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quinta-feira, 3 de abril de 2025

Sociedade nas rédeas

Era por volta do meio-dia, minha esposa cuidava da horta enquanto eu decidi consertar alguns buracos na cerca da fazenda. Foi quando vi entrar pelo arco que ornava a entrada um homem imponente, apesar da baixa estatura e magreza, se comportava como rei, trajando preto do chapéu às botas, caminhava ao lado de um cavalo, também negro. O corcel era bonito, mas andava cabisbaixo e aparentava estar muito magro.

O homem se aproximou de mim e com tom de soberba e desprezo pediu que eu cuidasse do cavalo por alguns dias, ele retornaria e era fundamental que o cavalo estivesse melhor para poderem voltar às viagens e assim darem continuidade aos negócios. A oferta era generosa e eu não podia recusar, aceitei a proposta e acolhi o alazão com a única regra imposta de não lhe tirar o cabresto de modo algum.

    Passei dias tentando alimentá-lo, chamei conhecidos meus que entendiam melhor sobre doenças, mas nada parecia adiantar, foi no dia anterior ao retorno do homem que decidi retirar a correia que prendia o cavalo, foi em um pulo que ele se levantou e correu no pasto da fazenda, nunca vi um bicho tão feliz, era linda a sua liberdade.

    No dia seguinte, já visivelmente melhor, alimentei e dei banho no animal, foi quando minha esposa alertou que o homem retornava, corri então para laçar o animal novamente e assim entregá-lo ao dono, mas fiz questão de deixar as rédeas mais soltas. O homem quando viu o estado em que se encontrava o animal abriu um sorriso de ponta a ponta e me entregou um maço gordo de dinheiro, meu último olhar para o cavalo foi carregado de tristeza e identificação, esquisito como eu por algum motivo me identifiquei com ele.


    O senhor subiu nos estribos e cutucou com os calcanhares para que o animal se pusesse a andar para fora da fazenda. Novamente de cabeça baixa, passou a trotar lentamente, mas foi num descuido do homem de soltar as rédeas, que o cavalo relinchou, empinou e saiu correndo, rompendo o cabresto e as rédeas que o seguravam. O rapaz desequilibrou e caiu no chão sujando completamente de pó e terra as roupas chiques e caras, foi embora a pé xingando Deus e o mundo.

    A história me causou reflexões interessantes: Será que na vida, nós não estamos na mesma situação que o cavalo? Quem impõe esse “cabresto” em nós visa o que? Um progresso? Uma ordem? A quem interessa e qual seu objetivo nisso tudo isso? A felicidade individual muitas vezes é considerada uma ameaça ao "bem-estar geral". Quando tentamos analisar e controlar pessoas e animais do mesmo modo que analisamos e controlamos experimentos científicos, nos esquecemos do que realmente nos diferencia de um mero objeto de estudo científico: Liberdade e transformação. Interessante né? Talvez esse devesse ser o lema estampado em nossa bandeira...

O MUNDO ESTÁ FORA DE ORDEM ? OU A ORDEM ESTÁ FORA DO MUNDO ? Uma nova perspectiva, a ORDEM continua.

 O mundo está fora de ordem ? Ou a ordem está fora do mundo  ? Para responder tais perguntas podemos ir na etimologia da palavra ''ORDEM'', que de modo sucinto, poder ser definida como, um conjunto de elementos que se repete. A partir disso, podemos levar tal significado para a história da humanidade, e apoiado nisso, podemos começar a entender, e tentar responder as perguntas feitas no início

Primeiramente, é necessário dar uma panorama histórico de toda a humanidade. Nesse sentindo, vamos entender o seguinte, praticamente em toda a história das sociedades, essas por algum motivo passaram por crises, seja políticas, sociais, econômicas, identitárias e climáticas, podendo ocorrer apenas uma ou todas ao mesmo tempo. Com isso, podemos afirmar que, quando uma sociedade passa por esses impasses mais graves, essa toma decisões não habituais, na tentativa de mudança como, revoluções, guerras, extremismo político entre outros. Agora vamos para a comprovação disso, no final do século XVIII à França passava por momentos conturbados, tanto quanto climáticos, que acarretou em uma grande fome, quanto políticos, no qual a monarquia francesa não dava a assistência necessária ao seu povo, a partir de todos esses problemas a população tomou uma decisão não habitual do seu tempo, á de fazer uma revolução, na tentativa de melhorar a situação vigente. Outro grande exemplo, são os regimes totalitários, principalmente o nazismo, visto que pós primeira guerra a Alemanha passava por um grande problema econômico, o qual intensificou pós a crise de 1929, novamente, na tentativa de escapar dessa realidade a população apela para o extremismo político, no caso o Partido Nazista, o qual prometia a mudança e instituía um culpado por tudo isso, que seriam os judeus. Portanto, prova-se o ponto explicado, nesse sentido, sempre que há turbulências na sociedade, essas são motivacionais para que o povo tome decisões não habituais.

Agora, vamos levar essa discussão para o mundo atual. É perceptível, que diversas das sociedades passam por momentos turbulentos, principalmente políticos, lembrando, que isso acarreta em decisões tomadas pelo povo que não são habituais. Martelo nesse ponto, porque ao entendermos ele, tudo fará mais sentido ao final do texto. Os Estados Unidos, devido a uma crescente imigração, sofreu uma crise identitária, na qual a população não queria mais a chegada de imigrantes, com o argumento que esses destruiriam sua cultura norte americana, tomando assim decisões extremas políticas que no caso foi a eleição de Donald Trump, um presidente americano que flerta com o fascismo, algo que os Estados Unidos abominou durante anos, mas como já dito, tal decisão é tomada pelo povo com o intuito de tentar melhorar a crise que esse sofre. Outros exemplos muitos parecidos são na Europa, como França e Itália, que também sofrem com esse crise identitária e pra tentar resolver tal problema tomam medidas extremas, na França não se concretiza, mas por pouco o candidato de extrema direita não se elegeu, já na Itália tal falto se concretiza, trazendo ao poder  Giorgia Meloni, do partida de extrema direita do país, o qual flerta com o fascismo de Mussolini. Temos outro exemplo, a guerra Palestina-Israel, a qual tomou grandes proporções no ano de 2023, devido a uma crise também identitária, na qual já dura a séculos contra o povo palestino, Israel toma medidas extremas, no caso a de apoiar novamente uma guerra, com intuito de acabar com a Palestina e tomar seus territórios. Sendo assim, comprova-se ainda mais a tese, de que, quando uma sociedade passa por uma crise, essa toma decisões não habituais, e muitas vezes extremas

Portanto, voltemos as perguntas feitas. Quando se olha oque foi exposto no texto, percebe-se que na história algumas coisas se repetem e de forma muito semelhante, e da maneira que definimos a palavra ''ORDEM'' como : ''um conjunto de elementos que se repete'', podemos dizer que não há resposta para as duas perguntas, visto que, oque está acontecendo nos dias atuais, já aconteceu no passado, ou seja o mundo está apenas seguindo a ordem natural das coisas. De modo objetivo, seria que a o mundo continua em ordem,  e que de certa forma as duas perguntas não tem sentido até o momento desse texto, visto que tudo continua como sempre foi.


Felipe Ferreira Gomes 1 ano -Noturno



Nacionalismo e Ufanismo: extensão do pensamento colonial?

        A obra "O Que é uma Nação?" escrita por Ernest Renan oferece uma análise crucial sobre como a identidade nacional se forma, sugerindo que uma nação vai além de características biológicas ou étnicas, fundamentando-se em uma "vontade coletiva de coexistir" e na partilha de uma memória histórica comum junto a um acordo entre seus membros. Apesar de Renan defender uma concepção abrangente de nação, onde a inclusão não era rigidamente estabelecida por elementos raciais, suas ideias ainda transportam vestígios das influências coloniais.

        Contudo, a noção de uma "nação coesa" muitas vezes implica numa homogeneização da identidade, que tende a excluir ou marginalizar as diversidades internas, especialmente em contextos coloniais. Em nações que surgiram de processos de colonização, como o Brasil, a formação da identidade nacional frequentemente desconsiderou as dinâmicas sociais e raciais complexas, favorecendo uma unidade aparente que camuflava as desigualdades e os conflitos entre os diversos grupos. Assim, embora a contribuição de Renan seja inovadora ao desafiar o essencialismo racial, ela também reflete os conceitos colonialistas de uma nação ideal e "purificada", onde a diversidade frequentemente é reduzida em favor de uma narrativa nacional uniforme

        Acerca disso, termos constantemente estudados e vivenciados, trazem expressões como o nacionalismo e o ufanismo, sendo eles correlacionados, mas que apresentam suas diferenças, principalmente com relação a intensidade pela qual cada um permeia a sociedade. O Nacionalismo caracteriza-se como uma ideologia política que valoriza a identidade, cultura e história de um país, buscando promover sua soberania perante as outras nações. Além disso, pode transparecer de diversas forma em uma sociedade, partindo de um patriotismo moderado até as formas mais radicais. Em outras palavras, pode-se observar essa vertente em contextos como a propagação do movimento “America First” nos Estados Unidos pelo presidente Donald Trump e o discurso adotado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”

         Por outro lado, o Ufanismo é uma forma extremamente exagerada ou idealizada do nacionalismo. Isso se distingue por um otimismo inflado a respeito das virtudes do país, ressaltando a crença de que a nação é mais distinta ou superior comparada a outras. O ufanismo frequentemente desconsidera ou subestima as dificuldades e deficiências do país, fornecendo uma perspectiva romantizada e muitas vezes ilusória sobre a condição da nação. A exemplificar, a Ditadura Militar Brasileira segue essa vertente, pois utilizou a propaganda para criar uma imagem de um Brasil forte, unido e progressista, frequentemente ignorando ou minimizando as desigualdades sociais, a repressão política e as violações de direitos humanos.

        Seguindo essa ideia, Auguste Comte, filósofo conhecido como “pai do Positivismo”, corrente está que se desprende do conhecimento teológico, elevando o conhecimento cientifico e a metafísica como única verdade, justamente por se basear em técnicas cientificas. Cabe ressaltar que a doutrina de Comte buscava a ordem social, por conta desse fato surgiu o lema positivista: “O amor por principio e a ordem por base; o progresso por fim”. Frase essa que causou grande efeito no Brasil durante o século XIX, sendo adotado na bandeira nacional. Em virtude da influencia de Comte, o lema exposto reflete, principalmente, após a Proclamação da Republica em 1889, onde os republicanos buscavam um Brasil moderno e progressista a partir da identidade nacional forte e autossuficiente.

        Para complementar o entendimento das influencias nacionalistas e ufanistas como prorrogação das raízes coloniais, fatos históricos entram em evidencia ao redor do mundo. Por exemplo, os Kamikazes japoneses, o Brasil Império e a propaganda nazista. No Japão, no período da Segunda Guerra Mundial, o sentimento nacionalista tornou-se evidente por meio do sacrifício extremo dos Kamikazes, que eram vistos como heróis de uma nação sagrada, refletindo um fervor que exaltava a morte pela pátria e a superioridade japonesa. No Brasil durante o Império, esse fervor nacional foi impulsionado pela noção de uma nação idealizada, especialmente dentro de um cenário agrário e monárquico, que tentava encobrir as injustiças sociais e a opressão da escravidão ao promover uma imagem de unidade e grandeza nacional.

        Similarmente, a propaganda nazista na Alemanha utilizava o nacionalismo exagerado para glorificar a "raça ariana" e gerar um clima de intensa devoção patriótica, apresentando a nação alemã como radicalmente superior. Esses casos podem ser interpretados como desdobramentos do pensamento colonial, uma vez que, em todos esses cenários, houve uma tentativa de moldar uma identidade nacional fundamentada na noção de uma nação dominante e invencível. Frequentemente, essa formação identitária ocorria à custa de excluir ou marginalizar realidades sociais e históricas, como as desigualdades raciais, étnicas e de classe.

        Um outro aspecto é o apresentado por Grada Kilomba em sua obra “Memória da Plantação: episódios de racismo cotidiano” que traz uma análise profunda sobre o legado da escravidão e como suas consequências ainda ecoam na atualidade, especialmente por meio do racismo estrutural. Kilomba enfatiza como a lembrança histórica da escravidão continua a influenciar as interações sociais e raciais, sustentando uma hierarquia racial que ainda marginaliza as pessoas negras. O conceito de escravidão moderna está intimamente ligado a essa situação, pois, embora a escravidão tenha sido encerrada, práticas de exclusão social, discriminação e exploração econômica permanecem afetando as populações negras, particularmente em relação à desigualdade no acesso à educação, ao emprego e à justiça. A obra de Kilomba, portanto, não apenas reexamina o passado, mas também revela como o racismo estrutural se manifesta de maneiras discretas e persistentes na sociedade atual, mantendo viva a opressão e a exclusão, mesmo no contexto pós-abolição.

Por fim, o nacionalismo e o ufanismo, ao buscarem reforçar a identidade nacional, frequentemente se manifestam como desdobramentos do pensamento colonial que ainda afeta a formação de nações pós-coloniais. Assim, ambos os conceitos evidenciam como o legado colonial ainda impacta as narrativas nacionais, muitas vezes de maneira distorcida, ao invés de fomentar um diálogo crítico e reflexivo sobre as desigualdades históricas.

Maria Eduarda Siqueira Alves dos Santos - 1° ano - Direito - Matutino 

O Caos Invisível: Negacionismo e a Desordem que Ameaçam Nosso Futuro

   O conceito de "fim do mundo" tem sido explorado de diversas formas ao longo da história. De uma perspectiva apocalíptica, é fácil se deixar levar pela sensação de que a humanidade está caminhando para um colapso irreversível, especialmente quando olhamos para as crises globais que enfrentamos hoje: o agravamento da mudança climática, as falhas no controle de pandemias, a ascensão de movimentos negacionistas e a erosão das instituições democráticas. Mas, ao refletirmos sobre o tema, surge uma pergunta crucial: estamos de fato no fim do mundo, ou é o mundo que está simplesmente fora de ordem? Essa questão nos leva a repensar o papel das forças humanas que, mais do que causar o fim, são responsáveis por desorganizar as estruturas que sustentam a convivência pacífica e a estabilidade global.

O negacionismo climático é um dos principais agentes de destruição da ordem no mundo atual. A ciência é clara: o planeta está aquecendo, os ecossistemas estão sendo devastados e os desastres naturais, como furacões, incêndios e secas, estão se tornando mais frequentes. No entanto, figuras políticas e ideológicas, como o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, durante seu mandato, e outros líderes ao redor do mundo, negaram os fatos e o consenso científico sobre a mudança climática. Isso não apenas impede que medidas eficazes sejam tomadas, mas também cria um ambiente de desinformação, onde as soluções para problemas ambientais urgentes são adiadas ou ignoradas. O negacionismo climático, portanto, pode ser visto como um reflexo de um mundo fora de ordem — não porque a natureza esteja prestes a "terminar", mas porque a ordem política e social, ao se distanciar da verdade científica, se torna incapaz de resolver uma crise iminente. O mundo não está acabado, mas está desorganizado pela recusa em lidar com as evidências e as necessidades globais.

Outro exemplo de um mundo fora de ordem é a crise sanitária global que a pandemia de COVID-19 revelou. O coronavírus causou uma pandemia mundial que expôs a fragilidade das nossas instituições e a polarização social em torno de medidas de saúde pública. A resposta global à crise foi marcada por desinformação, resistência a medidas como o uso de máscaras e vacinação, e a disseminação de teorias da conspiração. A negação da gravidade da pandemia, alimentada por líderes políticos como o ex-presidente Jair Bolsonaro, não apenas prolongou a crise, mas também aprofundou divisões dentro das sociedades. Nesse contexto, a ideia de que o mundo está "acabando" surge de uma falha nas estruturas de governança e de confiança pública. Quando o conhecimento científico é descartado e as políticas públicas são enfraquecidas por disputas ideológicas, não é o mundo em si que entra em colapso, mas a ordem das instituições que deveriam garantir a proteção e o bem-estar da população. O fim do mundo não é físico, mas institucional, um reflexo da incapacidade de organizar respostas eficazes diante de crises globais.

Além dos desafios ambientais e de saúde, o negacionismo também se manifesta em uma rejeição da história e dos avanços sociais conquistados ao longo dos séculos. O revisionismo histórico, que busca apagar ou distorcer eventos como o Holocausto ou a escravidão, é uma expressão clara de como o mundo está fora de ordem. Esses movimentos não buscam apenas apagar o passado, mas também enfraquecer os direitos conquistados por minorias e grupos historicamente oprimidos. A ideia de que estamos em um "fim do mundo" se fortalece quando as conquistas sociais — como os direitos civis, os direitos das mulheres, e os direitos LGBTQIA+ — são desafiadas por forças políticas que desejam reverter esses avanços.

Nesse cenário, a ordem que deveria existir em torno dos direitos humanos e da justiça social está sendo destruída, criando um ambiente de insegurança e medo. A negação do progresso social, alimentada por discursos extremistas e polarizadores, coloca em risco as bases das sociedades democráticas, levando a uma sensação de que a civilização está à beira de um retrocesso irreversível. Mais uma vez, o mundo não está chegando ao fim, mas a ordem social e política está sendo desmantelada por aqueles que buscam minar os princípios de igualdade e dignidade humana.

Ademais, o negacionismo político e a desinformação estão desafiando as bases das democracias em vários países. No caso dos Estados Unidos, a recusa de Donald Trump e de seus apoiadores em aceitar os resultados das eleições de 2020 resultou em um ataque ao Capitólio, um episódio que expôs a fragilidade do sistema democrático americano. Em outros países, como o Brasil, movimentos políticos negacionistas questionam a legitimidade do sistema eleitoral e buscam enfraquecer as instituições que sustentam a democracia. Esses ataques às democracias não são, na verdade, um sinal de que o "mundo está acabando", mas de que a ordem política está sendo corroída. A rejeição ao Estado de direito, ao processo eleitoral e à independência dos tribunais indica uma desordem dentro das próprias estruturas governamentais, minando a confiança nas instituições e criando um clima de polarização e violência.

Diante de todos esses fatores — negacionismo climático, falhas nas respostas a crises sanitárias, distorção da história e da política — a questão central não é se estamos no fim do mundo, mas se a ordem está sendo desfeita de dentro para fora. O mundo continua a existir, mas a ordem que deveria garantir a paz, a justiça e a sustentabilidade está sendo desmontada por forças que se recusam a aceitar a realidade. O negacionismo, seja ambiental, sanitário, político ou histórico, é um sintoma dessa desordem, e não o fator que causa o fim do mundo em si.

A grande questão é: como responder a esse caos crescente? Será que podemos restaurar a ordem nas nossas instituições e políticas públicas, ou continuaremos a trilhar um caminho de destruição, negando as evidências e alimentando um ciclo de crises irreversíveis? O mundo não está acabando, mas a ordem, essa sim, está fora de controle. E cabe a nós decidir se conseguiremos restaurá-la antes que os danos se tornem irreparáveis.


Laura Gomes Valente - 1º ano Direito Matutino

O uso transgressivo do batom contra o positivismo nazista

O positivismo, termo cunhado por Auguste Comte, é uma vertente filosófica que surgiu do cientificismo europeu e desempenhou um importante papel no desenvolvimento do nazismo, influenciando seus ideais nacionalistas e autoritários. De tal maneira, as virtudes femininas exaltadas nas propagandas conservadoras eram aquelas relacionadas à maternidade, simplicidade, submissão e utilidade. Mulheres precisavam ser úteis. Para essa vertente política, técnica era o maior bem de uma nação, junto à praticidade.

O partido nacional socialista exigia que mulheres evitassem a maquiagem, porque a vaidade não devia ser uma característica da mãe exemplar: a camponesa trabalhadora que sacrifica sua identidade pessoal em prol da família e nação. Sendo assim, o batom, especialmente o vermelho, que evocava sensualidade e independência, era visto como uma transgressão dos valores impostos.

Subsequente, mulheres de países que se opunham aos regimes do eixo, ao notarem tal doutrina nazista, iniciam um movimento simbólico e transgressivo – o uso do batom vermelho. A maquiagem rompe com os valores positivistas patriarcais, e é um protesto sutil contra o controle de corpos femininos, contra o autoritarismo e concentração de poder.

Pessoas que gestam não devem ter seus corpos escravizados pelo bem da suposta ordem e progresso. O positivismo deseja que o útero seja subordinado do governo, mesmo que isso signifique opressão e sacrifício. Por isso, mulheres continuam a usar maquiagem como forma de arte em uma sociedade que muitas vezes a repudia.

- Letícia Mayumi Sato Prado.

(obs: não consigo analisar a quantidade de linhas pois uso o blogger em sua versão mobile)

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Um mundo fora de ordem ou uma ordem fora do mundo?

             Um mundo fora de ordem ou uma ordem fora do mundo?

     Se alguém fosse instado a descrever e definir a noção de ordem, a imaginação, de imediato, evocaria um cenário de equilíbrio e harmonia, no qual o poder se exerce de maneira equânime e legítima, assegurando o pleno funcionamento do tecido social. A palavra "ordem", tão amplamente discutida e, em certa medida, enaltecida em todo o mundo, encontra-se, inclusive, escrita na bandeira nacional do Brasil, enfatizando seu caráter de base para a estrutura e os princípios da nação. Contudo, ao se proceder a uma análise crítica da veracidade do ideal de "ordem e progresso" no contexto da federação e da conjuntura global, seria possível, de fato, afirmar que essa ordem se concretiza na realidade contemporânea? A configuração hodierna da ordem integra, de maneira efetiva, a sociedade, ou se revela um conceito meramente utópico, distanciado da realidade concreta do mundo?

     Ao observar os inegáveis avanços que se verificam cotidianamente no domínio da tecnologia, nos progressos da medicina e nas curas alternativas, no desenvolvimento de vacinas e nas iniciativas que promovem a inclusão de minorias nos espaços acadêmicos, laborais e na esfera social mais ampla, pode-se inferir que a ordem encontra-se estabelecida e consolidada no presente contexto. Sob essa perspectiva conclui-se que o exercício do poder manifesta-se de forma eficiente e, em grande medida, eficaz.

     Entretanto, ao analisar as mazelas sociais, os inúmeros conflitos bélicos — como o persistente embate entre Palestina e Israel —, os elevados índices de analfabetismo, a insegurança alimentar e o alarmante número de indivíduos em situação de vulnerabilidade extrema, a conclusão poderia ser completamente oposta: a esse ponto, a própria existência de ordem se tornaria questionável. Como sustentar a noção de ordem quando, diariamente, milhares de pessoas são assassinadas em razão de sua cor de pele, de sua identidade de gênero, de sua filiação religiosa ou, até mesmo, pelo simples fato de serem mulheres? É assustador constatar que preconceitos, supostamente extinguidos do corpo social, persistem de maneira incessante e, por vezes, recrudescem.

     Diante dessa realidade, a indagação que inaugura o presente excerto revela-se uma incógnita cuja resposta se molda conforme as lentes pelas quais se observa o mundo. A depender do prisma adotado, as respostas podem se revelar totalmente antagônicas. Sem que se considere a influência das convicções individuais, do meio sociocultural em que o sujeito está inserido e de suas crenças pessoais, a questão levantada dificilmente encontraria uma resposta definitiva.




Um mundo fora de ordem ou uma ordem fora do mundo? - Texto Palestra "Estamos no fim do mundo?"

O “Humanitismo”, filosofia desenvolvida por Machado de Assis no livro "Quincas Borba", possui como máxima: “Ao vencedor, as batatas. Ao perdedor, o ódio ou a compaixão”. Tal princípio, além de exemplificar a obra, é uma dura crítica do autor à organização social que se perpetua até hoje: a instauração de uma competição constante entre os indivíduos, na qual os perdedores são excluídos e subjugados e os vencedores, como forma de realçar sua vitória, ganham prêmios como forma de se vangloriarem. É possível observar que tal premissa perfura o âmbito ficcional e se aplica também a realidade, uma vez que possuímos um mundo completamente desigual, vivendo uma disputa acirrada a todo tempo, permeado de desigualdade e caos. Todas essas características são advindas do sistema socioeconômico vigente: o capitalismo.

Com a sua consolidação no século XVIII, a partir Revolução Industrial, esse modo de gerir o mundo causou diversos problemas, calcificando a desigualdade social, os desastres naturais, as péssimas condições de trabalho, crises políticas e territoriais. Contudo, na contemporaneidade tais problemas se agravaram e, como uma forma de não mostrar as fragilidades desse sistema regido pelo capital, os indivíduos compram a ideia vendida de que o mundo está acabando e não há nada a ser feito.

Na política internacional, observamos a ascensão frequente da extrema direita em diversas potências mundiais. Nos Estados Unidos, o atual presidente Donald Trump ameaça constantemente os estudantes e as universidade, instaurando o desespero ao emitir a ordens de deportação de estudantes estrangeiros que não concordem com sua ideologia, como foi o caso de uma estudante turca, a qual foi abordada por homens mascarados e levada presa por ter defendido a Palestina em uma manifestação. Além disso, o presidente emitiu a proibição de quase 200 palavras, censurou trabalhos acadêmicos e fechou o Departamento de Educação com a justificativa de corte de gastos. Tais atos criam um ambiente angustiante não só nacional, mas mundial, e de muitas incertezas para que os indivíduos, que já sentem-se desesperançosos, acreditem que, de fato, o fim do mundo está próximo.

Ademais, segundo um estudo realizado na Alemanha e publicado na revista "Nature Climate Change", há a comprovação que o aumento de 1,6° do planeta pode ser um sinal de um mundo permanentemente mais quente e com a presença de diversos desastres climáticos, como enchentes, aumento da seca, tempestades mais fortes e frequentes, furacões, tornados dentre outras adversidades climáticas. Contudo, os cientistas afirmam que “se a humanidade agir rápido e reduzir drasticamente suas emissões, é possível manter o aquecimento de fato em 1,5°C ou pelo menos limitá-lo a 2°C”. Logo, nem tudo está perdido e o mundo pode "não acabar" se as medidas corretas forem tomadas.

Fato é que o capitalismo, como um modelo de gerir a economia e a sociedade, fracassou e devemos urgentemente lutar contra a falácia que o mundo está acabando, já que essa é a maneira mais fácil de alienar uma população desigual e sucumbida à pobreza extrema. Sendo assim, é nosso dever dar o passo inicial para o fim da competição e da espetacularização dos indivíduos – tanto dos vencedores que levaram as batatas, quanto dos perdedores que receberam o ódio – porque, no final, todos nós estamos juntos usando da esperança, da política, da sociologia e da educação pública como armas para promover o fim de um mundo baseado na competição e o surgimento de um mundo melhor.

"Para mim, é impossível existir sem sonho. A vida na sua totalidade me ensinou como grande lição que é impossível assumi-la sem risco" - Paulo Freire


Geovana Martins de Mori - 1° Ano - Direito Matutino

O mundo está fora de ordem ou a ordem está fora do mundo?

O mundo está fora de ordem ou a ordem está fora do mundo?


No livro A Cidade de Deus, Santo Agostinho faz uma distinção entre a ordem terrena (imperfeita) e a ordem divina (perfeita); para ele, a verdadeira ordem provém de Deus. Entretanto, ao observarmos as atividades humanas, vemos apenas a imperfeição, o caos e a destruição instaurados no mundo. Diante disso, para compreendermos a ordem em nosso contexto mundial, é necessário analisar a história da humanidade e os objetivos por trás da tecnologia.

Nesse viés, cabe refletir sobre o percurso histórico da humanidade e suas intenções para entender a aparente falta de ordem no mundo contemporâneo. Segundo C. Wright Mills, devemos considerar como nossas vidas estão conectadas ao contexto histórico e social para compreender o que estamos vivenciando. O mundo sempre esteve em guerra: desde a Antiguidade, com egípcios, gregos e persas, até os dias atuais, com os conflitos na Ucrânia e na Palestina. Governos e governantes, ao longo dos séculos, almejaram poder, riquezas, honra e glória para seus reinos e para si próprios, mesmo que isso custasse a destruição de culturas, povos e etnias. Nota-se, assim, a permanência dessas práticas e pensamentos nos governos atuais e a angústia que paira sobre os povos e nações envolvidos, levando-nos a questionar: até quando viveremos assim? Portanto, para que o sofrimento e as guerras cessem, é necessário que a transformação comece dentro de cada indivíduo. Não podemos esperar que os outros ajam primeiro, mas sim tomar atitudes firmes e conscientes por nós mesmos.

Além disso, o uso da tecnologia com intenções maléficas é outro fator que contribui para a desordem mundial e a perpetuação do caos. Sob essa ótica, a tecnologia tem desempenhado um papel fundamental na intensificação das guerras, aumentando a letalidade e facilitando o acesso de grupos não estatais, como terroristas e milícias, a armamentos poderosos. Com líderes soberanos focados apenas no poder político e econômico, somados ao domínio bélico de países e grupos rebeldes, vemos o cenário global mergulhar novamente na desordem e em conflitos potencialmente catastróficos. O filósofo Kant chegou a propor um “direito cosmopolita” para evitar guerras, mas a realidade permanece marcada por disputas de poder e pela falta de sensibilidade em relação ao próximo.

Depreende-se, portanto, a urgência de combater a falta de empatia e sensibilidade pelo outro. Em 2 Timóteo 3:1-3, lemos:
"Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem..."
Dessa forma, observa-se que a desordem não é exclusiva da Antiguidade, mas também se manifesta, de maneira intensa, nos tempos atuais, como comprovam os inúmeros conflitos que presenciamos em nossa realidade contemporânea. A ordem no mundo não depende apenas de sistemas políticos ou avanços tecnológicos, mas do despertar de uma consciência coletiva e espiritual que valorize a dignidade humana, o amor ao próximo e a construção da paz como um ideal possível e urgente.



Felipe Kinzo Massuda Nascimento - 1° ano direito (matutino)

Os limites do pensamento de Comte na compreensão da sociedade

 

Auguste Comte desenvolveu a ideia de que as ciências sociais devem buscar o mesmo tratamento que as ciências naturais, ou seja, submeter-se a métodos científicos racionais, que têm como finalidade entender a sociologia de modo a prever os acontecimentos e controlá-los de forma pragmática. No entanto, essa visão limita consideravelmente o estudo da esfera social, uma vez que reduz a sociedade a modelos fixos, não permitindo entendê-la para além deles, o que impede a compreensão efetiva de sua complexidade. 

Para ilustrar a limitação da ideia de Comte, usaremos a crise climática atual, pois, além de um problema ambiental, é um problema que afeta a sociedade, logo, uma questão social:

Sob a perspectiva de Comte, a crise deveria ser gerida por meio do entendimento de suas causas - como a degradação ambiental- e, a partir disso, da criação de um planejamento pragmático para solucioná-la, como a criação de uma gestão ambiental que monitore as atividades que afetam o meio ambiente. Entretanto, é uma perspectiva até otimista da situação, pois pressupõe que um simples planejamento para restaurar o equilíbrio resolveria essa problemática tão complexa, que, na realidade, só se agravou ao longo dos anos.

Em uma visão mais realista, há forças estruturais que impedem a simples correlação entre problema e solução. Nesse sentido, a sociedade é regida por relações econômicas, e aqueles com recursos para de fato criarem um planejamento e colocá-lo em prática são, muitas vezes, aqueles que mais contribuem para a crise. Um exemplo disso são os Estados Unidos (EUA), a maior economia do mundo, com um PIB (Produto Interno Bruto) superior a 29 trilhões de dólares, ou seja, possuem recursos financeiros para implantar soluções lógicas para a crise climática. Todavia, o então presidente do país, Donald Trump, no início de 2025, assinou a retirada dos EUA do Acordo de Paris - tratado que visa controlar a crise – demonstrando que seus interesses políticos e econômicos são maiores do que a questão ambiental.

Assim, ao propor que as ciências sociais sejam estudadas da mesma forma que as ciências naturais, Comte desconsidera fatores subjetivos, políticos e econômicos que estruturam a sociedade. Por isso, sua visão se mostra insuficiente para analisar a complexidade das ciências sociais.

Letícia Zanardo Morandi - Direito diurno 

As Contradições Entre o Positivismo e o Verdadeiro Mundo

 

   Um marco histórico de turbulência social essencial para a fundação da “Física Social” –posteriormente conhecido como a Sociologia- e do Positivismo foi, para Augusto Comte, a Revolução Francesa. Isto é, vivenciando esse contexto no qual estava inserido, marcado por transformações políticas e pela ascensão de ideias reacionárias, ele percebeu que os conceitos metafísicos e religiosos antigos já não seriam capazes de explicar tantas mudanças estruturais da sociedade. Dessa forma, a partir desse momento, a ordem tradicional – baseada em uma visão teológica e aristocrática- começou a se desmoronar, criando espaços para novas formas de pensar e de agir. Diante desse contexto, Comte compreendeu que ainda não existia uma ciência para o conhecimento sistematizado que pudesse explicar a fervura revolucionária e mais tantos outros conceitos sobre o imaginário social. Dessa forma, durante a sua vida, o filósofo se dedicou a apresentar o conceito de Sociologia e de positivismo e as suas aplicações no mundo real.                                                                                                                           

  A Sociologia é, em si, uma ciência que busca entender os movimentos da sociedade. Diferentemente de outras correntes de pensamento, essa não buscava ser especulativa, mas objetiva e útil, o que seria capaz de demonstrar que a sociedade estava progredindo linearmente. A fim de atingir seus objetivos, Comte entendia que era necessário um método para aplicar o conceito sociológico, desenvolvendo o método positivista. Ele defendia que esse ideal era o único capaz de ser verificado e testado empiricamente, podendo ser capaz de atestar e verificar fatos. Sob essa lógica, a Sociologia, na visão de Comte, serviria para explicar os acontecimentos sociais a partir de uma visão prática, fugindo de conceitos subjetivos. Além disso, seria uma forma de esclarecer as leis que regem a estrutura social e, também, o próprio comportamento humano diante das transformações. Por conta disso, pode ser conhecida como “Ciência Social”, já que é um estudo pragmático e racional sobre as pessoas e a relação entre elas.                                                                                                                                       

  Embora seja um método prático, não pode ser considerado totalmente certo. Isto é, Comte argumenta que a sociedade está sempre em progresso linear, ou seja, é uma teoria com uma visão muito otimista e racional. Entretanto, não são todas as vezes em que o ser humano age de maneira coerente e favorável, o que contraria o argumento do filósofo. Isso pode ser observado pelo ataque bolsonarista do dia 08 de Janeiro de 2023 em Brasília, o qual foi responsável por destruir e vandalizar o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal –espaços que simbolizam a democracia brasileira-. Tal atrocidade representou uma ruptura do sistema democrático, demonstrando ser uma atitude violenta, irracional e retrógrada. Partindo desse acontecimento, pode-se observar que o imaginário social nem sempre caminha em uma trajetória ordenada e civilizada, o que contraria a lógica positivista de Augusto Comte. Isso porque, de acordo com ele, a sociedade -acompanhada dos avanços tecnológicos e científicos- se tornaria cada vez mais justa e organizada conforme o passar do tempo, o que, na prática, não acontece. Por isso, não é possível afirmar que a ordem e a razão são capazes de resolver e explicar todas as mudanças e transformações estruturais da sociedade, pois, como exemplificado pela Intentona Bolsonarista, não são todas as vezes em que o homem é racional e otimista. Muito pelo contrário, pôde-se observar o retrocesso e a fragilidade do sistema democrático brasileiro. Assim, o positivismo tem uma visão idealista e restrita sobre a sociedade, não sendo suficiente para explicar verdadeiramente as mudanças e as transformações.                                                                     

 É possível elucidar, pois, que a Sociologia utilizou o método do positivismo para compreender os indivíduos e o mundo. Augusto Comte explicou que essa estratégia representaria uma forma de verificar e atestar os fatos, sendo um método científico eficaz, prático, otimista e racional. No entanto, tal método não é capaz de explicar todas as transformações sociais, pois a sociedade não segue uma trajetória linear de “ordem e progresso”, como observado no ataque de 08 de Janeiro. Portanto, tal método foi essencial para o surgimento da sociologia, mas não explica totalmente o funcionamento das estruturas sociais e dos seus desdobramentos.


Isabella de Souza Rodrigues Castanho- 1° ano Direito Noturno 

terça-feira, 1 de abril de 2025

Com esperanças, sobrevivemos ao caos.

Entre desertos e oliveiras, o grito ecoa,  
Israel e Palestina compõem a inquietação 
Mães choram, filhos caem, e a terra sangra,  
Numa luta sem fim, onde a esperança tange.  

O mundo observa, impotente, o eterno conflito,  
Sombra de um passado que não sabe o que é bonito.  
O tempo escorre como areia,  
E a paz, sonho distante, na dor se semeia.  

No silêncio da noite, questionamos a ordem imposta,  
E na ruína das certezas, nasce um novo clamor,  
Um sussurro de renovação, feito de dor e fervor.  

Entre o caos e o sopro da incerteza,  
Desabrocha a esperança em meio à dureza.  
Se o fim é só um ciclo de recomeçar e transformar,  
Que possamos aprender a amar, a curar e a sonhar.

Laysa Pereira de Araújo - 1° período  (Matutino)

Capitalismo selvagem: O sistema econômico que mantém o mundo fora de ordem

É fato que nos tempos atuais vivemos em um mundo sob o qual a desordem se faz presente de maneira cada vez mais evidente e nos mais diversos ramos possíveis. Contudo, para que se possa compreender o motivo de tal problema, é de suma importância salientar de antemão que o principal culpado para um mundo fora de ordem é o capitalismo selvagem, isto é, um sistema econômico pautado em uma busca tão desenfreada por lucro, que se parece quase como uma condição análoga à selvageria.

Nesse sentido, nota-se que o sistema capitalista inicia sua desordem no mundo primeiramente pelas relações de trabalho, nas quais a burguesia, detentora dos meios de produção, submete a classe proletária a vender sua força de trabalho em prol de seu sustento, de modo que aqui já se estabelece uma relação de exploração que intensifica problemas sociais que geram como consequência a desordem, tais como a miséria, a violência, o aumento de crimes, a ausência de segurança, dentre outros.

Desse modo, ao estabelecer sua dominação nas relações de trabalho, o capitalismo selvagem aumenta o fortalecimento da classe burguesa e dos Estados mais desenvolvidos economicamente, fazendo com que, em contrapartida, a classe proletária, os países subdesenvolvidos, grupos minoritários e vulneráveis se tornem reféns daqueles. A título de exemplo de tal fortalecimento, observa-se os Estados Unidos, país capitalista mais desenvolvido financeiramente do mundo, e sua intervenção no conflito entre Israel e Palestina, sob a qual foi uma interferência tendenciosa que visou estratégicamente a região em que se acontece o conflito e os recursos e oportunidades que desta aparecem, ou seja, ao invés de colaborar com o fim do conflito e a libertação do povo palestino, os Estados Unidos estavam preocupados apenas em como poderiam gerar lucro a partir deste cenário catastrófico.

Sendo assim, para que se possa superar este modelo econômico que mantém o mundo fora de ordem, é primordial que ferramentas de combate ao capitalismo selvagem sejam aplicadas, tais como a coletividade, haja vista que esta é capaz de formar elos de fortalecimento e de auxílio entre os indivíduos; A criação de instituições de apoio a grupos vulneráveis e minoritários, com pautas que colaborem com a sociedade e tragam esperança de modo concreto à população; A educação, ferramenta esta que serve de instrução para a compreensão das pessoas sobre o funcionamento e a manipulação do sistema capitalista; E, por fim, e mais importante, a união da classe proletária, tendo em vista que esta compõe a maioria absoluta dos indivíduos conviventes em uma sociedade capitalista, enquanto a burguesia se estabelece em um grupo absolutamente inferior.

Contudo, o capitalismo traz a falsa sensação de que a burguesia é dominante e superior, fortalecendo tal impressão para a sociedade através da detenção burguesa no que concerne aos meios de produção. Porém, de nada adianta a posse dos meios de produção se não houver trabalhadores que se submetam a vender sua força de trabalho. Por isso, salienta-se que a união proletária faria com que a classe dominada agora passasse a ser a classe dominante, de modo a lutar por seus direitos e por seus iguais, fazendo com que assim, se chegasse a um patamar em que toda a miséria, exploração e violência presente na sociedade, ocasionada pelo capitalismo, pudesse ser solucionada, com o fito de novamente trazer ordem ao mundo.

Ademais, cabe ressaltar ainda o contexto capitalista e sua influência no conflito entre Israel e Palestina, mencionado ao longo do texto, que vai para além de apenas mencionar sobre os Estados Unidos. Nesse sentido, antes de constatar tal combate, é de suma importância evidenciar que toda a destruição de um povo nos tempos atuais se inicia pelo enfraquecimento financeiro de determinado Estado, já que a ausência de verbas faz com que o Poder Político se enfraqueça, o que gera vulnerabilidade das forças armadas quanto a defesa da soberania, e, por conseguinte, a desestabilização estatal. Sob essa ótica, percebe-se que Israel realizou todas as tentativas de enfraquecer financeiramente o povo palestindo, conduzindo-os primeiramente ao isolamento territorial, para que estes não tivem acesso a qualquer financiamento externo; A destruição de hospitais, mercados, bases agrícolas, animais, e uma vasta gama de instrumentos essenciais à subsistência do povo palestino; O genocídio contra milhares de cívis para diminuir o Poder de combate e o grupo como um todo; E, ainda, a violência contra as mulheres visando a destruição dos ventres, com o fito de impossibilitar a reprodução deste povo, e , por conseguinte, a inexistência de uma futura população economicamente ativa, o que destruiria completamente a palestina e seu povo.

Destarte, é possível compreender que o capitalismo selvagem inicia sua dominação de modo silencioso e de aparência inofensiva no começo, mas que com o passar do tempo é desmascarado, já que este é o mecanismo causador de toda a injustiça, desigualdade, miséria e revolta em que a sociedade se encontra, o que gera como consequência um mundo fora de ordem. Todavia, a união das massas tem potencial para subverter este cenário, afinal a classe proletária pode estar em alienação nos tempos atuais, mas ainda assim esta não deixa de ser composta pela maioria esmagadora de pessoas, que se iniciassem uma luta de classes poderiam facilmente acabar com o capitalismo, já que sem força de trabalho e consumo, a economia capitalista é impossibilitada de existir. 

Sendo assim, além da solução para o fim da desordem mundial ser o fim do mundo capitalista, conclui-se que esta depende somente de nós, haja vista que o mundo nunca acabará em desordem e caos pois ele possui o ser humano e toda sua fonte racional para assegurar sua proteção, e por isso, o mundo nunca acaba, mas começa todo dia quando pessoas como nós se juntam e realizam mesas de debate, criam instituições defensoras das minorias, implementam políticas educacionais para os indivíduos e estabeleçam coletividades que defendam o povo e combatam concretamente as desigualdades existentes, para que assim a união alcance poder suficiente para destruir definitivamente o capitalismo selvagem e restabelecer a ordem mundial que se encontra ausente no cenário hodierno.

Rafael Martins Araujo - 1° ano - Direito - Matutino

Um mundo fora de ordem ou uma ordem fora do mundo?

 Guerras. Pandemias. Desastres naturais. São notícias corriqueiras que são vistas em todos os jornais e nos fazem perder a esperança. Ver crianças palestinas sendo mutiladas em uma guerra em que ninguém sairá vencedor nos faz questionar se a humanidade acabou.

Contudo, no caso da guerra em Gaza, ainda há acontecimentos que trazem um alento. Como, por exemplo, profissionais de saúde voluntários que foram para Gaza ajudar os doentes e feridos. Também é possível ver exemplos que nos trazem esperança no nosso próprio país. Quando houve o desastre natural no Rio Grande do Sul, grande parte dos brasileiros se mobilizou para socorrer os gaúchos.

Sendo a ordem fundamental para o desenvolvimento da sociedade, é necessário que os indivíduos modernos colaborem uns com os outros mais frequentemente – não apenas durante tempos de guerras ou tragédias – para que assim a sociedade como um todo possa a atingir o progresso e diminuir um pouco a desordem do mundo.

Conclui-se, portanto, que o mundo moderno vive um momento de grandes transformações, impulsionado pelo avanço da tecnologia, mudanças sociais e desafios ambientais. A globalização conecta países e culturas, permitindo o intercâmbio de ideias e conhecimentos como nunca. No entanto, essa interconexão também expõe vulnerabilidades, como crises econômicas globais e a disseminação rápida de desinformação. Diante desse cenário complexo, a humanidade enfrenta o desafio de equilibrar progresso, ética e sustentabilidade, buscando soluções para um futuro mais justo e equilibrado.

Lorraine de Oliveira Maciel – 1º ano – Direito - Matutino

segunda-feira, 31 de março de 2025

A ordem está fora do mundo

 A geração atual encontra-se  em uma posição extremamente delicada. Cercada de problemas políticos, crises climáticas, vulnerabilidades sociais e o advento de tecnologias cada vez mais avançadas, cabe o questionamento, estaria o mundo fora de ordem ou a ordem fora do mundo?

Primeiramente o ser humano é vítima de diversas catástrofes geradas pela crise climática; enchentes, tsunamis, terremotos entre outros, além do constante preocupação sobre o aquecimento global. Essas questões já são o indício da instabilidade da ordem no mundo, visto que causam refugiados climáticos, mortes e preocupações.

Consoante a isso, o ser humano se encontra em um estado de crise na atualidade, com a regressão de diversos direitos conquistados e com a ascensão de discursos de viés fascistas. Havia quem acreditava que o mundo havia adquirido uma certa ordem após a queda de Mussolini, Hitler, Franco e Salazar e que discursos baseados nas doutrinas desses líderes fascistas não seriam vistos no mundo moderno. Entretanto, nota-se nas sociedades a ascensão de governos de extrema direita baseados em doutrinas fascistas, questão que seria inimaginável há alguns anos. 

Ademais com o governo Trump nos Estados Unidos , cidadãos LGBTQ+, mulheres, negros, indígenas e imigrantes viram seus poucos direitos conquistados diminuírem drasticamente com poucas semanas de governo; desse modo essas pessoas vivem na angústia de terem seus direitos restantes retirados. Fica o questionamento, tem como a ordem estar no mundo se cidadãos perdem seus direitos constantemente e vivem em um temor de perder direitos que assegurem dignidade humana a eles?

Além disso, países como Irã e Afeganistão restringem cada vez mais o direito das mulheres, com estas sendo proibidas de falar em público no Afeganistão e sendo mortas no Irã por protestarem. Com direitos simples sendo proibidos e a dignidade humana dessas mulheres sendo cada vez mais afetada se perguntássemos para essas mulheres se elas sentem que o mundo delas está em ordem, elas provavelmente diriam que não. Principalmente no Afeganistão, país no qual as mulheres desfrutaram de certas liberdades, como a educação, antes do Talibã assumir o poder e bruscamente regrediram vinte anos em dois. 

Outro exemplo é o genocídio assistido em Gaza, no qual milhares de palestinos foram mortos. É possível ordem no mundo quando nações e seus cidadãos  veem diariamente o que acontece na região porém preferem fechar seus olhos para essa realidade?

A resposta é simples, o mundo não está fora de ordem-até porque ele nunca esteve plenamente nela - a ordem é que está fora do mundo e por isso abrem-se margens para que a barbárie invada o planeta e cause mazelas para os seres humanos.


Maria Clara Destito Yano  -   1 Ano Direito Matutino 

Um mundo fora de ordem ou uma ordem fora do mundo?

    A questão levantada pelo professor Agnaldo: “Um mundo fora de ordem ou uma ordem fora do mundo?” é curiosa. Em um século XXI marcado pelo genocídio palestino, pela guerra “ao terror”, pelos retrocessos e pela opressão de grupos minoritários, pode parecer fácil responder de cara: “é um mundo fora de ordem”. No entanto, ao analisarmos o contexto de fatores como as ascensões políticas contemporâneas, especialmente o retorno do fascismo, é difícil discordar da ideia de que há, sim, uma “ordem fora do mundo”.

    No contexto da pergunta, podemos definir "ordem" de duas maneiras que se complementam:

-Uma ordem destinada aos oprimidos: ou seja, um sistema opressivo e alienante que esmaga os direitos, a coletividade e a autodeterminação dos indivíduos, que apenas influenciam o cenário mundial por meio de sua força de trabalho.

-Uma ordem dos opressores: não uma ordem como a representada no filme De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick, mas uma ordem que opera com base no controle e organização das figuras que estruturam o globo para atender aos seus próprios interesses.

    Quando falamos de uma ordem “fora do mundo”, essa afirmação pode ser entendida de dois modos que também se complementam:

-A ordem está fora do mundo por ser organizada por aqueles que estão fora da vivência cotidiana do ser humano comum.

-A ordem está fora do mundo porque retira a noção de importância dos oprimidos no cenário mundial, apagando suas vidas e necessidades.

    Por fim, acredito que estamos, de fato, em uma ordem fora do mundo, e não em um mundo fora de ordem. Após a consolidação da burguesia industrial e dos Estados modernos, é difícil afirmar que algo em escala geopolítica esteja realmente “fora de ordem”. Se está “fora de ordem”, é porque está fora da ordem estabelecida por aqueles que impõem seus próprios padrões em escala global.


Eduardo Cavalcante Seghese Neto 1º Direito Noturno

Entre questionar e resignar

 “Um mundo fora da ordem ou uma ordem fora do mundo?”. Tal questionamento reflete uma incerteza contemporânea diante aos conflitos presentes na sociedade. Sob esse viés, ele busca compreender se a sociedade se encontra em um período de evasão da ordem, como se os comportamentos estivessem inconsistentes com o pressuposto. Contudo, existe também a perspectiva de que este sistema, como um todo, é incompatível com a contemporaneidade.

    Dessa forma, existe um constante desespero com a condição atual, que não só preocupa os cidadãos, mas também perpetua uma sensação de inevitabilidade. Nesse contexto, o cenário hodierno é composto de embates, como guerras e pautas sociais. Por conseguinte, é notória a presença de combates armados, como entre a Palestina e Israel, que demonstram não apenas uma crise humanitária, como também conflitos ideológicos e bélicos. Desse modo, essa incerteza acerca do futuro propicia a tentativa de buscar por respostas, que por sua vez são intrínsecas à uma iniciativa de encontrar justificativas para a ascensão de tais fenômenos. Assim como, reverbera-se a sensação de que não há nada a ser feito, sendo tal noção errônea, visto que a participação ativa permite a união de ideias. Sendo assim, surgem duas perspectivas, uma que desdobra tais questões como anormalidades da ordem, que por sua vez remete ao sistema político-econômico. Todavia, o segundo entendimento desenvolve essa norma como incompatível com a sociedade, de maneira que a analisa como causadora dessas problemáticas.

Logo, o questionamento continua presente na hodiernidade, entretanto, devem-se ser procuradas formas para mediar tais conflitos, contando com a participação ativa das pessoas e a esperança de melhorar a sociedade.


A chegada do Positivismo de Comte ao Brasil Império e sua atual influência na realidade brasileira

O Positivismo, corrente teórica desenvolvida pelo cientista Augusto Comte na obra “Sociologia”, está pautado na interpretação racional-científica da realidade social e no desenvolvimento de uma lógica com metodologia exata aplicada à sociedade, a fim de desenvolver a ciência social como instrumento de alcance do progresso e da ordem. No contexto da época, o Positivismo foi amplamente divulgado e fortalecido na Europa por seus apoiadores, entre eles John Stuart Mill, pensador responsável pela estruturação da teoria positivista junto a Comte. O crescimento do Positivismo alcançou o Brasil no final do século XIX, durante um momento histórico conturbado e alvo de muitas transformações sociais, econômicas e culturais.

Naquele momento, o regime monárquico brasileiro estava enfrentando uma crise. Intelectuais e políticos não se encontravam satisfeitos com a política de centralização de poder de D. Pedro II. Ainda que o parlamento e a Constituição existissem, as principais decisões estavam concentradas nas mãos do imperador, que inclusive tinha o poder para interferir nos ministérios e partidos. Enquanto isso, o exército tornava-se símbolo de ascensão social, e passava a ser almejado por jovens estudantes integrantes da aristocracia brasileira, que realizavam seus estudos na Europa e voltavam ao Brasil com ideias e teorias novas, uma delas, o Positivismo. Sendo um país “sem filosofia” à época, o Brasil abraçou o positivismo na busca por encontrar uma nova concepção de valores e condutas morais para a população brasileira daquele período.

Grandes nomes no Brasil juntaram-se à causa positivista, entre eles os escritores Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”, e Luís Pereira Barreto. Este último escreveu a obra “As Três Filosofias”, considerada o marco inicial do Positivismo Brasileiro. 

Algumas ideias de Comte passaram por “adaptações” no país latino-americano, conforme à realidade vivenciada naquele período. Uma dessas alterações foi o posicionamento positivista brasileiro no que se referia à vacinação. Enquanto na Europa a vacinação foi vista como “inovadora” e fortalecida pelos positivistas, defensores dos avanços científicos, no Brasil, a situação foi um tanto quanto diferente. 

Naquele período, o Rio de Janeiro enfrentava uma epidemia gravíssima de varíola, em razão das péssimas condições de saneamento básico na cidade. A região estava passando por uma tentativa de “modernização” do centro, para torná-la mais atrativa e parecida com o estilo das cidades europeias, porém, nesse processo, a população pobre, em sua maioria negra e descendente de escravizados, precisou sair de suas moradias e ocupar a periferia da cidade. Esse processo levou ao aumento exponencial de doenças e animais peçonhentos. Dessa forma, em 1902, quando nomeado Diretor Geral de Saúde Pública (o que, atualmente, corresponderia ao cargo de Ministro da Saúde), Oswaldo Cruz decidiu realizar o combate à varíola através da vacinação em massa — e forçada.

Apesar de a vacina antivariólica ser obrigatória desde 1846 para adultos, a lei jamais havia sido cumprida. Os instrumentos de aplicação da vacina, na época, eram lancetas metálicas, que realizavam cortes e escorriam o líquido para dentro da corrente sanguínea. O processo era longo e doloroso e, por isso, temido pela maior parte da população. Enquanto isso, o Positivismo Brasileiro estava no seu auge e, ironicamente, naquele momento, colocou-se contra a ciência, em razão da aplicação de medidas estatais de vacinação à força e de reclusão dos não-vacinados. Assim, a corrente positivista foi grande influenciadora da maior revolta urbana até então já vista no Rio de Janeiro: a Revolta da Vacina.


Ao trazer esse acontecimento para a realidade brasileira, podemos correlacionar a ação dos positivistas à época com o movimento anti-vacina brasileiro, o qual alcançou maior proporção a partir do ano de 2021, durante a pandemia de COVID-19. Essa é uma prova de como, na sociedade contemporânea, o Positivismo ainda vive e se renova todos os dias, especialmente dentro dos âmbitos tidos como intelectuais e de “elite”, por exemplo, os campos do Direito e da Saúde. 


Conclui-se, portanto, que o pensamento de Augusto Comte tomou novas formas e encontrou na sociedade brasileira um terreno fértil para seu crescimento, sendo utilizado como base, hoje em dia, para movimentos que defendem “enxergar a sociedade com métodos exatos e dados científicos”, enquanto, na verdade, manipulam os fatos, a fim de defender um ideal de sociedade dominada e ocupada por grupos específicos.


Maria Vitória Silva - 1º ano de Direito (Noturno)

domingo, 30 de março de 2025

Desordem da Matéria ou Imaterialidade da Ordem?

{Este texto parte das discussões na mesa chamada "Estamos no Fim do Mundo? Trump, Ecossocialismo, Palestina e Cotas Trans"}

Daqueles que ainda acreditam nos preceitos da bandeira nacional, resta inevitavelmente a dúvida a respeito do método de obtenção e do momento de acontecimento da finalidade do escrito ("Ordem e Progesso").

Resumidamente, pensa-se em como fazer o básico (ou basilar, "a ordem") para atingir o objetivo, "progresso por fim", que tanto pregava Auguste Comte, influência dos militares republicanos brasileiros. Observando, não obstante, o mundo, nota-se que tal suposto progresso não necessariamente ocorre e, ao invés de discordar da prerrogativa comtiana, tal como fizeram brilhantes brasileiros, (a exemplo o bruxo do cosme velho, ou Machado de Assis) procura-se respondê-la em seus próprios meios.

À despeito da ordem, indaga-se, como um aluno errante dos positivistas: está essa no mundo? E na negativa, foge o mundo da ordem ou a ordem do mundo?

Primeiramente, parte-se de uma análise de um positivismo ordenativo: a teoria pura do direito, de Hans Kelsen. Para o autor, a norma parte de si mesma, como boa cadeia lógica, científica e objetiva. E então argui-se o fundamental para a compreensão da relação (ou apreensão da 'relacionante', no sentido de estrutura da interligação apreendida em sua existência) entre o mundo e a ordem: a concatenação ordenativa dos fenômenos é um necessário axioma do entendimento humano. Isto é, a cadeia de eventos e desdobramentos sucessivos é um método de interpretação cognitiva da realidade.

Isto não é novidade, de maneira alguma, uma vez que já defenderam isso Baruch de Spinoza, David Hume, Thomas Hobbes e tantos outros, que a atribuição de factualidade (verossimilhança [o verdadeiro e o falso] e causalidade) são modos de sensação do mundo, tal como a unidade de tempo (por exemplo, para Albert Einstein). O que é demonstrado, em síntese, é que a ordem é obrigatoriamente metafísica, designada para absorver e lidar com a apreensão do sensível, que a ordem serve como elemento de ordenação da própria mente.

Por isso, desdobram-se dois caminhos para a resolução das indagações em negativa: à respeito do mundo fugir à ordem, antes se entende que a materialidade nunca poderia se tornar subalterna a qualquer ordenação, pois mesmo seguindo uma visão hegeliana e idealista de mundo, compreenderá-se que esse atributo abstrato é dependente da consciência ou atitude humana, então o empenho mental ou físico deste será indispensável para que a ordem, utilizando-o de receptáculo, afete o tecido material.

Agora, ao mais interessante, (sobretudo àqueles que presenciaram a palestra "Estamos no fim do mundo? Trump, Ecossocialismo, Palestina e Cotas Trans") responde-se à segunda possibilidade: a ordem foge ao mundo? Três pontos são necessários para desenvolvê-la, primeiro, a metafisicidade da ordem, segundo, a compreensão do mundo, especialmente no molde da "alienação", como discutiram os palestrantes, (em geral um representante do movimento estudantil e político, "Le Magalhães", e particularmente, sobre a hegemonia da mídia [ou cultural, seguindo Antonio Gramsci], o presidente da Federação Árabe-Palestina no Brasil, Ualid Rabah) e terceiro, também abordado na palestra, "Neofascismo".

Sobre a alienação, tem-se como prioridade a análise de deturpação dos sentidos (ou uma ampliação distorcida e selecionada de algumas afetividades) por parte de comentários sociais e culturais que concebem o mundo em uma subjetividade ressentida e indignada unitária, qual busca, isoladamente de outras subjetividades alheias, tal como a norma positiva, o positivismo e toda ciência que busca pela perspectiva pura e objetiva apuração de tudo, (em toda sua ingenuidade e perigo enquanto tal) uma explicação do mundo. Essa construção específica de mundo, em sua essência solitária e, por isso, nebulosa, permite apenas uma opinião limitada e restritiva da sociedade, enxergando de modo acrítico o meio a partir de sentimentos conflituosos sem sua devida reflexão psicológica. Logo, a alienação parte da imperícia intelectual, (de gênese na negligência do ser para consigo mesmo,) e possui como resultado uma perspectiva de um mundo parcialmente inverossímil tomado como totalmente verossímil, um universo paralelo de existência.

Em paralelismo, muito pode ter-se pensado em conteúdos e produções quais, no mínimo, flertam com visões extremistas de direita na promoção de imperativos metafísicos como a moralidade (Deus), a identidade exclusiva (Pátria), e o vínculo afetivo fundamentador e exaltantes de parte intimíssima das relações sociais (Família). Dessa forma, pouco falta para relacionar o ressentimento e seus objetos de preocupação e medo com o último ponto, o Neofascismo.

Todavia, uma digressão. Muito se sabe do horror fascista italiano e do terror nazista alemão, seu lema de "Deus, Pátria e Família", mas pouco se entende de fato de seu caráter metafísico de existência. Quando foi comparada a visão inicial neste texto a "um aluno errante dos positivistas", foi adjetivada "errante", porque qualquer positivista que se preze seguirá afinco a ideia de que "a partir da ciência virá mais ciência", ou pela contraparte jurídica, que a norma define a si própria (independentemente de questões externas, tais como o contexto social ou a estrutura e dinâmica econômico-política), ambas ad infinitum. Em outras palavras, a ordem, enquanto concepção da esfera cognitiva, vem (ou só pode vir) da ordem e resulta em ordem, não vem do mundo nem se direciona a ele (até um ser efetivá-la).

Daí que decorrem todos os fundamentos e encadeamentos lógicos. Em primeiro lugar que, a partir do momento em que o ser humano não é capaz de sentir a nível mundial, está em certa medida alienado mais ou menos deste, necessitando de uma mínima ordenação (nem que da sequência temporal dos fatos) para compreender o meio. Em segundo lugar, à medida que se frustra na desconexão entre o metafísico e o físico (considerando que aquele parte de um entendimento parcial deste), procura entender: o que está errado? Meus valores e perspectivas ou o próprio mundo? Então, em terceiro lugar, uma vez convicto de suas ideias, pois estas carregam o passado (suas memórias, vivenciadas no presente) e a interpretação do momento que vê, crente de que dois universos (o da empiria e o de suas sensações do instante) superam um (o material em sua totalidade), renuncia do real ao paralelo, pois o imaginado atende às suas vontades e perspectivas.

Dessa maneira, a ordem mentalizada é tida como elemento do progresso (ou marcha, considerando o caráter militarístico do nazifascismo) do mundo ao que tanto se deseja, o mundo idealizado e paralelo. Mas aí mora justamente o metafisicismo e o absurdo horripilante dessa ideologia. Na materialidade, em seu caráter "essencial" ou "puro", desvinculados do humano, a ordem e o universo alternativo inexistem, isto é, são nada. Pensa-se no famoso dizer "do nada nada vem", mas, vem aqui a proposição de uma leitura radical (na raiz) disto, de que "do nada vai ao nada". Isso pode ser justificado de algumas maneiras, selecionando duas: pela inércia: o que está parado permanece parado (sem nada de energia cinética vai ao nada de energia cinética); e pelo desejo, qual, pela via spinozista, parte do excesso e, por isso, reflete em mais desejo.

Muito sabe-se que a primeira explicação pode ser muito mais clara para entender a proposta, mas a segunda é fundamental para entender o caráter demasiadamente humano da situação hipotética. Seguindo Georges Bataille (autor de livros como "A Estrutura Psicológica do Fascismo"), a morte se trata de uma interdição do desejo. Encontra-se, deste modo, um fundamento do nazifascismo: a interrupção, o cessar, ou a morte. Como doutrina imersa no campo metafísico em seu mais absoluto desentendimento entre o "sensível" e o "inteligível" (descrição infelizmente platônica, dualista/dicotômica e limitada de mundo; contudo necessária para entender o ideário fascista), nada surpreende que, priorizando a resolução de si em si própria, desvinculada à materialidade, possua como objetivo a existência estritamente metafísica, a completa (e mais niilista, pois abraça o vazio da matéria no campo do ideal) negação da matéria, e, consequentemente, da vida.

Deduz-se que o nazifascismo, justamente por originar do "nada" (a abstração em totalidade, como o mundo ideal paralelo, a ordem e os desafetos pela matéria que foge da "perfeita", ou idealizada, conclusa e morta, concepção do mundo ordenado pelo psíquico) seguirá até o nada, a morte. Ou seja, deseja-se que o mundo "retorne" temporalmente até censurar o incômodo, regressão impulsiva que acarretará, após certo desenvolvimento (pelo menos na mentalidade nazifascistal, ao retorno do instante pré-nascimento; essa ideia é conceituada (em partes) pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud, como "pulsão de morte", isto é, um desejo pela morte, pela paz absoluta (o congelamento de qualquer movimentação, tal como o zero absoluto da escala Kelvin).

Sintetizado, a partir do nada, do vazio, ou da ausência de sensação de uma parte do mundo, promovem-se ferramentas cognitivas que preenchem as lacunas, tal como a ordem, o que será utilizado para a construção de um novo mundo¹ {¹parte disso que é falado pode ser pensado a partir da imaginação composta de Thomas Hobbes, encontrada na metade da seção I (denominada "Dos Homens") em sua notória obra "Leviatã"} na psique, o que permite toda a ação política nazifascista percorrer seu objetivo a morte, o destino é o nada, o vazio, a ausência da sensação de todo o mundo, (e portanto da própria vida). Do nada nada vem, mas do nada se vai ao nada, pelo menos enquanto busca ampliar sua parcialidade até torná-lo absoluto.

Concluir-se irá que, uma vez que a ordem não é concreta (em exceção à sua execução por um corpo humano), o mundo não pode fugir dela, mas ela pode fugir dele. Mas, em maior importância, nota-se que a percepção de que o mundo encontra-se em desordem é uma perspectiva de instabilidade de tudo que, antes sólido, agora se desmancha no ar, o sentimento do medo, angústia, desespero, impotência e paranoia os quais, bagunçam a apreensão do mundo e o raciocínio (pois para Espinosa os "afetos baixos", que partem do medo ou ódio, influenciam negativamente na compreensão e na produção lógica), e abrem terreno fértil para o neofascismo, a ordenação imperativa e absoluta que aparenta subordinar o "caos" e a "degeneração" do mundo à uma "bela" e "coesa" existência, "idêntica" à alienada idealização da realidade, rumo ao "progresso" em direção a um único fim: a morte.


1º ano de Direito – Matutino – Henrique Pinheiro Campanella

A Negação Da Ciência E Sua Contradição Com O Lema Brasileiro

  Todos nós brasileiros reconhecemos a existência da frase "Ordem e Progresso" na nossa bandeira, mas todos sabemos de onde vem e qual o significado dela?
 "Ordem e Progresso" é uma frase desenvolvida pelo filósofo Auguste Comte, que simboliza uma sociedade regida através desses dois termos. Acerca desse assunto, é importante dizer que Comte é considerado o pai da sociologia por ser a primeira a pessoa a determinar que as humanidades também deveriam ser uma ciência, estruturada por meio do estudo dos fenômenos sociais. Segundo o filósofo, a humanidade passou por três estágios ao longo de sua evolução: O Estado Teológico, em que as explicações sobre  mundo eram baseadas na religião e em seres divinos; o Estado Metafísico, no qual abandona-se as justificativas religiosas e entram as reflexões feitas pelos filósofos, e por fim, o Estado Positivo, caracterizado por ser o último e mais evoluído estágio da sociedade, em vista de ser fundamentado no uso da ciência e da racionalidade.
 E seria justamente nesse estágio final em que a sociedade, por ser regida através da razão e do conhecimento, percorreria um fluxo dinâmico, seguindo então uma ordem e progresso. Entretanto, se relacionamos essa filosofia com nosso contexto político recente percebemos que na realidade nós brasileiros não nos baseamos na razão, e principalmente, na ciência tanto assim. Isso pois, analisando o periódo da pandemia, ocorrida durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, houve uma altíssima negação da ciência acerca da eficácia das vacinas que estavam sendo produzidas para conter o vírus da COVID-19. Muitos brasileiros durante esse periódo, além de se recusarem a tomar a medicação, incentivavam outros indivíduos a terem a mesma atitude, e propagavam diversas fake news sobre os efeitos colaterais.  Dentre os brasileiros, está incluindo também o próprio Bolsonaro, o qual usou a frase "Se virar jacaré, o problema é seu" durante uma entrevista realizada durante a época em que as vacinas seriam liberadas. Tal situação evidencia uma situação preocupante em nossa sociedade, pois o até então presidente da república, que deveria ser um símbolo de autoridade capaz de incentivar a população a tomar medidas eficazes para conter o avanço da pandemia, era um dos primeiros a ir contra todas as medidas recomendadas para a contenção do vírus, induzindo outras pessoas a fazerem o mesmo.
 Devido a isso, não é possível dizer que nossa sociedade atual é uma sociedade moldada nos pilares de Comte. A negação da ciência, a propagação da ignorância, a falta de usar a própria racionalidade são fatores antagônicos com a formação de uma humanidade estruturada em uma certa ordem. Consequentemente, sem essa ordem, também não há o surgimento de um progesso social, fazendo com que a população brasileira fique estagnada em um ambiente ignorante e retrocedido. Portanto, todo esse quadro vivencido durante o governo do Bolsonaro mancha o lema de "Ordem e Progresso" trago em nossa bandeira. 
  

A física social e a ordem do mundo

No tempo em que o mundo ansiava por leis,
Nasceu um olhar de rigor e razão,
Que fez da ciência um manto, talvez,
Para vestir a civilização.

Comte sonhava com ordem e lógica,
Sociedade erguida em progresso e saber,
Uma física social metódica,
Onde cada peça tem seu dever.

Três estados traçaram a estrada:
O teológico, a fé dominante,
O metafísico, sombra calada,
E o positivo, enfim triunfante.

Mas que corpos mediam tais leis?
Que vozes cabiam no cálculo frio?
Se a norma não vê quem dela se fez,
Segue o silêncio, ausente e vazio.

E eis que da margem ergue-se um grito,
De quem a história quis apagar,
Grada nos lembra: não há infinito
Se a carne negra não pode falar.

A ordem imposta, o mito do centro,
O véu da ciência que cala e exclui,
Que física é esta, se aos seus fundamentos
A voz do oprimido nunca se inclui?

Se há sociologia, que seja inteira,
Que veja o mundo por outros prismas,
Pois entre as sombras da velha esteira,
Rompem verdades, racham abismos.

Nicole Barbosa Garcia- 1ºsemestre de Direito noturno

Entre o caos e o controle: A tensão de viver um mundo fora de ordem

                        Na obra “1984” de George Orwell, fica evidente a crítica à implementação de uma ordem totalitária, na qual o domínio absoluto da vida dos indivíduos suprime a autonomia individual e estabelece uma ordem artificial que se encontra "fora do mundo". A constante supervisão e a regulação da linguagem e do pensamento demonstram uma distorção da realidade e uma desumanização da sociedade. Seguindo esse viés, o autor usa como base o totalitarismo para exemplificar a imposição de uma ordem que nega a complexidade e o livre-arbítrio dos seres humanos.

Apesar de essa obra ter sido escrita a décadas atrás, ainda reflete de forma atemporal na atualidade. Em um mundo onde as relações socias e econômicas estão cada vez mais moldadas pela busca incessante da ordem, a realidade frequentemente se choca com as necessidades humanas. Ademais, essa imposição pode ser exemplificada pelo sistema capitalista, cuja minoria é favorecida e a maioria da população enfrenta as precariedades e desigualdades do sistema. Além disso, essa concentração de riqueza nas mãos de poucos cria uma desconexão no que é idealizado e o que é vivido pela grande maioria da população, principalmente no setor econômico. Por ventura, essa “ordem” é fragmentada e desarmônica, promovendo o caos e a falta de recursos básicos.

A princípio, ao longo da história da humanidade, a tensão entre um “mundo fora de ordem” tem sido evidente em diversos momentos. Um exemplo é o Império Romano que buscou estabelecer uma ampla ordem política e territorial, dominando grande parte do mundo conhecido. Contudo, o aumento da corrupção, a pressão das invasões bárbaras e a divisão interna do império levaram ao seu desmoronamento no século V, demonstrando que mesmo as maiores estruturas de poder podem ruir quando não satisfazem as demandas e realidades dos indivíduos.

Similarmente, a Revolução Industrial ocorrida no século XIX provocou uma mudança drástica nas sociedades, prometendo prosperidade e avanço. Contudo, ela resultou em grandes disparidades sociais e condições laborais inumanas para a classe trabalhadora, demonstrando que a ordem estabelecida através de uma industrialização acelerada desconsiderava as realidades humanas.

Por meio desses episódios históricos, fica claro como a falta de compreensão populacional e dos efeitos que o controle absoluto causa, muitas vezes resulta em situações menos favoráveis a um contexto global, levando a revoltas e mudanças drásticas que podem ser boas ou não a depender do beneficiário.

Voltando aos tempos atuais, as alterações climáticas emergiram como uma das principais ameaças para a ordem mundial nas últimas décadas. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a média da temperatura global já cresceu 1,1°C em relação aos níveis pré-industriais. Se as emissões de gases de efeito estufa não forem reguladas, a elevação pode ultrapassar 1,5°C até 2030, resultando em consequências desastrosas. Fora isso, as crises políticas e sociais têm demonstrado claramente o descompasso entre as normas estabelecidas pelos sistemas governamentais e as necessidades genuínas dos cidadãos.

Outrossim, a crise migratória, que atingiu proporções preocupantes com a guerra na Síria e os conflitos no Afeganistão, resultou em um recorde de refugiados, com uma estimativa de 110 milhões de indivíduos deslocados forçadamente até 2023, de acordo com a UNHCR. Essas crises demonstram como a ordem política e econômica atual frequentemente não consegue assegurar justiça e estabilidade, gerando divisões aprofundadas, desigualdades e conflitos sociais que questionam as estruturas de poder já estabelecidas.

Por fim, os dilemas ambientais, sociais e políticos evidenciam que as estruturas consolidadas frequentemente falham em atender às verdadeiras demandas das comunidades e ao equilíbrio ecológico, gerando desordem e desigualdade. Embora a intenção de construir um mundo mais organizado e justo seja válida, fica claro que a imposição de uma ordem rígida, sem considerar a complexidade das sociedades humanas e dos ecossistemas, tende a amplificar a ineficiência e as disparidades. Alcançar uma verdadeira harmonia entre a natureza e os sistemas sociais exige mais do que a revisão das ordens estabelecidas; requer uma reconciliação com o ambiente natural e um compromisso genuíno com a justiça social, a sustentabilidade e a equidade. Assim, o verdadeiro desafio não está em preservar uma ordem a qualquer custo, mas em desenvolver uma organização adaptável, capaz de respeitar a diversidade e as limitações do mundo em constante transformação.

Maria Eduarda Siqueira Alves dos Santos - Direito - 1° ano - Matutino 

Desordem e Regresso

 “Ordem e Progresso”, lema da corrente filosófica positivista do século XIX, fundamenta a condição existencial da civilização moderna, que visa, por meio da operacionalização e do ordenamento da razão, da ciência e do conhecimento, gerar lucro- sinônimo de progresso em um contexto marcado pela expansão do modelo neoliberal. No entanto, vive-se em um cenário no qual os efeitos da mercantilização dos diferentes aspectos da vida, promovidos pela lógica capitalista, repercutem em mudanças climáticas, escassez de recursos naturais e guerras, por exemplo. Nesse viés, subverte-se a ideia de “ordem e progresso”, visto que o mundo contemporâneo encontra-se em “desordem e regresso”.

Sob essa ótica, os avanços técnicos e científicos tornam-se instrumento de dominação dos mais frágeis. De acordo com o conceito de “razão instrumental”, desenvolvido e proposto pelos filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer, a razão, na era moderna, é constantemente utilizada como ferramenta para a ascensão e o progresso da sociedade aos moldes capitalistas, de forma a manter desigualdades, injustiças e privilégios. Por conseguinte, toda a crença no ideário iluminista de que a razão libertaria a humanidade e, consequentemente, permitiria o seu desenvolvimento ordenado e o seu progresso científico, desfaz-se em vista da supressão da subjetividade humana, devido à padronização mercadológica dos corpos, que perdem sua autonomia, e da dominação e da destruição da natureza para a obtenção de lucro pela classe dominante, detentora do maquinário de poder. Logo, é notório o desordenamento do mundo promovido pela extrema direita, refletido por um cenário  caótico e violento, marcado pela proliferação de doenças  endêmicas, como a malária, por quadros climáticos extremos, com altas temperaturas médias e graves enchentes, bem como pela ascensão e consolidação de figuras políticas neofascistas no poder, por exemplo.

Por outro lado, ainda que o pensamento institucionalizado e demasiadamente racionalista, sob moldes neoliberais prevaleça no cenário atual, ainda há  indivíduos dispostos a transformar tal realidade hostil e desigual. Em sua obra “Pedagogia dos Sonhos Possíveis”, Paulo Freire, patrono da educação brasileira, defende que a práxis, ação do ser humano sobre o mundo para transformá-lo, permite a superação da condição opressor-oprimido, ou seja, o sujeito, conscientizando-se de sua condição de oprimido, a partir de uma prática pedagógica não apenas ao nível da escola. Dessa maneira, para Freire, o conhecimento é o ponto de partida para a relação com o mundo e com as pessoas e, portanto, deve ajudar a formar sujeitos capazes de transformar o corpo social, aliando-se a valores humanizadores, como o respeito e a solidariedade.

É perceptível, portanto, que o mundo contemporâneo encontra-se fora de ordem, em consequência de um racionalismo exacerbado e da errônea ideia de progresso. Entretanto, através do conhecimento e da união de indivíduos em prol da mudança, pode-se enfrentar e resistir a esse cenário global desordenado com esperança.