Este é um espaço para as discussões da disciplina de Sociologia Geral e Jurídica do curso de Direito da UNESP/Franca. É um espaço dedicado à iniciação à "ciência da sociedade". Os textos e visões de mundo aqui presentes não representam a opinião do professor da disciplina e coordenador do blog. Refletem, com efeito, a diversidade de opiniões que devem caracterizar o "fazer científico" e a Universidade. (Coordenação: Prof. Dr. Agnaldo de Sousa Barbosa)
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quinta-feira, 28 de abril de 2011
Física Social e o Regime Positivo
Alicerce na educação
No Positivismo, então, Comte baseia seu discurso, centrando suas ideias no príncipio de "Ordem e Progresso", o qual seria a finalidade da ciência.Porém, como ele mesmo reconhece, aplicar essa linha de estudo não é possível, de maneira plena, à "física social". Os fenômenos sociais, por serem inúmeros e tendentes a mudanças não podem ser compilados em um paradigma, como o Newtoniano.
Sua defesa de uma nova classe de cientistas, "preparados por uma educação conveniente" que procure analisar as ciências no que tange aos seus aspectos comuns e nas relações que estabelecem entre si soa falha, uma vez que, embora sjea útil o conhecimento dos padrões a que estão submetidas, parece desconsiderar as particularidades de cada uma, o que pode comprometer sua correta e integral compreensão.
Um aspecto válido apontado por Comte é a reformulação da educação, descartando ou, ao menos, colocando-as em segundo plano, a Teologia e a Metafísica e concentrando os esforços no real, no concreto, no Positivo.Se o objetivo de uma sociedade é, de fato, estabelecer a Ordem e o Progresso, é na educação que encontrará o caminho mais curto.
Do pensamento mecanicista ao sistêmico
Descartes introduziu o pensamento de que o mundo funciona como uma máquina, o homem funciona como uma máquina... Desse modo, ao desmontar o todo em pequenas partes, estudá-las e colocá-las novamente juntas seria possível entendê-lo. Entretanto, essa perspectiva mecanicista não cabe no contexto contemporâneo, pois os fragmentos não são independentes, mas interligados.
Para exemplificar sua visão, a cientista traz à reflexão a questão do enfarto: a medicina interventiva desenvolveria corações novos para serem implantados e removeria os enfartados, já a medicina preventiva cuidaria dos procedimentos necessários para evitar a obstrução de artérias. Essa segunda maneira de lidar com o problema é a nova percepção do mundo.
Um ponto relevante da discussão entre as personagens é a dificuldade que as pessoas têm em aderir a uma nova visão. O livro, em que se baseia o flme, foi publicado há algumas décadas, mas ainda hoje estamos como o político, buscando um ponto de partida para começar a resolver os problemas, enquanto deveríamos questionar e perceber que os erros estão na maneira de enxergarmos e julgarmos o mundo.
Mentes reguladas
Comumente, prendemo-nos às nossas noções e não percebemos suas evidentes limitações, que são as falsas percepções do mundo, as quais Bacon chama de ídolos. Essas impedem chegar à verdade, pois as pessoas costumam pensar, erroneamente, que seus sentidos são "a medida das coisas". Conclui, então, o autor de "Novum Organum", que o método não deve ser refutar os princípios, mas encaminhar os indivíduos aos próprios fatos particulares, para que eles mesmos percebam os equívocos e renunciem às suas noções.
A partir desse ponto, pode-se conseguir o avanço da ciência, firmado na regulação da mente e na experimentação.
Heranças cartesianas
Dentre eles destaca-se a experiência e a prática como princípios da busca da verdade. A ciência ganhou forte contribuição, haja vista que as especulações dos teóricos precisam ter experimentalmente seu caráter funcional comprovado.
Outro ponto relevante é a contestação da veracidade daquilo que lhe é apresentado. A dúvida é o princípio fundamental do método científico de Descartes, pois para encontrar a verdade refuta tudo o que gera incerteza com intuito de descobrir suas falhas e chegar no incontestável. Esse método deve ser aplicado por todos cotidianamente, considerando a excessiva carga de informações a que somos expostos, as quais exigem precauções quanto à sua autenticidade.
A leitura de textos escritos em outras épocas permite observar algumas questões neles constantes, tais como a busca do conhecimento da verdade. Entretanto, as opiniões de grandes filósofos muitas vezes divergem e dessa forma têm início novas discussões, devendo elas pautarem-se na razão, no bom senso e , claro, na experiência.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
O passado não é só o período que antecede o presente, é também sua fonte.
O Empirismo, embasado principalmente na prática e na experiência, é um legado que persiste até os dias de hoje na ciência, e que foi a doutrina seguida por muitos dos agentes do desenvolvimento científico do renascimento em diante.
Submetendo os conhecimentos anteriores à esse método, Bacon concluiu que muitos deles fugiam da esfera do real ou até mesmo eram falsos. Essa quebra de axiomas antigos, a valorização das ciências naturais e as críticas à efetividade do raciocínio humano quando funcionava ingenuamente foram cruciais para o pico de desenvolvimento científico que seguiu o momento histórico em que vivia.
Mas, apesar de em seu contexto histórico essa filosofia ter sido de suma importância, há também de se levantar questionamentos quanto a ela. Não há também possibilidade de erro no raciocínio humano no processo de experimentação? Não seria o trabalho com casos particulares um cabresto que impede de se enxergar o todo? Tal discussão persiste até os dias de hoje, o que prova a força da teoria desenvolvida na obra, e de sua importância na discussão sobre o conhecimento humano.
domingo, 24 de abril de 2011
Ordem (ou unificação) e progresso
Jà existência de um único método de estudo das ciências revela-se ao mesmo tempo benéfica e utópica. Benéfica na medida em que evitaria no meio ciêntífico discordâncias acerca dos métodos de classificação e da nomenclaturas, permitindo aos cientistas em geral uma noção clara acerca das publicações científicas e do trabalho de outros ciêntistas. Tal noção clara possibilitaria que cientistas de diferentes áreas se auxiliassem para a solução de problemas que demandam conhecimentos em uma pluralidade de âmbitos da ciência. O aspecto utópico da existência de um único método de estudo das ciências decorre do caráter efêmero dos métodos de estudo, sujeitos a mudanças no decorrer do processo histórico. Tal caráter dá margem para que diversos métodos de estudo convivam em um mesmo período, uma vez que as referidas mudanças não se processam instantaneamente.
Curso de Filosofia Positiva - Augusto Comte
sábado, 23 de abril de 2011
Avante, humanidade!
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Auguste Comte e a Filosofia Positiva.
Pode-se dizer que o conhecimento positivo busca "ver para prever, a fim de prover" - ou seja: conhecer a realidade para saber o que acontecerá a partir de nossas ações, para que o ser humano possa melhorar sua realidade. Dessa forma, a previsão científica caracteriza o pensamento positivo.
Adotando os critérios histórico e sistemático, outras ciências abstratas antes da Sociologia, segundo Comte, atingiram a positividade: a Matemática, a Astronomia, a Física, a Química e a Biologia. Assim como nessas ciências, em sua nova ciência inicialmente chamada de física social e posteriormente Sociologia, Comte usaria a observação, a experimentação, da comparação e a classificação como métodos - resumidas na filiação histórica - para a compreensão da realidade social. Comte afirmou que os fenômenos sociais podem e devem ser percebidos como os outros fenômenos da natureza, ou seja, como obedecendo a leis gerais; entretanto, sempre insistiu e argumentou que isso não equivale a reduzir os fenômenos sociais a outros fenômenos naturais (isso seria cometer o erro teórico e epistemológico do materialismo): a fundação da Sociologia implica que os fenômenos sociais são um tipo específico de realidade teórica e que devem ser explicados em termos sociais.
Em conformidade com 'O discurso sobre o espírito positivo', a escola positiva pede apenas, essencialmente hoje, o simples direito de asilo regular nos locais municipais, para aí fazer diretamente com que seja apreciada sua aptidão final para a satisfação simultânea de todas as nossas grandes necessidades sociais, propagando com sabedoria a única instrução sistemática que pode de agora em diante preparar uma verdadeira reorganização, primeiro mental, depois moral e, por fim, política. Sob essas condições, os filósofos positivos buscam a manutenção contínua da ordem interior e da paz exterior, pois vêem nisso, a condição mais favorável para uma verdadeira renovação mental e moral.
sábado, 16 de abril de 2011
Ponto de Reflexão
quinta-feira, 14 de abril de 2011

Já no início do filme “Mindwalk” é fácil perceber a singularidade do tema proposto. O filme gira em torno de uma interessante conversa entre uma cientista, um poeta e um político. Todos os personagens citados já são adultos e viveram algum tipo de crise existencial, talvez causada sonhos ou ideais frustados. De alguma forma essa conversa muda os personagens ao longo do filme.
Dentre os diversos assuntos e campos do conhecimento abordados, a discussão política se destaca. A cientista tenta doutrinar o político com a evolução do conhecimento, partindo de Descartes, ao mesmo tempo que mostra como a política não acompanhou a mesma. Ela afirma que na mente dos políticos o sistema cartesiano, que fraciona os problemas sociais, distorce a visão da real crise social. Então um novo sistema é proposto em oposição, que encara o problema como um todo, acreditando que só serão resolvidos através de um esforço conjunto, fazendo com que uma solução seja mais difícil e infinitamente mais eficaz.
Através dessa discussão, a ideia de que todo o universo está em constante mutação e uma teia de elementos liga as nossas vidas, faz com que surja uma noção cíclica da existência em si. Assim como uma lenda antiga da Europa Oriental, que era de grande valor na alquimia, propunha a mesma ideia na forma de uma serpente ou dragão que morde a própria cauda. Essa lenda representa o eterno ciclo da vida e o ser é conhecido com Uruboros.
Entre as diversas menções de obras feitas pelo poeta, a que mais me identifiquei é a de Lewis Carroll, em que o poeta cita o monstro “Jabberwocky”. Ele faz referência a esse ser que faz parte de um poema nonsense, conhecidos por representar uma confusão mental, para afirmar que alguém mais entenderia a fala da cientista. Apesar disso, o poeta está errado ao afirmar que esse monstro é do livro “Alice no País das Maravilhas”, já que ele só é mostrado na continuação “Alice Através do Espelho e O Que Ela Encontrou Por Lá”.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Bacon e a Internet
Com o advento das redes sociais e aperfeiçoamento dos sistemas de busca, a quantidade de informações disponíveis foi exacerbada. Muitas vezes as informações espalhadas são falsas, ou baseadas no senso comum. Há inclusive os chamados hoax, que são boatos que acabam sendo tomados como verdade pelos receptores, constituindo um exemplo do que Bacon classificaria como "ídolo do foro", que são as falsas noções provenientes da interação entre os seres humanos.
O processo de "cura da mente", como Bacon se refere, pode auxiliar na filtragem dos megabytes de informações aos quais somos expostos todos os dias, nos livrando das inesgotáveis antecipações que são divulgadas através da rede mundial de computadores.
Bacon dizia que "aquele que começa uma investigação repleto de certezas acabará terminando cheio de dúvidas. Mas aquele que começa com dúvidas poderá terminar com algumas certezas". Portanto, muito cuidado com as certezas que o Google traz.
A Revolução Cartesiana
E assim surgiu o método cartesiano, no qual todo conhecimento não fundamentado era simplesmente excluído, restando apenas a verdade. Ou seja, o ceticismo como método científico. Como forma de facilitar a separação entre verdadeiro e falso, Descartes propôs a decomposição do assunto de interesse em partes isoladas, fragmentadas, para que ao se estudar cada uma delas, se obtenha uma conclusão sobre o todo.
Esse método de investigação é o empregado atualmente nas ciências. Os assuntos são estudados de forma bem específica. O cientista não se debruça sobre questões amplas, pois isso dificultaria a sua análise.
Descartes nasceu sob forte influência da Igreja, num sistema feudal. Sua célebre frase "penso, logo existo" quebrou paradigmas da época e sua obra foi fundamental para o desenvolvimento da matemática e da física, através de cientistas como Isaac Newton, que usaram o método cartesiano em suas experiências.
Descartes nasceu sob forte influência da Igreja, num sistema feudal. Sua célebre frase "penso, logo existo" quebrou paradigmas da época e sua obra foi fundamental para o desenvolvimento da matemática e da física, através de cientistas como Isaac Newton, que usaram o método cartesiano em suas experiências.
A partir desse encontro eles passam a fazer indagações e a discutir aspectos da vida e da filosofia, retomando inclusive grandes pensadores como Descartes e Bacon.
Um dos temas abordados pelo filme foi a relação de tempo, dizendo que o tempo na Idade Média era visto como algo sagrado e que se baseava na simples noção de manhã, tarde e noite.
Além disso, outro tema bastante recorrente no filme é a ideia de que "Nenhum santo sustenta-se só", outra passagem do filme que explicita esse pensamento também é: "Ninguém é uma ilha". Esses dois trechos tentam sintetizar que o individualismo não é a melhor forma, a melhor perspectiva de se levar a vida, pois seria comum ao homem o pensamento mais coletivista por causa das suas necessidades básicas de relacionamento e também de aprimoramento do pensamento.
A partir de pensamentos de Descartes os personagens do filme também fizeram algumas reflexões sobre como a natureza funcionaria como um relógio, pois a partir de suas "peças" seria possível analisar e entende-la. E ela, do ponto de vista baconiana, e dito pelo filme, deveria ser usada para a transformação, e essa transformação deveria partir de um pensamento mais ecológico e mais coerente com as limitações do planeta. Para Sonia, uma das personagens, tal prevenção ambiental e a prevençã o entendida de forma generalizada deveria ser encorajada pelo sistema, pelo Estado, mas isso não ocorre porque ambos prefereririam a intervenção.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Pragmatizar a prevenção
Diante disso, penso no fato que mais destacou-se midiaticamente essa semana no país, o assassinato brutal das 12 crianças que estudavam na escola primária municipal do Rio de Janeiro Tasso da Silveira, ato promovido por Wellington Menezes de Oliveira que reconhecidamente sofria problemas psicológicos. Após o ocorrido, resta a questão, o fatídico evento poderia ter sido evitado? Muitos especialistas opnam defendendo o treinamento de professores afim de capacitá-los para reagir em situações de violência ou propragam a implementação de medidas de segurança como a presença de identificador de metais nas entradas e saídas das escolas; creio, no entanto, que certamente a medida que deve ser efetivada requer muito mais trabalho com o material humano da instituição envolvendo, por exemplo, psicólogos e educadores e deve visar dirimir casos de bulling, de difícil integração e convívio entre alunos e professores, e é na prevenção defendida pela personagem do filme que se estrutura tal opnião.
São inúmeros os casos de desequilíbrio, como o desrespeito ao professor, a existência de situações de violência física entre doscentes e discentes, de ameaças entre os diversos grupos, de alunos que possuem dificuldade de integrar-se e, além disso, o fato que estarreceu o país na última semana não foi o primeiro, outro semelhante já havia ocorrido em 2002 com um menor número de vítimas. Tais problemáticas brasileiras precisam de ações preventivas. Crianças e adolescentes deveriam ser acompanhados por psicológos que através de atividades de integração aproximariam os alunos, a diferença precisa ser reconhecida e nela o respeito que permite a aproximação, o valor do educador deve ser propragado...
Infelizmente, a ausência de muitos pais em função das imposições do mundo contemporâneo fez nascer uma geração que não adquire em casa valores fundamentais nas relações interpessoais, é necessário, então, que as intituições se reestruturem para suprir tal carência. Se Wellington tivesse naquela escola uma experiência que fosse diferente enquanto ainda era aluno certamente o país não teria entristecido-se dia 7.
Conexões como base da existência
O filme “Ponto de mutação” baseia-se no livro de Fritjof Capra. Um encontro inusitado entre um poeta, um ex-candidato a presidência dos Estados Unidos e uma cientista decepcionada com o mau uso que fizeram de suas descobertas culmina em uma discussão sobre os mecanismos que regem o mundo.
Ao abordarem a evolução da forma de pensar humana analisam o método cartesiano onde o todo é dividido em partes para que seja possível analisá-lo e entendê-lo. O desenrolar o tema leva-os a análise das políticas demagógicas e ineficientes que apresentam-se como regra nos governos da atualidade.
Da grande crítica às ações mecanicistas que tomam conta dos políticos de maneira geral surge uma nova proposta de como governar. O método proposto visa a prevenção em detrimento da reparação. Os resultados viriam a longo prazo mas a intervenção feita nas causas do problema e não em suas consequências tem, sem dúvida, maior eficácia.
O raciocínio ecológico tão priorizado nos dias de hoje também manifesta-se ao longo do filme. As relações humanas com seus semelhantes e com os elementos da natureza são fundamentais e inevitáveis. "Nenhum homem é uma ilha". As conexões são a base da existência. Somos todos parte da teia de relações que coordenam a vida dos homens.
Essa interdependência obriga os seres humanos a pensar coletivamente. A preservação e o uso inteligente dos recursos naturais torna-se imprescindível para que haja qualidade de vida em um futuro que aproxima-se em alta velocidade. O desenvolvimento sustentável faz-se necessário para prevenir o surgimento de grandes feridas que, se abertas, talvez não seja possível remediar.
É chegada a hora de entender a "natureza da árvore"

A essência da evolução humana
"Ver o mundo como máquina pode ter sido útil por trezentos anos... mas esta percepção, hoje, além de errada, é na verdade nociva."
Teia de relações
Capra e a crítica aos mecanicistas.
No filme "Ponto de Mutação", adaptação feita do livro de mesmo nome do austríaco Fritjof Capra, há o dialogo de três pessoas de diferentes classes sociais e ideologias. A discussão central gira em torno do legado cartesiano e dos malefícios ou benefícios que tal abordagem traz para a sociedade atual.
Capra defende ao “convencer” o seu personagem político e mecanicista, reducionista, cartesiano, de que muitas vezes- principalmente no contexto social- as demandas devem ser observadas de forma sistêmica. Os objetos devem ser tratados como seres indissociáveis e somente assim os problemas sociais seriam resolvidos.
Gaia
Pluralismo de ideias
O filme ‘’Ponto de Mutação’’ consiste num interessante diálogo travado entre três pessoas que, insatisfeitas com os rumos tomados pelo mundo e pelos seres humanos, utilizam uma isolada ilha francesa como válvula de escape. Um político, uma cientista e um poeta apresentam suas diferentes formas de observar o mundo e as suas leis, de modo que embasam grande parte dos seus raciocínios na filosofia e na ciência.
O político, com um pensamento cartesiano, fragmenta seus ideais em várias partes, para estudando e entendendo cada uma, procurar conhecer o todo. Assim, consegue prever e controlar possíveis abalos em seu governo.
A cientista, possui uma forte base do pensamento baconiano, de modo que atribui grande importância aos métodos científicos. No entanto, após frustrações com a ciência, demonstra um grande amadurecimento em conhecimentos intuitivos, racionais, de modo que é a principal articuladora das discussões do filme.
O poeta, por sua vez, possui uma postura mais neutra, de modo que concorda ora com o político, ora com a cientista, uma vez que possui uma visão diferente do mundo. Tudo é poesia: a paisagem, os sons, as pessoas. Assim, suas opiniões acerca dos diálogos são sempre embasadas em versos de antigos poetas.
Com isso, os diferentes pontos de vista se confrontam, principalmente, quando o assunto é a sustentabilidade do planeta. Para a cientista, o mundo não pode ser visto de forma cartesiana, ou seja, deve ser visto como um todo através das relações existentes entre cada ser e objeto que compõem a natureza. Os problemas globais não podem ser resolvidos pensando neles de forma separada. Tudo está interligado e deve ser considerado como um todo.
Toda essa discussão, em suma, demonstra a importância e a necessidade do diálogo, mesmo entre pessoas com pontos de vista extremamente diferentes, principalmente diante de assuntos tão atuais como o desenvolvimento sustentável. Seja pelo método cartesiano, seja pelo método baconiano, essas diferentes formas de pensar não se negam, mas se completam, sendo imprescindíveis para a manutenção do bem estar do mundo.
Necessária mutabilidade
Mutação com responsabilidade
O filme “Ponto de mutação” traz uma abordagem alternativa a respeito da ciência ao considerar mecanicista o modelo cartesiano até então utilizado. Através da Holística, a proposta é de observação dos processos em vez das estruturas, além de considerar uma conexão única entre todos os fenômenos.
Evidentemente, é louvável a busca por novos pensamentos com vistas ao desenvolver de toda a sociedade. Entretanto, o plano meramente metafísico não proporciona rigor, mas apenas uma interminável divagação por desconsiderar qualquer conhecimento empírico.
Dessa forma, a simples apresentação do ideário constitui um quadro poético em detrimento da busca pela verdade, isto é, valoriza uma realidade mais contemplativa do que fática.
A despeito de sua natureza hipotética, essa reflexão nos permite adentrar às inúmeras possibilidades do saber humano e não deve ser mitigada mesmo pertencendo a um mundo basicamente teórico.
Sistemas interligados
O mundo atual contradizendo Descartes e Bacon
Acerca dos ideais de Descartes, seu método de fragmentar tudo e tanto quanto possível é o mais criticado. O contra-argumento é o de que na verdade, na natureza nada pode ser fragmentado, porque tudo está interligado. A matéria, a energia: tudo está interligado e só por isso há forma.
Tal critica permite uma análise do tema no contexto social. Não é difícil atestar que todas as microrrelações sociais estão interligadas. Para um processo produtivo e consumidor no mundo capitalista, para que as relações sociais atinjam proporções nacionais e até globais é necessário que todos os homens estejam relacionados de alguma forma. Com certeza todos precisam de todos e algo que acontece com um atinge toda a cadeia de alguma forma, mesmo que em pequenas proporções.
Já no que tange aos ideais de Bacon, uma crítica interessante para o contexto atual é a que é feita encima da idéia de que o homem precisa dominar a natureza e se utilizar dela(o tanto quanto necessário) para obter conforto.
O homem claramente sempre necessitou usufruir dos bens naturais para sobreviver e com os números populacionais atuais precisa muito mais. Mas pegando carona na Campanha da Fraternidade amplamente difundida pela Igreja Católica esse ano: "A criação geme em dores de parto." O meio ambiente não suporta mais as condições que lhe estão sendo impostas. O ser humano já tem exagerado, e muito, na degradação de seu maior bem e a natureza claramente implora por trégua. O Japão que o diga...
Portanto, fica evidente que os antigos métodos devem ser repensados na atualidade e não deixando de citar positivamente a genialidade de Descartes e Bacon, o filme e o autor deste post convidam os leitores e espectadores a pensarem além dos métodos, de forma a observar as falhas e adaptar grandes pensamentos aos dias atuais.
Descartes rumo ao passado
Mutações da visão
A parte ou o todo?
Nossa sociedade tem dado demonstrações de que a maneira como agimos e a analisamos possui falhas. Tragédias e problemas que só parecem aumentar corroboram esta afirmação.
Muitos políticos prometem a resolução de determinadas dificuldades específicas e isoladas e, quando as cumprem, mesmo solucionando o problema designado, ignoram a amplitude da situação, fazendo com que novos problemas surjam.
Caso algum político estivesse realmente determinado a proporcionar uma melhoria significativa, este deveria se lançar à tarefa de resolver os problemas encarando-os como interdependentes, como um sistema e não como órgãos separados, para evitar que, com a solução de um, surja outro novo.
Velhos confrontos, novos caminhos.

Da explicação sistemática à volta da contemplação

"Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito." – William Blake.
O filme Ponto de Mutação pode, a nós, cartesianos, parecer maluco, progressista demais, mas não, as idéias trazidas por ele fazem parte do rol de idéias mais antigo que já existiu. Idéias, se é que se pode chamar essa atividade de idéia, que nos foram há muito apresentadas sob uma roupagem diferente: a roupagem de uma sabedoria mais “contemplativa” e menos explicativa.
Parte-se da física quântica para colocar-nos em dúvida acerca de vários aspectos decisivos. O micro (átomo) é desvendado e com isso a diferenciação de matéria, pensamento e probabilidade torna-se impossível; como pode um elétron estar, potencialmente, em vários lugares ao mesmo tempo?
Todo o macro, então, pede por uma nova análise. Essa análise não pode, no entanto, ser a análise científica comum. É preciso levar em consideração o todo, as relações e não mais as partes separadamente. “Baba Nam Kevalam”, o mantra dado por Shrii Shrii Anandamurti, fundador e líder espiritual da instituição Ananda Marga, é inspirado em conhecimentos orientais antiquíssimos e sem se utilizar de física quântica moderna, ou qualquer parafernália intelectual cartesiana, traduz o seguinte pensamento: tudo é expressão de um mesmo ser divino, que está em tudo, em todos; tudo é amor, tudo está interligado; somos todos frequências diferentes de uma mesma onda. Por piegas que possa parecer, faz sentido como a física vem descobrindo.
A matéria, posta em xeque, assume caráter de possibilidade, de pensamento, de subjetivismo. O documentário “What the Bleep do We Know!?: Down the Rabbit Hole” traz experimentos interessantes, como o poder de elementos subjetivos sobre elementos objetivos (a capacidade de pensamentos e sentimentos mudarem a estrutura molecular da água, por exemplo). São ensaios, que buscam aproximar ciência e espiritualidade e mostrar o poder do pensamento, sentimento e fé.
O conhecimento objetivo, às suas últimas consequências, se aproxima da sabedoria contemplativa, aquela que não é explicada e sim sentida. Algo que ilustra tudo isso de forma hollywoodiana é o filme Avatar, no qual, em um outro planeta, todos os indivíduos (Na’vi) estão espiritualmente (e até fisicamente) conectados com Eywa, sua divindade, e consequentemente conectados entre si e com a natureza.
A idéia dessa rede de interligação e a idéia de que Deus está em todas as coisas e não fora delas, deixando um pouco de lado o vício de explicação e comprovação ou não comprovação sistemática, são bastante válidas; O mundo atual precisa acreditar nisso, o social seria favorecido já que o famoso bem comum finalmente apareceria de fato a partir do instante em que bem individual e bem de todos (e por todos entende-se todos os seres animados, e até os inanimados) se tornarem a mesma coisa.
Fragmentos de um todo
A busca do equilíbrio
Nesta ânsia, não poupam o custo do sacrifício da vida, da existência, aplicada a uma parcela da humanidade presa pelas quatro paredes dos modelos econômicos mecanicistas, que independente do custo social, só pensam na validação econômica de suas teorias e negociações. Os sistemas existentes não encorajam a prevenção, só a intervenção, que não consideram que só se constrói um modelo de sucesso no presente, se estimularmos o futuro. Chega-se a dedução de que precisamos adotar o modelo de intervenção colocado como feminino, nutriente, construtor, ao contraposto do modelo masculino basicamente dominador.
Para o desenvolvimento de uma condição de perpetuidade e oportunidades para o futuro, dentro deste conceito de nutriente, devemos aplicar um raciocínio ecológico, em contraponto ao pensamento cartesiano clássico, pensando em um mundo de recursos exauríveis, orgânicos e espirituais, sejam da natureza ou da capacidade de absorver as injustiças sociais. Para poder entender e aplicar este pensamento, se faz crucial ativar a percepção, sendo que se somente as bordas da percepção aparecessem, tudo se desvendaria como realmente é.Nesta forma sistêmica de pensar, identificamos os pilares como sendo as conexões, tudo se interconecta, formando mesmo com seus vazios e sem condições de definições exatas, a solidez da matéria, do pensamento e da estrutura do universo tangível. O que não vemos, o que não entendemos, necessariamente não pode ser abominado, relegado , sob pena de nossa cegueira estar baseada somente na miopia da falta de abertura para o novo.
Somos todos uma parte da teia imensurável e inseparável da relações, é nossa responsabilidade perceber as possibilidades do amanhã, pois antes de tudo somos os únicos responsáveis por nossas descobertas, nossas palavras, nossas ações, e os reflexos das mesmas no universo em que estamos inseridos.Um obstáculo para a expansão este pensamento é a clara e objetiva descoberta da interdependência, do fato de que mesmo sem o controle por parte de nossas ações, que nosso planeta flui em um processo vivo, se adaptando, transcendendo, progredindo, transgredindo padrões, evoluindo.
O pensamento voltado aos processos e não as estruturas, nos dá a ferramenta essencial para poder entender o princípio, os porquês e o caminho possível para esta evolução, conseguindo assim delinear a tênue e interlaçada margem entre o pensamento clássico cartesiano e o sistêmico totalmente integrativo, plotando o objetivo mestre das sociedades modernas, das mentes que buscam a perpetuidade no futuro: o desenvolvimento sustentável, a busca do equilíbrio.Luís Felipe Hetem