Total de visualizações de página (desde out/2009)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Paixões primitivas

O que é crime? Por que alguns atos são considerados criminosos e como se quantifica a pena que se deve dar a cada um deles? Émile Durkheim aborda essas questões de maneira muito interessante, estabelecendo as relações entre o crime e a sociedade. Primeiramente, nota-se que o grau de nocividade do ato criminoso nem sempre é proporcional à intensidade da pena que recebe, e o autor questiona por que crimes como o assassinato são muito mais severamente punidos do que outros que, em sua visão, provocam um mal maior à sociedade (falências, por exemplo). Segundo ele, "O que é um homem a menos na sociedade? O que é uma célula a menos no organismo?". Por mais que esses questionamentos sejam controversos, eles nos levam a entender o sentido da pena e a verdadeira função que exerce. Crimes são, essencialmente, atitudes universalmente reprovadas pelos indivíduos, ou seja, ações que, dentro de nossas mentes, já estão condenadas e estigmatizadas por consequência de uma consciência coletiva. Portanto, o crime é uma ofensa aos sentimentos coletivos, mas não os mais banais ou comuns, e sim os que estão fortemente gravados em todas as consciências, mesmo que não de maneira explícita. Tanto é que o direito penal não dita o dever a ser cumprido; não estabelece proibições, e sim penas. Isso nos mostra que, mesmo a regra não estando claramente expressa, ela é conhecida e aceita por todos; não é preciso que esteja escrito que algo é proibido para que saibamos que o é. E assim é a consciência coletiva: ela se forma a partir de paixões tão definidas que não se pode contrariá-la, e quando algum ato as ofende, fica claro que trata-se de um crime, como Durkheim coloca, "não o reprovamos porque é um crime, é um crime porque o reprovamos."

É nas sociedades primitivas (menos complexas) que a consciência coletiva se manifesta de maneira mais intensa, e a ideia de pena está relacionada a vingança. Por isso os crimes eram julgados de maneira difusa, sendo o povo encarregado de administrar a justiça e aplicar essa pena, que de maneira geral representava uma vingança contra aquele que ofendeu um forte sentimento coletivo. Nesse ponto destacamos as paixões públicas, que configuram essencialmente uma reação passional, quase que instintiva, contra a ofensa sofrida. As paixões individuais podem até não serem afetadas com determinado ato, mas a repressão do crime é reclamada não como algo pessoal, mas por conta de um sentimento sagrado, superior a cada um analisado separadamente. E, nesse contexto, é a sociedade que se vinga pelos indivíduos, visto que o Estado é a expressão máxima do tipo coletivo, se encarregando de estabelecer uma pena por um ato que acabou por perturbar o equilíbrio da sociedade. Disso concluímos que a manutenção da coesão social é, portanto, a verdadeira função da pena, demonstrando o apego do indivíduo à sociedade e a superioridade desta sobre ele (aspecto sempre presente no pensamento de Durkheim). Dessa maneira, tudo o que abala as paixões coletivas compromete a sociedade, merecendo, por esse motivo, uma sanção.

É importante ressaltar que, nessa análise, o autor refere-se às sociedades primitivas, e não à sociedade moderna. Entretanto, muitas vezes nos deparamos com casos contemporâneos que revelam que muito disso também vale para uma sociedade considerada complexa, como a nossa. O embate entre paixões públicas e privadas continua muito vivo na atualidade, e o fato de a consciência coletiva ser colocada acima de tudo pode ser verificado constantemente, como no caso da estudante que foi fortemente hostilizada numa universidade pelas roupas que vestia. O que nos cabe analisar aqui é o motivo que levou as pessoas a agirem dessa maneira: o modo como a estudante estava vestida certamente não influenciaria em nada as vidas ou o cotidiano de cada um, mas a consciência coletiva falou mais alto e fez com que achassem por bem condená-la moralmente. É isso que Durkheim procura deixar claro, que a pena nada mais é do que uma expressão dos sentimentos coletivos, das paixões que nossas mentes cultivam de maneira conjunta, e acabam por sobrepôr-se às questões individuais. E o que chega a ser ainda mais intrigante é que isso esteja se fazendo presente na nossa sociedade, com toda sua modernidade e complexidade. Será que isso quer dizer que, apesar de toda a evolução que presenciamos, ainda nos deixamos levar por paixões e hábitos primitivos? E até que ponto essas "paixões" podem refletir de maneira negativa em nossos atos, e no modo como julgamos os outros?

(Postagem baseada no Tema 2)

O passado é agora

Durante a vida escolar sempre houve, há e haverá preferência por determinadas disciplinas em detrimento de outras por parte dos alunos. No caso da matéria História, muitos se já se questionaram a necessidade de se aprender sobre acontecimentos tão remotos como, por exemplo, a Antiguidade Grego-romana. Bem, uma das razões identificáveis para tal estudo é o de ser capaz de reconhecer e interpretar as influências do passado na contemporaneidade.

Émile Durkheim, ao desdobrar-se sobre o tópico da divisão do trabalho social, mais especificamente no campo da solidariedade mecânica, possibilitou uma base sólida de pensamento para o surgimento de novos exames sociais sobre a atualidade. Portanto, forneceu meios àquela capacidade histórica de identificação e aclaração aos sociólogos modernos.

Assim, entre outras ideias notáveis, Durkheim deixou-nos como herança a concepção de consciência coletiva, quando tratou extensivamente sobre a essência do crime e as características de sua devida sanção. Essa consciência deriva dos valores, representações e motivações sociais.

Dentro daquela concepção, nas sociedades ditas primitivas, Durkheim afirma que a consciência coletiva impera sobre o indivíduo, coagindo-o a se portar dentro dos padrões já determinados. Caso haja uma extrapolação desses parâmetros, haverá uma sanção, uma vez que o delito parecerá maléfico e a reação àquele expressa a forma pelo qual o crime é sentido no agrupamento social.

Em contrapartida, Durkheim previu que nas sociedades denominadas complexas, o individualismo – porém sem a inclusão nele do egoísmo e egocentrismo – avançaria nas pessoas e mudaria completamente o seu jeito de raciocinarem. Isso não foi de todo errado, pois a maior parte da humanidade realmente redirecionou seu ponto de vista e liberalizou-se nos comportamentos e costumes sociais.

Porém, pode-se notar que os assuntos polêmicos que hoje se apresentam – homossexualidade, aborto, experiências com células-tronco, adultério, laicismo, pedofilia, cotas raciais, entre outros – têm pontos em comum além do fato de dividirem populações em diferentes opiniões e argumentos. Eles expõem das sociedades complexas traços característicos de agrupamentos primitivos. Aqui está a atuação do pretérito no presente.

Ainda hoje, pleno século XXI d.C, julga-se, por exemplo, as opções sexuais e religiosas de cidadãos. Trejeitos primitivos enraizaram-se de tal modo que a consciência social continua sendo objeto para repressão e violação. A intolerância sempre existiu, mas Durkheim – muito infelizmente – enganou-se ao imaginar que a solidariedade orgânica reinaria sobre todos os seres sociais. Basta aos integrantes esclarecidos das sociedades mudarem esse quadro.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Fanatismos exacerbados

"A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa, e pelos governantes como útil.” (Sêneca)


A Reforma Protestante foi, sem dúvida, um passo importante na caminhada que levou o capitalismo a consolidar-se como sistema econômico hegemônico. O que antes fora desonesto e imoral, aos olhos da ética protestante, torna-se uma virtude. A acumulação de capital, regra básica do capitalismo, sai das sombras do pecado e inicia um processo hipnótico e sedutor sobre os homens.

Durante a caminhada capitalista a racionalidade cresce e torna-se capaz de criar teorias bem fundamentadas e bem aceitas pela sociedade. A religião, antes única responsável por dar explicações, é obrigada, então, a conviver com o advento das ciências.

Hoje vivemos, sem dúvida, inseridos em um contexto demasiadamente racional. Fazer uso do pensamento lógico neste caso, porém, levaria-nos ao erro. A fé no abstrato, que deveria ter tornado-se obsoleta e até patética, surpreende as expectativas e arrebata milhões de homens ao redor do globo.

Polêmicas e inundadas por ideologias, as crenças religiosas movem guerras, determinam comportamentos, definem as vestes dos fiéis, justificam mutilações de parte da genitália feminina, enfim, dominam facilmente aqueles que se deixam dominar.

Concluo que racionalidade e fé coexistem dentro da nossa sociedade. A evolução de uma abala, mas não faz ruir a outra. Creio que, pelo contrário, a rivalidade entre ambas exacerba fanatismos e torna cada vez mais cegos aqueles que idolatram sem limites a razão ou qualquer Deus.


Weber. Tema: Capitalismo: a racionalização da fé?

"LIBERDADE ACIMA DE TUDO"

Quando pensamos no século XXI, de uma maneira geral, logo em seguida nossa mente é bombardeada de acontecimentos ligados a descobertas científicas e tecnológicas inimagináveis a décadas atrás, tendência de homogeneização cultural e social e, sobretudo, a liberdade.
A liberdade é algo que todos os cidadãos do mundo inteiro almejam ao longo da sua vida, entretanto, com o passar do tempo, percebemos que somos escravos de inúmeras coisas como do sistema econômico e da moral. Mas o que mencionarei ao longo do texto é sobre a liberdade de escolha de cada indivíduo, de fazer aquilo que achar mais pertinente na sua vida, aquela que nos permite agir de acordo com nossa vontade, sem interferência.
Essa ‘não-interferência’ é relativa, pois diariamente nos deparamos com a intolerância derivada de várias pessoas, grupos, classes e ate países. Sendo assim, se fizermos ou falarmos algo que ofenda a consciência coletiva, podemos ser acusados de CRIMINOSOS. E, conseqüentemente, seremos reprimidos a partir de uma pena.
Em 2009 uma estudante, Geisy Arruda, sofreu discriminação na faculdade em que estudava devido as suas vestimentas. E, segundo relatos de seus colegas de sala, ela sempre se vestia assim. Agora vem a pergunta: O que a roupa dela influenciou na vida dos outros indivíduos? Era necessário tal atitude perante a aluna, ganhando até destaque nacional ?
Sendo assim, percebemos uma contradição! Cadê a liberdade para escolher a roupa que quiser para se vestir ? Parece que fica em segundo plano e a intolerância tem maior importância.
O que me revolta mais, é o número de políticos corruptos que saem ilesos mesmo quando são denunciados em rede nacional em envolvimento de desvio de dinheiro público. Nessa situação, ninguém se organiza para reprimi-los. Por quê ? Não tenho a resposta exata, mas Durkheim, décadas atrás, mencionou que pena consistia numa reação passional, onde a função da pena é provocar e difamação e humilhação pública. Sendo assim, é muito mais fácil insultar uma estudante do que um político que tem ‘poderes’ maiores que o nosso. Pode até ser o mais fácil, não o mais correto.
E por fim, uma música do Charlie Brown Jr. onde a liberdade é constantemente suplicada.


Deixa eu ser como eu sou!
Deixa eu ser quem eu sou!

Se quiserem me internar não deixem
Deixem me exercer minha loucura em paz
Se quiserem me internar não deixem
Deixem me exercer minha loucura em paz
Porque eu nasci pra ser maluco
E te fazer a tradução
Do que é ser um bom maluco
Do que é ser um maluco sangue bom

Porque eu nasci pra ser maluco
E te fazer a tradução
Do que é ser um bom maluco
Do que é ser um maluco sangue bom
Yeah!

Deixa eu ser como eu sou!

Se quiseram me internar não deixem
Deixem me exercer minha loucura em paz
Se quiserem me internar não deixem
Deixem me exercer minha loucura em paz
Porque eu nasci pra ser maluco
E te fazer a tradução
Do que é ser um bom maluco
Do que é ser um maluco sangue bom

Porque eu nasci pra ser maluco
E te fazer a tradução
Do que é ser um bom maluco
Do que é ser um maluco sangue bom
Yeah!

Liberdade acima de tudo
De bem com a vida e de bem com o mundo
Liberdade acima de tudo
Yeah!

Se quiseram me internar não deixem
Deixem me exercer minha loucura em paz
Se quiserem me internar não deixem
Deixem me exercer minha loucura em paz

Porque eu nasci pra ser maluco
E te fazer a tradução
Do que é ser um bom maluco
O que é ser um maluco sangue bom

Yeah!

Primitivismo contemporâneo


Durkheim expõe o fato de, nas sociedades primitivas, a caracterização do crime como algo que ofende a consciência coletiva acabava por resultar na aplicabilidade da pena a atos que não afetavam consideravelmente a ordem social. Assim, seria comum que deslizes ao padrão moral tido como adequado apresentassem grande suscetibilidade à aplicação do direito, mesmo que a estrutura mecânica daquelas sociedades permanecesse inabalada.

Na sociedade ocidental contemporânea, porém, somos brindados com uma liberalidade certamente repudiada pelo padrão social primitivo. Dessa forma, o direito, positivado em normas escritas, permite a cada indivíduo seguir sua própria orientação moral (desde que cumprindo o princípio da legalidade), sendo atos ilícitos passíveis de punição aqueles que afetem a a ordem social. Poderíamos então concluir que, ao obedecermos estritamente o ordenamento vigente, estaríamos livres de qualquer tipo de repressão.

Não é o que ocorre. Valores arraigados às consciências individuais tendem a constituir um empecilho à liberalidade vigente. Isso porque qualquer comportamento deles divergente , mesmo que protegido por lei, será provavelmente alvo de repulsa e perseguição - alvo da intolerância. Por mais moderna e livre de preconceitos que se intitule uma sociedade, o comportamento intolerante ao incomum, ao diferente, é um fator contribuinte ao retorno à primitividade social exposta por Durkheim no texto analisado. Com isso, apesar de legalmente livre de sanção, o indivíduo que não se enquadra no padrão moral pré-estabelecido tende a ser punido, às margens da lei, pela sociedade, seja pela indiferença, seja por ataques (tanto físicos quanto morais) diretos.

Além disso, como nos tempos primitivos, essa punição se estende, irracionalmente, àqueles próximos do indivíduo divergente. Parece haver, no inconsciente da intolerância, uma associação entre genética e comportamento "imoral" (os familiares do indivíduo diferente certamente o são, nesse raciocínio) , ou mesmo a consideração deste como contagioso.

Nota-se, portanto, que embora o direito contemporâneo ocidental difira do primitivo, a influência deste no âmbito extra-jurídico ainda é notável. Há, assim, o embate entre liberalidade e intolerância.

A ciência passional

Em uníssono, a quase totalidade dos estudantes de uma faculdade em São Paulo clama em alvoroço pela “decência”. Cena divulgada pela mídia para todo o país mostra o linchamento de uma estudante que foi reprimida por trajar um vestido vulgar, curto o suficiente para provocar uma reação extrema por parte dos seus companheiros. Num ato de selvageria, foi apedrejada com palavras agressivas, de baixo calão e julgada pela expressão da consciência coletiva, que aponta o comportamento da estudante como desprezível e passível de uma condenação moral.

Durkheim talvez não imaginasse que, em pleno século XXI, ditames morais, com fundo religioso, ainda guiassem as consciências coletivas. Muito menos que fossem as próprias os trilhos sobre os quais o Direito caminharia. Para ele, a altura dos anos 2000, o Direito estaria apoiado apenas sobre bases racionais, e praticado por operadores que estariam preocupados mais em prezar pela ordem econômica do que pela ordem moral. Talvez em decorrência de uma ingenuidade ou pela crença em alguma forma de evolução da humanidade, cometeu um erro em ignorar a força que a moral exerce sobre os homens.

O que se vê é que as penas são aplicadas para satisfazer as paixões. São essas paixões, exprimidas pela sociedade mesmo que indiretamente, que orientam o sentido e a amplitude das penalidades. Não bastava aos estudantes, no caso citado acima, que a garota se trocasse e vestisse algo mais “decente”, mas desejavam prezar pelos costumes e pela moral vendo-a punida e humilhada perante todos para que recebesse uma “lição”.

É fato que o Direito é praticado, muitas e na maior parte das vezes, em acordo com a passionalidade que emana da sociedade. Passionalidade esta que visa descartar toda ameaça à ordem, ao funcionamento equilibrado do “corpo social”. São as paixões públicas que ditam as regras de conduta, que apontam o certo e o errado. O que resta do pensamento individual? Deveria o pessoal ser suprimido em favor do coletivo?

As individualidades, não se pode negar, têm ganhado espaço para serem expressas, assumidas. Ocorre que até condições até então que se consideravam isoladas, pessoais, tornaram-se hoje movimentos coletivos. É o caso do movimento homossexual, por exemplo. O homossexualismo, antes tão condenado, julgado até mesmo como uma característica pessoal desprezível e causa para um isolamento social, hoje é bandeira erguida (com orgulho) em movimentos que buscam efetivar a igualdade prevista na Constituição. No entanto, aquela paixão pessoal que permanece contida, aquela que não alcança identificação dentro da sociedade, acaba por ser guia de uma consciência apenas individual, por ser um critério de julgamento próprio daquele que a possui.

Cabe ressaltar que a ordem pela qual preza a consciência coletiva, para muitos é uma ordem subversiva. Pelo simples fato de que, nas palavras de Humboldt: “termina por criar na sociedade contemporânea uniformidades que sufocam a natural variedade dos caráteres e das disposições.” Os governos e as paixões públicas tendem a se contraporem à variedade individual, em concordância com a tradicional concepção orgânica da sociedade, que estima “a subordinação regulada e controlada das partes ao todo, condenando o conflito como elemento de desordem e desagregação social.” (BOBBIO, Norberto. “Liberalismo e Democracia”, p.27). Os contrários à teoria organicista defendem que a variedade “é benéfica e é uma condição necessária do progresso técnico e moral da humanidade, o qual apenas se explicita na contraposição de opiniões e de interesses diversos” (BOBBIO, Norberto. “Liberalismo e Democracia”, p.28).

É, de fato, difícil, senão impossível, desvincular o Direito das paixões. É por si só uma ciência humana e operada por seres racionais, porém subjetivos, movidos não só pela razão como pela emotividade. Certos ideais de condutas foram incutidos à sociedade ao longo de milhares de anos, o que dificulta a aceitação daquilo que foge a esses ideais, embora cada vez as novas gerações tenham sido, no geral, mais flexíveis e mais tolerantes aos “desvios”.

A Solidariedade Por Similitudes E A Consciência Coletiva

''O conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade forma um sistema determinado que tem vida própria; podemos chamá-lo de consciência coletiva ou comum. Sem dúvida, ela não tem por substrato um órgão único; ela é, por definição, difusa em toda a extensão da sociedade, mas tem, ainda assim, características específicas que fazem dela uma realidade distinta. De fato, ela é independente das condições particulares em que os indivíduos se encontram : eles passam, ela permanece.''
A obra ''De La Division Du Travail Social'' ( ''Da Divisão Do Trabalho Social'') de Émile Durkheim, particularmente no seu capítulo segundo, intitulado ''Solidariedade Mecânica Ou Por Similitudes'', discorre acerca da relação, em uma sociedade caracterizada pela solidariedade mecânica, entre as paixões privadas e as paixões públicas.Para Durkheim, as sociedades primitivas foram marcadas por uma divisão social do trabalho alicerçada na solidariedade mecânica, ou seja, aquela na qual a similitude entre os indivíduos componentes do corpo social é a marca principal.Do autor também é a tese de que, em tais sociedades, o Direito Penal ou repressivo predomina no ordenamento jurídico.Assim, a concepção de crime é fundamental : ''O vínculo de solidariedade social a que corresponde o direito repressivo é aquele cuja ruptura constitui o crime.Chamamos por esse nome todo ato que, num grau qualquer, determina contra seu autor essa reação característica a que chamamos pena.Procurar qual é esse vínculo é, portanto, perguntar-se qual a causa da pena, ou, mais claramente, em que consiste essencialmente o crime''.Na busca da essência do crime, o autor entende-o como sendo fortemente relacionado às paixões da própria consciência social, já definida acima por ele : ''Portanto, é como se se dissesse que as sociedades julgam as regras necessárias porque as julgam necessárias.O que precisaríamos dizer é por que as julgam assim.De fato, a única característica comum a todos os crimes é que eles consistem - salvo algumas exceções aparentes, que serão examinadas mais abaixo - em atos universalmente reprovados pelos membros de cada sociedade.Ora, a realidade do fato que acabamos de estabelecer não é contestável; isso significa que o crime melindra sentimentos que se encontram em todas as consciências sadias de um mesmo tipo social.Evidentemente, ela [ a imoralidade ] só pode provir de uma ou várias características comuns a todas as variedades criminológicas; ora, a única que satisfaz essa condição é essa oposição existente entre o crime, qualquer que seja, e certos sentimentos coletivos.Portanto, é essa oposição que faz o crime, estando muito longe de derivar dele.Em outras palavras, não se deve dizer que um ato ofenda a consciência comum por ser criminoso, mas que é criminoso porque ofende a consciência comum.Não o reprovamos por ser um crime, mas é um crime porque o reprovamos''.Émile Durkheim defende que, em uma sociedade regida pela solidariedade macânica, as ações humanas são influenciadas sobremaneira pelas paixões privadas; todavia, estas últimas são fruto das paixões do organismo social, através da consciência comum.As respostas ao crime seriam, sobretudo, determinadas pelas paixões, sendo assim desproporcionais à amplitude do crime levado a cabo : ''Em primeiro lugar, a pena consiste numa reação passional.Embora o ato criminoso seja certamente prejudicial à sociedade, nem por isso o grau de nocividade que ele apresenta é regularmente proporcional à intensidade da repressão que recebe.No entanto, uma crise econômica, uma jogada na Bolsa, até mesmo uma falência podem desorganizar o corpo social de maneira muito mais grave do que um homicídio isolado.Sem dúvida, o assassinato é sempre um mal, mas nada prova que seja o mal maior.O que é um homem a menos na sociedade ? O que é uma célula a menos no organismo ? Mas nós sabemos que apenas a lesão de interesses, mesmo que estes sejam consideráveis, não basta para determinar a reação penal; além disso, ela precisa ser sentida de uma certa maneira.Por que, aliás, o menor dano ao órgão governamental é punido, ao passo que desordens muito mais temíveis em outros órgãos sociais são reparadas civilmente ?''O autor acredita que a consciência coletiva das sociedades primitivas foi grandemente influenciada por antecedentes históricos e pela religiosidade : ''Os sentimentos coletivos a que corresponde o crime devem, pois, singularizar-se dos outros por alguma propriedade distintiva : devem ter uma certa intensidade média.Eles não são apenas gravados em todas as consciências : são fortemente gravados.Não são veleidades hisitantes e superficiais, mas emoções e tendências fortemente arraigadas em nós.Produto do desenvolvimento histórico, ele traz a marca de cirscunstâncias de sorte que a sociedade atravessou em sua história''.Até mesmo o juiz sentenciaria influenciado pelas próprias paixões (que por sua vez seriam resultado das paixões públicas) : ''Basta, aliás, ver nos tribunais como a pena funciona, para reconhecer que seu móvel é totalmente passional; porque é a paixões que se dirigem tanto o magistrado que acusa, como o advogado que defende.Este procura suscitar a simpatia pelo culpado, aquele, despertar os sentimentos sociais que o ato criminoso ofendeu, e é sob a influência dessas paixões contrárias que o juiz pronuncia sua sentença''.Durkheim pensa que a pena satisfaria as paixões privadas porque, antes disso, ela satisfaz as paixões publicas, ou seja, aquelas da coletividade.Para o autor, diante do crime, a sociedade se mobiliza : ''Quanto ao caráter social dessa reação, ele deriva da natureza social dos sentimentos ofendidos.Dado que estes se encontram em todas as consciências, a infração cometida provoca, em todos os que a testemunharam ou que sabem da sua existência, uma mesma indagação.Todo o mundo é atingido, logo todo o mundo se eleva contra o ataque.A reação não só é geral, como é coletiva, o que não é a mesma coisa; ela não se produz isoladamente em cada um, mas com um conjunto e uma unidade, variáveis, por sinal, conforme os casos.De todas essas impressões similares que se trocam, de todas as cóleras que se exprimem, desprende-se uma cólera única, mais ou menos determinada, conforme o caso, que é a de todo o mundo sem ser a de ninguém em particular.É a cólera pública''.A relação entre passionalidade privada e passionalidade pública seria, desta forma, sintetizada pelo postulado lapidar da sociologia durkheimiana : ''Cada um é arrastado por todos''.

Embate Cultural do Espírito Capitalista

O Espírito Capitalista descrito por Weber vai além da mera busca por dinheiro. Ele, antes de tudo, é uma ideologia de vida. Separa-se da simples busca e acumulação de capitais por uma atitude e utilização racional. É um formado por um conjunto de ideologias e atitudes, elas todas convergem na utilização dinheiro em busca de mais dinheiro.

O capitalista nato tem como objetivo final sempre gerar mais dinheiro, por isto, todo o que ele ganha é reaplicado na geração de mais. Pode parecer simples, entretanto isto atinge a vida deles de um modo sem volta. Ao adentrar nesse campo, dedicará o resto de seus dias a tal tarefa.

Todavia, antes o que hoje é visto como um dom, o de se dedicar e ter sucesso econômico, era visto como avareza e despojo com o mundo à volta. A ideologia cristã, por exemplo, pregava a usura como pecado. O espírito capitalista tem de antes passar por uma luta para começar a ser aceito.

O capitalismo, então, trava com a sociedade embates. Mudar a maneira de pensar se faz necessário, no ver de Weber, para se ter sucesso. Começar a valorizar o trabalho, trabalhar além do necessário, não consumir e reempregar o dinheiro, entre outros.

Torna-se um embate cultural entre o modo de vida capitalista e o do modo “normal”. O homem que busca conviver no tal modo de vida sofre um desprezo por outros setores da sociedade que o vêem como inimigo dos bons modos. Mas o sucesso daquele, com o tempo, transforma a maneira de ver e recoloca a atitude, antes vista como mesquinha, em lugar de destaque, transformando-a em um dom de poucos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Capitalismo como embate cultural

O sistema capitalista teve sempre como princípio orientador a ideia de que a produção incessante de capital e o máximo acúmulo de bens devem ser encarados como uma razão a ser seguida, uma finalidade última para o homem. É interessante pensar que a ânsia pura e simples por lucro, porém, talvez não seja fruto desse mesmo sistema. Essa dúvida é colocada a prova por Max Weber, que investiga a questão na sua obra "A ética protestante e o espírito do capitalismo". Citando o próprio, "(...) Pode-se dizer que tem sido comum à toda sorte e condição humana em todos os tempos e em todos os países da Terra, sempre que se tenha apresentado a possibilidade objetiva para tanto."
O embate cultural é causa justamente desse princípio do ganho por si mesmo. Seja natural do ser humano ou do capitalismo, no âmbito da doutrina católica, essa ideia sempre foi vista como uma postura que ia contra a ética cristã, afinal, pelo menos em questões teóricas, o empreendimento material sempre foi visto com indiferença pelos olhos do catolicismo, devido ao desprendimento em relação as "coisas mundanas". O surgimento de uma nova ética, a protestante, foi totalmente oportuna para o fortalecimento capitalista. Uma ideia que ligava a ideia de virtude e eficiência não a ideais como humildade, a caridade e o desprendimento á vida material, como viam os católicos, mas sim o trabalho árduo, a competência para ganhar e produzir e o despojo gerou então um pretexto para seguir uma ideia que, citando Weber novamente, "(...)tão irracional de um ponto de vista ingênuo, é evidentemente o princípio orientador do capitalismo"


Um mundo onde deseje-se produzir, consumir, trabalhar e evoluir de acordo com necessidades reais não é, de forma alguma, um mundo capitalista. Apesar de esse ser o mundo com o qual todos sonhamos e tentamos nos empenhar para torna-lo real, vivemos hoje em um ciclo vicioso e autodestrutivo, no qual o produtor age sem pensar em absolutamente nada e ninguém a não ser o próprio lucro. O consumo, conforme aliás como somos orientados a fazer, é feito de forma desenfreada, frenética e irracional, gerando incontáveis consequências para tudo e todos, inclusive o próprio sistema capitalista, que vem existindo desde a sua origem permeado de crises crônicas, que parecem ser partes intrínsecas desse modo de produção.

O Capitalismo na Conduta Humana

No capítulo dois do livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo de Max Weber, percebe-se que os axiomas de Benjamin Franklin definem não só preceitos capitalistas, mas também a conduta humana principalmente em relação ao trabalho.
Essa nova ética contraria o paradigma católico que prevalecia na Europa. Ao contrário do artesão que trabalhava apenas para prover suas necessidades, o capitalista visa ao lucro e toda sua conduta é pautada no acumulo de capital. Assim, o trabalho deixa de ser simplesmente uma forma de adquirir as necessidades materiais. Portanto, sob a ótica capitalista acumular riquezas, trabalhar arduamente relaciona-se com a ideia de virtude e eficiência e não a ideia de ganância e desonestidade.
A Igreja Católica sempre olhou o desenvolvimento capitalista com muitas ressalvas, uma vez que o lucro, a usura, eram considerados pecados por esta instituição. Dessa forma, a doutrina protestante ganhou terreno entre os novos capitalistas, pois na sua ética o trabalho era visto de maneira diferente do catolicismo e de acordo com os anseios dos novos capitalistas.
Frequente e erroneamente, confunde-se a ética capitalista com a ânsia por lucro. Erroneamente porque a ânsia por lucro está presente na sociedade desde a Antiguidade. O capitalismo traz consigo a ideia de racionalização. Racionaliza a economia; a ciência (utiliza e depende das inovações científicas); as relações jurídicas; e portanto racionaliza a humanidade.
Um exemplo desse fenômeno é o "America way ps life" desenvolvido nos Estados Unidos no século XVIII e produz efeitos até os dias de hoje. Sendo assim, nota-se que o Capitalismo não muda apenas o rumo econômico da sociedade, mas também a cultura, uma vez que interfere na conduta do indivíduo, nos seus projetos de vida, nos seus hábitos e costumes, e até mesmo na religião.


Weber, capitalismo, fé e a relação que move a sociedade moderna

No capítulo II, denominado “O espírito do capitalismo”, do livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, Max Weber busca analisar o capitalismo e algumas de suas nuances, passando por aspectos do capitalismo tradicional e do capitalismo moderno.

Para definir o que seria a primeira feição deste modo de produção (a tradicional), o autor relembra alguns ensinamentos de Benjamin Franklin, tais como: tempo é dinheiro, crédito é dinheiro (juros), o dinheiro tem natureza prolífica e geradora, “o bom pagador é dono” ou “o bom pagador é dono da bolsa alheia”.

Por outro lado, contrastando com essa visão de simples audácia comercial e inclinação pessoal moralmente imparcial, aparece a figura do capitalismo moderno, do lucro entendido como que por si só, detentor de “um caráter ético de uma regra de conduta de vida”, como dizia Weber.

E esta segunda expressão do modo capitalista é justamente a de nossos dias. É o enriquecer por enriquecer, sem visar qualquer tipo de objetivo maior. É uma verdadeira obrigação imposta pelo coletivo, um poderoso fato social bastante difundido em nossa sociedade ocidental. Para Max, “do ponto de vista da felicidade ou da utilidade para o indivíduo, parece algo transcendental e completamente irracional”. Porém, uma análise mais aprofundada é capaz de mostrar que esta forma de geração de riqueza se constitui num “evidente guia do capitalismo”. Simultaneamente, Weber aponta o paralelismo entre este tipo de raciocínio com algumas ideias religiosas, como as da igreja protestante. Enquanto que a Igreja Católica pregava, e ainda prega, a condenação da usura, os protestantes entendiam o sucesso nos negócios como uma recompensa divina.

Em nossos dias, percebe-se uma intensificação dessa visão de premiação divina. Vemos a globalização cada vez maior, a comunicação em altíssimas velocidades, o dinheiro especulativo a cada momento mais voraz. A cada dia, há menos espaço para o entendimento religioso contrário aos objetivos capitalistas, ao passo que as crises econômicas mundiais são cada dia mais frequentes. É a crescente relação mutualística entre o capitalismo moderno e a fé, misturados e compreendidos dentro de um mesmo modo de pensamento, de estilo de vida moderno e de futuro completamente incerto.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Ética protestante: triunfo do capitalismo

Max Weber praticou uma sociologia que considerava a atuação do indivíduo no processo histórico e que tentava compreender a realidade a partir de conexões das mais variadas possíveis com o passado, não se pautando, portanto, em análises puramente econômicas, mas também culturais sociais e religiosas. Dessa forma, Weber buscou analisar o capitalismo.

Para Weber, o que diferenciava o capitalismo dos outros sistemas econômicos que surgiram ao longo da história era o fato de ele propor uma racionalização da atividade econômica, racionalização essa que tinha por finalidade a obtenção de mais lucro. Ou seja, a atividade econômica sem a finalidade única de satisfazer às necessidades dos indivíduos, mas de também fazer com que eles acumulem capitais.

Porém, apenas a racionalização do processo econômico não foi suficiente para transformar o capitalismo em um sistema hegemônico, pois, segundo Max Weber, a doutrina protestante se mostrou imprescindível no triunfo do capitalismo. Weber argumentou isso ao perceber que a ética protestante incentivava o trabalho e prosperidade econômica ao proferir que isso era um sinal de virtude divina. Isso foi constatado pelo sociólogo por meio de dados que comprovavam que os adeptos das religiões protestantes eram homens prósperos nos negócios.

O tradicionalismo cristão contrário ao lucro e a usura, portanto, encontrou na ética protestante um combatente a sua altura, pois ela foi responsável libertar os homens das amarras religiosas, que impediam o enriquecimento, e universalizou uma conduta antes condenada, conduta essa característica do capitalismo e que o tornou necessário e extremamente seletor ao ponto de eliminar da vida econômica aqueles que recusassem a fazer parte da lógica capitalista.

O Freeganismo contra o Espírito Capitalista

O espírito do capitalismo nos é apresentado no texto de Max Weber como um conjunto de preceitos que se relacionam com a ética protestante através das virtudes por esta defendida.

Para o capitalista, as virtudes são utilitaristas e buscam o lucro pelo lucro; o acúmulo cada vez maior de dinheiro, deixando de lado, se preciso, o próprio conforto para que se possa acumular mais.

Para o capitalismo o homem é virtuoso se trabalhar muito e gastar pouco.

A honestidade é tida como virtude, entretanto tem função prática e não só moral. O homem honesto honra as dívidas e isso lhe concede crédito quando necessário; A confiabilidade jurídica que sustenta o capitalismo deriva da ética protestante que prega a confiabilidade no pagamento de dívidas, e quando tal confiabilidade é ameaçada, crises podem surgir, como por exemplo a relacionada à aprovação de um pacote de medidas pelo governo americano para poder continuar pagando seus credores.

Max Weber afirma que o capitalismo não se implantou naturalmente e que teve de lutar contra a natureza humana, pois, segundo o autor, o acúmulo pelo acúmulo era visto como a mais vil avareza.

Recentemente um movimento social prega uma vida “anti-consumista” e afirma que o fim do homem não é o acúmulo de riqueza. Tal movimento é conhecido como “freeganismo”. O movimento adota práticas como a permuta de materiais, cultivo da própria comida, recuperação de objetos jogados fora e outras práticas que pretendem diminuir o consumo, se possível a zero, e viver de maneira leve e desprendida.

Muitos dos adeptos não trabalham, pois afirmam que o simples ato de trabalhar faz com que o homem se desvirtue de sua natureza, alguns trabalham por alguns períodos para acumularem o suficiente para subsistirem.

A ética do movimento é a representação máxima do “anti-espírito capitalista”. Mesmo que no passado tal espírito tenha sofrido repúdio , tenha sido visto como avareza e tenha conseguido superar tal visão, atualmente ele ainda repudiado por alguns pelos mesmos motivos.

A racionalização da fé a partir da reforma protestante

Com base em “A ética protestante e o espírito do capitalismo” de Max Weber, mais especificamente em seu segundo capítulo, é possível identificar a análise feita a respeito da forma com que o capitalismo foi tratado, principalmente quando se desvincula da moralidade católica e alia-se às novas visões da religião cristã.

Ao ganhar a religião como aliada, o capitalismo fortaleceu-se, pois passou a ser vista como meio para se conquistar a “graça divina”. A reforma protestante, portanto, criou terreno para que ocorresse a racionalização da fé, na qual a ideia de acumular capital liga-se à ideia de virtude.

Nasce, principalmente com o calvinismo, a ideia de salvação a partir do trabalho. Uma figura icônica que bem exemplifica o ideal “cultivador” do capitalista protestante é o Tio Patinhas. Típico “poupador”, o desenho influenciou a mentalidade de várias gerações e representa aquele que poupa dinheiro com o objetivo de ter mais.

Essa é uma mentalidade que domina os países anglo-saxônicos mas que não se restringem a eles somente. Historicamente, o modo de produção capitalista é diferenciado pela ideia de racionalização. As racionalizações são caracterizadas como: contábil, na qual há a separação entre empresa e economia doméstica; científica, em que o capitalismo depende das ciências; jurídica, na qual a racionalidade capitalista exerce função motora nas estruturas do direito e da administração; e do homem, em que a pessoa humana é parte do racionalismo econômico tanto quanto a ciência e o direito, por exemplo.

O capitalismo, portanto, a partir da reforma protestante, acabou racionalizando a fé por aliar o sucesso econômico com a busca pela aprovação divina. O “Deus ajuda quem cedo madruga” entrou no cotidiano mundial, e o espírito do capitalismo tomou forma própria, tomando parte não só do imaginário, mas da realidade daquele que quer enriquecer.

Nome: Jackeline Ferreira da Costa - 1º ano Direito Matutino


A busca pelo lucro

No texto lido essa semana, "Ética protestante e o espírito do Capitalismo" de Max Weber, podemos observar a grande mudança exercida pela ascensão capitalista. Contudo não me refiro apenas a mudança econômica, mas também a mudança cultural, de mentalidade que gerou frutos no convívio social e no modo de vida como um todo.

O acúmulo de capital, grande objetivo e grande pilar do capitalismo, para ser colocado em prática demanda um grande esforço do indivíduo unido de exímio determinação. Ou seja, para acumular capital o indivíduo deve abrir mão de vários confortos e prazeres em prol de um objetivo "maior", não momentâneo: o acúmulo, enriquecimento.

Entretanto este ato torna-se menos racional e mais fácil quando unido aos valores culturais. Países protestantes apresentam grande exito no meio de vida capitalista uma vez que tal religião engloba valores capitalistas e os justifica. O protestantismo ajudou a moldar o estilo de vida da população assim como sua cultura esta intimamente ligada com os valores e crenças dessa religião.

Sendo assim, mesmo que parte da população de um país protestante não siga tal religião ela convive com uma cultura moldada pelos valores provindos desta. Uma cultura que já leva as crianças a pensar em ter um "cofrinho" e cortar a grama dos vizinhos nas férias de verão por alguns "trocados". Tal cultura foi essencial ao capitalismo e ainda o é. Em adição, a reciproca também é válida, uma vez que o capitalismo incentiva o desenvolvimente e domínio daquela perante outras culturas.

A racionalização da fé: o lucro como ética pessoal e exigência divina

Do estudo realizado por Max Weber em sua obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo” pode-se depreender os principais aspectos do surgimento e evolução do capitalismo como postura econômica e os fatores e circunstâncias que desembaraçaram tal processo ou foram capazes, por sua natureza oposta, de retardá-lo.

Uma observação inicial do autor diz respeito à associação que usualmente se faz entre anseio por lucro e capitalismo, abordado na obra em sua versão moderna. De acordo com Weber, o primeiro comportamento, comum às mais diversas espécies de ser humano e às mais incomparáveis épocas, jamais poderia ser relacionado ao modo de produção referido, que requereria um diferencial para poder assim ser denominado. Tal diferencial seria a atribuição à uma simples tendência de um “caráter ético de uma regra de conduta de vida” (Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo), ou seja, a racionalização de uma postura já anteriormente existente do homem, além da racionalização da produção, da administração empresarial e jurídica, entre outras.

Nesse ponto, então, Weber traz a discussão acerca da relação entre as filosofias das religiões católica e protestante e o possível desenvolvimento ou retração das práticas capitalistas modernas. Ao longo de toda a Antiguidade e Idade Média, a concepção dominante entre os homens era a de trabalhar o suficiente para que seus ganhos pudessem ser utilizados em sua subsistência, lazer e manutenção de qualidade de vida. A moral católica, então preponderante, servia também de alicerce a tal concepção, condenando lucros acima do necessário, como evidenciado, por exemplo, pela aversão à usura e pelos votos de pobreza. A partir do momento em que uma postura economicamente racional como a apresentada pelo capitalismo moderno ambiciona ampla aceitação e desenvolvimento, exige-se também uma libertação do espírito de humildade próprio da ética católica e a inserção dos preceitos protestantes de despojo e frugalidade visando a mera acumulação de capital, a ampliação dos limites do lucro.

A Reforma Protestante, vem, portanto, em um momento em que o advento capitalista pretende concretizar-se, assegurar não só a permissão não concedida pela Igreja católica, mas também a exigência religiosa e divina do progresso econômico, da desenfreada obtenção de lucro em detrimento do desfrute dos prazeres da vida. O ethos racional, inicialmente sustentado por tal fundamento religioso, serve, assim, ao surgimento dos princípios do capitalista moderno, até que, enfim, possa dessa base se desprender e tornar-se um pré-requisito para a permanência e ascenção no mercado, como hoje se configura.

It's evolution baby

It’s evolution baby
Um paralelo interessante pode ser feito entre a teoria de Max Weber sobre o espírito do capitalismo e a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin.
Max Weber faz questão de analisar a ética protestante em sua obra, pois para ele tal ética constituiu o alicerce para a construção do espírito capitalista moderno. Após as publicações de Lutero, a doutrina que se desenvolveu deixava de ver a acumulação de bens como algo temerário ou avarento, mas passava a ver o sucesso na vida mundana como sinal de cumprimento de sua vocação. Ou seja, uma mudança de paradigma religioso fez com que uma nova igreja passasse a doutrinar crentes que tinham como objetivo (mesmo que não final, apenas intermediário, o cumprimento da vocação e a decorrente salvação eram os objetivos finais) o sucesso na vida mundana, ou, traduzindo em termos concretos para o caso dos comerciantes, tinham como objetivo o lucro em si mesmo, sem o despojo das riquezas acumuladas.
Max Weber continua sua análise afirmando que a ética protestante, que se adaptou tão bem ao capitalismo, podia surgir mesmo sem ele, reforçando seu ponto de que tal ética seria o espírito do capitalismo moderno, e não consequência do sistema econômico. Segundo sua análise, esse espírito não tinha nada a ver com a avidez por lucros, essa já existia há tempos, ele se diferenciava era pela avidez com que os que partilhavam dele trabalhavam, não só para manter suas condições de vida de modo que lhes fosse agradável, mas trabalhando incessantemente para acumular mais riquezas como um fim em si mesmo, algo que pode facilmente ser dito como irracional se não considerarmos o conceito de vocação do protestantismo. O autor também lembra que essa ética não foi de nenhum modo facilmente aceita na esfera moral da sociedade, sendo por muitas vezes considerada absurda, mas quando os produtos desses comerciantes chegavam ao mercado com um menor preço e em melhores condições do que os dos comerciantes do sistema tradicional, toda essa repreensão moral era esquecida (Tal qual hoje muitas vezes acontece no embate entre produtos com agrotóxicos x produtos orgânicos).
Weber conclui dizendo que após um número de comerciantes, mesmo que reduzido, começar a trabalhar conforme esse ética de frugalidade e de cumprir o seu dever, todo o resto deve acompanhar esse pensamento ou ser fatalmente passado pra trás no ramo dos negócios. E ainda faz um comentário importante, dizendo que após essa ética econômica ter sido estabelecida, mesmo que seus valores iniciais (vocação e salvação no protestantismo) se percam, ela continua vigente, pois se algum componente do mercado se recusar a praticá-la, outro que se sujeite a ela irá tomar seu lugar e também sua capacidade de se sustentar materialmente.
Agora observemos a teoria de Darwin: nos seus anos de isolamento nas galápagos, Darwin observou o formato dos bicos e os hábitos alimentares dos tentilhões. Com essas observações ele reuniu dados suficientes para desenvolver sua teoria da evolução, na qual ele dizia que os seres de cada espécie que tivessem características mais úteis em seu meio (no caso, a diferenciação de características se dava por meio de mutações genéticas) conseguiriam maior sucesso na busca de alimentos e mais chances de sobrevivência, teriam mais chance de procriar e assim passariam seus genes adiante, prevaleceriam.
Feitas essas considerações, podemos fazer o paralelo entre o embate cultural da ética protestante com a ética tradicional ou católica e a luta pela adaptação da teoria de Darwin. Como o modelo dos protestantes, devido a uma série de fatores peculiares (análoga a uma mutação), obteve mais sucesso no contexto capitalista, rapidamente o tomou ideologicamente e praticamente, tirando a base de sustento de qualquer outro modelo que tentasse combate-lo, o que acarretou no seu perpetuamento, tal qual uma espécie melhor adaptada.

Diferenças culturais formam o mundo e novas ideologias

  Max Weber defende que os homens não se movem necessariamente  pelos valores da classe social à qual fazem parte, vários outros fatores são tão importantes para a interpretação da ação social quanto os econômicos. O autor defende que os fenômenos não possuem uma única explicação, por isso a ciência social deve analisar os fatos priorizando os valores do indivíduo em questão.
  Toma-se como exemplo a atual situação de vários países islâmicos, quem em virtude da defesa de sua soberania e seus costumes não admitem a entrada de exércitos ocidentais para ajudar a controlar o caos interno despertado principalmente pela revolta da população perante o autoritarismo dos ditadores. Analisando-se pela cultura ocidental, negar ajuda externa em um momento desse parece algo insensato porém deve-se analisar o rigor dos costumes destes países, e a grande repercursão que pessoas com costumes diferentes poderia causar na sociedade e na vigência de tais costumes.
  O recente caso de  Anders Behring Breivik traz a tona um embate cultural, vinculado a ideias capitalistas como "desenvolvimento" e "progresso". Anders assassinou uma série de pessoas na Noruega e justificou seus atos através de um documento, entre os seus argumentos foi fortemente contra a miscigenação pois conclui,por exemplo,  que a “mistura de raças” do Brasil seria um dos fatores que geram a desigualdade social e o subdesenvolvimento do país.
  A ação social de Anders ao ser analisada em um país miscigenado como o Brasil causa completa indignação, já ao ser analisadas por neo-nazistas alemães ou em todo o mundo pode condizer totalmente com seus valores.
  É essas diferenças que Weber trata, a análise da ação social deve ser feita embasada nos costumes e valores do cidadão que a praticou e não do cientista que a está abordando.

Danielle Tavares, 1º noturno

Ao que bem lhe entender


Um Clero forte, influente, poderoso e mergulhado em grandes riquezas; uma população crente a não enriquecer, a doar, a ser generosa, a viver bem e dormir tranquila - e pobre. Antítese? Ainda pior, sabendo-se que era a própria Igreja Católica que impunha tais lógicas de vida ao seu povo.
Uma parcela da sociedade em ascensão, vibrando, enriquecendo, buscando mais riqueza; uma ideologia crescente, bela, adequada, pregando a riqueza, sem deixar a fé e o tão sonhado Paraíso de lado. A burguesia e a Reforma Protestante caminham lado a lado em busca do seu espaço, e este deveria ser o maior deles.
Weber nos mostra que nem só o fator econômico move a classe social do indivíduo, e, com isso, o seu juízo de valor. Há diversos fatores que envolvem toda essa trama, e a religião e cultura são partes integrantes disso.
No entanto, pensar "a qual fé você vai se adequar", qual doutrina você vai seguir, diante dos costumes que lhe convir seguir, soa um tanto quanto incorreto. A variável religiosa, a adaptação racional para a fé é uma lástima, é a prova de que não haveria uma doutrina correta aos olhos de Cristo, enquanto seu representante na Terra.
Capitalismo e fé podem, claro, seguir o mesmo rumo e se misturar e formar algo bom e evoluir e difundir e alcançar o patamar que desejam. Escolher entre dormir bem ou comer bem? Por que não ambos? Uma reforma era, sim, necessária, para trazer novos ideais e visões às pessoas. No entanto, os princípios iniciais bons não poderiam ser entregues e deixados de lado, simplesmente esquecidos. Deve haver uma síntese, um modo de, ao mesmo tempo, acumular riquezas para viver bem e utilizar as riquezas para o bem. Vivamos, então, mergulhados no capitalismo, mas não nos afoguemos, nem deixemos de ser felizes, honestos e nós mesmos.

Fé e Razão na base do Capitalismo


Em seu esteio usual de análise da ação individual, Max Weber, em "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", busca relacionar esses conceitos na sociedade capitalista ocidental, em especial Alemanha e Estados Unidos. Seguindo sua crítica ao materialismo histórico de Marx, o autor pensa na religião como uma outra influência ao desenvolvimento do capitalismo além dos interesses econômicos.

A religião pertence ao âmbito das tradições, uma das quatro influências do agir classificadas por Weber anteriormente, daí parte sua influência na ação individual e, conseqüentemente, na coletiva. No caso das nações capitalistas ocidentais, o cristianismo protestestante, destacadamente o calvinismo, veio a estimular no povo um comportamento acumulativo, próprio do capitalismo, devido às suas doutrinas, mais voltadas à vida prática que as da Igreja Católica, cujo foco da vida está no transcendente.

Reforça a visão do sociólogo o objetivo dos cristãos protestantes pela riqueza em si, não tendo em vista o conforto, como a nobreza católica, uma vez que, apesar dos lucros, mantinham uma vida simples. Esse comportamento, que alguém poderia considerar contraditório ou até mesmo absurdo, condiz perfeitamente com uma prática religiosa e não com interesses econômicos.

Weber, além de priorizar o aspecto cultural do capitalismo, vem ainda adicionar a este um caráter racional. O calvinismo prega a prosperidade no plano imanente como sinal de predestinação à salvação da alma no transcendente. Sobre essa base dogmática, paradoxalmente erige-se uma racionalidade voltada à otimização dos lucros através da ciência. E a aplicação de tecnologia, por sua vez, contribuiu ainda mais para o desenvolvimento dessa racionalidade.




Pecado CAPITAL

 Tema 1) Capitalismo: a racionalização da fé?      

        Max Weber, em sua obra " A ética protestante e o Espirito do Capitalismo" demonstra a ligação entre o surgimento e processo de formação do Capitalismo com o contexto histórico e religioso momentâneo.
       Baseada na ação social, a obra weberiana afirma que o fator econômico não é exclusivamente aquele que move o homem sendo, entretanto, determinante nas ações do mesmo. O capitalismo está firmado na acumulação de bens e geração de mais lucros à partir  de uma dinamização racional e não apenas de uma simples busca pela acumulação de riqueza.
      O relacionamento de valores culturais e religiosos é imprescindível para a análise do capitalismo moderno. E tanto o catolicismo como a Igreja Católica, como instituição, moldaram  e influenciarem profundamente na sociedade moderna em relação a não só esse mas, como tanto em outros aspectos. Um modo de vida simples, apenas para a subsistência era pregado para que os fiéis estivessem mais puros e próximos de Deus, a usura era considerada quase que um pecado. A vida dos cidadãos era toda em função de Deus, o que deveria receber o que havia de melhor, por meio dessa doutrinação, a Igreja conseguia lucros por meio de doações e dízimos, o que não condizia com o ensinamento pregado pela própria.O acumulo de bens, a usura e mais evidentemente a avareza eram considerados pecados. Em meio a essa realidade membros do clero viviam confortavelmente, obtendo riqueza de maneiras segundo os mesmo divergentes do divino.
        Com a evolução social, econômica e política e o surgimento de pensamentos baseados no crescimento burguês e na própria "semente" Capitalista, esse ideal pregado pelo catolicismo tornou-se inconveniente e o Protestantismo encaixou-se perfeitamente nesse novo contexto por colaborar com a racionalização do homem com o próprio meio de produção.A reformava protestante preconizava a moralização da vida, sendo que as condutas corretas deveriam estar presentes em todos os setores da vida dos homens. O trabalho na ética protestante é associado a acumulação para o esplendor da riqueza e do dinheiro. O esforço gera uma felicidade a abastança futura. Houve separação entre bens individuais e das empresas, entre o capitalismo e evolução científica e natural, entre capitalismo e estruturas jurídicas além dessa racionalização da fé.
         Para o avanço Capitalista, não era possível que estas tomassem caminhos e ideologias tão divergentes e coube a religião adequar-se a esse impulso econômico.A fé não é tão somente agente regulador do comportamento humano como também influente e determinante em diversos âmbitos sociais.