Propondo
o fato social – “todo aquele que independe do indivíduo e tem como substrato
o agir do homem em sociedade, de acordo com as regras sociais” - como
domínio próprio da Sociologia, Émile Durkheim foi um importante expoente para o
firmamento desta como Ciência propriamente dita. Apesar de em alguns pontos muitas
vezes ser visto como próximo dos ideais Positivistas, o autor critica a análise
inicial a partir da qual Comte fundamentou sua teoria, pois este, ao partir de concepções
próprias (“ideias”) em sua análise social (“coisas”), acabaria desviando-se da construção
de uma “ciência das realidades” e passaria para uma mera “análise ideológica”. Outrossim,
em oposição ao Sistema Social de Comte, Durkheim visualiza a sociedade como um “Corpo
Social” em busca constante da coesão através da solidariedade social garantida
pelas instituições.
Nestes
termos, verifica-se que ainda que a obra remonte o final do século XIX sua
teoria encontra-se extremamente vívida na sociedade contemporânea. A partir de
uma coerção expressa (penal) ou velada (social), seja ela resistida ou
consensual, as pessoas desde muito cedo têm seus comportamentos moldados pela
forma coletiva em “cupcakes” úteis que cumprem sua função social. Em alguns
pontos, essa condição é até positiva se pensarmos que o respeito ao próximo e aos
mais velhos, a ética e a moral em geral são ensinadas, porém também o são os
preconceitos e a falsa moralidade. Afinal nenhuma criança nasce racista
ou homofóbica.
Essa
modulação comportamental já foi inclusive criticada em uma música da banda Pink
Floyd, “Another brick in the wall”, em uma letra que continua sob certos
aspectos atual, repudiando o ensino que prega o falso apartidário, que
hoje remonta inclusive os movimentos contra suposta “doutrinação” nas escolas,
isso porque essas mobilizações na verdade têm aversão ao lecionamento de
matérias que nada mais ensinam senão o próprio pensamento crítico - Sociologia
e Filosofia -, que passaram a ser extremamente atacadas sem pudor, como ocorreu
em um discurso do próprio secretário da Justiça e Cidadania do Estado de São
Paulo. Essas vertentes temem que os jovens “pensem por si mesmos”, o que seria
um risco à coesão social em seu estabelecimento atual.
Nesse
contexto, vale destacar que embora o funcionalismo seja mais “flexível” que o
positivismo, assimilando determinados comportamentos sociais no decorrer do
tempo, onde a solidariedade orgânica prevê que a “consciência coletiva deixe
descoberta uma parte da consciência individual”, essa “liberdade”
individual é relativa à medida que não é difícil perceber uma censura social contra
aqueles que saem dos trilhos do pensamento essencial. É permitido discordar,
mas até certo ponto. E nessa senda, cada vez mais vemos uma atração
social pela “solidariedade mecânica”, na qual temos movimentos passionais e em
grande parte irrefletidos, onde a individualidade é subvertida quase
completamente à consciência coletiva.
Mais
claro exemplo é a concepção coletiva do sistema prisional brasileiro. A sua
função social atual é restitutiva, ou seja, de correção do comportamento
indesejado para posterior reintegração do indivíduo ao convívio social. Entretanto
o que se nota é um sentimento coletivo de ódio contra os infratores antes,
durante e mesmo depois do cumprimento da pena, dificultando sua efetiva ressocialização.
Outrossim,
é comum a propagação de clamores por penas mais rígidas (ainda que desproporcionais
ao caso concreto) e dizeres como “bandido bom é bandido morto” – mas só certos
bandidos. Esse cenário é a face perfeita já descrita por Durkheim, onde a pena
não serve ao infrator e sim à consciência coletiva. Diga-se de passagem, não se
trata somente das penas formais (legais), mas também das penas aplicadas pela
própria sociedade, que ao atravessar os preceitos legais muitas vezes condenam
inocentes sem ressalvas, como foi o caso da Escola Base, da dona de casa do
Guarujá (2014) e muitos outros, onde as pessoas conduzidas por uma consciência coletiva
deixam de analisar criticamente as situações e o contexto em que se dão. Então
fica o questionamento: Como pode uma punição que não visa a correção do indivíduo
e sim a “satisfação” coletiva em simples reflexo àquela conduta individual - desdobrando-se
largas vezes em mero revanchismo - representar o equilíbrio?
Eis
aí uma face obscura que ninguém quer olhar. E é neste ponto que a Sociologia e
o pensamento crítico assumem importância fundamental, posto que para poder sair
dos trilhos ou dar uma nova direção a eles, é preciso, antes, encará-los de
frente, tendo em mente que as próprias mudanças já vivenciadas foram frutos de
movimentos/contestações sociais.