Total de visualizações de página (desde out/2009)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O movimento antivacina sob a ótica de Max Weber

    Longe de representarem manifestações aleatórias, a postura e as declarações do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia podem ser compreendidas, à luz de Max Weber, como ações sociais orientadas simultaneamente por valores, fins e afetos. Para Weber, a ação social é aquela à qual o indivíduo atribui um sentido e que se orienta pela conduta de outros. A declaração de que, caso alguém tomasse a vacina da Pfizer e "virasse um jacaré", mobilizou afetos ao produzir medo e desconfiança, relacionou-se a fins ao contribuir para a mobilização de sua base política e para o confronto com medidas adotadas por governadores, e expressou valores ao enfatizar a liberdade individual e a autonomia do corpo diante da intervenção estatal.

    Esse discurso também evidenciou uma tensão entre a dominação racional-legal e a dominação carismática. Enquanto instituições como a Anvisa, o Judiciário e autoridades sanitárias fundamentavam sua autoridade em normas, procedimentos técnicos e conhecimentos especializados, Bolsonaro construía sua legitimidade política a partir da identificação pessoal de seus seguidores com a figura do líder "anti-sistema". Para Weber, a dominação carismática baseia-se na devoção à pessoa do líder e no reconhecimento de suas qualidades consideradas excepcionais. Ao questionar a segurança e a eficácia das vacinas e a autoridade das instituições científicas, seu discurso contribuía para deslocar o critério de confiança da autoridade técnico-burocrática para a liderança carismática.

    No plano ético, a conduta pode ser analisada a partir da oposição weberiana entre Ética da Responsabilidade e Ética da Convicção. Em uma crise sanitária, a Ética da Responsabilidade exige que o governante considere as consequências previsíveis de suas decisões sobre a coletividade. Já a Ética da Convicção orienta a ação pela fidelidade a princípios considerados absolutos. Nesse sentido, a defesa da liberdade individual e a oposição às medidas sanitárias podem ser interpretadas como uma priorização de convicções políticas e morais, sem considerar suficientemente as possíveis consequências coletivas de seus discursos e decisões.

    A influência desse discurso sobre a população, contudo, não ocorreu de forma mecânica. Para Weber, a ação social depende do sentido atribuído pelo próprio indivíduo à sua conduta. Assim, a decisão de rejeitar ou aceitar a vacinação pode ser compreendida a partir de diferentes motivações, como medo de possíveis efeitos adversos, desconfiança das instituições, identificação política e sentimento de pertencimento a determinado grupo. A liderança carismática, nesse contexto, poderia reforçar essas disposições ao oferecer uma referência de confiança alternativa à autoridade técnico-científica.

    Assim, sob uma perspectiva weberiana, o discurso antivacina de Bolsonaro não deve ser entendido apenas como manifestação de opinião individual, mas como uma forma de ação social que articulou valores, interesses políticos, afetos e carisma. Por ocupar a posição de chefe de Estado, sua fala possuía alcance e responsabilidade maiores, podendo influenciar comportamentos para além de sua própria base política. Na prática, a priorização da Ética da Convicção em detrimento da Responsabilidade teve custo mensurável, projeções de cientistas da Fiocruz e da UFPel indicam que entre um terço e quase metade das mais de 600 mil mortes registradas no país poderiam ter sido poupadas caso o governo federal tivesse liderado uma campanha célere de vacinação e conscientização pública.

Daniel Leonel Alvarez- 1º Ano | Direito - Matutino.

Nenhum comentário:

Postar um comentário