Total de visualizações de página (desde out/2009)

Mostrando postagens com marcador direito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador direito. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Durkheim e a inevitabilidade do viver coletivo

 

Émile Durkheim enxergava o corpo social por uma perspectiva biológica na qual a economia, família, educação e justiça coexistem em volta da coerção, onde as leis são variáveis. Nesse sentido, o sociólogo via a necessidade de se distanciar do objeto, seja ele visto como bom ou ruim, para observar com um olhar científico e minucioso.

   Sob esta ótica, o chamado fato social manifesta-se como uma consciência coletiva em que a pessoa age de acordo com as regras sociais em que vive. Vejamos que, desde a pré-história o homem percebeu que sozinho não poderia sobreviver, e gradualmente foram se formando comunidades e seus próprios costumes. E hoje, nos dias atuais, constata-se que a sociedade se move espontaneamente, por isso tudo se modifica.

   Nesse panorama, há pouco lado individual em um espaço social, até mesmo as memórias são sociais, sempre rodeada de pessoas e a partir de certas regras interiorizadas lentamente que surgem visões naturalizadas.

   Seguindo esse cenário de vida em comum, Durkheim critica a análise ideológica "das ideias para as coisas" que são ideias abstratas sobre algo sem saber a verdade, e de forma generalizada e apresenta o conceito "das coisas para as ideias" que é a construção de um pensamento crítico, a procura da ciência, da mudança social e buscando avaliar informações de forma profunda e objetiva. O que é substancial para gerar transformações no viver coletivo.

segunda-feira, 25 de março de 2024

O Positivismo no Brasil Contemporâneo.

   O Positivismo é uma corrente sociológica fundada por Auguste Comte no século 19, em um contexto de efervescência social e política. Tendo por base a observação de fenômenos coletivos, a Física Social de Comte possui viés objetivo, doutrinário, sem influência metafísica e teológica, e adentrou o contexto político brasileiro por meio de grupos militares, processo este facilitado pela similaridade de tal corrente com a ideologia interna dos militares. Ademais, o pensamento positivista tornou-se, ao longo do 2º Reinado, a corrente científica do movimento republicano, também crescente no núcleo do Exército. Porém, para alguns especialistas, o positivismo não perdurou no Brasil devido à crises e a períodos de queda da democracia –como as ditaduras-, entretanto, essa visão é equivocada, uma vez que os valores e preceitos positivos ainda permeiam a contemporaneidade brasileira, a exemplo de, até hoje, o lema positivista “Ordem e Progresso” estampar a bandeira nacional.

  Segundo Comte, a educação é fundamental dentro da lógica positiva, que visa manter a ordem a fim de alcançar o progresso. Paralelamente, no Brasil atual, há a proposta de reformas educacionais que visam a manutenção de organização e hierarquia sociais, como projetos de ampliação do número de colégios militares, propostos no Governo Bolsonaro (2019-2023). Somado a isso, até os dias atuais, Igrejas Positivistas – que seguem a religião positiva- estão presentes no país.  

  Dessa forma, discutir as consequências da permanência desse pensamento no Brasil contemporâneo é necessário. Sob a ótica comteana, a Física Social possui obrigação de “resolver afinal a assustadora constituição revolucionária das sociedades modernas”, ou seja, o positivismo, ao condenar a “crise”, que consiste na dualidade entre movimentos de desorganização e reorganização, fortalece preceitos conservadores. Assim, com o objetivo de atingir harmonia e ordem social, tal corrente reitera papéis sociais que, no Brasil, são mecanismos de opressão, a exemplo de papéis de gênero e de raça. Assim, em um país patriarcal e com passado escravocrata como o Brasil, as ideias positivistas  geram a manutenção de tais lógicas de hierarquia social. O caso de juízes de Pernambuco que não participaram de um movimento antirracista sob a justificativa de que não deveriam apoiar correntes ideológicas exemplifica a manutenção das posições sociais conservadoras e o pensamento anti ideológico de Auguste Comte, já que para este a Sociologia devia ser uma ciência objetiva, com base na observação de fenômenos, e não em percepções pessoais. Conclui-se, portanto, que o Positivismo está presente no Brasil Contemporâneo, o que leva a perpetuação de hierarquias na sociedade.

terça-feira, 19 de março de 2024

A interlocução entre Kilomba e Mills na contemporaneidade.

  Na obra “Memórias da plantação”, Grada Kilomba conceitua a noção de “Outridade”, termo utilizado para representar o mecanismo de dominação que classifica pessoas negras como “os outros” perante a sociedade, às margens de uma lógica social branca que se denomina “nós”. Uma dicotomia entre “nós” e “eles”, os outros. Nesse sentido, tal conceito pode ser explicado à luz do pensamento de Mills pois, para ele, os indivíduos e suas perspectivas são limitados por órbitas pessoais, a exemplo de famílias, trabalho, religião e país. Dessa maneira, uma vez que a órbita branca posiciona-se como dominante nas relações de poder sociais, por meio da opressão -principalmente por intermédio da escravidão africana-, há o estabelecimento, portanto, da hierarquia mencionada anteriormente e de uma estrutura de preconceito racial. 

  Kilomba, para representar o racismo que permeia a sociedade atual, menciona a exclusão de pessoas negras do ambiente acadêmico e utiliza o princípio da outridade ao afirmar que “eles têm fatos / nós temos opiniões; eles têm conhecimento / nós temos experiência”, citação que representa falas de desvalorização da criação científica de pessoas negras que escutou nesse ambiente, que é, em suas palavras, branco. percepção de Wright Mills a respeito de as bolhas sociais privadas embasarem o posicionamento racial do indivíduo pode ser percebida também na obra “O período de uma história única” de Chimamanda Adichie, autora africana. No texto, a autora aborda como as histórias únicas, ou seja, percepções baseadas nos núcleos e nas experiências individuais das pessoas, propagam preconceitos, de forma similar ao exposto por Mills. Ademais, observa-se que o racismo descrito por Kilomba e por Adichie permeia a contemporaneidade, como em casos recorrentes de preconceito racial na esfera do futebol, em que jogadores negros são vaiados e atacados durante partidas, a exemplo do jogador Vinícius Jr.  

  Adiante em sua obra, Grada Kilomba diz que “O conhecimento é colonizado”. Colonizado? Sim. Avaliado e percebido por olhos brancos, o conhecimento do sujeito negro recebe tratamento similar aos indígenas e africanos da colonização. O conhecimento é definido como bom ou ruim a partir de uma ótica externa, que se impõe. Citando Irmingard Staeuble, “o colonialismo não apenas significou a imposição da autoridade ocidental sobre terras indígena, modos indígenas [...] , mas também a imposição da autoridade ocidental sobre todos os aspectos dos saberes, línguas e culturas indígenas” de modo que é necessário descolonizar, para Grada Kilomba, o saber. Nesse sentido, tal tópico pode ser expandido para pensadores indígenas que, assim como Chimamanda Adichie, possuem semelhanças com Wright Mills. Segundo o filósofo contemporâneo indígena Ailton Krenak, a noção de “humanidade única” é causadora de segregações e violências na sociedade, afetando, inclusive, o meio ambiente. Dessa forma, a humanidade única é a percepção de que a humanidade branca é a única, e deve estar acima de outras, similarmente à uma órbita privada.  
  Portanto, tendo em vista que o racismo permeia a sociedade atual -como exemplificado ao longo do texto- e que diversos autores afetados por essa violência atribuem sua causa a pensamentos similares ao do sociólogo Wright Mills, o método deste autor, a imaginação sociológica, é uma forma viável de combater essa assimetria de poderes. A imaginação sociológica consiste na compreensão consciente do contexto histórico vivenciado, de forma ampla, por parte do indivíduo, para, então, romper com convicções privadas. Através desse recurso, o homem torna-se menos limitado. Para Chimamanda, Krenak e Mills, uma grande causa do racismo é a perspectiva privada dos indivíduos que, imersos em uma sociedade racialmente hierarquizada e segregadora, são incapazes de vislumbrar diferentes horizontes e perpetuam preconceitos. Desse modo, a imaginação sociológica proposto por Mills apresenta uma maneira de combater tal problema.

sábado, 8 de agosto de 2020

PRESOS ENTRE REDES E CORRENTES

   Émile Durkheim, em sua perspectiva, analisa a sociedade visando seu máximo proveitoAnalisar, então, os eventos dela, é ir além do cotidiano pessoal sem deixar de enxergar nele sentidos universais. Os fatos sociais estão em cada parte por estarem no todo, e, fazendo parte do todo, somos também universais, adotando sentidos que esse geral nos incutiu, tornando ímpetos, que não sabemos muito bem as origens, nossas características. Sempre estiveram ali, antes de nascermos, antes dos nossos avós ou tataravós estarem aqui neste plano, convenções do mundo que exprimiram forças sobre nossos comportamentos atuavam.  

   Por isso, fica tudo muito nebuloso. Quais são, então, os limites entre minha identidade e o que me foi expresso? São essas mesmo minhas vontades? O meu gosto é o que eu gosto ou qualquer coisa que me digam ser o apropriado para que, no fundo, a norma seja seguida? Que será que sou eu? Que norma é essa e até aonde ela vai? Não sei bem a resposta para tais questionamentos, assim como você, leitor, também não a sabe, uma vez que fomos todos colocados em corpos nesse tempo, nesse espaço e nessa experiência terrena, sendo expostos à todas essamazelas a evitar o colapso social. Evitariam, aliás?  

   A anomia passa a ser, para os físicos sociais contemporâneos ao Durkheim, algo que deveria ser evitado ao máximo, a resignar os sujeitos em quaisquer tipos de resistências que fujam do ideal normativo, carregando junto a si uma reação punitiva que busque o restabelecimento das regras que mantêm a coesão social. A exemplo, a noção Durkheimiana de CORRENTES SOCIAIS, onde indivíduos perdem um pouco de sua racionalidade a serem levados pela multidão e pelo seu pensamento coletivo, como movimentos externos que arrebatam contra – ou não - a vontade de cada um. A exemplo a efetivação de danos e atrocidades cometidas por pessoas que, em condições “normais”, não os teriam feito, tendo sido levados pela energia do bando.  

  Dessa forma, ainda hoje, ferramentas contemporâneas também atuam e sofrem a atuação desse fato, como as REDES SOCIAIS. Essas redes representam um recorte expressivo da sociedade, mostrando como as pessoas se expressam se não tivessem esse contato contínuo e direto, passando a seguir algum tipo de padrão propagado por essas mídias. Musa fitness, e-girl, TrendSetter, cantoresmodelos ou qualquer influenciador digital com mais de 50k followers parecem inundar o feed de qualquer um, propagando um ideal de vida que se torna a meta de muitos seguidores e usuários dessas redes. REDES, assim como as CORRENTES, são mecanismos sociais que não só etimologicamente aprisionam o indivíduo, os moldando de acordo com os interesses de um coeso funcionamento da sociedade, operado com maestria por aqueles que sabem fazer com que o desejo pelo aprisionamento seja real, uma vez que os prisioneiros estarão ávidos por aquilo que os mantém em cárcere. 

  O que remete à famosa frase de Aldous Huxley Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão". Com isso, é visto hoje esse vínculo entre Correntes Redes Sociais, em que multidões anseiam por ideais sem racionalizar a realidade, permitindo que as convenções do mundo digital perpassem suas vidas, a alterar o escopo de cada um, como uma boiada, animais irracionais que são levados pelo desejo que os foi instigado e não refletido.

   Com isso, a destruição desses grilhões que nos atormentam na contemporaneidade parece quase impossível, uma vez que somos atonitamente bombardeados por todos os cantos, mesmo fazendo apenas o necessário dentro do Home Office ou mesmo outro trabalho que não exija diretamente dessas ferramentas, a tentativa de te deixarem coeso para funcionar para a sociedade é contínuo e está internalizado em todos os seus aspectos, como uma engrenagem perfeita. Agora, eu, escrevendo este texto para a Universidade. Você, o lendo para algum fim produtivo. Nós, enquanto crianças, sentados em fila ouvindo por horas nos dizerem sobre as palavras e sobre os números, e também como o mundo funciona e como poderíamos usar esses aprendizados no mercado de trabalho, pra sermos alguém no nosso futuro emprego dos sonhos, onde trabalharemos duro até conseguirmos a nossa casa perfeita, com um carrão na garagem. E seremos felizes assim. Né?  


Anita Ferreira Contreiras - 1º ano de Direito - Noturno.

domingo, 29 de abril de 2012

Ponto de Vista



"'Cause I don't care where I belong no more./ 

What we share or not I will ignore./ 
And I won't waste my time fitting in./ 
'Cause I don't think contrast is a sin.
 
Millencolin


O grande desenvolvimento técnico-científico que existiu no século XVIII durante a Revolução Industrial e as consequentes transformações na sociedade decorrentes dele levou à concepção do cientificismo, que defende a utilização do método das ciências da natureza para todas as outras áreas do conhecimento. Comte, com sua filosofia positivista, instala, em detrimento da teoria do conhecimento, a teoria das ciências, classificando-as em: matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia, indo da mais simples e abstrata à mais complexa e concreta. Para ele toda forma de conhecimento agora adviria das realizações das ciências empíricas, alcançando até a religião.
A sociologia, da qual se diz fundador, é definida utilizando modelos da biologia, tratando da sociedade como um organismo vivo, onde cada órgão teria sua função definida e vital para o corpo. Nesse caso a vontade do indivíduo se perderia frente a vontade coletiva, pois esta última deveria prevalecer para que haja o bom funcionamento do todo.
Porém é impossível defender a objetividade e neutralidade das ciências, pois sendo produzida por humanos, está sujeita a impressões e paixões pessoais, marcadas principalmente pela ideologia do pesquisador. Pode-se observar dessa forma a filosofia de Comte como reação conservadora frente à Revolução Francesa, da qual tomou postura anti-revolucionista. Instituindo a ordem em todo o seu trabalho, desde a organização das ciências em hierarquia, até a justificativa da imobilidade e da estratificação social, exaltando um dogmatismo sem limites.
Não há como obter dados brutos da nossa percepção do mundo, da mesma maneira que não podemos traçar objetivos sem os influenciar, pois cada um dará uma significação ao seu objeto de estudo.



Millencolin - No Cigar

domingo, 25 de março de 2012

A busca pelo perfeito

"A cracked window distorts the image/ but no worse than it was when it was fogged " The Queenstons

     Durante os séculos XVII e XVIII muitos foram aqueles que se incomodaram com a esterilidade do conhecimento que o ser humano havia conquistado até então, ou por ser simples discussões sem resultados, como a filosofia escolástica, ou frutos da fantasia ou de interpretações ilusionárias da natureza, como a magia, a astrologia e a alquimia. Essa incomodação foi a semente para o desenvolvimento da ciência moderna. Os principais nomes dessa base são Descartes, Galileu e Bacon.
     Bacon defendia que o homem não deveria discutir o que poderia ser conhecido, mas experimentar e utilizar a natureza à seu favor. Desse modo cria um método de "Cura da mente", com o fim de tirar do homem suas pré-noções (ídolos) que atrapalhariam a ação dos sentidos. Se opõe portanto ao pensamento racional de Descartes, e é diferente das interpretações matemáticas de Galileu. Então como poderiam três linhas de pensamento no mínimo diferentes se unirem como caminho para entender a natureza?
     Todos eles têm como objetivo a formulação de métodos para o entendimento dela e portanto são guiados pelas dúvidas acerca da mesma e a necessidade de respostas úteis . Mas útil nem sempre significaria correto. Um grande exemplo disso é  a física newtoniana que durante séculos foi parâmetro para o estudo do universo, mas foi substituída no século XXIX pela física quântica e a teoria da relatividade, que e já estão em vias de serem substituídas por uma nova teoria unificadora. O conhecimento não precisa ser uma verdade absoluta desde que tenha utilidade para o homem, da mesma maneira uma verdade absoluta que fosse inútil ou ininteligível não alteraria o nosso progresso.
     Mas, mesmo o que não é uma verdade, é encontrado na busca por ela, uma forma distante e perfeita que defina o objeto e o permita existir, como definiria Platão, a propriedade básica da matéria, como definiria Locke ou outros filósofos posteriores à Bacon, então a busca pela verdade é digna, o seu encontro é, quando possível, apenas uma consequência.
     Portanto, da mesma maneira que o que revolucionou a ciência foram métodos para se conhecer, o que a faz crescer é a quantidade de dúvidas que se tem acerca do mundo, e o quanto o ser humano é capaz de interpretar a natureza e torná-la útil à ele, e este mesmo conhecimento pode ser renovado a qualquer tempo. O que não é aceitável é o contentamento com o que já se conhece. Essa é a lógica da evolução humana.