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segunda-feira, 27 de abril de 2026

A Engrenagem Trincada

 Se Émile Durkheim descesse hoje na Praça da Sé, talvez dissesse que o Brasil é um corpo enorme tentando funcionar com órgãos em greve. O funcionalismo dele sonhava com uma sociedade como um relógio: cada peça com sua função, todas batendo no mesmo ritmo da solidariedade. 


Mas aí vem o fato social, essa força que ele dizia ser externa, coercitiva e geral. Aqui, o “jeitinho” virou fato social. A fila furada, o imposto sonegado, a confiança baixa nas instituições. Ninguém mandou, mas todo mundo aprende. É externo porque nasceu antes de nós, coercitivo porque te olham torto se você for o único honesto, e geral porque atravessa o Brasil inteiro.


O problema é quando a engrenagem quebra e entra a anomia. Durkheim falou disso quando as regras sociais param de fazer sentido. E o Brasil anda cheio de anomia: é o jovem que estuda, se forma, e descobre que o diploma não abre porta nenhuma. É a norma que diz “vote consciente”, mas o candidato eleito some. É a Constituição que promete saúde, educação, dignidade, enquanto a realidade entrega fila do SUS e escola sem merenda.


No funcionalismo, a escola deveria integrar, o trabalho dar propósito, a família dar coesão. Só que quando o salário não paga o aluguel e o TikTok ensina mais que a aula de sociologia, a solidariedade orgânica vira cada um por si. A greve dos professores, o motoboy sem CLT, a fake news no grupo da família. São sintomas de um corpo social com febre.


Durkheim queria ordem pra garantir o progresso. Mas talvez hoje ele perguntasse: que ordem é essa que funciona só pra metade da máquina? Enquanto a peça do Congresso, do mercado e da favela não se reconhecerem como parte do mesmo relógio, a gente segue adiantado na desigualdade e atrasado na coesão. E o tique-taque que se ouve é só o da anomia, marcando a hora.




Isabela de Oliveira Ramenhol Gomes - Direito Noturno 1 ano


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