Sobre
o contexto atual da direita no Brasil –
Após
a Ditadura Militar de 1964, o Brasil se autodenominou de diversas formas, menos
com o posicionamento político tradicional de direita. Esse fenômeno é chamado
pelos pesquisadores, Marcos Paulo dos Reis Quadros e Rafael Machado Madeira (2018),
como a “direita envergonhada”, a qual, uma vez que tal posicionamento político
estava manchado pelo sangue do regime autoritário, os deputados não se
demonstravam alinhados às pautas conservadoras. Porém, a partir do ano de 2010,
com a campanha de José Serra, houve um “desavergonhamento” político devido as
mudanças geracionais e, principalmente, ao pensamento reacionário antipetista. Dessa
forma, a hegemonia do Partido dos Trabalhadores, políticas públicas
progressistas e as investigações sobre a Operação Lava-Jato criaram uma
antipatia com a esquerda brasileira e retomaram a coragem da direita brasileira.
Assim, os movimentos de direita e de fuga do governo assistencialista brasileiro
se tornaram cada vez maiores, chegando a movimentar parcela da população para
outros países, como o Paraguai, para se afugentar do suposto “inimigo nacional”,
a esquerda. Essa é a principal hipótese a ser debatida nesse blog.[i]
Sobre a emigração para o Paraguai –
O
Paraguai tem se tornado um ambiente de extrema atratividade e desejo dentre os
brasileiros, dentre os motivos para isso estão as exageradas propagandas nas
redes sociais, a esperança de enriquecimento do país e a convicção de taxas
tributárias inferiores às do Brasil. Tais fatores retêm a atenção dos brasileiros
que não se sentem representados pelo governo atual e, então, partem em uma
aventura por motivos não só econômicos, mas também políticos e ideários. Essas
pessoas, muitas vezes empresários e desempregados, são convencidas pelas
políticas do Paraguai que tornam a realidade mais atraente, como o sistema
tributário “10-10-10”, que aplica alíquotas de 10% para os três principais
impostos: IVA (para os bens e consumo), IRE (para empresas), IRP (para pessoas
físicas). Entretanto, esse éden fiscal existe em detrimento de serviços púbicos,
como a educação e saúde, os quais necessitam de melhores infraestruturas e
investimentos para funcionamento, mas são vistas de outras formas pelos
emigrantes tradicionalistas:
“O governo
paraguaio, como ele arrecada menos com imposto, ele gasta menos com saúde, educação,
infraestrutura, mas vocês falaram que isso é um ponto positivo do Paraguai?”
“Para
mim, sim. É porque nós somos libertários e nossa posição política é anarcocapitalista,
então a gente prefere um Estado menor, com menos intervenção na economia, menos
intervenção na nossa vida pessoal. E isso quer dizer que ele não tem, tipo, uma
saúde planificada como no Brasil, mas ao mesmo tempo você tem um plano de saúde
‘top de linha’ num preço muito mais acessível do que você teria no Brasil. Para
nós, especificamente, eu prefiro essa maneira de viver.” [ii]
Diferentemente
do Brasil, que determina a ilegalidade da educação domiciliar, o Paraguai não
chegou a mesma conclusão e, pelo contrário, incentiva a prática com apoio da
constituição e da não regulamentação adicional - “Artículo 75 - DE LA
RESPONSABILIDAD EDUCATIVA La educación es responsabilidad de la sociedad y
recae en particular en la familia, en el Municipio y en el Estado.” [iii]. Mais uma vez, idealizando
o cenário conservadorista para o afugentamento dos brasileiros descontentes com
as políticas nacionais, como reflete a paranaense Marluize Ávila:
“’Não
tem aquele ditado ‘quem está incomodado que se mude’?. Eu falei para o meu
marido: 'Não adianta a gente ficar aqui passando ranço'. Vamos para outro lugar
onde a gente se sinta bem para criar nossos filhos.’
A
paranaense Marluize Ávila, de 42 anos, vendia brigadeiros acompanhada dos dois
filhos, Eduardo e Isabela, enquanto esperava para dar entrada nos documentos.
Ela pretende cuidar da educação deles de manhã e vender a comida à tarde na
porta de universidades.
‘O
Paraguai é um país bem tradicional e não prejudica se você fizer a educação
domiciliar’, diz Marluize.” [iv]
Esse é o cenário atual da campanha emigratória brasileira para o Paraguai, baseada em valores, crenças e esperanças no futuro paraíso paraguaio e o refúgio da nova direita desavergonhada.
BIBLIOGRAFIA
–
[i] Quadros, M. P. dos
R.and R. M. Madeira. “Fim Da Direita Envergonhada? Atuação Da Bancada
Evangélica E Da Bancada Da Bala E Os Caminhos Da Representação Do
Conservadorismo No Brasil”. Opinião Pública, vol. 24, no. 3, Centro de
Estudos de Opinião Pública da Universidade Estadual de Campinas, Sept. 2018,
pp. 486–522, doi:10.1590/1807-01912018243486.
[ii] A ONDA de brasileiros
rumo ao Paraguai em busca de 'sonho da direita'. S.L.: Bbc News Brasil, 2026.
(21 min.), son., color. Disponível em:
https://youtu.be/QMIT1_CPLZw?si=4VtS1UkVQmmctJJd. Acesso em: 04 maio 2026.
[iii] PARAGUAI. Constituição
1992. Constitución de la República del Paraguay. Assunção: Convenção
Nacional Constituinte, 1992.
[iv] OS BRASILEIROS EM
BUSCA DO SONHO PARAGUAIO: 'A GENTE NÃO ESTÁ AGUENTANDO O BRASIL'. S.L.,
05 maio 2026. Disponível em:
https://www.bbc.com/portuguese/articles/ceqp9ydx45vo. Acesso em: 07 maio 2026.
Miguel
Ferrai Ferreira – Direito/Noturno
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