"Texto redigido em forma de crônica"
No fim da tarde, enquanto o sol se despedia atrás dos prédios do centro, dois homens dividiam um café já morno numa mesa de bar. Não era a primeira vez que discutiam, nem seria a última. O assunto, porém, parecia sempre novo: o fim da escala 6x1.
Alberto, o positivista, mexia o açúcar com calma quase científica. Gostava das coisas no lugar, previsíveis, funcionando como engrenagens bem ajustadas. Já Lucas, o progressista, falava com as mãos, demonstrando preocupação real com a vida do trabalhador...
— Não é só sobre trabalhar menos — disse Lucas, inclinando-se para frente. — É sobre viver mais. A gente já sabe que esse modelo desgasta, adoece, deixa a própria vida precária...
Alberto ergueu os olhos, sereno.
— Saber não é o mesmo que comprovar de forma suficiente para mudar toda uma estrutura — respondeu. — A sociedade não é um experimento que se reinicia do zero. Existe uma ordem que precisa ser preservada. Um método científico que precisa ser seguido.
Lucas riu de leve, encostando-se na cadeira.
— Ordem pra quem? Pra quem lucra com gente cansada? Pra quem explora que tem menos? Você defende essas pessoas?!
Alberto não se ofendeu. Apenas respirou fundo, como quem organiza pensamentos em prateleiras invisíveis.
— Ordem para todos. Ou você acha que mudar isso de uma vez não vai afetar empregos, serviços, preços? O progresso precisa de base sólida, não de impulso. E não estou defendendo ninguém, apenas penso seu método é ,de certa forma, sem método algum, por mais estranho que a frase pareça.
Um garçom passou, recolhendo copos vazios. A cidade seguia seu ritmo, indiferente àquela pequena disputa filosófica, apesar de viver diariamente a escala discutida.
— Mas e o custo humano? — insistiu Lucas. — Quantas pessoas precisam estar exaustas pra gente considerar que a “ordem” não está funcionando?
Alberto apoiou os cotovelos na mesa.
— Eu não nego o problema. Só nego a pressa. Melhorar, sim. Mas com método, com teste, com transição. Não com ruptura.
Por um instante, ficaram em silêncio. O barulho dos carros preencheu o espaço entre eles.
Lucas então sorriu, cansado, mas firme.
— Engraçado… você fala de progresso como quem pisa no freio.
Alberto devolveu o sorriso, discreto.
— E você como quem esquece que o carro pode capotar.
Os dois riram. Não porque concordavam, mas porque, no fundo, sabiam: aquela conversa não terminaria ali. Assim como a própria mudança que discutiam, ela seguiria — lenta para um, urgente para o outro — no compasso imperfeito da vida real.
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