grupo se mobiliza por meio de uma ação social, seu objetivo é impor um tipo ideal (representação do indivíduo que é composto por todos os valores presentes no coletivo em questão, por isso seria ideal) em um outro indivíduo ou outro coletivo que seria considerado subversivo a partir da ótica do grupo, com o intuito de ir moldando um projeto de sociedade considerada ideal.    

    Atualmente, há um aumento na incidência de manifestações conservadoras no território brasileiro e nas redes sociais. Tal expressão política, geralmente, vem acompanhada junto de valores cristãos e conceitos morais que, mesmo sendo individuais, representam um coletivo através de criações comuns dentro dos núcleos familiares. Esse sentimento coletivo de compactuação de valores por um grupo de pessoas, em pequena escala, possui uma inteferência apenas em no âmbito privado de cada indivíduo que compõe este grupo, porém, em maior escala, essa expressão política, por meio das ações sociais, pode tomar proporções maiores ao ponto de tornar o seu projeto de sociedade ideal em algo que afete toda a sociedade brasileira, como exemplo disso, a escolha de representantes políticos com discursos extremistas propondo uma salvação da sociedade ou dizendo que nos dias atuais a sociedade está sofrendo uma desvirtuação em massa dos valores cristãos e da família, tem se tornado muito mais frequente.

    A presença de representantes políticos escolhidos apenas pela ideologia e pelo tipo ideal que se pretende projetar na sociedade, acima de qualquer outra qualidade que deve estar presente em um político voltado para o povo como um todo, é um fator crucial para ser analisado quando a saúde da democracia está em questão. Mesmo que Weber compreenda que seja um movimento natural do ser humano realizar ações sociais movidas por valores em prol de um tipo ideal, é de extrema importância também perceber que, quando a influência destes valores se torna decisivo dentro do meio político-representativo, passa a se tornar prejudicial para as estruturas democráticas, pois, quando o principal objetivo de um representante político passa a ser injetar um tipo exemplar de indivíduo baseado em valores que não são universais, a segregação e abuso do Estado em prol deste objetivo passa a ocorrer com mais frequência.

    Portanto, a presença no discurso político do objetivo de impor um tipo ideal na sociedade como um todo passa a se tornar uma ferramenta para ganhar apoio popular em decisões totalmente segregacionistas e anti-democráticas no que dizem respeito ao respeito das diferanças morais, culturais e individuais que compõem uma sociedade.