Total de visualizações de página (desde out/2009)

segunda-feira, 14 de abril de 2025

É tempo de nos unirmos!


Júlia Aguiar, 1º Ano - Direito (Noturno)

Fato Social: a invisibilização do corpo feminino e o papel da mulher na sociedade patriarcal

 



Júlia Aguiar, 1º Ano - Direito (Noturno).

O organismo durkheimiano e os meandros sociais

    Quando criança, eu adorava assistir desenhos animados pela dimensão imaginativa que estes conferiam a mim, dando matéria infinita para exercícios de imaginação incríveis, como as brincadeiras de criança costumam ser. Todavia, embora eu me encontrasse em profunda euforia assistindo tais programas televisivos, havia sempre um sentimento de exclusão quando eu me projetava nos personagens dos desenhos que assistia... quase nenhum personagem de importância significativa nestes era negro, e mesmo quando havia um personagem, sua posição era sempre subalterna em relação aos personagens brancos, majoritariamente protagonistas.

    Dentre os impactos deste ocorrido, assim como de ocorridos similares a pessoas negras, há, sumamente, o engendramento de um sentimento interno de não pertencimento, de inconformidade com os padrões pré-estabelecidos, de órbita em relação às convenções aceitas socialmente; tal sentimento afeta negativamente a autoestima das vítimas - e quando me refiro ao termo "vítimas", refiro-me também ao malfeitor: o racismo estruturalmente edificado sob uma cultura secularmente escravagista, etnocêntrica e eugênica - culminando nessas uma postura socialmente apática, alheia à própria sociedade, da qual deveriam fazer parte ativamente.
Decerto, o racismo estrutural que se revela uma constante no meio social já estava enraizado na sociedade brasileira quando eu nasci, assim como quando meus pais, avós e bisavós nasceram, já que sua origem remonta ao passado colonial do Brasil, e mesmo neste período, sua origem remonta ainda a períodos mais antigos e remotos: o surgimento das monarquias europeias; ora, se o racismo já  existia antes de meu nascimento, ele é, portanto, externo a mim, e se exerce influências diretas no cotidiano de todos os indivíduos da esfera social, seja de forma benéfica ou maléfica, só pode ser, desta forma, coercitivo e generalizado.

    Émile Durkheim, sociólogo francês do século XIX, por meio de seu objeto de estudo, o fato social, concedeu arcabouço teórico para análises como a que realizei acima, expandindo o entendimento da sociedade e de seus diversos componentes, bem como das funções de cada componente, uma vez que em sua teoria funcionalista, o meio social opera como um organismo vivo, segmentado por instituições, movimentos e grupos sociais, ao passo que todas suas ações são dotadas de coercitividade, exterioridade e generalidade.

    Enquadrando o exemplo dado com a teoria do sociólogo, torna-se evidente que o racismo é um fato social por sujeitar todos os indivíduos, generalidade, a sua ação coercitiva e externa, sendo estas três características relativas aos fatos sociais, em geral; para o sociólogo, a sociedade, quanto organismo, evita, assim como os organismos vivos, o caos, denominado anomia na teoria durkheimiana. Sendo assim, em determinado grau, a função, dentro da lógica funcionalista, de forças coercitivas atuantes no meio social, é a de evitar a anomia por sujeitarem indivíduos de determinados grupos sociais a permanecer em suas funções pré-estabelecidas, também externas, coercitivas e generalizadas dentro de seu âmbito social, ocasionando, a exemplo do racismo, em situações polarizadas, injustas e desumanas, como as disparidades políticas e econômicas que se baseiam em discursos étnicos; importante salientar que usei a expressão "em determinado grau" porque, embora a teoria funcionalista de Durkheim possibilite aproximações com a teoria positivista, essa compreende mudanças e adaptações dinâmicas acerca de características sociais que, embora vigentes por um longo período, podem, a partir de reinvindicações sociais, geralmente ratificadas pelo Direito, alterar-se, viabilizando mudanças em direção ao bem-estar coletivo e geral.

    Por fim, outro exemplo prático e hodierno que se relaciona com a teoria durkheimiana é a função que as redes socias desempenham e doravante desempenharão, uma vez que, por serem generalizadas, ou seja, serem, ao menos, presentes na maior parcela da sociedade, externas e coercitivas, são fatos sociais, e, portanto, passíveis de análises acerca de seus fundamentos e impactos. Adentrando as redes sociais, uma prática hodiernamente comum e que revela como as mudanças dinâmicas na sociedade se criam e se regulam a fim de evitar a anomia é o cancelamento, o qual consiste no feedback extremamente negativo dos usuários de alguma plataforma digital no perfil da pessoa cancelada, engendrando um imaginário negativo e generalizado acerca desta. Um ocorrido a ser exemplificado é o cancelamento da cantora Karol Conká, devido a sua participação no reality show BBB, realizado pela emissora Globo, a qual, após, ao fim desse, conduziu, apesar do anterior cancelamento midiático, um programa de reintrodução bem-sucedido da cantora na mídia, revelando que as mudanças dinâmicas que ocorrem no meio social, assim como afirmou Durkheim, são criadas e mantidas em sua própria existência, a fim de evitar a anomia e garantir a funcionalidade de todos os componentes sociais, independentemente de ocorridos anteriores, já que todo indivíduo deve desempenhar um função para com a sociedade, ao passo que os fatos sociais atuam como agentes grupais e históricos responsáveis pela própria modificação social.

Teodoro Susi Alves - Direito Noturno, 1 ano.

A Função Social da Educação Pública

  A educação desempenha um papel fundamental na estrutura da sociedade. É essencial disseminar saberes, princípios e normas para capacitar os indivíduos a enfrentarem os inúmeros obstáculos que se apresentam. Dentro dessa perspectiva, Émile Durkheim, um sociólogo francês, por meio de sua abordagem sociológica, o funcionalismo, examina a educação como um acontecimento social, isto é, um fenômeno coletivo que afeta nossos modos de agir e de pensar e, por conseguinte, define nossa conduta social.

  Aprofundando um pouco no Funcionalismo, Durkheim propõe que a sociedade funciona de maneira similar ao corpo humano, em que cada órgão executa uma função distinta e necessária para o funcionamento completo. Da mesma maneira, na sociedade, os fatos sociais - como a educação, a família, as leis, a língua – exercem diferentes funções e, através da coerção social, asseguram ao corpo social uma espécie de ordem e progresso. Assim, as instituições sociais têm um objetivo claro: evitar a anomia, em outras palavras, evitar o estado de desordem social que comprometeria toda a estabilidade e progresso existentes.

  Trazendo esse pensamento para a hodiernidade e analisando as escolas públicas brasileiras, podemos ver que essa estabilidade social mencionada pelo sociólogo, apesar de, na teoria, ser promotora de coesão e progresso, na prática é garantida pela falta de criticidade dos cidadãos. Sob esse viés, as escolas públicas brasileiras têm a função social de formar tecnicamente indivíduos para o mercado de trabalho, sem fazê-los desenvolver um senso crítico da realidade. Por conseguinte, isso contribui para a vigência do sistema capitalista, por meio de uma massa trabalhadora “disciplinada” e dominada ideologicamente, as “engrenagens” funcionam de maneira ideal.

  Em suma, vemos que a educação pública, ao invés de promover transformações sociais, é principalmente utilizada para a manutenção do status quo, promovendo grande desigualdade social e limitando a existência individual em nome de uma falsa ordem.


João Marcos Borges Silva -  1º ano - Direito (noturno)

A relativização do desenvolvimento positivista

 Desde o século XIX, o Positivismo exerceu forte influência sobre o pensamento político e social, inspirando, no Brasil, a proclamação da República e o lema da bandeira nacional: "Ordem e Progresso". Contudo, a excessiva valorização da ordem e a marginalização dos aspectos humanos evidenciariam a ascensão de hegemonias e de disparidades socioeconômicas. Diante disso, é imprescindível a reflexão sobre os impactos desse movimento e a busca por conciliação entre razão e sensibilidade na construção de políticas públicas.

 Sob esse viés, faz-se imperativo compreender o surgimento de estruturas e posicionamentos autoritários os quais justificavam seus atos com auxílio do pensamento positivista. Em paráfrase, nota-se a Ditadura Militar de 1964 como expoente dessa premissa. Observa-se essa mazela na imposição da censura, perseguições políticas e a supressão de direitos civis, sob a alegação de que tais medidas eram necessárias para garantir o desenvolvimento econômico e conter o "caos social". Essa lógica reduziu questões humanas complexas a problemas técnicos e de segurança, ignorando as subjetividades, as desigualdades e as necessidades da população. A razão, nesse contexto, se sobrepôs à sensibilidade, criando um cenário deplorável de violência institucional e exclusão legitimada pelo Estado.

 Ademais, a complexidade da ideia proposta por Auguste Comte enaltece debates acerca da vulnerabilidade socioeconômica vivenciada pelo povo distante da efetiva aplicação dos conceitos de “Ordem e Progresso” estabelecidos pelo pensador. Analogamente, a obra Capitães da Areia, de Jorge Amado, denuncia magistralmente a brutalidade policial e o abandono estatal enfrentados por jovens que subsistiam nas ruas de Salvador. Liderados por Pedro Bala, os personagens são vítimas de um sistema repressor o qual, desde a infância, limita-lhes o acesso à educação, à saúde e à proteção, além de, nesse contexto, serem vistos como ameaças à ordem, e não como sujeitos de direitos. As problemáticas enfrentadas por esses jovens simbolizam a falência hodierna de um modelo positivista que privilegia o avanço em detrimento da dignidade humana. Assim, expõe-se a relativização do progresso o qual, por vezes, não beneficia a todos, urgindo, então, a necessidade de ações inclusivas e solidárias.

 Diante do exposto, é evidente que o Positivismo, embora tenha contribuído para a organização do pensamento moderno e do Estado brasileiro, também fomentou práticas autoritárias e a negligência de demandas sociais urgentes. A valorização excessiva da ordem e da racionalidade técnica, desassociada da empatia e da justiça, resultou em violações de direitos e na perpetuação de desigualdades, como demonstrado tanto nos episódios históricos da Ditadura Militar quanto na ficção crítica de Capitães da Areia. Nesse sentido, torna-se necessário repensar a aplicação dos ideais positivistas na contemporaneidade, de modo a promover uma sociedade que una desenvolvimento e humanidade, progresso e inclusão.

 

Luiz Felipe Hernandes Paschoim – 1° ano, Direito (matutino)

Durkheim e Autoritarismos- Dicotomia Nós X Eles e Instrumentalização de Punições

Pedro Duarte Silva Sinicio Abib - Direito Noturno

    Durkheim disserta em sua obra sobre o objeto de estudo da sociologia, o Fato Social. Este, que independe do indivíduo e tem em seu cerne a maneira de agir do ser humano no mundo a partir de determinadas regras sociais. Importante destacar a análise durkheimiana enquanto empírica, fugindo do ele considera como análise ideológica, tratando seus objetos “das coisas para as ideias”, adquirindo certo distanciamento em seu estudo, visto que não quer realizar uma análise pautada em dogmas pessoais e parciais.

    A partir dos paradigmas descritos, Durkheim desenvolve sua abordagem social conhecida como Funcionalismo. Durkheim trata a maneira como o indivíduo reage a funções pré-estabelecidas impostas pela sociedade. Para o autor, existe uma ordem social pré-estabelecida que atua sobre todos os indivíduos por meio de regras, garantindo equilíbrio no tecido social e impedindo o estado de anomia. Essa ordem seria legitimada no Direito, e atuaria no sentido de dar coesão social ao tecido, por meio de reações punitivas contra a resistência desses princípios, e impedindo a deterioração do coletivo, se transformando conforme o tempo para incluir as diferentes personalidades de um todo dentro de uma determinada sociedade. Assim, comportamentos seriam moldados em prol da criação de um padrão social a partir de sanções a diferenças e da Solidariedade Social e Consciência Coletiva, que atua na criação de hábitos, crenças e sentimentos comuns, responsáveis por gerar a força de união do agrupamento social, em que cada um tem seu papel e seus sacrifícios em prol do coletivo.

    Em governos ditatoriais, sejam os mais antigos como a Itália de Mussolini e a Alemanha Nazista, ou nos pensamentos autoritários que começam a florescer, é possível observar algumas subverções dos conceitos Durkheimianos, e é sobre isso que vamos nos debruçar. As correntes autoritárias têm sempre um inimigo declarado: em 1939 eram os judeus, nos  EUA de Trump, é a agenda “woke” e a população LGBT+, e na Europa os imigrantes e refugiados. Acontece, que diferentemente do que diz Durkheim, que entende uma adaptação contínua da coesão social para incluir diferentes padrões dentro de um todo a partir de sacrifícios da individualidade, o que observamos é uma sanção sistemática ao diferente, na tentativa de criar uma dicotomia “Nós x Eles”, restringindo a coesão social a um grupo seleto, o “cidadão real” e apontando os de fora do círculo (Imigrantes, LGBTs) como anomalias, e portanto dispensáveis na jornada da construção de um coletivo. Essa construção social excludente fica evidente por exemplo, na educação e propaganda nazista, comum a regimes desse tipo, que forjava desde a infância novos seres sociais, pregando em suas mentes novas regras que seriam interiorizadas e naturalizadas, garantindo assim a propagação e fortalecimento de suas ideias, neste caso o amor a Hitler e o ódio aos judeus.

    É essencial também, entender a maneira como esses grupos tratam a criminalidade e instrumentalizam as ações punitivas, de maneira completamente contrária à ressocialização e reinserção durkheimiana, a exemplo da própria extrema direita brasileira. Em nosso país, esta direita autoritária, personificada na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro, defende um Direito altamente punitivo, de pena de morte e prisão perpétua, punições que atuariam com efeito de imposição da coerção social excludente que tratamos. Explicando com mais detalhes, é de interesse dessas correntes penas mais punitivas, pois tem como alvo, não quem as sofre, mas seus espectadores, visto que além de tirar a necessidade deste governo de ressocializar aqueles que não se adequam à nova ordem por eles proposta, também atua sobre as mentes livres que assistem a punição, mostrando a eles a nova moral exigida e imposta por esse grupo dominante, e que qualquer subversão a ela não será tolerada.

    Deste modo, governos autoritários exigem semelhança, e usam e ampliam a visão de crime para moldar sua própria sociedade de valores. Ao comandar a moral, o que é legal e o que é passível de punição, os governos moldam a consciência coletiva ao seu favor e a partir de uma coerção seletiva, decidem quem está dentro do círculo de coesão social e quem deve ser atacado, por estar em estado de anomia.


domingo, 13 de abril de 2025

O Peso das Cores: Como o Fato Social Molda a Política e a Identidade no Brasil

    Nas obras de Durkheim, é muito discutido o conceito do “fato social”, fenômeno esse que é externo ao indivíduo e que exerce forte poder coercitivo sobre suas formas de pensar, agir e sentir, fazendo com que ele se adapte ao sistema da sociedade em que vive. Trazendo esse conceito para a realidade brasileira, e fazendo uma análise no campo político, é fácil perceber como o fato social funciona.

     Atualmente, o cenário político brasileiro vem passando por diversas perturbações em decorrência da polarização presente no país. Umas dessas instabilidades tem grande ligação com a ascensão de uma figura conservadora, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, juntamente a um forte ideal patriota, se apossando da figura da bandeira e de suas cores. Nesse sentido, utilizar verde e amarelo se tornou símbolo para seus apoiadores, gerando assim uma identidade e um sentimento de pertencimento desse grupo.

    Todavia, em decorrência da insatisfação de grande parte da população com a gestão do ex-presidente, com as polêmicas que ocorreram em seu mandato, tais como as 700 mil mortes em decorrência de seu mal gerenciamento durante a pandemia, e com os atos antidemocráticos de seus apoiadores durante o período eleitoral e na tentativa de golpe no 8 janeiro, os símbolos identitários desses grupos patriotas ficaram manchados em nosso país, inclusive a bandeira nacional, suas cores e as camisetas referentes a seleção de futebol brasileira.

     Portanto, símbolos que antes eram usados como forma de pertencimento a uma nação, agora são utilizados como forma identitária de um grupo específico, e fortalecem uma divisão social no país. Essa situação revela um rompimento com a lógica da coesão social de Durkheim, que fala sobre a manutenção de um grupo unido e operante na sociedade, acendendo um alerta sobre um possível encaminhamento da sociedade brasileira rumo a anomia.

Paulo Henrique Possobom Carrenho, 1°Ano Direito Noturno, Unesp Franca.

O funcionalismo e as mídias digitais

O funcionalismo é uma das teorias sociológicas formuladas por Émile Durkheim. Dentro das ciências sociais, busca explicar como as diferentes partes de uma sociedade trabalham juntas para manter a ordem e a coesão social.

Na era contemporânea, a função social da mídia é multifacetada e complexa; ela pode ser desde uma formadora de opinião até uma ferramenta de publicidade. Através de meios como as redes sociais ou canais de TV, a mídia influencia o comportamento humano e atua como meio de intercâmbio de informações. Isso acontece porque a comunicação, seja ela verbal ou não, sempre foi o meio mais efetivo de se influenciar uma sociedade. 

Como fato social, a mídia torna o homem capaz de se comunicar com outras pessoas há milhares de quilômetros, facilitando uma troca de costumes, e servindo como uma ferramenta que fortalece ou enfraquece diferentes instituições sociais. Conhecer sua função social é imprescindível para o entendimento da sociedade atual.

No entanto, as mídias se tornam um problema ao oferecerem uma alternativa fácil de obtenção de informação rápida que substitui o contato físico e pesquisa aprofundada. A humanidade, agora com fácil acesso a todo tipo de conhecimento e interação social, altera as estruturas da sociedade tradicional e seus valores.

Letícia Mayumi Sato Prado.

a incapacidade da coexistência capitalista e a solidariedade social

 Émile Durkheim, sociólogo e professor francês, escreveu diversos livros ao longo da sua vida, dentre eles "Da Divisão do Trabalho Social" e "As Regras do Método Sociológico", nos quais ele trata diversos temas como o fato social e os tipos de solidariedade social. 

Ao formular sua tese sobre os tipos de solidariedade social, ele propõe que eles servem para manter a sociedade unida, ao gerar coesão entre os indivíduos responsáveis por compô-la, desse modo elas são responsáveis por estabilizar a vida dos cidadãos.  

Dentro da solidariedade social, existem dois tipos, a mecânica e a orgânica. A primeira está presente em sociedades mais simples, onde há pouca divisão do trabalho, buscando reforçar a unidade social a partir das semelhanças desse povo. Ao contrário, a orgânica utiliza de maior especialização do trabalho, visando unir as diferenças e organizar as dependências umas das outras. 

Assim, o sistema capitalista, em teoria, também está conectado às ideias dos tipos de solidariedade, no qual, com toda sua evolução tecnológica e interdependência dos diversos campos de trabalho, ele se encaixaria em uma sociedade orgânica.  

Porém, para Herbert Marcuse em seu livro “O Homem Unidimensional”, no capitalismo avançado, as pessoas são reduzidas a consumidoras e manipuladas pela cultura massificada, havendo assim uma destruição da solidariedade social e nascendo uma solidariedade consumista sem preocupação genuína com o bem-estar coletivo. 

Portanto, conclui-se que em uma sociedade capitalista o princípio da solidariedade e de coesão social em compromisso com uma busca pelo bem-estar coletivo são perdidas com a formação do homem unidimensional, incapaz de questionar o sistema, completamente alienado e manipulado pelas grandes mídias e pela cultura de massas, demonstrando uma incongruência que impede a coexistência dessas duas ideias. 

o positivismo associado ao sistema educacional vigente.

  Auguste Comte ficou conhecido como o “pai da sociologia”, uma vez que foi o primeiro a sintetizar a necessidade de uma ciência social, tal como as ciências naturais, dedicando-se  ao estudo de leis que regem a natureza, de maneira semelhante às leis da física, assim, deu-se a origem da sociologia, conhecida, na época, como “física social”.

   Comte é o criador da filosofia positiva, essa que ganha o nome pelo seu aspecto palpável, concreto, que busca a valorização integral do racionalismo, do método científico e da sistematização. Ademais, o positivismo é percebido na sociedade brasileira até os dias de hoje, já que foi incorporado no corpo militar brasileiro em um contexto de organização para  a proclamação da Primeira República do Brasil, movimento liderado por pelas elites, que assegurou seus privilégios e valores.


  A partir disso, ainda é possível perceber aspectos positivistas no corpo social brasileiro, como em discursos meritocráticos, que sistematizam as pessoas com base em seus resultados quantitativamente, ignorando contexto e problemas estruturais, como por exemplo o processo de ingresso a universidades públicas, os vestibulares, que fazem sua seleção com base em um sistema de desempenho em provas, isso em um país no qual a desigualdade educacional cria uma lacuna imensa entre os alunos dependentes da educação pública falha e os beneficiados com o ensino particular, dessa maneira, a elite estudantil possui maiores vantagens nesse sistema de ingresso do que o resto da sociedade, assim, excluindo os estudantes marginalizados do ensino superior, e aumentando a disparidade social entre esses grupos, mantendo a “ordem” na qual os privilégios da elite são mantidos.

  

 Ainda em um contexto educacional, a supervalorização das ciências exatas e naturais vem de um contexto positivista, no qual ele hierarquicamente coloca os campos de estudo, subjugando o campo das humanidades pela sua subjetividade e por não serem “técnicas”. Ademais, a questão dos vestibulares vai além da exclusão da camada popular, mas também, em um contexto mais geral, faz com que as escolas voltem-se para o preparo do aluno para a conquista de um bom resultado nos vestibulares, não no crescimento e desenvolvimento crítico do aluno. Sendo assim, o sistema foca em depositar conteúdos objetivamente, deixando de incentivar a reflexão e crítica autônoma do indivíduo que está sendo formado.



Catharina Passos Tomasella- 1 ano direito (matutino)


Por fim, a vida segue. Com o mundo em ordem, ou não

Um mundo fora de ordem ou uma ordem fora do mundo

Ordem: Organização baseada em critérios lógicos.

 

- Eu queria que existisse um mundo perfeito. – Respondeu meu colega Pedro.

- Bom, não era bem essa a resposta que eu gostaria de ouvir – Retornou a professora. Ela tem razão, não estávamos filosofando, nem temos aula de filosofia! Essa é uma aula de Projeto de Vida.

- A senhora perguntou o que queríamos.

Pois bem, o que querem ser ou fazer daqui 3 anos, qual faculdade, qual carreira querem seguir, ela quis dizer coisas desse tipo! Pedro, coisas desse tipo! Ele nunca entende uma pergunta simples?

- E importa o que uma pessoa insignificante, que provavelmente não vai chegar a nenhum lugar realmente relevante, vai fazer nas suas 12 horas de sol por dia, durante 40 ou 50 anos? Já estamos condenados, com todo respeito. Eu queria que existisse um mundo perfeito.

- Entendo seu sentimento pessimista, mas querer que o nosso mundo seja perfeito é... – Dona Clarisse foi interrompida imediatamente pelo garoto que insistia em retrucar.

- Não o nosso. Não disse que queria que o nosso mundo fosse perfeito, quero outro, outro mundo, um perfeito. Um onde as pessoas e as coisas sejam perfeitas. Um onde as pessoas e as coisas estejam em Ordem.

Ah o Pedro, ele é tão viajado! Mas todos nós já tivemos um colega de classe que não bate muito bem.

- Bom, já vi que vamos longe assim... Então vamos mudar um pouco o tema da aula pessoal. – A professora torna a se sentar e convida Pedro a continuar.

- Eu simplesmente não entendo como vocês não conseguem entender. É normal pessoas passarem fome? Dormirem nas ruas? Morrerem de doenças que já tem tratamento? Morrerem em guerras que não tem culpa nenhuma de terem começado? Avalanches, enchentes, queimadas...

Todos na sala parecem estar em um consenso de que não é normal, realmente. Talvez Pedro não esteja tão doido assim, talvez eu concorde com ele...

- Não, não é normal, você tem razão Pedro – Participei pela primeira vez na roda de conversa, para me arrepender logo depois.

- Errado! É sim normal.

 O que ele disse? Como pode ser normal? Olho para meus amigos e eles tem a mesma reação que eu.

- Vocês me olham como se eu fosse o próximo Mussolini, por deus! É claro que é normal, no mundo que estamos vivendo sim. O mundo é um vale de sofrimento

De repente o silêncio reina de novo na classe. Será incômodo com a afrontamento feito, ou será consentimento? Será que estão refletindo aquelas palavras da mesma forma que eu estou? Mas então o que deveríamos fazer, se está tudo tão desorganizado?


- Segura a onda aí Nietzsche.

Uma voz ecoa do outro lado da sala, quebrando o silêncio e trazendo a alma dos alunos de volta para seus corpos.

- O mundo não é um vale de sofrimento. Se você pensa assim, é tão ignorante quanto aqueles que critica. Isso acontece quando o povo está alienado ao ponto de não conseguir perceber que essa desordem que vocês tanto falam não é algo desse mundo, e não deve ser normalizada. Mas isso tem sim uma solução!

Pronto, mais um para confundir ainda mais o que já estava confuso! Lá vem o Marcos e suas ideias revolucionárias.

- As ideias dominantes, as que vocês têm, são as ideias da classe dominante, dos burgueses. O capitalismo é o culpado por toda essa desordem! Querem uma ideia de como vencemos isso? “Os trabalhadores não têm nada a perder em uma revolução comunista, a não ser suas correntes.”

 

Subitamente, vários alunos começaram a falar. Alguns que já haviam exposto suas ideias, outros que estrearam elas:

- Todos os homens podem errar, e a maioria acaba cedendo por paixão em algum momento! Não dá para ficar culpando a humanidade por errar, é da natureza dela!

- É, a Joana tá certa, o homem é o lobo do homem!

Tomas e Joana já parecem ter chegado num consenso, quando do outro lado, alguém discute com o Marx- opa! Com o Marcos.

- Você não entende Marcos, que o trabalho só dignifica o homem? Essas coisas acontecem de forma orgânica. As suas ideias utópicas iriam pôr a desordem no mundo! – Alega a Duda.

- O mundo já está em desordem! – Marta tenta ajudar, mas Marcos ainda discorda

- O mundo está em ordem! na ordem do capitalismo.

 

No meio de toda essa confusão, a professora toma partido:

- Silêncio! Qual a dificuldade de fazer um debate tranquilo? Chega, não voltaremos mais nesse assunto! Não temos tempo para tantos devaneios, está quase na hora do final da aula.

 

E estamos, novamente, silenciados. Eu até estava gostando da discussão. Apesar de ainda estar confusa, foi interessante ouvir tantos pontos de vista. Uma pena que não tivemos tempo de chegar a uma conclusão.


O sinal logo tocou anunciando o final da aula, me pergunto se haverá algum sinal para anunciar o fim da ordem do nosso mundo, ou o seu próprio fim... Será que esse sinal já tocou? Toda essa desordem no planeta era uma demonstração, um indício de que nossa hora já passou?

Quando me dou por conta, a classe já está vazia. Todos já se foram, e eu estou atrasada para minha aula de flauta!

Por fim, a vida segue. Com o mundo em ordem, ou não

 

Evelly Alonso Lopes - 1º Direito Noturno

Chip Funcional (Funcionalismo)

 — Bom dia, Setor XLII! Estão prontos para mais um dia gloriosamente funcional? — O despertador emitia uma gravação.

Desde que os chips motivacionais foram implantados em todos, era impossível não acordar entusiasmado— mesmo que o entusiasmo fosse falso e fabricado em laboratório.

Júlio piscou devagar. O chip piscou de volta. Sincronizados.

Levantou-se, escovou os dentes com a escova automatizada (três minutos cravados, como mandava o Manual de Eficiência Pessoal), vestiu seu macacão cinza-névoa (a cor neutra universal, aprovada pelo Comitê de Eficiência Visual) e sentou-se à mesa. O café da manhã já estava servido: uma barra nutritiva sabor “alegria homogênea” e um suco de vitaminas com gosto de... nada. Afinal, gostos pessoais atrasavam o sistema digestivo, segundo o último relatório do Instituto Nacional de Digestão Eficiente.

— Bom dia, Júlio — disse sua esposa, Clara, sem levantar os olhos do tablet instrucional. — Dormiu com 92,7% de eficiência. Parabéns.

— Obrigado. Você também. Vi na estatística do seu ronco que foi exemplar.

Silêncio. Mastigavam suas barras de alegria homogênea com a disciplina de quem entende seu lugar no organismo social.

Júlio partiu para o trabalho. No caminho, um anúncio holográfico brilhava no céu:

"Seja a engrenagem que move o mundo. Sonhar é desperdício energético!"

Ele sorriu. Mais por reflexo do chip do que por sentimento. No elevador, encontrou Roberto, do Setor XX(Engrenagens Leves).

— E aí, tudo funcional? — perguntou Júlio.

— Sempre, irmão. Meus batimentos cardíacos ficaram perfeitamente dentro da curva ontem. Que sensação de utilidade plena!

— Que inveja! Eu tive um pico de adrenalina às 0h56... pensei, por um segundo, em... viajar.

Roberto arregalou os olhos.

— Viajar?

— Mas foi rápido! Já reportei ao Centro de Correção de Vontades. Disseram que em 48 horas o chip recalibra.

— Melhor assim. Pensar por conta própria? Cuidado, hein. Isso é praticamente obstrução sistêmica.

Júlio assentiu, envergonhado. “Viajar”, ele repetia mentalmente. Que palavra estranha... de onde será que tinha tirado isso?

O dia correu como sempre: cálculos, gráficos, resultados. Nenhum erro. Nenhuma surpresa. Nenhuma dúvida.

À noite, no sofá, ele e Clara assistiam ao programa “Heróis da Eficiência”, onde cidadãos exemplares eram premiados com cinco minutos de sono extra. Ela o olhou e disse:

— Você está bem?

— Estou... ótimo.

— Não teve outro pensamento disfuncional, teve?

Ele hesitou. Olhou para a parede. Para o teto. Para dentro.

— Não. Claro que não.

E sorriu. Pela primeira vez, o chip não acompanhou.


Maria Helena-Noturno, primeiro ano.

Positivismo: uma bênção ou uma maldição?

Maria Luiza Fernandes Campos - primeiro ano matutino


Positivismo: uma bênção ou uma maldição?

    O Positivismo é uma corrente filosófica criada por Auguste Comte que defende a Ciência e a Razão como bases fundamentais para a organização da sociedade, pregando a ordem por meios tecnológicos e outras ferramentas de controle social. Nesse contexto, surge a questão: seriam esses conceitos os meios mais eficazes para manter a ordem social?
    A priori, na obra Jogos Vorazes, romance distópico norte-americano, a tecnologia científica é frequentemente utilizada pela Capital como instrumento de controle social. Esse cenário representa uma aplicação extrema do Positivismo, desconsiderando o bem-estar coletivo e os princípios éticos. Dessa forma, evidencia-se que, quando levado ao radicalismo, o Positivismo pode resultar em opressão e aumento das desigualdades.
    Por outro lado, essa corrente pode trazer benefícios quando utilizada com foco no bem comum. No contexto da educação pública, por exemplo, o Positivismo se manifesta por meio do uso de tecnologias e dados científicos para a criação de políticas educacionais que visam reduzir a desigualdade social e ampliar o acesso à educação de qualidade, contribuindo de forma positiva para o progresso da sociedade.
    Conclui-se, portanto, que o Positivismo pode ser uma ferramenta valiosa para o desenvolvimento social, desde que guiado por princípios éticos e voltado ao bem-estar coletivo. Aplicado com equilíbrio, pode promover justiça social; mas, quando utilizado de forma autoritária, tende a gerar efeitos negativos, como demonstrado na obra Jogos Vorazes.

Repensando o progresso à luz do positivismo

Durante as discussões promovidas nas últimas aulas de Sociologia, pudemos contemplar partes da doutrina positivista e, entre tantas reflexões, me peguei pensando no quanto a lógica e o racional – bases da filosofia formulada por Auguste Comte – moldaram diversos momentos sociais, políticos e científicos da história, impulsionados, principalmente, pela intenção de progresso. Mas, afinal, o que verdadeiramente seria o progresso?

Na visão dos positivistas, era nada mais do que uma linha reta e universal: sair da ignorância, passar pela filosofia e alcançar o estágio final com o controle social através da razão e da ciência. Nessa ótica, é possível identificar que os fiéis a essa ideologia costumavam desconsiderar saberes empíricos não comprovados pelo racional, tornando-os algo ilegítimo no campo do conhecimento. Sob esse parecer, entendimentos intrínsecos a povos tradicionais – como os indígenas e quilombolas, no Brasil –, à religião e à metafísica eram subestimados, demonstrando a exclusão promovida e incentivada pelo sistema positivista, que aniquila o simbólico, o ético, o afetivo e o diverso — e é justamente isso que Machado de Assis expõe em sua obra “Quincas Borba”, clássico que li recentemente e do qual me recordei ao longo da penúltima aula de Sociologia; o “Humanitismo”, teoria fictícia que ridiculariza o uso frio e egoísta da lógica, é um paralelo satírico com o positivismo – que, naquele período, estava em alta; “Ao vencedor, as batatas”, frase emblemática do livro, faz jus ao viés positivista meritocrático e de exclusão, no qual cada indivíduo deve, simplesmente, aceitar a existência de leis naturais que defendem a sobrevivência do mais apto e a hierarquia de etnias. No mundo contemporâneo, ainda que com roupagens diferentes, esse espírito persiste — especialmente na obsessão por dados científicos e na desvalorização das humanidades. Assim, Machado antecipa uma crítica ainda atual: a razão, quando descolada da ética, pode legitimar abusos injustiças em nome do progresso.


Diante disso, e tentando responder a questão inicial, é crucial repensar o verdadeiro significado de progresso em um universo plural e complexo como o nosso, lotado de diferentes culturas, hábitos e saberes. O pensamento positivista, quando prioriza a razão em detrimento da diversidade e da sensibilidade humana, escancara os perigos de um modelo que elimina, silencia e hierarquiza. Ao puxar para a discussão obras como Quincas Borba, somos convidados a questionar até que ponto a lógica, isolada da ética e da empatia, pode guiar um futuro realmente justo. O progresso, em conclusão, só é legítimo quando caminha junto da humanidade em todas as suas formas de expressão. 





Ana Carolina Tiozzo Mascarenhas, 1º ano de Direito (matutino). 


O Positivismo e seus limites na compreensão da sociedade

 

 O lema “Ordem e Progresso”, presente na bandeira do Brasil, tem origem no Positivismo de Auguste Comte, filósofo que defendia que a sociedade deveria se desenvolver com base na ciência, na racionalidade e na organização social. Para ele, a ordem era fundamental para garantir a estabilidade necessária ao progresso, que, por sua vez, deveria ser conduzido pelo conhecimento científico. Esses princípios influenciaram diretamente a política brasileira no final do século XIX e, ainda hoje, geram debates sobre sua interpretação e aplicação.

 Atualmente, é possível perceber a continuidade dos ideais positivistas na forma como muitas instituições utilizam a tecnologia para administrar aspectos da vida em sociedade. Um exemplo disso é o uso de dados e algoritmos em setores como segurança, mobilidade urbana e educação. Em diversas cidades, sistemas de monitoramento e análise de informações são adotados com a intenção de tornar as decisões mais racionais e eficientes, partindo da ideia de que a tecnologia seria capaz de oferecer respostas imparciais e objetivas para os desafios sociais.

 No entanto, o Positivismo é alvo de críticas importantes, principalmente quando é usado sem questionamento para tratar de questões sociais. Um de seus principais limites está em tratar os fenômenos sociais como se fossem naturais ou determinados por leis fixas, como ocorre nas ciências da natureza. Isso pode levar à naturalização de desigualdades sociais, como se fossem inevitáveis ou fruto de um “funcionamento normal” da sociedade, quando, na verdade, são construções históricas. Por exemplo, justificar a pobreza apenas com base em dados econômicos e índices de produtividade, sem considerar os contextos sociais e históricos que geram exclusão, é uma forma de adotar uma visão limitada da realidade.

 Além disso, o Positivismo desconsidera a importância dos aspectos subjetivos, simbólicos e culturais que moldam as relações sociais. Reduzir a realidade àquilo que pode ser medido e classificado ignora sentimentos, tradições, identidades e narrativas que também fazem parte da estrutura social. Assim, embora a ciência e a razão sejam essenciais para o avanço da sociedade, o pensamento contemporâneo tem a necessidade de uma abordagem mais integrada, que reconheça os limites da razão e valorize também o saber humano e a diversidade cultural.

 Portanto, é possível analisar que embora o Positivismo de Comte seja atual em muitos aspectos, seu legado também precisa ser revisto à luz das complexidades do mundo contemporâneo, que exige soluções mais humanas e contextualizadas. A sociedade não segue uma trajetória linear e sempre progressiva, a história tem altos e baixos, sendo complexa demais para ser compreendida por uma única visão de mundo.

Caroline Maria Duarte - 1º ano Direito ( matutino )