Na rotina dinâmica da contemporaneidade, as pessoas se percebem como seres pensantes com suas respectivas individualidades únicas, de forma que a dinamicidade da rotina se torna uma máscara que esconde uma realidade oculta: a construção do "eu". Nesse viés, a ideia de ser se manifesta, em grande parte, do meio ao qual ele está inserido, ainda que este não o perceba.
Segundo Durkheim, o meio social impõe modelos "corretos" de ideias e comportamentos desde a escolarização em suas fazes mais iniciais até o fim da vida, isto é, o fato social. Já nos primeiros anos de vida, a pessoa é posta frente à regras sociais as quais deve seguir, normas de etiqueta, obrigações a serem cumpridas e percepções sobre o mundo que são tidas como referências e, caso o ser decida seguir o caminho contrário, é tido como uma anomalia e sofrerá repressão do meio. Assim surge o estereótipo do "normal", o padrão comportamental aceito por todos e imposto a todos.
No entanto, refletir acerca disso emana a crise existencial do século XXI: "Quem sou eu?". Presas no ciclo histórico de construção identitária da próxima geração, e imersos numa realidade dinâmica capitalista e anti-reflexiva, as pessoas se submetem a exploração trabalhista dia após dia, sem questionar quem se entendem ser e seguindo cegamente o status quo já consagrado. Dessa forma, a noção de identidade e propósito, os quais dão o devido sentido à vida, são apagados e substituídos pelas concepções normais impostas de geração em geração. Se hoje a depressão é o mal do século, certamente suas raízes são a coerção social oculta, as idealizações capitalistas de vida perfeita que impulsionam o ser a trocar vida por dinheiro e "sucesso" profissional.
Portanto, a verdadeira identidade do ser não surge meramente pela interação do indivíduo com o meio social, mas pela sua percepção individual acerca da sua realidade, a qual tem sido sensurada pelas concepções neoliberalistas impostas, pois não é conveniente para o patrão que o seu peão de fábrica saiba pensar. Afinal, quem apertaria os parafusos se todos soubessem criar novas ideias? Para o capitalismo moderno, a regra é a alienação do indivíduo para a produção e o lucro, sendo a análise crítica da realidade - e sua percepção de forma única - um ato de resistência contra o status quo (ainda que inevitavelmente influenciada por ele em alguma medida), ação a qual será duramente reprimida. Cabe, agora, a decisão: Exercer a percepção crítica da realidade e sofrer a repressão do sistema como exemplo de incorreto ou aceitar perder a identidade, a vida e seu significado para não sofrer retaliação.
Bibliografia:
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico
(1895). 3a Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
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