Quarta-feira, 03/11/2025
Para iniciar a história, antes precisarei dizer que nunca tinha escrito algo assim antes, não pela negligência de minha parte ou escolha pessoal de não mencionar tal percepção, mas sim pois desconhecia tal viés e sentimento, que há uns dias atrás se apresentou a mim, e não pude ser a mesma a partir disto.
Pois bem, a uma semana atrás, estava na casa de minha amiga Julia, a que já mencionei a um tempo atrás, temos ficado bem próximas ultimamente e nesse dia havia sido a segunda vez que tinha ido passar a tarde de sábado na casa dela. Compartilhamos dos mesmos gostos, jeitos e quase sempre opiniões.
Quando tinhamos acabado de ver um filme, ela pegou o celular e tirou umas fotos para registrar o momento, e como quase todos fazem, ela tirou várias fotos para ver qual ficaria melhor para postar no feed do Intagram. Até dar o tempo dela escolher, fui na cozinha e peguei alguns laches que havia trazido para nós, organizei as bebidas e levei até o quarto. Sentei e organizei na mesinha que havia no centro do quarto nossa lanche pós filme, mas percebi que ela não deu muita atenção para esse momento de se alimentar, mas pensei "há, ela está dando o seu melhor para escolher a foto e na edição também". Então comecei a me servir e peguei o meu celular e também comecei a mecher enquanto comia.
Então se passaram minutos, depois meia hora, e quando me reconectei ao ambiente novamente, Julia estava ainda trabalhando com a tal foto, olhei e ela não havia tocado em nenhuma fatia de bolo ou biscoito. O suco que havia posto para ela, estava intacto e na mesma quantidade.
Olhei para ela novamente e comecei a observar: ela troca a legenda três vezes. Apaga uma foto porque recebeu poucas curtidas. Publica um story apenas para que uma pessoa específica veja. Escolhe não comentar em determinado assunto para evitar críticas. Percebi então que ela passou quase trinta minutos olhando para tela tentando deixar perfeito ao olhar alheio uma foto que já estava bonita desde de o primeiro clique. O problema nunca foi a foto. O problema na realidade era imaginar quem iria vê-la. A forma de escrever, de se apresentar nas redes, o medo da rejeição pode er tão forte que a pessoa prefere abrir mão da própia autenticidade para ser aceita. Com o tempo, ela pode até esquecer quais escolhas realmente seriam suas, porque sempre viveu tentando corresponder às espectativas alheias.
Naquela tarde, percebi que talvez a liberdade de escolher nunca tivesse sido tão influenciada pelo olhar do outro. Até o silêncio parecia uma forma de comunicação. Talvez viver em sociedade seja justamente isso: agir pensando que alguém está olhando. Repugnei a Julia, porém nas horas seguintes me identifiquei com a mesma ação que havia observado nela naquele dia, já havia repetido isto várias vezes, mas sem perceber, e com o objetivo de agradar os outros, ser vista.
Então passei a refletir que, passei anos dizendo que fazia minhas própias escolhas, analisando como elas eram, um corte de cabelo, um estilo de roupa, a forma de falar ou até mesmo as músicas que ouço, acabam sendo influênciadas pelo coletivo que tenho contato. E hoje, me pergunto: quantas delas realmente nasceram de mim, e quantas só exixtem porque havia alguém para observá-las?
Talvez nós nos movemos não pelo que queremos, mas pelo a expectativa que criamos em ser aceitos. Espero chegar um dia ao qual todos, em quanto sociedade, se desloquem de suas casas, rotinas, afazeres, etc., não para seguir a vontade padrão, mas para seguir seus própios gostos. Será que isso seria possível? Bem, sinto que isso está enraizado na sociedade de tal forma que acaba degradando qualquer expressão de liberdade que nos apareça.
Enfim, ficarei refletindo nisto por bastante tempo, mas que tudo isso foi bizarro de se quebrar a cabeça pensando, foi.
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