SOBRE A GÊNESE DA "DIREITA NÃO ENVERGONHADA" –
“A associação do termo 'direita' ao regime civil-militar (1964-1985) sempre foi um elemento destacado
pela literatura para explicar o fenômeno da 'direita envergonhada'. Power
(2008) pode ter acertado ao afirmar que a mudança geracional contribuiria para enfraquecer
o sentimento da 'direita envergonhada'.” ¹
Tradicionalmente,
a ciência política brasileira descreveu a direita como
"envergonhada", um reflexo herdado pelo regime militar que espantava
os parlamentares a se relacionarem com o rótulo ideológico. Entretanto, atualmente,
o que se observa é a superação desse desconforto através de uma mobilização que
se fundamenta na pauta moralista. Essa transição é liderada por atores que utilizam
da identidade religiosa para ocupar o vácuo deixado pelas famílias políticas
tradicionais. Para o positivista, o Direito deveria apenas concretizar a norma,
mas a ascensão religioso-política demonstra que a norma agora é atravessada por
uma difusão de valores que buscam reverter pautas progressistas sob o pretexto
de defesa do tradicionalismo.
SOBRE A
BANCADA EVANGÉLICA –
“A política,
anteriormente vista como lugar profano, ‘de satanás’, indigno para os crentes,
transforma-se em arena legítima.” ²
A alta
visibilidade do segmento evangélico no Congresso Nacional, especialmente a
partir da Assembleia Constituinte, marca o fim da era em que "crente não
se mete em política". O ditado "irmão vota em irmão" sintetiza a
estratégia de ocupação de espaços institucionais para frear agendas, teoricamente,
laicas e garantir interesses corporativos – como isenções fiscais e concessões
de mídia. No entanto, há uma debilidade ao analisar esse grupo como orgânico, pesquisas
realizadas pelo Instituto DataFolha, uma feita em 2014 e outra em 2015, revelam
que os parlamentares evangélicos tendem a serem mais liberais na economia do
que seus próprios eleitores. Revelando que, na prática, eles se comportam mais como
o estigma político do que como representantes da fé. O indivíduo e sua
moralidade tornam-se o centro das preocupações, enquanto as questões do governo
da nação são entregues à lógica do mercado.
SOBRE A DIALÉTICA
DA REAÇÃO –
“Essa 'reação conservadora',
tradicionalmente caracterizada como 'uma resistência articulada, sistemática e
teórica à mudança' (Huntington, 1957, p. 461, tradução nossa), teria nos
parlamentares de bancadas como a evangélica a sua ponta de lança” ³
Essa ascensão
não ocorre de forma isolada, mas juntamente com a chamada "Bancada da
Bala", formando um grupo "não envergonhado" que utiliza o
plenário para ataques sistemáticos à esquerda. O fenômeno é explicitamente
reativo: surge como uma resposta à "tese da ameaça" — a percepção de
que avanços nos direitos e pautas progressistas colocam em risco a fixação de
ideários sociais anteriores. Assim como o neoliberalismo transforma a
exploração em autoexploração, essa nova direita religiosa transforma a crença e
valores comuns em uma ferramenta de coerção política, onde símbolos religiosos são
utilizados para mobilizar as massas e paralisar pautas legislativas.
CONCLUSÃO –
O crescimento
da religião na política brasileira não propõe um Estado teocrático, e está
muito longe disso, mas aproveita-se da racionalidade do sagrado nas negociações
parlamentares. Ao fim, o projeto de poder evangélico revela que, embora a urna
democrática tente se sobrepor ao altar, a política brasileira está cada vez
mais imersa em um sistema normativo-religioso, que pode acabar por reproduzir a
exclusão daqueles que não se encaixam na sua métrica cidadã.
BIBLIOGRAFIA -
¹, ², ³ Quadros, M. P. dos
R.and R. M. Madeira. “Fim Da Direita Envergonhada? Atuação Da Bancada
Evangélica E Da Bancada Da Bala E Os Caminhos Da Representação Do
Conservadorismo No Brasil”. Opinião Pública, vol. 24, no. 3, Centro de
Estudos de Opinião Pública da Universidade Estadual de Campinas, Sept. 2018,
pp. 486–522, doi:10.1590/1807-01912018243486.
Miguel Ferrari Ferreira - Direito/Noturno
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