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segunda-feira, 30 de março de 2026

Quem pode falar

  No livro “Sociologia”, de Augusto Comte, disserta-se sobre o Estado Positivo, o qual o autor considera como sendo o último estágio do conhecimento humano e aquele que possui a Ordem Social. Esta possui padrões de relacionamento ou exigências sociais, as quais são invariáveis e mantém a organização da sociedade como: a norma, o direito e as convenções sociais.

 Já no livro “Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano”, de Grada Kilomba, evidencia-se o mito da objetividade pregada pela ciência, a qual é historicamente desenvolvida por homens brancos e todo conhecimento produzido por pessoas que não estão dentro desse padrão dominante é desvalorizado, reforçando o caráter de que o centro acadêmico é um espaço branco e a hierarquia violenta de quem pode falar. 

 Essas obras podem se relacionar com o caso da deputada Erika Hilton, que por se tornar recentemente a primeira mulher trans a presidir a Comissão da Mulher da Câmara, gerou incômodo por uma parcela da população brasileira que passou a proferir comentários embebidos na misoginia e transfobia, dizendo que não havia como uma mulher transgênero representar todas as mulheres em nosso país, já que “biologicamente” ela era do “sexo masculino”. Fato esse é considerado como paradoxal, pois, antes desse ocorrido, a Comissão que era composta exclusivamente por homens cisgêneros, nunca chegou a ser questionada. 

 Assim, a figura de Erika Hilton representa, pela ideia proposta por Comte, uma desordem, uma ameaça ao sistema e as posições contrárias a sua posse simbolizam uma tentativa de reorganização da “ordem social”, pois se alinham com o que as convenções sociais defendem. Contudo, considerando o raciocínio trazido por Grada Kilomba, essa sociologia positivista está equivocada, pois evidencia que a ciência não é apolítica, mas sim reproduz as relações de poder patriarcal, racista e transfóbico que ditam o que deve ser considerado verdadeiro e em quem acreditar.


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