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segunda-feira, 11 de maio de 2026

O "cheiro" da desigualdade: Analisando "Parasita" através do Materialismo Histórico

 

“Parasita” (2019) é um longa-metragem sul-coreano, dirigido por Bong Joon-ho. Embora classificado como um thriller/comédia ácida, apresenta pontos pertinentes a serem observados e identificados a partir do materialismo histórico, como a arquitetura das condições materiais, a Divisão do Trabalho e a ideologia da classe dominante. A obra não se trata apenas de uma ficção sobre os planos e farsas da família Kim, mas também da luta de classes e a determinação dos seres e suas relações pela vida material.

            De acordo com Marx, a primeira premissa de toda a existência humana é que os homens devem estar em condições de viver para “fazer história”, ou seja, é preciso haver condições básicas para a manutenção da vida – comida e moradia. No filme, essa premissa é demonstrada através da diferença da arquitetura entre a moradia da família Kim, uma espécie de porão com estrutura precária, e a família Park, uma mansão com presença de arte e repleta de vidros. A família Kim vive em um ambiente insalubre – pouca ventilação e presença de mofo, por exemplo – e possui dificuldades até para acessar sinal de Wi-Fi, enquanto a família Park vive em fartura e consegue proporcionar as melhores coisas para seus filhos – educação e objetos. Assim, representando as diferentes condições materiais de produção (base real e concreta da existência humana, baseado na maneira em que os indivíduos produzem seus próprios meios de existência) no filme, onde a desigualdade se faz presente e coloca a família Kim em uma posição de subordinação em relação a família Park.

            Outro ponto do marxismo é de que a nossa moralidade e nossos valores são moldados pelo nosso lugar na estrutura econômica. Em “Parasita”, esse ponto está presente em um diálogo onde a Sra. Kim refuta a ideia de que a Sra. Park é “Rica, mas gentil”, mas sim “Ela é gentil porque é rica”, expressando que a gentileza é um luxo permitido às classes dominantes, uma vez que não possuem preocupações básicas tal como os Kim, que utilizam de artimanhas e enredos para “parasitar” a família Park em busca de sobrevivência, não desfrutando de gentileza.

            Além disso, o Sr. Park manifesta o ponto de que as ideias da classe dominante são as ideias dominantes de cada época, já que detém os meios de produção intelectual, regulando a distribuição de ideias e tornando-as “razoáveis” e “universais” de acordo com o seu interesse. Isso é retratado através do seu preconceito com o “cheiro de quem anda de metrô”, elemento que atua como uma barreira ideológica e material, manifestando a maneira como a elite enxerga os indivíduos submetidos à divisão do trabalho de maneira mascarada.

            Por fim, a obra retrata a relação entre a divisão de trabalho e a alienação, já que a família Kim ocupa posições antes pertencentes a outros subordinados, como motorista e governanta, revelando que ao invés de os trabalhadores se unirem contra a estrutura que os oprime, eles entram em conflito entre si. Esse ponto fica evidente durante a cena de luta entre os Kim e a antiga governanta, revelando como a luta pela subsistência aliena os trabalhadores e traz conflitos reais de classe, que são mascarados por disputas de sobrevivência entre iguais.

            No fim das contas, “Parasita” é um retrato cruel de como o mundo em que vivemos nos molda. Ao usar o contraste entre as casas, o cheiro que o dinheiro (ou a falta dele) deixa na pele e a briga desesperada por um emprego, o filme mostra na prática o que Marx defendia: o lugar onde moramos e o que temos para comer definem quem somos e como pensamos. A tragédia final não acontece por azar, mas porque o sistema em que os personagens vivem rouba a dignidade de quem está embaixo. O filme nos mostra uma realidade triste onde as classes não convivem, elas apenas disputam: para que um lado viva no luxo, o outro acaba sendo explorado ou, no limite, descartado.

- Catarina de Oliveira Fernandes – 1° Direito matutino

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