Este é um espaço para as discussões da disciplina de Sociologia Geral e Jurídica do curso de Direito da UNESP/Franca. É um espaço dedicado à iniciação à "ciência da sociedade". Os textos e visões de mundo aqui presentes não representam a opinião do professor da disciplina e coordenador do blog. Refletem, com efeito, a diversidade de opiniões que devem caracterizar o "fazer científico" e a Universidade. (Coordenação: Prof. Dr. Agnaldo de Sousa Barbosa)
Total de visualizações de página (desde out/2009)
quarta-feira, 19 de março de 2025
Escala 6x1 e a Saúde do Trabalhador através da Imaginação Sociológica
Bolhas socais no cenário contemporâneo sob a perspectiva da imaginação sociológica.
A concepção do termo “Imaginação Sociológica” foi apresentada
por Charles Wrigth Mills em 1959, através do livro “The Sociological Imagination”.
Esse conceito nos ajuda a entender a interconexão entre o individualismo e as
amplas estruturas sociais. No contexto atual, a tese de Mills torna-se ainda
mais relevante, principalmente quando consideramos o fenômeno das “Bolhas Sociais”.
A concepção do termo “Bolhas Sociais”, desenvolvida pelo filósofo Karl Popper, consiste em grupos de pessoas com crenças e valores semelhantes, tem sido potencializado no ambiente virtual. A grande problemática atrelada á esses grupos no eixo on-line é a grande onda de informações falsas denominadas “Fake News”, que se espalham com velocidade pelos meios de comunicação virtuais. Dentre muitos outros temas, a vacinação tem estado em foco nos palanques das comunidades on-line, gerando diversas notícias sem nenhum embasamento científico. Como consequência, conforme o projeto União Pró-Vacina (UPVacina) articulado pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, o conteúdo falso referente a vacina aumentou em 131% na rede social Facebook desde o início da campanha de vacinação contra o Covid-19. Colocando em prática a tese de Mills, os impactos das “Bolhas Sociais “contra a vacinação se enquadram como uma questão pública visto que transcendem as telas e atingem diretamente a saúde e o bem estar social.
Portanto, tratando-se de uma questão pública, os poderes legislativo e judiciário intervém, impondo medidas cabíveis. O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luís Roberto Barroso, assinou em 2024, um acordo com as “Bigs Techs” – empresas de grande porte que controlam algumas as redes sociais- a fim de fiscalizar Fake News, colocando-se assim como agente prático para solucionar a problemática.
Por fim, destaca-se a utilização da imaginação
sociológica para compreender o contexto e possuir senso crítico, construindo
assim, um embasamento científico com o intuito de assimilar as informações que
circulam nas redes sociais. Outrossim, o poder judiciário aplicar medidas jurisprudenciais
severas aos sites e redes que permitem a disseminação de notícias falsas.
Demetrius Silva Barbosa - 1 ano Direito Matutino 19/03/2025.
terça-feira, 18 de março de 2025
A imaginação sociológica e o crescimento da extrema direita na política mundial
Ao longo dos séculos, diversos conceitos foram criados para a democracia, entre eles a divisão política em direita e esquerda. Esses termos surgiram a partir da disposição dos membros do Parlamento francês, após a Revolução Francesa. Naquela época, os conservadores se sentavam à direita e os liberais à esquerda. Com o tempo, na contemporaneidade, surgiram grupos classificados como extrema direita, originados de ideais violentos, preconceituosos e excludentes, os quais se destacaram principalmente na Alemanha e na Itália entre 1930 e 1945, devido ao nazifascismo.
No entanto, mesmo com o fim da Segunda Guerra Mundial, ficou claro que a extrema direita não foi completamente erradicada. A presença de grupos integralistas no Brasil e das ditaduras civis e militares na América do Sul evidenciam isso. Mesmo após mais de 40 anos do fim dessas ditaduras, ideais extremistas ainda persistem no cenário político contemporâneo. Esse fenômeno pode ser explicado por Charles Wright Mills, em seu livro A Imaginação Sociológica, onde o autor busca apresentar uma visão ampliada dos problemas sociais, considerando os fatores econômicos, culturais e sociais de forma integral.
O crescimento da extrema direita no cenário político atual, visível em países como os Estados Unidos, Argentina, Brasil e Itália, decorre de um processo que fragiliza o senso crítico da população, transformando-a em uma massa manipulável que segue os interesses da elite que apoia a extrema direita. Isso se torna ainda mais evidente com a aproximação de CEOs de grandes empresas, como as big techs (Meta, TikTok, X), com Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos e um dos maiores representantes da extrema direita no mundo. Trump, por sua vez, também propõe medidas extremamente prejudiciais para as minorias e imigrantes em seu país.
Portanto, ao analisar sociologicamente esse crescimento, é possível perceber como a aliança entre a extrema direita e as big techs facilita a alienação da população, tornando-a suscetível a apoiar a volta de políticos extremistas, acreditando que esses líderes podem "salvar" a sociedade de ameaças externas e internas.
Mateus Penteado de Paula (1° ano direito noturno)
A consciência acerca do panorama inteiro
A sociedade moderna vive em constante fluxo e, consequentemente, os modos de vida são alterados e suprimidos em ritmo frenético, criando novos padrões. Assim, essa mudança sucessiva perpetua a tendência humana de não conscientizar-se acerca dos fatores que o influenciaram a tomar tal lugar na sociedade, ao passo que não buscam, também, questionar tais padrões sociais, que não só moldam o comportamento, mas também as relações interpessoais.
Dessa forma, Charles Wright Mills, em sua obra “A Imaginação Sociológica”, percebe como essa questão afeta, também, a maneira em que as pessoas passam a apenas compreender e a analisar um pequeno recorte em detrimento do entendimento completo acerca desse fenômeno. Contudo, não questionar a razão de atuar de certa maneira, favorece uma deturpação da compreensão dos fatores que atuam sobre os cidadão, de modo a ofuscar as problemáticas que afetam a vida cotidiana, julgando-as como algo particular ou isolado, quando, na realidade, são frutos de uma construção coletiva. Sendo assim, esse panorama pode ser exemplificado pela presença do racismo estrutural nas sociedades hodiernas, haja vista a ocorrência de situações as quais são analisadas sob um viés individual, todavia, representam um comportamento enraizado na atualidade.
Sendo assim, torna-se notória a maneira em que casos constantemente considerados como singulares, constituem um padrão que continua sendo negligenciado por autoridades e por cidadãos. Logo, tal situação pode ser notada no caso ocorrido no Rio de Janeiro, em que um jornalista negro foi baleado quando transitava em um moto-taxi, isso porque foi confundido com um suposto suspeito de furto. Nessa via, é possível observar a maneira como essa suposição foi, não somente errônea, mas também, enviesada sob uma perspectiva preconceituosa. Portanto, não questionar e não buscar compreender causas e consequências de situações como a supracitada, suscetibiliza a sociedade a continuar reproduzindo certos padrões, além de colocar vidas em risco.
Em suma, retomando Mills, ao observar apenas uma pequena parte de uma problemática, sem perceber suas causas, suas consequências e seus desdobramentos, omite-se a estrutura que a origina, propiciando a reverberação do ciclo.
A crise do aumento nos casos de suicídio juvenil sob a óptica da imaginação sociológica de Mills.
Percebe-se, no século XXI, um aumento significativo nas taxas de suicídio entre os jovens, sendo hoje a segunda maior causa de morte na faixa etária de 15 a 29 anos, um problema sempre tratado a partir de pontos de vista individuais, os quais colocam a questão unicamente na esfera privada da vida do suicida, esquecendo-se dos problemas que permeiam a contemporaneidade em geral e que atingem a juventude de forma a levá-los a desistir dessa vida tão complexa que é cobrada nos tempos atuais.
Charles Wright Mills, sociólogo americano do século XX, publicou em 1959 seu livro A imaginação sociológica, no qual trata da necessidade de se produzir um pensamento mais amplo sobre os problemas, ou seja, observar os fatores culturais, sociais e econômicos para criar, parafraseando o autor, uma fusão de biografia e história na percepção dos problemas.
O suicídio de um jovem é uma tragédia imensurável, o de milhares de jovens é um indício de um problema em escala global.
A imaginação sociológica aplicada no conceito deste ensaio se mostra fundamental, pois esse aumento de casos provavelmente decorre das condições do mundo onde os jovens estão expostos, com as redes sociais podendo ser um dos principais fatores, com "pessoas perfeitas" mostrando apenas o lado bom de suas vidas e demonstrando que "conquistaram tudo por mérito", gerando uma autocobrança e uma autossabotagem imensa na maioria dos jovens, que se sentem frustrados por não possuírem o mesmo padrão de vida e acreditam ser desprovidos dessas vivências devido ao próprio ócio frente às "oportunidades".
Portanto, é de suma importância o estudo sociológico no combate ao triste aumento do suicídio juvenil, trazendo à tona fatores além da bolha social e familiar do indivíduo, como a desigualdade social, a alienação e a massificação do conteúdo digital, mostrando à juventude brasileira que grande parte de seus problemas decorre do impacto de desigualdades estruturais em nível coletivo no nosso país, e que a noção popular sobre a força motriz de suas ações pode, sim, em conjunto, mudar o curso de nossa sociedade.
Eduardo Cavalcante Seghese Neto - 1º Direito noturno
O direito de existir
Os direitos da comunidade LGBTQIA+ parecem estar em maior vigor nos tempos atuais. Entretanto, isso se mostra como uma falácia ao se analisar a sua realidade de sobrevivência, porque é isso, eles sobrevivem para viver.
No documentário “Paris is burning”, ambientado no final dos anos 80 e em Nova York, é mostrado a maneira que homens gays e pessoas transsexuais, em sua maioria pessoas pretas, encontraram para se expressar e conseguir sobreviver: através dos chamados bailes. Com reuniões diárias e diversos tipos de categorias, eles expressavam sua criatividade e arte, algo que não poderiam fazer à luz da sociedade branca heterossexual americana, já que isso poderia comprometer sua segurança e suas vidas. Inclusive, uma dessas categorias era chamada de “realness”, em que os participantes teriam que se vestir e agir de maneira que não fosse possível identificar que eles não eram heterossexuais, algo dito pelos organizadores do evento como algo que qualquer pessoa queer deveria ter o dom de realizar. Muitos dos indivíduos que frequentavam esses bailes foram expulsos de suas casas e famílias por serem quem eles são e não possuíam um lar ou qualquer garantia de alimentação ou conforto, tendo o evento como a única coisa que os permitisse verdadeiramente desfrutar deles mesmos.
A perseguição e a insegurança da existência desse grupo persiste até hoje, mesmo depois da conquista de alguns direitos através de muita luta. Um exemplo muito claro é a nova política “anti woke” estadunidense, em que documentações de pessoas trans foram alteradas para mostrar seu sexo biológico, como foi o caso da atriz Hunter Schafer, que gravou um vídeo com indignação e medo ao seu passaporte ser alterado pelo governo americano. Além disso ser uma violação direta e grave contra esse grupo, esse ato os expõe a uma maior chance de ataques e uma onda de terror. No Brasil, o número de assassinatos do público LGBTQIA+ é um dos maiores do mundo, fato que confirma a brutalidade da homofobia atualmente, mesmo com mudanças de comportamento em relação ao passado.
Em tempos como esse, possuir o que Wright Mills chama de imaginação sociológica é essencial para compreender a realidade e fomentar a empatia nas pessoas. Essa prática ajuda os indivíduos a entender todo o cenário histórico e o que vive de maneira mais ampla, enxergando como aquilo pode afetar a sua vida pessoal e a do próximo.
Dessa forma, quem sabe seja possível que todas as pessoas consigam realizar o direito de existir e viver, e não somente sobreviver em meio a tantas violências.
Giovanna Garboci Siqueira dos Santos (primeiro ano Direito noturno)
Desconectados da Própria Consciência
A inconsciência
lidera a trajetória humana,
Tal como a
injustiça, a barbárie, a parcialidade.
Há quem se
considere os olhos da verdade,
Quando aquilo
que se manifesta é mais um ato de uma mente insana.
Uma mente
restrita e limitada apenas à própria órbita,
Um pensamento
privilegiado e distante do que as coisas verdadeiramente são.
O senso crítico
é, hoje, uma pura distorção,
Não há mais
homem que enxergue a imaginação sociológica como uma prática a ser seguida.
Nos alertou C. Wright Mills
Sobre a
incompreensão da realidade ser a causa para um mundo perdido e desconexo.
Diferentes
facetas da sociedade devem superar um sistema sujo e complexo.
Precisa-se
interpretar além do que é simplesmente visto.
É necessário
intervir, é necessário crescer.
As perturbações
pessoais não devem ditar as soluções das questões públicas,
Mas a
elucidação é a verdadeira luz da equidade.
A compreensão é
o caminho para a liberdade.
1° ano de direito noturno)
Imaginação Sociológica e o retorno do Autoritarismo na sociedade contemporânea
A imaginação sociológica, conceito elaborado por C. Wright Mills, corresponde à uma ferramenta essencial no que tange a análise e compreensão acerca das interconexões entre o indivíduo e o meio em que vive - sociedade. Sob essa ótica, a identificação de que questões individuais podem (e são) reflexos de conjunturas estruturais, a imaginação sociológica nos propõe a ampliar nossa capacidade de análise, compreendendo as escolhas pessoais bem como a influência de aspectos coletivos nesta. Assim, corresponde não só a uma prática intelectual e filosófica, como nos instiga a refletir criticamente acerca da sociedade contemporânea em que estamos inseridos.
A prerrogativa do pensamento sociológico, segundo Mills, nos exige a compreensão de que problemas e perturbações pessoais, como o desemprego, encontram-se intimamente ligados, por profundas raízes históricas, à questões de caráter público. Essa abordagem rompe com nossa visão deturpada e fragmentada de realidade ao nos posicionar enquanto parte de um todo, mas que também se altera ou se transforma devido ao mesmo. Assim, tal imaginação também se encarrega de questionar as hierarquias e relações de poder que moldam a atual sociedade, bem como as narrativas excludentes e opressoras que, compreendendo a história enquanto processo cíclico, tendem a surgir e serem mitigadas ao longo do tempo. É nessa prerrogativa que, na contemporaneidade, observamos a importância da imaginação sociológica e os impactos negativos que a ausência desta promovem: a crescente onda de ideais fascistas circulando no atual cenário global.
Deste modo, nota-se a imaginação sociológica como uma lente vital para analisar tal fenômeno no Brasil e no mundo como sendo, indubitavelmente, resultado de processos históricos e estruturais que influenciaram e ainda influenciam no comportamento e opiniões coletivas. A expansão de discursos autoritários, ultra nacionalistas, carregados de ufanismo e, sobretudo, excludentes encontram-se relacionados diretamente à um legado que, evidentemente, não se encerrou com a redenção alemã aos Aliados ou alteração do cenário político italiano em 1947. A realidade é que tais pensamentos nunca foram diretamente confrontados, e o arranque do caule nazi-fascista não trouxe consigo suas raízes, que, em uma terra fértil e adubada pelo incentivo à desinformação e alienação, rapidamente florescem nas épocas certas.
Discursos que apelam para o medo e a nostalgia de um passado idealizado tornam-se mais influentes em tempos de instabilidade política e econômica. Assim, o que, a princípio, se tratam de percepções individuais - como a crença em regimes autoritários e a adoção de práticas discriminatórias - correspondem, na realidade, à mazelas estruturais da sociedade que favorecem a exclusão de grupos minoritários bem como a disseminação de discursos de ódio contra tais. Assim, a imaginação sociológica atua, neste contexto, enquanto uma abordagem crítica para compreensão das raízes desses processos, contribuindo para que se possa identificar os caminhos para o enfrentamento deste entrave, mediante fortalecimento das estruturas democráticas e incentivo ao pensamento crítico, focando na resolução estrutural do problema.
Pedro Augusto da Costa Leme - 1° ano - Direito - Matutino
segunda-feira, 17 de março de 2025
A militarização das escolas e o declínio do exercício da Imaginação Sociológica
Proposto pelo governador do estado de São Paulo Tarcísio de Freitas, o projeto Programa Escola Cívico-Militar visa trazer um novo modelo de gestão nas escolas públicas, o qual tem como meta melhorar a qualidade de ensino, e promover a paz e a cultura dentro do âmbito educacional. Tal programa será regido por duas frentes: Os policiais ficarão encarregados da parte comportamental, isto é, em criar uma disciplina rígida a ser praticada por todos os alunos, enquanto que, a parte pedagógica será de responsabilidade dos professores. O projeto elaborado pelo governador recebeu fortes críticas, sendo uma delas inclusive do próprio Ministério Público Federal, uma vez que inserir uma "metodologia militar" vai contra os critérios da educação estabelecidos pela nossa Constituição, e também é uma forma de perpetuar as desigualdades já existentes em nossa nação.
Mas ai entra o questionamento: Como a militarização das escolas tem a capacidade de acirrar as disparidades sociais entre os brasileiros?. Para discutir sobre essa pergunta, utilizaremos o conceito de Imaginação Sociológica do filósofo Charles Wright Mills. Em seu texto, "A Imaginação Sociológica", Mills diz : "O que precisam, o que sentem precisar, é uma qualidade de espírito que lhes ajude a usar a informação e a desenvolver a razão, a fim de perceber, com lucidez, o que está ocorrendo com o mundo, e o que está ocorrendo dentro deles mesmos". Em outras palavras, é proposto pelo filósofo que para ser possível compreender o mundo e seus acontecimentos, é necessário além do acesso ao conhecimento (informação), o desenvolvimento da capacidade racional humana. Contudo, ao relacionar esse pensamento com a proposta da militarização escolar, percebe-se que a exigência por um comportamento baseado na obediência e na postura rígida típica de um militar por parte dos estudantes inviabiliza essa ação, uma vez que essa padronização comportamental faz com que os alunos não possuam o direito de se expressar livremente a respeito das suas percepções de mundo.
Dessa maneira, enquanto as escolas públicas são obrigadas a participarem desse novo modelo educacional, as escolas particulares continuam investindo na criatividade e na criticidade daqueles que conseguem pagar por tal ensino. Com isso, evidencia-se uma perpetuação da desigualdade social, em vista de a escola pública, majoritariamente composta por pessoas de baixa renda, formar indivíduos treinados apenas para obedecer os comandos sem contestarem sobre nada, ao passo que a escola particular, composta por classes sociais mais privilegiadas, insere na sociedade pessoas capazes de criticar situações em que não lhes convém, comandando assim o funcionamento das relações sociais.
Portanto, pode-se concluir que a proposta de militarizar as escolas públicas corresponde a um declínio do exercício da Imaginação Sociológica, já que os alunos desse sistema não terão o direito de se expressar livremente, sendo assim, obrigados a obedecerem comandos.
Das Verdades Reais sobre as Verdades Aceitas
Poética Inspeção da Sociedade — Poesia sobre Mills
Pois só na ciência não vemos "Romeus"
Imaginação sociológica e o entendimento dos alheios
O desenvolvimento da imaginação sociológica, conceito proposto pelo sociólogo C. Wright Mills, em quaisquer ofícios relacionados ao direito, são de suma importância, para que seja possível remover as opiniões e convicções pessoais da discussão e engajar o indivíduo em pautas sociais que não se restringem à sua própria realidade, assim compreendendo inteiramente o assunto e o ponto de vista alheio, sem julgamentos. No entanto, a imaginação sociológica não pode e não deve ser restringida ao ofício do direito, visto que é de extrema pertinência não só no meio social como na política em geral.
Pode-se perceber a notoriedade da imaginação sociológica na política ao analisar o período da pandemia do vírus COVID-19, que foi marcado por frequentes intolerâncias , falta de conhecimento científico e incentivo ao consumo de remédios sem eficácia comprovada por parte do presidente do país, além da divulgação desenfreada de fake news acerca de medicamentos de combate à doença e de efeitos colaterais da nova vacina sem quaisquer comprovações científicas, por parte de jornalistas e da população em geral.
A partir da utilização da imaginação sociológica nesse mesmo cenário, seria possível, pelo presidente e pelo povo respectivamente, orientar a população a respeitar o período de reclusão, aguardar a vacina e não confiar em qualquer notícia divulgada sem confirmação de profissionais, e verificar minuciosamente a procedência das notícias que são acessadas e divulgadas.
Em suma, percebe-se que utilizar do imaginário sociológico é facilitar a compreensão do próximo, se desprendendo das amarras e opiniões pessoais que impedem a absorção plena de informações e discussões novas. Nota-se também a contribuição do imaginário na política e na harmonia em sociedade, visto que o mesmo torna as conversas e discursos proferidos imparciais e verdadeiramente respeitosos.
domingo, 16 de março de 2025
A pandemia da Covid-19 pelo olhar da imaginação sociológica
A pandemia da COVID-19 foi um dos períodos de maior conturbação na sociedade nos últimos tempos, acarretando diversas problemáticas na vida de milhões de pessoas. O desemprego, o isolamento e os transtornos emocionais são apenas uma parte dos inúmeros impactos que a pandemia ocasionou. No início, muitos tratavam essas dificuldades como problemas individuais, porém, com o passar do tempo, ficou evidente que essas mazelas são consequências de mudanças sociais e políticas mais amplas.
Para analisar essa relação entre vida pessoal e questões públicas, o sociólogo C. Wright Mills discute a ideia de "imaginação sociológica", explicando que muitos indivíduos sentem que suas vidas estão limitadas e enfrentam dificuldades que parecem pessoais e sem solução. No entanto, ao compreender que essas dificuldades estão ligadas a mudanças históricas e sociais maiores, a população passa a entender melhor sua realidade e pode visualizar esses obstáculos de forma mais abrangente.
À luz disso, é importante destacar que, durante a pandemia, houve um aumento significativo nos casos de depressão e ansiedade. A falta de acesso a tratamentos, somada ao colapso dos sistemas de saúde, agravou ainda mais a situação. Contudo, esses não são problemas meramente individuais. De acordo com Mills, é necessário utilizar a imaginação sociológica para compreender essas mazelas, pois, quando milhares de indivíduos enfrentam a mesma realidade, isso indica a presença de questões estruturais que influenciam negativamente o cotidiano da sociedade.
Portanto, a pandemia da COVID-19 demonstra que devemos desenvolver a imaginação sociológica para compreender os acontecimentos ao nosso redor. Em vez de viver em uma bolha alienada da realidade, é essencial analisar os fatos de forma coletiva, pois isso nos ajuda a encontrar soluções mais eficazes para os desafios que enfrentamos e a reconhecer os fatores sociais que influenciam nossas vidas.
Caroline Maria Duarte - 1º ano Direito ( matutino )
Entre a Imaginação Sociológica e o Racismo
A "Imaginação Sociológica", prática criativa desenvolvida pelo sociólogo norte-americano Wright Mills, fundamenta-se na compreensão, pelo ser, da relação indissociável entre sua individualidade e a sociedade em sua integralidade, bem como as questões sociais enfrentadas ao longo da história. Dessa forma, por meio da internalização de tal perspectiva, cria-se sujeitos conscientes e críticos, conectados aos diferentes problemas sociais, mesmo que esses não os afetem. Nesse viés, discussões acerca de diversos cenários históricos são ampliadas, permitindo refletir sobre temáticas presentes e enraizadas socialmente, como a questão da discriminação racial.
A princípio, é valido ressaltar o racismo como uma forma de opressão estruturada socialmente. Em sua obra "Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Cotidiano", Grada Kilomba explora a associação entre o conhecimento e o poder social, enfatizando o âmbito acadêmico como um espaço destinado ao privilégio branco e, consequentemente, à subalternização do conhecimento e da identidade negra, a partir de relatos de preconceito sofridos durante o seu ingresso no ambiente universitário alemão. Diante desse cenário, é notária a influência do lugar social ocupado pelo indivíduo e as oportunidades de acesso a diferentes instituições sociais, a exemplo do ensino superior, visto que dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, do ano de 2024, mostram que cerca de 70% dos pretos e pardos entre 18 a 24 anos não concluíram o ensino superior, evidenciando, dessa maneira, a sub-representação das instituições.
Além disso, é importante destacar a naturalização e a distorção do racismo como uma pauta a qual se estende ao longo da sociedade brasileira. O "mito da democracia racial", termo elaborado pelo sociólogo Florestan Fernandes, trata da propagação popular e midiática de uma falsa ideia de que, no Brasil, tem-se um cenário político-ideológico de harmonia e de igualdade entre as etnias. No entanto, esse discurso contribui diretamente para mascarar as violências fundantes do Brasil e dificultar a criação de uma resistência, uma vez que atribui normalidade a ações violentas contra a população negra. Por conseguinte, a isenção popular e governamental quanto a medidas combativas é agravada pela ideia incorreta e atual de que o racismo não existe e é, portanto, fruto de uma perturbação pessoal, a exemplo do pronunciamento do então vice-presidente Mourão ao descrever o assassinato de João Alberto Freitas, homem negro morto brutal e injustamente por seguranças brancos, alegando não considerar o crime racismo, porque "não há racismo no Brasil".
Logo, é perceptível a perpetuação da desigualdade racial no corpo social brasileiro e contemporâneo. Em face a essa realidade, é necessário, como defendido pelo sociólogo Mills, a ampliação e o reconhecimento do racismo como uma questão pública, a qual deve, com urgência, ser combatida estruturalmente.
Isabella Providello Lencione - 1º Ano Direito (Matutino)
A tentativa de golpe a partir da imaginação sociológica
No dia 8 de janeiro de 2023 o Brasil enfrentou uma brusca e
repentina tentativa de golpe, também conhecida como Intentona Bolsonarista. Nesta
data, indivíduos influenciados pelo movimento iminente da extrema direita se
juntaram em Brasília e vandalizaram parte do patrimônio público, como o Palácio
do Planalto. Não é surpresa que o Brasil seja um país que flerte com iniciativas
e regimes autoritários, logo, não podemos reduzir este acontecimento como um fato
isolado ou uma mentalidade bolsonarista.
Segundo Charles Mills, devemos desenvolver uma imaginação sociológica
– conceito que defende que é necessário que relacionemos problemas ditos como
pessoais de uma perspectiva mais ampla, observando a influência de forças
históricas e das estruturas que moldaram nossa sociedade. A partir disso, podemos
compreender que essa tentativa de golpe definitivamente não foi algo repentino,
mas sim calculado e desenvolvido com a ajuda das redes sociais e de
uma mentalidade coletiva.
Durante o período anterior à tentativa de golpe, houve a
disseminação em massa de teorias conspiratórias, as quais acarretaram o surgimento
de fake news nas redes sociais de que as eleições haviam sido fraudadas. Tais inverdades
foram tomadas como realidade por parte dos ditos “cidadãos de bem”, que desenvolveram
uma mentalidade de justiceiros e foram atrás da “verdade concreta”. Portanto, julgando
que faziam parte de “algo maior”, um movimento coletivo, resolveram vandalizar
as sedes do governo nacional como forma de “protesto” para alcançarem a almejada
justiça – mudar o resultado das eleições e trazer Jair Bolsonaro de volta ao
poder.
Em síntese, é possível concluirmos que o movimento do 8 de
janeiro não foi uma ação realizada por movimentos individuais e motivações próprias,
mas sim uma trama complexa de interações sociais e políticas, influenciadas
diretamente pelas redes socias, disseminação de inverdades e manipulação das
emoções pessoais dos indivíduos. Nesse sentido, a imaginação sociológica
mostra-se como uma ferramenta imprescindível para a reflexão e criticidade dos
cidadãos, assim como para compreender fenômenos que podem soar à primeira vista
como ações individuais, mas são movimentos coletivos liderados pelo contexto
histórico, tecnológico e político de uma nação.
GEOVANA MARTINS DE MORI - 1º ANO - DIREITO - MATUTINO
A contribuição da Sociologia na luta contra o desestímulo à ciência no Brasil
Primeiramente, para que se possa compreender o papel contribuinte da sociologia no combate ao desestímulo científico no Brasil, é de suma importância evidenciar como título de exemplo a grande ruptura histórica de 2020, originada pela pandemia do coronavírus, sob a qual destacou de maneira nítida o problema do desinteresse e menosprezo quanto a ciência.
Nessa linha de raciocínio, observa-se que o Governo do respectivo ano, comandado por Jair Bolsonaro, trouxe uma série de desinformações quanto a ciência, das quais originaram como consequência um aumento significativo no que concerne a propagação de Fake news e na ascensão constante no tocante ao número de mortes causados pelo Coronavírus. Dentre as desinformação trazidas pelo Governo, salienta-se a difusão, não cientificamente comprovada, da utilização da hidroxicloroquina como fonte segura e eficaz para o combate à doença, o que gerou como consequência o aumento de mortes e o agravo do estado de saúde de diversas pessoas, haja vista que o respectivo medicamento é indicado para o tratamento de Malária, e não faz nenhum efeito sequer quanto ao tratamento da Covid-19.
Ademais, o ex-presidente ainda enfatizou que o uso de tal medicamento para pessoas infectadas pelo Coronavírus era realmente eficaz, pois o mesmo havia contraído a doença e a hidroxicloroquina o havia curado. Entretanto, não existe nenhuma base científica nesse discurso, haja vista que o respectivo medicamento não havia sequer quaisquer indícios científicos quanto a sua eficácia médica. Desse modo, a sociologia aparece como fonte primordial para a compreensão de tal menosprezo científico e suas consequências.
Francis Bacon compreende, em sua obra “Novum Organum”, que todos aqueles que, em algum momento, afirmaram que o conhecimento da natureza já estava completo ou esgotado, trouxeram inúmeros danos a ciência e a filosofia, haja vista que por acreditar terem atingido o ápice do conhecimento, acabavam por fazer valer suas opiniões, originando como consequência a interrupção e extinção das investigações científicas. Sob essa ótica, é possível trazer ao contexto brasileiro os entendimentos do autor, visto que as atitudes tomadas pelo Governante Brasileiro vão totalmente contra tudo aquilo que Bacon designa como ciência, tendo em vista que aquele se utilizou de sua própria opinião como fonte absoluta da verdade ao invés de se utilizar do conhecimento científico e racional, trazendo como consequência danos irreversíveis ao país e à sociedade como um todo.
Já René Descartes, em sua obra “O discurso do método”, afirma que não se deve tomar como fonte absoluta do conhecimento e da verdade apenas a imaginação ou os sentidos, haja vista que estas nada se formulam sem a utilização da razão. Aqui, compreende-se que assim como Bacon, Descartes também evidencia a razão como fonte primordial do conhecimento científico, juntamente com os sentidos. Percebe-se que a sociologia destrincha de maneira aparente e metodológica os diversos procedimentos necessários para que o saber racional seja colocado em prática, de modo a produzir a ciência como fonte para a verdade absoluta.
Sequencialmente, C.Wright Mills traz a ideia da imaginação sociológica, isto é, a capacidade de entender a relação entre a vida individual e as estruturas sociais mais amplas. Mills evidencia tal conceito para explicar que muitas pessoas, ao enfrentarem dificuldades ou tomando decisões, geralmente enxergam esses problemas como questões pessoais, sem perceber que estão imersas em condições sociais e históricas que afetam suas vidas. Assim, o próprio entendimento do contexto histórico e da estrutura social em que vivem podem ser também utilizadas como fontes auxiliares para o embasamento científico como um todo.
Em suma, após a análise dos três autores em questão, conclui-se que o negacionismo científico e a cultura de desestímulo a ciência no cenário brasileiro poderiam ser completamente resolvidos se os critérios sociológicos fossem utilizados, tais como a junção dos sentidos, da experiência, da imaginação sociológica, e , acima de tudo, da razão, para que se possa assim criar o conhecimento científico e a ciência. Entretanto, a grande ruptura histórica de 2020 demonstra que o único método utilizado pelo Chefe do Executivo de tal período foi a sua própria opinião, fonte esta que Francis Bacon abomina veementemente.
Por fim, salienta-se ainda, que a Sociologia se apresenta como um viés não só racional mas também acolhedor, haja vista que no caso do cenário brasileiro, a sociologia poderia ser capaz de contribuir sim para a propagação da utilização da ciência, mas acima de tudo, para a efetivação da dignidade da pessoa humana, já que se tais critérios sociológicos tivessem sido utilizados no contexto da pandemia do coronavírus, por exemplo, não só a ciência teria conquistado êxito, mas também haveria menos mortes registradas, menos propagações de “fake news”, menos desestímulos governamentais quanto às pesquisas científicas e menos desrespeito quanto a dignidade e aos direitos humanos.
RAFAEL MARTINS ARAUJO - 1° ANO - DIREITO (MATUTINO)
sábado, 15 de março de 2025
A TRAGÉDIA SÍRIA: DO INDIVIDUAL AO ESTRUTURAL
No dia 12 de março, o jornal americano “The Free Press” publicou em seu site a notícia “Syria’s New Rulers Tortured Me. Now They Are Targeting My Friends.”, nela, conta-se a história de Ali, chefe de uma família alauita síria ameaçada pelas perseguições promovidas pelo novo governo do país. Ali, sua mãe idosa e suas duas irmãs poderiam fugir para o Líbano, no entanto, vêem-se tolhidos pela ameaça das milícias governistas que montam blitz móveis nas estradas da Síria Ocidental.
Em vista disso, a situação de Ali é dilemática: permanecer em sua cidade-natal pode significar ser mais uma vítima do massacre promovido pelo governo al-Shar’a contra os alauitas, mas tentar a sorte evadindo para o Líbano também apresenta o risco quase certo de se deparar com extremistas sunitas.
O impasse pessoal da família de Ali dialoga com a análise feita por Wright Mills em “A Imaginação Sociológica”: em um primeiro plano, é explícito que os riscos enfrentados pela família não são meramente perturbações pessoais, mas questões públicas. Isso porque, sem dúvida, as circunstâncias que promovem a iminente perseguição contra Ali estão na ordem de eventos sociopolíticos que transcendem a realidade imediata dos indivíduos, nenhum deles contribuiu com o regime al-Assad ou participou da guerra contra os extremistas sunitas para que fossem alvos evidentes do novo regime, apenas calhou que fossem membros de uma minoria religiosa do islamismo vista como uma espécie de heresia pelo sunismo radical.
As causas profundas do sofrimento dos alauitas não são compreensíveis pela experiência imediata do sujeito, a família de Ali não conhece seus perseguidores e não saberia a motivação da violência promovida contra si. Aí entra o papel da imaginação sociológica, o entendimento completo do problema de Ali depende da compreensão de que o novo regime Sírio é resultado de um longo conflito religioso, político e econômico que tem sua origem remota na delimitação inadequada das fronteiras do país. A identidade síria – como algumas outras identidades de nacionais de países colonizados – não tinha, e ainda não tem, tanto vigor quanto a identificação por grupo religioso e etnia, levando à negação da alteridade e da coesão cidadã. Somou-se a essa tensão latente o descontentamento com o regime al-Assad, que mostrou-se incapaz de conter a decadência econômica e o descontentamento com a baixa representatividade, valorizada pela porção mais jovem da população, e reagiu violentamente às manifestações de 2011.
Aproveitando-se do contexto de resistência ao Estado, o estresse religioso de longa data voltou a crescer e tomou para si o conflito sírio e, com isso, 13 anos depois, o governo al-Assad foi derrubado por radicais sunitas liderados por um ex-membro do Estado Islâmico e da Al-Qaeda. Apesar de sinalizar moderação, a verdadeira face do governo al-Shar’a se expõe na situação de Ali e na perseguição aos alauitas, que, muitas vezes atomizados e com limitado acesso à informação, vêem-se alvos de uma violência da qual não tiveram qualquer papel, mas que os atinge por sua participação num contexto social muito maior.
Artur Azevedo Rodrigues - 1º ano - Direito (noturno)
sexta-feira, 14 de março de 2025
A importância sociológica no combate à superficialidade e à opressão
Percebe-se, na contemporaneidade, que a ascensão do
imediatismo humano – motivada pela busca de poder instantâneo intrínseca à
hegemônica mentalidade capitalista- tornou superficiais as relações humanas,
de modo que a sociedade não mais visualiza em seus impasses cotidianos
proporções maiores, ignorando, portanto, os cenários completos de importante
estudo para sua compreensão. Aceitam-se cegamente os
valores pré-estabelecidos, e fatos como a agressão física de uma mulher
devido a sua vestimenta ser ‘’curta demais’’, como o caso repercutido em Santa
Maria (DF) em janeiro, são disseminados sem indagação profunda, logo,
banalizados e repetidos.
Isso demonstra que, embora a legislação tenha progredido
quanto a proteção da diversidade, os princípios estabelecidos por uma histórica
sociedade machista e preconceituosa permanecem a orientar a vida cotidiana,
subalternando tudo aquilo que deles destoarem. Tal conduta deturpada atinge não
só os civis, como também pode ser percebida em atuais posturas do governo
norte-americano, o qual promulgou em fevereiro de 2025 a derrubada de diversas
publicações digitais que utilizassem, segundo o presidente Donald Trump, termos
‘’woke’’ – tudo aquilo que questiona normas opressoras de minorias e promovem
igualdade social. Assim, não combatidos por uma sociedade não indagativa,
nota-se que esses valores seletivos não só se enraízam na mentalidade social,
como também se institucionalizam.
Para Charles Mills, a análise sociológica não pode, como
ocorre atualmente, ater-se apenas à notificação dos fatos em si, mas
encarrega-se de buscar entender suas causas, período e contexto, de forma a
distinguir percepções pessoais – totalmente parciais- de constatações verídicas
– diagnósticos não manipulados-, as quais só podem ser obtidas por meio de uma
‘’imaginação sociológica’’. Essa capacidade é justamente o que nos permite
diferenciar fenômenos psicológicos de fenômenos sociológicos, aqueles de cunho
individual e estes de importância pública que devem ser auxiliados pelo
Direito. Dessa maneira, percebe-se que, enquanto a imaginação sociológica não
for estimulada nas massas, condutas de discriminação permanecerão não só
oficializadas, mas preponderantes nas relações cotidianas.
Imaginação sociológica, gênio maligno e postagens questionáveis.
Ao ligar meu celular de manhã e por puro vício entrar no Instagram, me deparei com uma notícia questionável sobre uma suposta descoberta científica. Ao ler os comentários, muitas pessoas estavam pasmas com a tal descoberta, acreditando fielmente na postagem. Pensei em pesquisar sobre o assunto, para tirar minhas conclusões, porém estava atrasada para minha aula.
Coincidentemente em minha aula, estudei sobre Descartes, pensador racionalista que defende que deve ser considerado falso tudo aquilo que cause a menor dúvida; e também estudei sobre Mills e o conceito de imaginação sociológica. No caminho para casa, após o fim da aula, fiquei pensando sobre a postagem questionável do Instagram e sobre os ensinamentos de Descartes e Mills e cheguei em uma conclusão.
Na sociedade atual, a maioria das pessoas não duvidam nem buscam a veracidade sobre as diversas informações que chegam até eles, como exemplificado pela tal postagem no Instagram. Me apropriando do conceito de Mills percebo que falta na maioria das pessoas, imaginação sociológica, ou seja, lhes falta qualidade de espírito para interpretar e questionar as informações que recebem. É muito fácil espalhar notícias falsas, principalmente pela maioria dos receptores destes compartilharem as informações sem questionamentos, perpetuando os problemas da sociedade moderna.
Além disso, utilizando os ensinamentos de Descartes, percebe-se que uma grande parte desse problema ocorre pela presença do “Gênio Maligno”, metáfora utilizada pelo pensador para a demonstração da falibilidade do pensamento; visto que é natural dos seres humanos procurarem enxergar o que os beneficia como verdadeiro e acreditar nisso sem buscar a verdade de fato. Como exemplo disso, basta observar o conteúdo das notícias que mais viralizam e quem os compartilhou; ao fazer isso, nota-se que a maioria das notícias possuem conteúdo condizente com aquilo que agrada ou é benéfico a alguém ou a algum grupo que espalhou tal informação.
Depois dessa reflexão, percebi que o ideal é que as pessoas adquiram Imaginação sociológica e questionem as informações que chegam até eles. Porém, sabemos que a realidade é diferente do ideal e que seria utópico pensar que as pessoas começariam a questionar todas as informações recebidas, principalmente as informações que são coniventes com seus princípios.
Perturbação social ou efeito manada?
Numa certa noite de aula, alguns alunos começaram a entoar pelos corredores da faculdade:
- Biscate! Meretriz!
Pensaram então: será uma briga?
Em questão de segundos, as ofensas, que eram proferidas por vozes singulares, começaram a ser ditas por classes inteiras.
Pensaram então: será uma manifestação?
Um minuto após o estopim, grande parte dos alunos já estava fora da sala, uns buscando por informações sobre o que estava acontecendo, outros, reproduzindo as ofensas, sem ao menos saber do que se tratava tudo aquilo.
Cinco minutos após, ouvia-se gritos como os de macacos, pessoas correndo, pessoas desesperadas, cadeiras sendo jogadas e um caos total espalhado pelo campus. A pergunta inicial, porém, continuava sem resposta.
Quem tinha certa consciência social se escondia e dizia:
- li que "As perturbações ocorrem dentro do caráter do indivíduo e dentro do âmbito de suas relações imediatas com os outros; estão relacionadas com o seu eu e com as áreas limitadas da vida social, de que ele têm consciência direta e pessoal", portanto isso é, obviamente, assim como tudo, um ato político!
Quem se considerava "esperto" olhava aquilo e pensava: Isso é efeito manada, que acontece quando um comportamento acaba sendo reproduzido diversas vezes, instigando as pessoas a aderirem a ele.
Quem tinha lido três livros na vida continuava a reproduzir a encenação primata, achando estar em uma intervenção artística, ou qualquer outra coisa que sua cabeça tinha criado, a fim de conferir uma "legitimidade" para as suas ações.
Por fim, quem tinha sofrido o ataque, saiu escoltado pela polícia, com uma sensação de culpa sem a ter, tornando-se mais uma vítima do preconceito estrutural.
Yago Arbex Parro Costa - 1° ano - Direito (Noturno)
A negação da ciência na era moderna
Em Novum Organum, Francis
Bacon diz: “Ciência e poder do homem coincidem, uma vez que, sendo a causa
ignorada, frustra-se o efeito.” Ou seja, contestar a opinião de especialistas dificulta
o trabalho de profissionais, que tem o objetivo de salvar vidas. Esse fenômeno
da negação da ciência foi o que levou a morte de 700 mil pessoas por covid no
Brasil.
Esse episódio foi potencializado por
fake news que se espalharam rapidamente por meio das redes sociais – que são o
maior modo de comunicação da era moderna – e muitas dessas mentiras eram
disseminadas por influenciadores e políticos. Desde frases como “é só uma
gripezinha”, como o incentivo a aglomerações e a não adesão de máscaras e
outras medidas sanitárias.
Além disso, é visto o
ressurgimento de doenças antigas – que haviam sido erradicadas – como sarampo, poliomielite
e coqueluche em decorrência da baixa taxa de vacinação. Em uma época que a
informação está na palma das mãos, o indivíduo tem a dificuldade de filtrar
informações realmente relevantes, o que pode prejudicar a sua vida.
Contudo, de acordo com dados da
UNICEF em conjunto com a OMS, o Brasil avançou na imunização de crianças no ano
de 2024. O que não significa que a negação da ciência no século XXI acabou.
Apenas um controle momentâneo da narrativa, mas que ao menos está conseguindo
salvar a vida de pequenos brasileiros.
Em suma, conhecimento é poder e
uma maneira de se atingir o conhecimento é por meio da ciência, que não pode
ser negada ou ignorada, pois um estudo ou pesquisa não agrada uma parcela da
população.
Lorraine
de Oliveira Maciel – 1º ano – Direito (matutino)
quinta-feira, 13 de março de 2025
O Papel da Sociologia na Era da Pós-Verdade
As eleições de 2018 e a pandemia de coronavírus no início da década de 2020 explicitaram a presença de um fenômeno intrínseco ao Brasil: a desinformação. Desde que essa terra fora ocupada pelos europeus, as chamadas “fake news” se fizeram presentes em momentos cruciais: na carta que o donatário enviava para o monarca alegando que tudo estava sob controle quando, na verdade, suas terras pereciam; nas mentiras que a família real portuguesa enviava à Napoleão enquanto se preparava para embarcar rumo à colônia; na fala de Benjamin Constant a Deodoro, que o fez proclamar a República e até na fabricação de mitos históricos, como a imagem de Tiradentes na hora de sua morte. Independentemente da época, o Brasil abraçou a falcatrua.
Entretanto, na Era Moderna, a mentira tornou-se tão presente no cotidiano brasileiro que agora é difícil saber o que é verdade e o que não é. Mesmo com auxílio de uma Constituição magnânima e de secretarias especializadas em evitar a desinformação como instrumento político, a pós-verdade, conceito apresentado pelo professor Ralph Keynes, predomina na conjuntura nacional. Surge a questão: como enfrentar as tão difundidas “fake news”? A Sociologia clássica oferece algumas possibilidades.
Francis Bacon (1561-1626), em sua obra “Novum Organum”, defende que, a fim de descobrir a veracidade dos fenômenos, o que chama de “vitória sobre a natureza”, é preciso um método científico preciso baseado em experimentos e nas percepções sensíveis. Não é possível determinar se uma informação é verdade ou não sem testá-la de modo empírico.
René Descartes (1596-1650), por outro lado, afirma que os sentidos nos enganam e que a única fonte confiável que temos é a razão. Tudo deve ser posto à dúvida e nós, sujeitos racionais, precisamos sair em busca de estudos não baseados somente no empirismo.
Porém, no viés pragmático, nenhuma das duas vertentes funcionará perfeitamente se operar sozinha.
No que concerne a Bacon, a maioria das informações atuais que são dispostas em discussões políticas ou sociais se referem a uma dimensão teórica, sendo difícil aplicar o método das ciências físicas e biológicas.
No quesito do racionalismo cartesiano, a razão, operando sem a ajuda de fontes externas como documentos ou dados empíricos, se torna inútil no enfrentamento à desinformação estrutural, uma vez que não terá uma base de conhecimento sólida.
Nesse sentido, é necessária uma união entre os conhecimentos sensíveis, na forma de pesquisas científicas e procura por dados confiáveis, e a razão, encarnada na interpretação crítica da realidade através das observações feitas. A Sociologia, se utilizada de forma estratégica, pode ser o instrumento ideal no combate à desinformação.
Seguindo essa união entre saberes epistemológicos, a “imaginação sociológica” de Charles W. Mills cumprirá sua principal função: fazer com que os indivíduos compreendam a realidade social e histórica em que vivem por meio do conhecimento da verdade.
Vitória Alvarenga Pistore - 1º ano - Direito (Matutino)