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segunda-feira, 11 de maio de 2026

A audiência



O relógio marcava quase cinco da tarde quando a última audiência começou. De um lado da sala, um empresário acompanhado de advogados caros, pastas organizadas e palavras difíceis. Do outro, um trabalhador de mãos calejadas, camisa simples e olhar cansado depois de doze horas fora de casa.

O processo discutia direitos trabalhistas.

A juíza falava sobre igualdade perante a lei, enquanto o ventilador antigo espalhava o calor pelo fórum. Tudo parecia equilibrado: duas partes, dois lados, uma balança desenhada na parede.

Mas nem sempre aquilo que parece equilibrado realmente é.

Durante a faculdade, Lucas aprendera sobre Karl Marx e a ideia de que o Direito não nasce isolado da sociedade. Para o marxismo, as leis são construídas dentro de uma realidade econômica marcada por desigualdades. Quem possui dinheiro, influência e poder costuma ter mais facilidade para defender seus interesses.

Na teoria, a justiça é cega. Na prática, ela às vezes enxerga muito bem quem pode pagar.

O trabalhador dizia que fazia horas extras sem receber. O empresário afirmava que tudo estava dentro da legalidade. Entre papéis, artigos e argumentos, Lucas observava uma pergunta crescer em silêncio: até que ponto o Direito protege igualmente pessoas que vivem realidades tão diferentes?

Lembrou então das ruas da cidade. Dos entregadores pedalando na chuva para ganhar por entrega. Das filas enormes em hospitais públicos. Dos jovens trabalhando o dia inteiro e estudando à noite na tentativa de mudar de vida. Enquanto isso, notícias mostravam grandes empresas acumulando lucros recordes.

Marx chamaria aquilo de luta de classes.

Talvez por isso o marxismo ainda incomode tanto: porque ele obriga a sociedade a perceber que desigualdade não é acidente, mas consequência de uma estrutura econômica. E, quando essa desigualdade chega aos tribunais, o Direito deixa de ser apenas teoria escrita em códigos e passa a enfrentar a realidade concreta das pessoas.

A audiência terminou perto da noite.

O empresário saiu falando ao telefone sobre uma reunião importante. O trabalhador voltou ao ponto de ônibus contando moedas para pagar a passagem.

Lucas ficou sozinho na sala por alguns segundos, olhando a balança na parede.

Pela primeira vez, entendeu que o marxismo talvez sirva ao Direito justamente por fazer a pergunta que muitos evitam responder:

A justiça funciona da mesma forma para todos ou funciona melhor para quem já possui poder?


Sabrina Hilário de Sousa- Direito 1° semestre/ Noturno 

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