Total de visualizações de página (desde out/2009)

segunda-feira, 30 de março de 2026

 Às vezes no silêncio do dia 

 

Fiz questão de um título mentiroso, pois sei que é quase impossível ter silêncio durante o dia. Mas gostaria de pensar essa possibilidade, imagina passar o dia inteiro sem compromisso, apenas refletindo sobre... 

  • - Tales, você não vai trabalhar hoje? 

  • - Hoje não, é feriado lá na cidade. 

  • - Nossa, legal, e o que você pretende fazer? 

  • - Aproveitar o feriado. 

  • - Tá mas, fazendo o que? 

  • - Nada. Vou só ficar em casa sem fazer nada. 

  • - Como assim? Por que você não procura algo pra fazer? 

  • - Mas eu quero justamente não fazer nada. 

  • - Que desperdício de tempo. 

  • - Mas é o meu tempo livre, eu posso fazer o que eu quiser com ele, não? 

  • - Até pode, mas poderia pelo menos fazer alguma coisa... 

  • - Vou pensar... eu posso tocar piano. 

  • - Eu nem sabia que você tocava piano, você nunca postou nada disso nas redes sociais. 

  • - É, porque em geral eu quero só tocar mesmo, e não mostrar para as pessoas que eu estou tocando. 

  • - Se você mostrasse, poderia ganhar boas visualizações. Poderia ganhar dinheiro com isso. 

  • - Mas eu nem tenho essa pretensão, eu faço pra me distrair, passar o tempo. 

  • - Nunca pensou em dar aulas? 

  • - Não.  

  • - Mas você toca piano assim... pra nada. 

  • - Toco piano pra mim mesmo. É meu hobby oras. 

  • - Nunca pensou em um hobby mais produtivo? 


Um hobby produtivo. Não é a primeira vez que escuto algo parecido. Essa hipocondria da produtividade me incomoda de alguma forma. Até parece que ninguém mais pode simplesmente aproveitar o tempo... Lembro-me de uma moda antiga de “carpe diem”, e me parece que esse termo, ora bucólico, fora deturpado, e agora significa que você precisa estar o tempo inteiro fazendo algo supostamente produtivo para aproveitar o dia. Ficar sem fazer nada? Não pode, é desperdício. Ter um hobby? Só se isso for te trazer algum benefício financeiro... então não é um hobby. Parece que hoje tudo precisa se resumir à perfórmance e dinheiro. Ou as pessoas fazem algo que nem gostam só para performar, ou deixam de fazer o que gostam, em busca de algo que vá lhes trazer retorno financeiro. Não consigo dizer quando essa paranoia começou. Mas posso afirmar que ela vai longe.  

Vi recentemente, algumas discussões sobre a escala de trabalho 6x1 e, entre muitas coisas, o que mais me intrigou foi que um dos argumentos a favor dessa escala é que se as pessoas trabalhassem menos elas teriam mais tempo livre, e isso é ruim. Afinal, elas não fariam nada de produtivo com esse tempo livre, então é melhor continuar trabalhando. E volta o cão arrependido... A palavra produtividade está sempre à mesa, e na ponta da língua, ou daqueles que nada produzem, ou dos performáticos. Sempre para defender que o trabalho edifica o homem. Mas se esquece de que o ócio não tem por objetivo ser edificante, e sim dignificante (nem sei se essa palavra existe). Sinceramente, acredito que, em certa medida, os improdutivos e os performáticos sejam a mesma pessoa. Aqueles que nada produzem, performam produzir, vivem do que os outros produzem, e ainda reclamam... Então, no silêncio desse dia, um brinde ao ócio. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário