Este é um espaço para as discussões da disciplina de Sociologia Geral e Jurídica do curso de Direito da UNESP/Franca. É um espaço dedicado à iniciação à "ciência da sociedade". Os textos e visões de mundo aqui presentes não representam a opinião do professor da disciplina e coordenador do blog. Refletem, com efeito, a diversidade de opiniões que devem caracterizar o "fazer científico" e a Universidade. (Coordenação: Prof. Dr. Agnaldo de Sousa Barbosa)
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segunda-feira, 15 de agosto de 2011
A religião como fator de mudança na sociedade
Reformulando valores
A sociedade pré-capitalista se via condenada pela Igreja católica em práticas voltadas para a obtenção do lucro, à cobiça, usura, o luxo. Sendo que esta se via praticando atos como a corrupção do clero, venda de indulgências, entre outros fatores que propiciavam descontentamento perante a população e gerava riqueza a seus membros, contradizendo o que pregavam.
Inúmeras críticas fundamentaram a criação de um novo movimento, a Reforma Protestante. Esta continha teses de moralização da vida, defendendo de forma rigorosa alguns preceitos que são à base da vida cotidiana. A nova religião, o Protestantismo, além de favorecer a nova classe ascendente, burguesia, continha ideais mais adequados ao sistema capitalista.
O trabalho árduo para esse novo modelo de pensamento, promovia a acumulação de bens, que significava não mais um desvio de conduta ou algo imoral e anti-ético, como pregavam os católicos, mas uma virtude, demonstrando a eficiência do trabalhador. Estes então visavam à acumulação, não consumiam totalmente o que era produzido. Esse caráter racionalista se dava de modo universal, assim como dizia Weber, os que não o seguiam, deviam ser excluídos do mercado.
Weber também afirma que é a acumulação que gera o capitalismo, pois esta o antecedeu. Os interesses da burguesia passaram ser atendidos a partir disso, promovendo riquezas e crescimento da mesma. Além da racionalização que começou a se dar em inúmeros âmbitos, como a do próprio homem, e desde então a da fé. Passando assim a fazer parte do cotidiano humano, não só na moral, mas também influenciando a economia, o progresso, estimulando-o e não mais interferindo de maneira negativa.
O desencantamento do mundo
Assim, tendo as esferas que compunham a realidade medieval passado por tal processo de racionalização, em relação à fé, principal delas, não poderia ter sido diferente. Nesse ponto, destaca-se, então, a reforma protestante. A forte ligação entre a ética protestante e o espírito capitalista é apontada e analisada pelo autor alemão Max Weber. Quanto a ele, cabe aqui um parêntesis: aponta que a realidade social é formada por infinitos nexos causais, ou seja, é fruto de uma série de fatores combinados; diante da impossibilidade de analisá-los em sua totalidade, o sociólogo destaca os aspectos que julga serem mais relevantes. Nesse sentido, Weber aponta a reforma protestante como o fator decisivo para o surgimento da lógica capitalista. Assim, o capitalismo é, de forma bem simplista, fruto da racionalização da fé.
Em sentido contrário ao que até então era pregado pela igreja católica, o trabalho passou a constituir o mais alto instrumento de ascese e a representar a própria finalidade da vida. A riqueza passa a ser o empreendimento de um dever vocacional, não só moralmente permitida como recomendada. E a oportunidade do lucro passa a ser vista como uma disposição de Deus, um chamado que deve ser aproveitado com o propósito de cumprir a própria vocação. De acordo com a mentalidade ascética, quanto maiores as posses, maior a responsabilidade de conservá-las e aumentá-las por meio de fatigável trabalho para a glória de Deus. E é aí que a fé se liga à razão e aos princípios capitalistas.
Logo, se como afirmei, a racionalização é a ponte que marca a passagem do mundo feudal para o capitalista, o trabalho como vocação, o ascetismo mundano, a vida frugal e a austeridade - princípios do protestantismo - são seus tijolos, que foram colocados pouco a pouco, fazendo a ponte se estender até atingir o momento seguinte - na ordem cronológica - a realidade capitalista.
O novo papel da religião
Tema: Capitalismo: A Racionalização da Fé
A racionalização da fé pode ser vista como um fenômeno historicamente consolidado ou mesmo fruto da própria racionalização do homem em meio à objetividade prática do capitalismo. Há históricos que consideram que esta racionalização surgiu antes mesmo do próprio conceito de capitalismo ser formado. Esses históricos observaram que há séculos, no importante momento histórico de crise e queda romana, a elite patrícia desse Império não poderia sair prejudicada e não aceitaria a ideia de cortar os padrões luxuosos com os quais viveram durante toda a ascensão e ápice de Roma. Essa elite, portanto, conseguiu uma forma de manter esse padrão, o qual foi se aproveitar da grande repercussão da fé cristã e se tornar parte da elite de um clero, ocupada em trabalhar para arrecadar dinheiro em nome de Deus, e não mais em nome da figura do imperador, que já não era tão vangloriada. Percebemos, portanto, que nessa versão, a tradição de arrecadar dinheiro em nome da Igreja advém, na verdade, de uma fonte menos emocional e mais racional, a qual, mais para frente, se encaixou muito bem nos moldes capitalistas. Há, porém, aqueles que acreditam que a igreja só foi se misturar com os ideais capitalistas após este ter se espalhado de tal forma que atingiu a maneira de pensar das pessoas e automaticamente se difundiu com a maneira de elas levarem a fé: antes se tributava por motivos de moral religiosa, emocional; agora se contribui por motivos econômicos, racionais.
De qualquer maneira, independente da razão histórica, a Igreja manteve o hábito de condenar o acúmulo de capital, a avareza. Toda essa influencia cristã na vida das pessoas se tornou uma cultura na qual o homem que vive de guardar dinheiro é, de maneira pejorativa o “pão duro” ou “mão de vaca”. A fé foi utilizada como forma de arrecadar fundo para a igreja, de aumentar seus patrimônios e bens. O homem cristão seguidor, se tornou o cristão colaborador.
Há alguns anos, tivemos a oportunidade de observar um exemplo prático dessa teoria: Edir Macedo, padre e dono de uma das maiores igrejas do país, foi envolvido em escândalos relacionados à usurpação de bens doados a igreja para fins extras religiosos. Ele foi acusado de misturar os bens adquiridos pela igreja com os bens investidos para movimentar uma emissora de televisão também propriedade do padre. Tomou grande repercussão, pois teria sido desvios grandiosos, já que, por ser uma igreja que toma grandes proporções no país inteiro e é conhecida também por influenciar a doação de bens à igreja, arrecada bastante capital.
Conclui-se, portanto, que por relações históricas ou por simples cultura capitalista, a fé atualmente, na maioria das vezes, é utilizada para justificar o nosso papel na sociedade econômica, e não mais na nossa cultura religiosa.
Capitalismo: a subversão da ordem natural
Max Weber defende a ideia de que a sociologia deve compreender a ação social em si, e não interpretá-la perante ideologias próprias, pois o ponto de partida do cientista social não são seus valores, mas sim os valores do objeto interpretado. Segundo Weber, os homens não se movimentam devido a sua classe social, pois existem diversos elementos que influenciam o agir, tais como os aspectos culturais e religiosos, sendo o econômico apenas um desses elementos.
Quando Weber analisa o capitalismo em suas conexões ele conclui que não é a ânsia pelo lucro que gera o capitalismo em si; a ambição de lucrar sempre existiu e isso não se caracteriza como capitalismo. O que de fato caracteriza o capitalismo é o desenvolvimento de ideais universais, a internacionalização dos padrões, a interdependência mundial, a dinamização racional no investimento, na qual se investe como forma de produzir mais capital, e é aí que podemos perceber uma inversão da ordem natural. A ideia de deixar de fazer para acumular não é uma ideia de fácil aceitação, mas devido à tradição, aos aspectos culturais e até mesmo religiosos, como no caso dos protestantes, torna-se comum. E é por isso que o capitalismo não é uma simples questão econômica, ele é um estilo de vida, um modo de pensar e agir. Além disso, o capitalismo tem necessidade de expansão, logo, tenta impor seus ideais a todas as culturas, o que gera conflitos, como por exemplo, os conflitos entre ocidente e oriente no que diz respeito ao tratamento dos direitos humanos.
Podemos também exemplificar essa racionalização do capitalismo citando o mercado financeiro, onde nem é mais preciso da produção para se gerar mais dinheiro. As pessoas se arriscam investindo seu dinheiro em produtos que muitas vezes nem sairam do papel para tentarem estar a frente. É o ápice da racionalização do capitalismo.
Justamente por isso, capitalismo tornou-se muito dependente do avanço da ciência e de novas técnicas, o modo de produção capitalista foi o único a aplicar a ciência, e por isso a ciência moderna se associa ao desenvolvimento do capitalismo. Ademais, a base jurídica é essencial ao capitalismo, pois garante a propriedade privada, o cumprimento dos contratos e todas as regras formais que o regem.
Tema 2: Capitalismo: um embate cultural?
A compreensão sociológica e o lugar da ação social
Segundo Max Weber, o objeto da sociologia envolve uma reconstrução do sentido subjetivo original da ação e o reconhecimento da parcialidade da visão do observador, baseada em um juízo de valor. Seu método principal consiste na elaboração de “tipos ideais”, isto é, elaborações conceituais do objeto examinado, que permitam comparações e a percepção de semelhanças e diferenças com os fenômenos estudados. Seu objeto de investigação é a ação social, que é todo comportamento cuja origem depende da expectativa ou reação da parte receptora da ação. Por exemplo, a ação social se manifesta quando alguém escreve uma carta, esperando que outro a leia.
Diferentemente do discurso positivista, em que a ordem social se impõe sobre o individuo como força exterior e coercitiva à ele, o individuo de Weber age levado por uma motivação, que se torna social na medida em que leva em conta outros indivíduos.
Embora insistisse na metodologia rigorosa, Weber também rejeitava a fé positiva de que a ciência social pudesse alcançar o empirismo das ciências naturais. A realidade social, criada pelos atos humanos e pelos significados que os seres humanos a eles atribuem, é complexa e imprevisível demais para ser explicada de maneira adequada, ou mesmo plenamente compreendida.
A Racionalização da Fé
Tema escolhido: Capitalismo, a racionalização da fé?
Quando analisamos a obra “A Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo”, de Max Weber, sobretudo o segundo capítulo desta obra, “O Espírito do Capitalismo”, percebemos claramente a associação de tal sistema à religião protestante, demonstrando um processo de racionalização da fé.
Ao longo da história, pudemos perceber a pregação da Igreja Católica a favor da ideia de que as pessoas levassem uma vida simples e modesta, trabalhando apenas para suprir suas necessidades materiais básicas, sem se preocupar com a obtenção e o acúmulo de bens. Na verdade, a aquisição de lucros e riquezas sempre foi considerada uma imoralidade pelos católicos. Os juros, por exemplo, eram condenados e, até mesmo, um pecado capital, a avareza, foi instituído para expressar o descontentamento da Igreja em relação ao acúmulo de “divisas”.
No entanto, esta pregação acabava por revelar uma hipocrisia que crescia no seio de tal religião: ao mesmo tempo em que o acúmulo de bens era condenado, este era almejado pelos próprios pregadores católicos. Padres, bispos e outros se valiam de muitas práticas, até mesmo, imorais para obterem riquezas. É neste contexto que podemos entender a simonia e a venda de indulgências, por exemplo. Além da hipocrisia supramencionada, é de fundamental importância que destaquemos que os preceitos católicos eram contrários a muitas das ideias de uma nova classe que emergia no contexto das Grandes Navegações e do Renascimento: a burguesia. Diante deste quadro de crise da Igreja Católica, nasceu, então, com o Renascimento Religioso, uma nova maneira de se pensar a fé: o Protestantismo.
As igrejas protestantes acabaram com a ideia de que a riqueza e o acúmulo eram imoralidades. Elas passaram a pregar que a obtenção de bens e a poupança destes eram, na verdade, demonstrações de virtude e eficiência. Começaram a valorizar muito o trabalho e o crédito, estendendo o controle da religião a todas as instâncias da vida cotidiana. Tínhamos, portanto, como pode ser demonstrado pelos preceitos protestantes anteriormente mencionados, uma nova religião que atendia, quase plenamente, aos interesses de crescimento e de prosperidade da burguesia.
Assim, além da racionalização contábil, que dissociava os bens da empresa dos bens individuais; além da racionalização científica, que associava o capitalismo aos avanços das Ciências Exatas e Naturais; além da racionalização jurídica, que ligava os ideais capitalistas ao Direito e à Administração; e além da racionalização do homem, que buscava neste uma nova mentalidade, o capitalismo passou a contar também, graças à Reforma Protestante, com a racionalização da fé. Um novo tipo de racionalidade vinculada ao capitalismo e traduzida por preceitos protestantes.

Fonte: Disponível em < http://iveraldopereiragmail.blogspot.com/2011/05/fe-e-razao.html>. Acesso em: 15 ago. 2011.
Diante do exposto, fica fácil percebermos que a razão e a fé deixaram de seguir caminhos completamente opostos, contrariando a imagem exposta acima. O capitalismo, ao influenciar as ideias protestantes, “conseguiu a façanha” de racionalizar a religião, de racionalizar a fé, de fazê-la se desvincular um pouco dos ideais referentes somente ao “mundo sobrenatural”, voltando-a também para a sustentação dos interesses racionais e materiais da vida em sociedade.
Another Brick In The Wall
Uma linha de desenvolvimento de valores universais, a internacionalização de ideias, a interdependência comercial, o alastramento maciço de cultura e notícias, a especulação generalizada e racional de tecnologias mundiais. É este ciclo de ações cosmopolitas que chamamos de capitalismo. Muito além da exacerbação econômico-financeira e da ambição pelo lucro.
É sempre conveniente à expansão capitalista que os seus receptores se tornem parecidos uns com os outros a ponto de possibilitar que o alastramento do mercado aconteça e que os problemas humanitários se solucionem de forma a satisfazer a maior parte do globo e também a sua demanda.
Entretanto, não vivemos em um mundo padronizado, dessa maneira frequentemente nos deparamos com culturas e crenças diversas e ate mesmo opostas àquela pregada pelo capitalismo e aos tão propagados direitos humanos. A pressão capitalista nos leva a um choque cultural que não pode ser superado sem o devido distanciamento do observador e respeito mutuo, mas esse é um tipo ideal de tratamento, e de idealismo não ser sustenta a racionalidade.
A produção em série do pensamento ocidental, caucasiano e capitalista tende a sobrepor seu poder em detrimento das culturais “mal localizadas”. Países mais fechados, como os islâmicos, entre outros, não geram talvez grandes problemas para o desenvolvimento do globo, mas estão sujeitos se manter a margem do capital internacional. O uniforme esta feito, quem deseja fazer parte do time tem que vestir a camisa.
A religião e o êxito profissional
A relação entre o capitalismo e a religião começa com o advento da Reforma protestante, que introduziu uma nova forma de conceber a economia. Inicialmente, essa nova visão não se manifestava diretamente por meio do protestantismo de Lutero ou Calvino, mas veio a se formar posteriormente. Weber mostra, pois, que a introdução do capitalismo não seguiu os motivos econômicos, mas sim religiosos; veio de algo externo à economia.
A racionalização da vida é um dos temas principais de Max Weber e o capitalismo contribuiu de forma muito significativa para sua introdução na sociedade. Esse processo teve seu inicio no contexto religioso, desenvolvido nos mosteiros e, posteriormente, herdado pelos protestantes, majoritariamente pelos puritanos. Eles concebiam sua fé alegando que o homem existe para Deus, pois por Ele foi criado, e deveriam manifestar sua glorificação nos atos do cotidiano, sobretudo no meio profissional. Alia-se isso ao fato de que o destino de cada um já estava predestinado, segundo Calvino, e a racionalização se faz.
A angústia causada pela predestinação fez com que se formulassem condições para que a eleição por Deus fosse quase uma certeza, entre elas o sucesso no trabalho. O êxito profissional garantia a salvação. Uma passagem do texto que ilustra bem essa afirmação é:
“Vês um homem diligente em seus afazeres? Ele estará acima dos reis”. (Provérbios 22; 29). O ganho de dinheiro na moderna ordem econômica é, desde que feito legalmente, o resultado e a expressão da virtude e da eficiência em certo caminho; A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - Max Weber, pag. 21
Desta forma, os primeiros artesãos acabavam por empregar seus companheiros de templo em consonância com a expansão de seus negócios, contribuindo de forma expressiva com o desenvolvimento de um capitalismo primitivo, animados pela convicção acerca do trabalho.
Portanto, é possível afirmar que o capitalismo veio das modificações na religião, tornando-a mais racional. Essas modificações produziram diversos resultados, tanto no plano da teologia quanto no da ética e, finalmente, no da economia, desde que a maneira de conceber o trabalho influencia a economia.
Capitalismo: a racionalização da fé?
Na obra “A ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, Weber investiga a origem da acumulação do capital por parte dos calvinistas. Aponta que isso ocorre devido às convicções religiosas divergentes. Enquanto que para os católicos o que é valorizado é o desapego às coisas materiais, para os calvinistas a acumulação de capital é vista como um dom atribuído por Deus e que deve ser valorizado. O trabalho duro, a prosperidade, a moderação e a autonomia são sinais da graça divina. Os filhos das famílias protestantes eram criados para atividades que visavam à obtenção de lucros, em oposição ao ensino católico, contemplativo e baseado na renúncia do ritmo de vida em que tempo é sinônimo de dinheiro. Para o protestante, o trabalho é uma vocação, cujos ganhos não são voltados para os prazeres materiais, e sim para o contínuo crescimento.
A civilização Ocidental ruma à racionalização do progresso, abrindo caminho para a ascensão e o crescimento do capitalismo. Essa racionalização econômica, segundo Weber, é liga-se à virtude e eficiência, e não à ganância, desonestidade ou desvio de caráter que marcam o capitalismo neoliberal de hoje, controlado pelo mercado financeiro especulativo. O capitalismo separa os bens da empresa dos bens do individuo, além de promover o surgimento do direito e da administração e o avanço das ciências técnicas e exatas.
Diversamente de Marx, que atribuía a ascensão do capitalismo ao determinismo econômico histórico, Weber critica essa ação determinista, pois o capitalismo resultava das condições da organização social e de uma base extremamente racional. O status e no poder não decorriam da situação econômica do individuo.
Weber e o foco no econômico
Nasce, concomitante à efervescência do protestantismo em face do Catolicismo, uma ética do trabalho. Segundo Weber, os princípios protestantes ajudaram a firmar essa conduta social relativa ao econômico, pois trazia a ideia de produção de riquezas visando sua acumulação e não seu consumo, o que estava fortemente vinculado ao capitalismo moderno, que, por sua vez, tinha uma perspectiva de longo prazo relacionada à possibilidade de investimentos e da dinamização do capital. Um comportamento assim era visto com bons olhos, pois indicava a eficiência da pessoa, suas virtudes e seu comprometimento com o trabalho. A fé entra nesse cenário no papel de legitimadora, a defensora do protagonista - o capitalismo em avanço -, lutando contra o alheamento dos católicos no tocante aos empreendimentos materiais.
Essa análise tão fria desconsidera o papel principal da Reforma Protestante, ou pelo menos, a sua intenção verdadeira. Não duvido que, ainda àquela época, já houvessem capitalistas mais perspicazes que tenham apoiado a Reforma já visando de que forma poderiam dela se aproveitar futuramente para pregar o que era de seus próprios interesses. Mas de semelhante forma acredito que tem se deturpado muito, a partir dessa análise, por exemplo, o papel das religiões na História - seja a protestante, a católica ou quaisquer outras. Weber discordava de Marx quando este dizia que o fator econômico se sobrepunha aos outros, mas ele próprio se basta a discorrer sobre a religião no que concerne às suas implicações relativas justamente a aspecto. Não teríamos aí uma contradição?
Não nego que de alguma forma a Reforma possa ter funcionado como incentivo a princípios implícita ou explicitamente capitalistas. No entanto, a racionalização da fé, acabou por excluir o que nela há de mais importante, que, justamente, independe de explicações lógicas ou comprováveis.
O importante é ter mais dinheiro que Deus, a não ser que Ele venha e acabe com tudo.
Para começar, para Webber, a ânsia pelo lucro não gera o capitalismo em si. Essa ânsia ocorre desde tempos mais antigos, em pilhagens e explorações com função de ganhos por exemplo. O que torna o capitalismo o que é, desde seu surgimento até os dias atuais é o caráter de o dinheiro ser como fim em si mesmo, ou seja, em mais dinheiro. Esse contexto preza por quem busca o dinheiro, a produção, e para o autor, esse comportamento seria mais difícil nas sociedades onde predominassem o catolicismo.
Por séculos, a usura foi condenada pelos católicos. Até os dias atuais a religião católica prega votos de pobreza e negação à avareza, por exemplo. Está embutida na ética católica a aversão ao excesso. Já para os protestantes, como pode ser observado nas citações de Benjamin Franklin utilizadas no texto, essa acumulação de bens é vista com bons olhos. É sinônimo de virtude, de eficiência. O crédito e a multiplicação do dinheiro são exaltados positivamente. Tais valores são os mesmos apreciados pelo capitalismo.
Diante disso, Webber conclui ter sido extremamente importante para o capitalismo a reforma protestante. Ainda que os protestantes continuem com a crença forte em Deus, acreditando Nele como mais poderoso que tudo e todos (inclusive mais importante e poderoso que o dinheiro), para eles o acúmulo é forma de demonstrar virtude e até louvor a vida e a Deus. E mesmo não tendo sido o capital o único motivo para o protestantismo, este foi extremamente importante para o desenvolvimento do capitalismo, mesmo sendo fator religioso. E o fator religião não é meramente econômico, é fator cultural. É fator que demonstra embate cultural e não uma questão econômica que seria o argumento de um marxista para o sistema. É a "superestrutura mudando a estrutura".
Outro fator citado é o Direito. O Direito pode ser visto como mola-mestra do capitalismo, pois garante a manutenção do direito de propriedade, o cumprimento de contratos e as regras para os investimentos, ou seja, regula as relações e dá garantias ao modo de produção para que ele continue a existir sem enfrentar grandes problemas para sua existência (desconsideram-se as crises do capital neste caso, que são outro assunto). É mais um caso cultural se for observado que o Direito é reflexo da sociedade onde ele é aplicado e que as sociedades com o Direito mais próximo do que deseja o capitalismo tendem a se sair melhor na prática do capitalismo e vice-versa.
Portanto, enquanto Marx se apoia no caráter econômico das mudanças e na luta de classes, Webber se apoia no embate cultural.
Concluindo, ao ler a obra de Max Webber é possível notar os ideais de análise do pensador, a relação da prática do capitalismo com um embate cultural onde está presente o Direito como uma ferramenta do modo de produção e o protestantismo como importante motor para o desenvolvimento deste em virtude de sua ética protestante de acumulação e temporariedade se opor à pregação católica de aversão ao acúmulo e de importância maior da vida após a morte.
A Ética do Trabalho e o Espírito do Cristianismo
Max diz que a reforma protestante traz uma nova realidade, pessoas que não veem o lucro como pecado, que não acreditam que devam pagar para receber perdão e gostam de trabalhar. Pessoas que, de acordo com Webber, preferem conquistar seu sustento e conforto através de trabalho árduo.
Agora sim, boa noite!
O capitalismo não nasceu ou se beneficiou do advento do protestantismo, visto que a causa deste foi de caráter religioso. A explicação mais plausível é que o europeu começara a mudar suas concepções e, consequentemente, o capitalismo começara a se desenvolver. Weber traz um exemplo de um produtor que comprava tecidos de camponeses e vendia os produtos a intermediários, os quais os revendiam aos consumidores. Tempos mais tarde, os produtores, para aumentar os lucros, mudaram o método de comercialização: transformaram os camponeses em operários, dispensaram o serviço dos intermediários e forneciam diretamente os produtos aos fregueses conforme seus gostos e necessidades. Para tal transformação, fez-se dispensável a ética protestante como princípio explicativo.
Como fora citado anteriormente, a moral católica condena a usura, entretanto, de forma alguma se opõe ao enriquecimento proveniente do trabalho honesto e digno. Não é verdade que o católico prefere "dormir sossegado", pois uma vez que também é capitalista, irá racionalizar seus investimentos. A mentalidade do europeu passou por uma transformação durante a decadência do feudalismo e o surgimento do capitalismo comercial, quando a economia de subsistêcia deixou de ser predominante em detrimento do lucro.
É inconcebível dissociar o protestante do católico, pois segundo o próprio Weber afirma " O fabricante que se opuser por longo tempo a essas normas será inevitavelmente eliminado do cenário econômico, tanto quanto um trabalhador que não possa ou não queira se adaptar às regras, que será jogado na rua, sem emprego." O espírito do capitalismo está além da ética protestante, caso contrário eu ( católica) preferiria dormir sossegada a discutir esse assunto a essa hora da madrugada.
Adequando religião ao modo de produção
Ao comparar as sociedades católicas e protestantes sob a égide do capitalismo, Weber conclui que as últimas introduzem-se melhor nessa realidade e deselvolvem-se mais; na medida em que a moral católica condena a prática da usura, afirma que somente através da fé e de boas ações se alcançará a salvação, faz apologia a pobreza, ao sofrimento"dos fracos e oprimidos é o reino dos céus", à culpa "essa é a cruz que eu carrego", nega a vida presente em nome da futura....Enquanto que a moral protestante assegura que a vocação é a providência divina, que é através do trabalho que se atinge a realização pessoal e a salvação, glorificando-se à Deus, sustentando práticas capitalistas...logo a religião agrada e se conforma de acordo com interesses políticos e sociais.
domingo, 14 de agosto de 2011
A fé desenvolvendo a economia
A Reforma religiosa introduziu uma nova forma de conceber a economia, cuja importância os próprios protestantes não perceberam imediatamente, sendo hoje o que se chama capitalismo. A análise de Weber mostra que esta introdução do capitalismo não obedeceu inicialmente a uma motivação econômica, porém religiosa, ou seja, o desenvolvimento da economia não depende necessariamente de transformações internas a ela, mas estas podem ter uma fonte externa.
É relevante observar que naqueles tempos os valores religiosos eram predominantes, sendo que eles não determinaram apenas a ética, mas também a conduta prática da vida em todos os domínios, inclusive no da economia.
Sabe-se que a crescente racionalização da vida é um dos temas centrais do pensamento sociológico de Max Weber. O capitalismo introduziu essa racionalização na vida econômica. Com efeito, as convicções religiosas são determinantes no estilo que inauguraram na economia.
Weber estabelece uma relação entre a crença religiosa protestante e a prática de um racionalismo econômico, e a partir disso vai construir o que denominou de espírito do capitalismo, através do qual busca explicar o caráter racional da economia capitalista.
No protestantismo, a relação da religião com o mundo terreno é profundamente modificada e a salvação vai ser centrada na intensidade da existência do indivíduo nesse mundo. Assim, nessa nova religião, a partir de Lutero, e na versão desenvolvida por Calvino, ela passará a encorajar um comportamento econômico particular: a profissão torna-se, perante Deus, um dever, uma vocação, uma prova de fé. Tal modo de viver difunde-se ao longo de toda a Europa e América do Norte pregando um comportamento de busca do lucro.
Em outras palavras, Weber quer explicar o processo de racionalização principalmente como um desenvolvimento de uma orientação religiosa única e particular ao mundo de Lutero e Calvino. Esse conceito na concepção do pensamento social de Max Weber, uma vez que na obra desse autor, a racionalização ocupa um lugar central, sendo, portanto, um dos conceitos mais importantes para a compreensão de sua sociologia.