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segunda-feira, 11 de maio de 2026

A conta que não fecha: influencers de finanças e a ideologia da classe dominante

     Se você abrir qualquer rede social, encontrará, em poucos segundos, alguém explicando como "sair da pobreza" em oito passos. O conselho costuma envolver cortar o cafezinho, investir em tesouro direto e "mudar a mentalidade". O que raramente aparece nesses vídeos é uma pergunta simples: por que a solução para um problema coletivo seria sempre individual?

     Marx e Engels, em A Ideologia Alemã, oferecem uma resposta incômoda. Para eles, as ideias dominantes de cada época são as ideias da classe dominante, não porque essa classe conspire, mas porque ela detém os meios de produção intelectual tanto quanto os materiais. Quem controla a produção controla também o que se entende por "senso comum". A naturalização da pobreza como falha de caráter não é uma ideia neutra: é a expressão ideal de uma relação material específica.

     O fenômeno dos influencers de finanças pessoais ilustra isso com precisão didática. O discurso que circula nesse ambiente parte de uma premissa não declarada: as condições estruturais são fixas, e cabe ao indivíduo se adaptar a elas. Nunca se pergunta por que o salário mínimo não acompanha a inflação, por que a carga tributária recai proporcionalmente mais sobre quem ganha menos, ou por que o acesso ao crédito barato é restrito a quem já tem patrimônio. Essas questões, justamente as que exigiriam transformação das relações de produção, desaparecem. Em seu lugar, sobra a planilha de gastos.

    Não se trata de má-fé individual de cada criador de conteúdo. Marx seria o primeiro a recusar essa leitura moralista. O ponto é que esse discurso cumpre uma função objetiva: converte em problema de consciência aquilo que é problema de estrutura. E ao fazer isso, estabiliza as relações existentes ao mesmo tempo em que parece desafiá-las. O influencer que diz "qualquer um pode enriquecer" não está necessariamente mentindo — está, porém, universalizando a experiência de uma fração específica da sociedade e apresentando-a como lei geral.

     Daí a pertinência da imagem marxista da câmera obscura: na ideologia, as relações reais aparecem invertidas. A riqueza de alguns não aparece como consequência da exploração do trabalho alheio, mas como prova de virtude. A pobreza não aparece como resultado de uma estrutura de distribuição, mas como falta de disciplina. O mundo está de cabeça para baixo — e o conteúdo financeiro do YouTube ajuda a mantê-lo assim, com boa iluminação e fundo branco.

Lucas Valério - Direito Noturno

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