Sentado nas cadeiras alinhadas do auditório da UNESP, ele ouvia a palestra do cadir com os braços cruzados e o olhar atento, quase desconfiado. Cada vez que olhava para a proposta que anunciava os benefícios do fim da escala 6x1 — mais qualidade de vida, maior produtividade, equilíbrio entre trabalho e descanso — era recebido não com entusiasmo, mas com análise e receio.
Para um positivista, como aquele homem, não bastava que a proposta fosse bem-intencionada ou moralmente atraente. Era preciso mais: dados sólidos, comprovação empírica, previsibilidade de resultados. Ele anotava números, questionava metodologias, franzia a testa diante de generalizações.
Quando o palestrante, Matheus Rigonatti, falava em “urgência da mudança” e contava sua experiência, ele reagia internamente com cautela. A palavra urgência soava, para ele, como um risco. Inspirado no pensamento de Auguste Comte, acreditava que a sociedade não deveria ser guiada por impulsos, mas por leis observáveis e pela manutenção da ordem.
Em determinado momento, o palestrante mencionou que “o modelo atual já não funciona, falando também sobre a necessidade dos estudantes se unirem ao seu movimento". O positivista inclinou levemente a cabeça, como quem discorda em silêncio. Para ele, o fato de algo apresentar falhas não significava que devesse ser abandonado de imediato, mas sim corrigido de forma gradual e controlada, e não com movimentos e ações sem precedentes.
Ao final, abriu espaço para perguntas. Ele levantou a mão.
— Quais evidências de longo prazo garantem que essa mudança não compromete a estabilidade dos setores que dependem de funcionamento contínuo?
A pergunta não vinha de resistência cega, mas de um princípio: o progresso só é legítimo quando não rompe com a ordem. Ele não negava os problemas da escala 6x1, nem ignorava o cansaço dos trabalhadores. No entanto, via com preocupação qualquer proposta que parecesse ampla demais, rápida demais, pouco testada.
Ao sair da palestra, não estava convencido — mas também não estava fechado ao debate. Apenas carregava consigo a mesma exigência de sempre: que qualquer mudança fosse conduzida com método, evidência e responsabilidade.
Para ele: “A mudança pode ser desejável, mas precisa ser comprovada, planejada e implementada sem comprometer a ordem social. Sem isso, o risco de desorganização supera os possíveis benefícios, mesmo que eles sejam necessários para a sociedade"
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