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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Negociando o inegociável: O movimento antivacina pela ótica weberiana

 O movimento antivacina, que tem feito doenças já controladas como o sarampo e a pólio ressurgirem, é mais do que apenas falta de informação. A escolha de não se vacinar não é um ato isolado ou sem lógica, o indivíduo age com base em um sentido subjetivo, ou seja, ele tem suas próprias motivações, convicções e crenças inegociáveis, podendo ser guiado ainda por medo, desinformação ou a prática do grupo no qual está inserido. É uma ação social, orientada pelo comportamento do outro ou mesmo instituições de sua confiança, não apenas um reflexo inconsciente.


Normalmente, em uma sociedade guiada pela norma, seguimos as regras de saúde porque confiamos no que Weber chama de dominação racional-legal, a crença de que as leis e os regulamentos do Estado nos são válidos e fazem sentido. A questão do movimento antivacina é que ele representa uma quebra nessa legitimidade, pois quando um grupo deixa de acreditar que a regra do governo seria a correta isso representa o fim da obediência. Muitas vezes essa escolha é uma ação racional baseada, por exemplo, em seus valores. Para essa pessoa, a ideia de liberdade individual ou de pureza do corpo lhe é um valor tão sagrado que ela prefere segui-lo mesmo que isso traga riscos de doenças.


Na pandemia de COVID-19 pudemos ver com a dominação carismática, a crença em líderes e figuras de autoridade para determinados grupos, moldou a recepção e ação frente às campanhas de vacinação e de isolamento. Muitos pararam de ouvir as instituições oficiais para seguir líderes que inspiravam uma confiança pessoal e heróica que desencorajam a adesão a essas normas. Suas falas passaram a valer mais do que a norma e indicações de órgãos de saúde mundial para enfrentamento da crise que deixou milhões de mortos. 


Os desdobramentos dessa fixação ainda podem ser vistos hoje, afinal a crença em discursos que desencorajam a adesão aos calendários de vacina, como a de que vacinas causam autismo, ataques cardíacos e mal súbito, atrapalha o que Weber chama de calculabilidade. Se para a segurança da população o governo precisava ser capaz de prever que elas iriam se vacinar para barrar e prevenir a dispersão de doenças, quando essa previsão falha o sistema entra em crise.


Na tentativa de solucionar o problema através da burocracia, o Estado e seus órgãos de saúde agem com impessoalidade, tratando tudo de forma técnica e documental, sem colocar emoção nesse trabalho ou entender e combater a raíz do problema, e essa tentativa pode ampliá-lo, uma vez que essa frieza da burocracia pode gerar ainda mais afastamento com o cidadão comum. Se o indivíduo não vê sentido naquela regra técnica, ele acaba buscando abrigo ou sendo cooptado por discursos mais emocionados, e é aí que o movimento antivacina ganha força.


Jordana Queiroz Dias (noturno)

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