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domingo, 22 de agosto de 2021

SEJA COMUNISTA

 Quando concluí o ensino médio em escola pública, meu único pensamento era arrumar um “trampo”, comprar um carro, financiar uma casa por uns, sei lá, 30 anos, e casar-me; quase um filme de “Sessão da Tarde”. Sempre ouvia nos telejornais que o mundo se modernizava, nações prosperavam e coisa e tal, mas me perguntava o porquê de tanta pobreza em um país como o Brasil, já que produzia tanta riqueza. Na fábrica onde trabalhava, fabricávamos sofás, cada célula de produção trabalhava vinte e cinco funcionário, que eram incumbidos de fabricarem 100 unidades de sofás diariamente.  Com muito esforço conseguíamos, quase sempre, alcançar a meta e ao final do dia o líder de produção nos dava os parabéns, ficávamos felizes da vida por isso. Certo dia, o mesmo líder que nos dera os parabéns pela produção do dia anterior, nos informava que haveria um corte de funcionário na fábrica, em virtude da baixa demanda do mercado. No dia seguinte, seu João, Seu Carlos e o Senhor Amaral, não apareceram para trabalhar, foram demitidos. No almoço, sentei na mesma mesa onde o líder de produção da minha célula estava almoçando e, como amo perguntas, perguntei-lhe: amigo, porque escolheram os senhores João, Carlos e Amaral, da nossa célula (existiam 120 células na fábrica) para serem demitidos? Foi cruelmente taxativo, são velhos. Homens que amavam o que faziam, o senhor João pagava a faculdade da filha, o Senhor Carlos, um bom homem, que ajudou a empresa por anos, chorou para seus amigos e o Senhor Amaral, cometeu suicídio. Pensei comigo, trataram esses homens como se fossem objetos descartáveis, assim como serei descartável um diaGostava de ouvir os discursos sobre melhores condições de trabalho, menor jornada de trabalho, reformas trabalhistas, mas a realidade capitalista começou a me fazer enxergar, e não somente ver, parei de idealizar e passei a materializar em mim o que estava adormecido; o comunismo.  

No mês seguinte, anunciaram o corte da cesta básica, reuni os trabalhadores e perguntei o que pensavam sobre essa questão, todos eram contra o corte. Decidimos parar a produção e não retomar até desistirem da ideia de cortarem a cesta. A cesta foi mantida. Assisti à uma palestra sobre mais-valia no YouTube e me dei conta que a escravidão, embora abolida, não havia acabado, só mudado de nome, ou seja, de escravidão para exploração proletária.  Comecei a pensar que os modos de produção e o sistema capitalista eram quem estavam determinando minha consciência servil, li que “O modo de produção da vida material é o que condiciona o processo da vida social, política espiritual. Não é a consciência dos homens que determina seu ser [...]”. Não mais, Karl Marx me libertouAntes de pedir demissão, pois tentaram me corromper para a causa opressora, disse aos meus amigos operários que caso haja uma revolução contra este sistema opressor, não tínhamos nada a perder, a não ser nossas correntes, que venha uma revolução comunista. 

A propriedade coletiva dos meios de produção não é nosso único objetivo com o comunismo. Queremos uma sociedade sem classes, um lugar onde todos sejam “comuns”, homes, mulheres, povos indígenas, comunidade LGBTQIA+, pretos, amarelos, vermelhos, brancos, enfim, todes iguais, embora diferentes. Não pregamos uma anarquia, pregamos uma verdadeira democracia liberta dos grilhões capitalistas, o verdadeiro câncer que assola o mundo. Caso você seja contra o governo Bolsonaro, saia do campo das ideias e vá para às ruas materializar o que idealiza. Se você for preto e favelado como eu, lute pelo seu lugar na universidade, assim poderá lutar pelo seu povo. Se você foindígena, saiba que o capitalismo é uma ameaça para seu povo. Se você for LGBTQIA+, sei que este sistema social te oprime, não desista, continue lutando, pois vocês são preciosos para o mundo. Não sei como é ser mulher em uma sociedade heteropaternalista, mas sei que não gozão de privilégios legados aos homens, assim que nascem Basta olhar a sociedade para constatar que Karl Marx estava certo, portanto, minorias, só temos uma coisa a perder numa revolução comunista, as nossas próprias correntes, sejam comunistas, não somente idealistas.  

 

 

OBS: Me rebelei contra a simetria textual. 

 

 

EDSON DOS SANTOS NOBRE 

DIREITO/NOTURNO  

Levante e lute

 


“Não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve
Você pode e você deve, pode crer

 

Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu
Num quer dizer que você tenha que sofrer

 

Até quando você vai ficar usando rédea
Rindo da própria tragédia?
Até quando você vai ficar usando rédea
Pobre, rico ou classe média?
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
Muda que o medo é um modo de fazer censura”

 

[...]

 

Pode-se dizer, de certa forma, que Karl Marx e Engels ficariam seduzidos por esse trecho formidável de Gabriel Pensador. O cantor de rap traz em sua música uma temática muito abordada pelos filósofos comunistas, ou seja, da luta que o proletariado deve iniciar contra a dominação e exploração dos grandes proprietários.

Lastimavelmente, Karl Marx não estava equivocado quando mencionou em seus escritos que o trabalhador está sendo manipulado, submetido ao desumano, alienado e transformado em uma máquina de produzir riqueza aos capitalistas. Acho plausível fazer um adendo de que a expressão “lastimavelmente” no início do parágrafo refere-se ao meu sentimento de descontentamento ao me deparar com uma situação de opressão em pleno século XXI.

Não é utopia (quem dera fosse) que existem pessoas trabalhando em situações deploráveis, sendo subjugadas a produzirem durantes horas, recebendo o mínimo para sobreviver (olhe só para o Brasil, vivemos essa realidade. O trabalhador brasileiro que recebe um salário-mínimo, ele não vive, ele sobrevive).

            Além disso, é horripilante perceber que enfrentamos uma estrutura posta. (Não irei generalizar, pois existem pequenas exceções), mas esse mesmo trabalhador que está sendo explorado e oprimido veio de estruturas sociais que perduraram (existe uma relação de classe e etnia na formação da classe trabalhadora), assim como o grande proprietário, o dono dos meios de produção também veio de uma estrutura que se manteve. É nítido isso, bom, no Brasil é.

As transformações ocorrem durante a história. A vida humana é volúvel. Hoje somos, amanhã não somos mais. Tudo é apenas no instante. Mas, se vivemos uma vida etérea, onde estão as mudanças necessárias para retirar o trabalhador dessa situação abominável que ele vive?  

É exatamente sobre essas prerrogativas que surge o método materialista histórico-dialético marxista. Karl e Engels discorrem sobre o movimento do pensamento através da materialidade histórica da vida dos homens em sociedade, isto é, trata-se de descobrir as leis fundamentais que definem a forma organizativa dos homens durante a história. A filosofia marxista está na práxis, no concreto, na vida material. Sendo que será através de um conhecimento profundo da história material que as transformações irão de ocorrer. Trata-se de fazer uma projeção científica da realidade.

Não é sobre partir de uma lógica filosófica, idealista e, sim de uma lógica concreta, analisando a realidade como ela é para que consigamos atingir grandes transformações. A música de Gabriel demonstra muito disso, não adianta projetarmos apenas ideias de mudança, as modificações sociais irão acontecer por meio de luta e enfrentamento. Não podemos e não devemos nos abster, e nem mesmo perder as esperanças. Tomar uma postura de imparcialidade diante de uma análise histórica concreta não mudará as estruturas vigentes.

Bom, serei franca em minhas análises e reconhecerei minha ignorante enquanto ser humano. Não sei o que irá mudar ou transformar a vida do trabalhador. Talvez estejamos longe de grandes mudanças ou talvez não. Mas enquanto isso, não podemos aceitar a realidade em que vivemos. Como já dizia Gabriel, “devemos mudar nossa postura, porque o medo é um modo de fazer censura”.


LÍVIA GOMES - 1º PERÍODO DE DIREITO NOTURNO

O DIÁRIO DE UM PROLETÁRIO: INTERPRETAÇÃO MATERIALISTA DE UMA REALIDADE ETÉREA

 

    São Bernardo do Campo, 24 de dezembro de 1996

 

    Querido diário

 

    Hoje é a primeira vez que estou escrevendo algo para um diário, preciso relatar um pouco da minha vida já que os documentários e grandes biografias são de pessoas poderosas, para nós, pobres, sobra o relato das mazelas no íntimo dessa folha de papel.

    Bem, meu nome é Josias da Costa e Silva, nasci em 5 de maio de 1963 no interior de Minas Gerais, perto de Governador Valadares, sou filho de vaqueiro e dona de casa, tinha 22 irmãos, hoje são só 15, os outros morreram (alguns por fome, outros matados). Ainda muito novo sai de casa, estava cansado das agressões que sofria do meu pai, cansado da fome e da iminência da morte.

    Vim para grande cidade do Brasil no dia 13 de junho de 1985, São Paulo, mas a grandeza e beleza de suas construções se limitavam ao centro, porque a periferia não era melhor que o inferno de onde vim, fui morar em Paraisópolis e a fome me seguiu. Vivi lá por 5 ou 6 anos, sempre trabalhei muito, eram de 8 a 10 horas de trabalho, sem contar as outras 2 horas de ida e de volta, mas nunca tive aquela estabilidade que me pregavam. Eu pulava de emprego em emprego, mas nunca trabalhava por muito tempo, eles precisavam cortar gastos com a crise, para eles a minha fome era “consequência”.

    Depois vim para São Bernardo, a metalurgia era a única opção para um homem educado pela vida, sem nunca ter realmente estado na escola. Meu sonho era ser professor, mas infelizmente não tive a oportunidade. Minha vida ainda é só trabalho, tenho que comprar as coisas necessárias para viver e, às vezes quando sobra (quase nunca), um pouco mais.

    Por que eu resolvi escrever um diário? Bem, primeiramente é porque eu preciso desabafar, as pessoas quase não se falam, os dias atuais só têm relacionamentos superficiais e desejo por ter, todo dia eu vejo gente brigando por um item novo, na moda, lembro de quando vi, logo depois de chegar em São Paulo, uma moça brava numa daquelas lojas de rico porque a mãe não queria dar um sapato novo para ela, eu estava sentado em um banco em frente lutando contra a fome.

    Segundamente, para relatar meu dia a dia pela visão de um tal de Marx que meu filho me apresentou, queria ter mais tempo com meu bebê, mas preciso trabalhar, ele não pode sofrer o que eu sofro e se eu trabalhar menos vou desagradar o patrão...perdão, me perdi, Marx, né? Ele parecia ser muito gente boa, meu filho falava coisas sobre ele e era como se estivesse falando sobre hoje em dia, sabe? aquele negócio do “materialismo”, como a história se constitui pelo consumo e que a consciência e a religião podem distinguir os homens dos animais, mas eles já fazem essa diferenciação por produzirem os próprios “meios de existência”. Ele me disse de um outro rapaz que o Marx criticava, um tal de Hegel, mas eu não o entendi muito bem, ele fazia “fraseologia”, o que é para mim uma expressão chique para falar difícil.

    O Marx me fez perceber que eu não quero que meu filho fique rico e possa comprar tudo que deseja, eu quero que ele seja diferente, mas duvido que isso aconteça. Ele vive em um mundo que consome cada vez mais, sempre novas tecnologias, novos brinquedos, tênis novos, óculos novos, bolsa nova, carro novo...é triste saber que, como cantava Elis Regina, meu filho continuará sendo como seus pais.

    Na metalurgia a gente usa muita água para resfriar as peças e, como ela, a realidade é instável, corre pelas nossas mãos, é fluída. Nada é firme, nem o emprego, nem o amor, nem as relações.

    Marx estava certo sobre esse negócio de concepção materialista, nós consumimos para dar meios de decorrer a história, meu medo é pensar até quando será assim? Eu sei que meu filho não verá o fim disso, nem os filhos dele, mas tenho esperança de que um dia isso acabe, algum dia nos libertaremos das algemas do consumo e da dominação, deixando de estar à mercê dos ricos.

 

PS.: NÃO POSSO LEVAR ESSE DIÁRIO PRO TRABALHO, SE MEU PATRÃO DESCOBRIR EU VOU PRA RUA E, ATÉ NÃO ACABARMOS COM A DOMINAÇÃO, PRECISO SER BOM FUNCIONÁRIO.


GABRIEL RIGONATO - 1º PERÍODO NOTURNO

Uma realidade etérea: A luta de classes e a precarização do trabalho

     “A luta de classes é o motor da história.” É com base nessa concepção que Karl Marx formulou seu método, que consiste na análise da história com base na economia, nas classes sociais e nas relações de trabalho existentes em cada sociedade. Nesse sentido, com base nas ideias de Marx, esses fenômenos ocorrem de maneira dialética, uma vez que toda realidade histórica gera contradições internas, ou seja, a luta de classes. 

    Assim, mesmo que anterior a um maior desenvolvimento do materialismo, o pensamento de Friedrich Engels no livro “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, permite a formulação de uma análise materialista da realidade. 

    “Acuso amplamente a burguesia de assassinato social”. Essa foi a conclusão de Engels ao analisar as condições dos trabalhadores da Inglaterra do século XIX. Neste cenário, a sociedade burguesa estava submetendo a classe operária a condições de vida tão insalubres que os trabalhadores acabavam morrendo cedo e de causas não naturais, algo que pode ser configurado como um assassinato. 

    É de maneira semelhante que a classe trabalhadora vem sendo tratada no Brasil nos últimos anos. Desde a  lei Nº 13.467, aprovada em 2017, a precarização do trabalho no país passou a ser cada vez mais evidente. Com esta contrarreforma, os trabalhadores tiveram seus direitos flexibilizados, sendo expostos a formas de contratos atípicos e exploratórios, além de gerar uma diminuição da proteção social aos assalariados. Junto a isso, o fenômeno da terceirização dos trabalho e a uberização vem a cada ano contribuindo para que a vida do trabalhador seja mais difícil. Todos esses eventos servem de base para exemplificar a visão da burguesia, que trata os direitos trabalhistas, conquistados com muita luta, como algo etéreo e que pode ser alterado no menor sinal de instabilidade econômica.

    Neste sentido, o trabalhador se vê cada vez mais obrigado a ser flexível quanto às suas funções, estando disposto a realizar diversas atividades em prol de salários que não são proporcionais a seus esforços. Richard Sennett, em sua obra “A corrosão do caráter”, demonstra que estas novas exigências estão contribuindo para enfraquecer os valores de compromisso e confiança.  Além disso, o autor também observa que esta nova forma de trabalho está sendo construída sobre a ideia de liberdade e desburocratização que supostamente geraria mais empregos. Contudo, não é o que se tem visto, principalmente no caso do Brasil.    

    Sob este mesmo prisma, a pandemia de Covid-19 demonstrou como o pensamento de Engels é mais atual do que se imagina. Enquanto membros das classes superiores tinham a oportunidade de se isolar e se proteger do vírus, realizando suas atividades em casa, os proletários não tiveram a mesma oportunidade. Obrigados a se expor, essa classe possui o maior número de mortes ocasionadas pelo vírus. Isso é demonstrado pelo jornal El País em uma reportagem de abril de 2021, que aponta uma elevação de 60% no número de mortes de frentistas de postos de gasolina e motoristas de ônibus em comparação ao período pré-pandêmico. 

    É neste cenário de exploração do trabalho, de perda e flexibilização de direitos e -  por conta da pandemia - de mortes, que a classe trabalhadora se vê cada vez mais acuada. Enquanto isso, assim como a burguesia da Inglaterra do séc. XIX, as classes superiores brasileiras se abstém e contribuem para a manutenção desse morticínio     

Dessa maneira, pode-se concluir com base nessa análise materialista que é evidente o fato de que a classe burguesa trata os direitos dos trabalhadores como algo etéreo. Portanto, apesar da desmotivação, é necessário que a classe operária tome consciência da necessidade de se organizar e mais uma vez lutar por seus direitos. Afinal, se depois de dois séculos a frase de Engels em relação às atitudes da burguesia se mantém real, não será por meio das classes superiores que as mudanças ocorrerão.    


Ana Beatriz da Silva - 1º Ano de Direito - Diurno


Referências 

https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-05/caixas-frentistas-e-motoristas-de-onibus-registram-60-a-mais-de-mortes-no-brasil-em-meio-ao-auge-da-pandemia.html. Acesso em: 22/08/2021 

Entregando a vida

 

O Homem que não detém os meios de produção sempre foi tratado como objeto, no mundo industrial. Hoje, com o mundo globalizado, esse cenário não mudou quase nada, já que a os direitos do trabalho atualmente estão escassos em diversas áreas, onde o trabalhador conta com a falta de estabilidade, falta de um salário fixo etc. enquanto os detentores dos meios de produção, assim como na sociedade das revoluções industriais, acumulam mais capital e se tornam mais ricos todos os dias.

As relações de produção- teorizada por Karl Marx- foram sucateadas com o passar do tempo, pois é mais lucrativo não oferecer os direitos necessários ao trabalhador, não o enxergar como humano e sim como objeto, do que disponibilizar as condições ideais para a realização do trabalho. Muitos trabalhadores do século XXI não possuem vínculo formal com a empresa para que prestam serviços, e dessa maneira dependem unicamente de seu esforço ativo já que não são dadas garantias.  Um exemplo evidente são os entregadores de aplicativos de entrega, que possuem uma jornada de trabalho que ultrapassa todas as condições que um ser humano pode suportar.

Casos como o de Diógenes, que ao ser demitido de seu emprego após o início da pandemia do Covid-19 tornou-se entregador para alimentar sua família, que depende de sua renda. O entregador relata que desde o início das atividades sua jornada chega a 12 horas, sem intervalos. Diógenes ainda relata que ao se machucar e ficar dez dias parado, sua renda foi zerada, já que não é previsto nenhum tipo de seguro- nem o INSS.

Por outro lado, enquanto homens como Diógenes não conseguem o mínimo necessário para ter um trabalho digno- com direitos que respeitem a saúde do trabalhador- megaempresários continuam mais ricos a cada dia, por consequência das aberturas disponíveis para o acúmulo de capital, ou seja, enquanto os direitos de um são totalmente estritos os de outros são completamente amplos. Jeff Bezos, CEO da Amazon,  ficou 24 bilhões de dólares mais rico durante a pandemia, realizando uma viagem para a lua no ano de 2021, enquanto a realidade de muitos era trabalhar para ter o que comer.

Com isso, fica evidente que a estrutura social pouco se alterou com o passar dos séculos, visto que até hoje direitos essenciais para um trabalho digno são negados ao trabalhador. Além disso, é claro que o acúmulo de capital continua sendo a essência do capitalismo, com empresários priorizando o lucro máximo e não a vida do trabalhador.

Pedro Cardoso - 1° ano Matutino 

Mais um dia parafusando

   5 horas, alarme do celular disparando seu barulho infernal (tenho que trocar esse toque). Levanto e vou comer um ovo mexido e tomar café (meu eterno companheiro, sem você nunca aguentaria o trabalho). Ligo a televisão, coloco o canal na Globo. Está passando Hora Um, e só informa coisas inúteis. Não me importo com políticos, que agradam somente pessoas como o Chefe: ricos, não ligo para o resultado dos jogos de futebol (o que muda na minha vida se o Corinthians ou o Palmeiras vence? Continuo pobre). Entediado, mudo de canal e deparo-me com uma missa sendo transmitida. Nunca fui religioso, não me identifico com nenhuma crença: cristianismo, judaísmo, budismo, para mim são tudo histórias criadas para arrancar dinheiro de otários e ser uma resposta "porque sim" para tudo. Uma fuga da realidade chata e brutal, não diferente dos filmes ou quadrinhos,  criada por um anseio de compensação pelos sofrimentos que sofremos e desejos de que aqueles que não gostamos, que julgamos como pecadores, sejam punidos pela eternidade. Droga, me perdi novamente em meus pensamentos, vou me atrasar para pegar o ônibus.

    7 horas, chego na fábrica. Bato o ponto, e vou apertar parafuso. O José chega atrasado, de novo. Ele é meu supervisor e sobrinho do Chefe, só assim para um moleque de 25 anos conseguir um emprego desses. Todo dia chega com seu carro grandão, não sei o nome e sinceramente não me importo em saber, não tenho dinheiro para carro, então para mim é tudo igual. Sempre acha que é melhor que o resto de nós só pelo seu carro, suas roupas caras..., em resumo só por ter mais dinheiro. Agora, ele está desfilando com seu novo terno (só sei que é diferente do antigo por que ele mesmo disse isso) e quer que todo mundo o aplauda e o bajule, dizendo o quão moderno e estiloso ele é. O pior é que tem pessoas aqui da fábrica realmente acreditam que o terno, mesmo sendo praticamente idêntico ao antigo, é belíssimo e revolucionário. Outros também o bajulam, mas não sei se é para ficar nas boas graças do Chefe ou se apenas seguem o que a maioria faz. Tocou o apito, interrompendo minhas reflexões e trazendo-me de volta ao ritmo monótono e entediante de meu ofício, sinalizando que é hora de comer.

    12 horas, como meu misto-quente (ou misto-frio já que não tenho tempo de esquentá-lo no sempre tão cobiçado micro-ondas do refeitório). Meus pensamentos divagam novamente, dessa vez sou levado ao Chefe. Sendo sincero, não sei nem mesmo o nome dele. Só o vi uma única vez em todos os meus anos nessa indústria, que foi quando teve uma greve aqui na fábrica para que os banheiros fossem consertados (os dois únicos estavam entupidos há 4 meses). Na ocasião ele, com seu terno branco e gravata vermelha (quem que usa isso hoje em dia?), disse que a situação dos banheiros seria rapidamente consertada e que o responsável pela supervisão deste problema seria demitido. Parece que somente quando mexe com a produção é que o Chefe aparece. Parando para pensar, acho que essa greve foi a única vez que eu vi todo mundo da fábrica (com a exceção do José) unidos em prol de uma única causa. Naquele dia nós tínhamos uma única vontade, um único objetivo, e conseguimos o alcançar. Mas o Chefe também percebeu isso, ele implementou um sistema de metas, com quem sendo o melhor em seu respectivo setor ganhando um prêmio. Após isso, a competição e rivalidades impediram outra organização de greve. O apito toca novamente, obrigando-me a retornar à parafusar.

     14 horas, continuo apertando os parafusos, mas o Alberto do meu lado está mais lento, não vai cumprir a sua meta de hoje. Não o julgo, pois sua esposa o largou recentemente, deve ser apenas a necessidade do salário que o fez aparecer para o trabalho. José sabe disso, mas não importa, visto que acabou de advertir (de maneira um tanto quanto excessiva) que caso não conclua a meta, será demitido. Como alguém pode ser tão insensível? Será que para ele só o resultado, a produção importa? Será que nos vê como, ou pelo menos deseja que fossemos, máquinas que realizam apenas o que nos é exigido? Percebo que o Chefe também vê assim, já que só apareceu por causa da greve. Talvez tal afastamento seja por nos considerar inferiores, ou talvez seja uma consequência de ter tanto dinheiro, afinal não se torna rico considerando os sentimentos dos outros. Ocorre-me um arrepio: será que se os papéis fossem invertidos, eu também seria assim? Será que eu veria os meus atuais colegas apenas como degraus em uma jornada incessante por mais dinheiro? Volto-me, na tentativa de afastar tais pensamentos, para o ofício: parafusar...parafurar... o que mesmo que eu estou parafusando?

Rafael Nascimento Feitosa, 1° semestre de direito diurno

Trabalhe!

 Foram 13 anos na escola, agora mais 4 na universidade
Assisto as aulas no intervalo de cada entrega
Minha prima já é uma médica, ganha 5.000 reais a cada plantão
Já eu, nem carteira assinada tenho
Escuto de longe: "Trabalhe!"
Tia Mara esbraveja que os comunistas estão dominando tudo
"Nossa bandeira jamais será vermelha"
O temor do vermelho agora é uma realidade
Escuto de longe: "Trabalhe!"
Essa dominação nunca tem fim
Os patrícios passaram o poder para nobreza
Da nobreza, vieram os burgueses
Já os plebeus, servos e proletários nunca tiveram vez
Eterna luta de classes que vivemos
Escuto de longe: "Trabalhe!"
Cresci ouvindo que trabalho dignifica o homem
Mas como posso acreditar quando ao olhar ao meu redor
Só vejo indivíduos cansados e explorados
Vejo miséria e desigualdades
Escuto de longe: "Trabalhe!"
Afinal, o trabalhador de hoje é o servo de ontem e o plebeu de antigamente
Quem colocou uma estaca no chão e disse "Isso é meu"?
Já não consigo me concentrar nos meus pensamentos, pois
Escuto de longe: "Trabalhe!"


Bruna Soares Teixeira
Direito - Noturno

 Análise materialista sobre as relações de produção e de consumo no cenário do capitalismo financeiro e da cultura imagética

Na perspectiva de Marx e Engels, a própria estruturação do capitalismo é pensada para atingir a dimensão global. De fato, desde o início no século XVI, o capitalismo se concretizou sob a lógica do mercantilismo, e, a partir daí, já haviam sido lançadas as bases para o sistema de Divisão Internacional do Trabalho, que apenas se tornaria mais complexa com o passar das décadas e com a diversificação de setores produtivos. À época, o sistema funcionava com metrópoles fornecendo manufaturas para as colônias, que, por sua vez, forneciam de volta metais preciosos e especiarias. Atualmente, as potências desenvolvidas fornecem tecnologia, industrializados, investimentos, empréstimos, os países subdesenvolvidos industrializados fornecem produtos primários (commodities) e produtos industrializados e os países não industrializados fornecem apenas as matérias primas. É notável que houve uma grande transformação até o século XXI, mas o cerne dessas relações continua sendo o mesmo: a exploração. Ao definir um determinado papel para um país, muitas vezes relacionado à influência política dele no sistema interestatal, é reforçada a dominação pelas potências, visto que os setores relacionados à tecnologia contêm muito mais valor agregado do que as commodities, por exemplo. A realidade perversa inerente a essa lógica é que para um país permanecer próspero e dominante, outros têm que se manter na miséria. No capitalismo financeiro, especificamente, o artifício da acumulação flexível e da localização estratégica das empresas reforça essa divisão, se aproveitando principalmente de aspectos fiscais e logísticos favoráveis. No caso de uma Big Tech, por exemplo, a sua matriz head de operações é localizada em uma potência econômica, mas os trabalhos mecânicos ou de extração envolvidos são realizados em países de legislação trabalhista pouco significativa, que abre margem para a exploração desumana da mão de obra, muito comum, por exemplo, nos Novos Tigres Asiáticos. O estudioso do tema Richard Sennet avaliou essa tendência denominando a empresa flexível de “arquipélago de atividades relacionadas”, que reflete de forma muito didática essa realidade. Outro exemplo dessa discrepância entre as nações está no fenômeno da fuga de cérebros, pela qual as mentes mais brilhantes deixam seu país de origem rumo a uma potência econômica com melhores oportunidades de educação e de remuneração, repetindo a lógica, pois, no futuro, serão esses indivíduos que darão continuidade ao que há de mais tecnológico (e valoroso) no Vale do Silício, concentrando as riquezas nos mesmos países. Em linhas gerais, esses seriam exemplos da atualidade da exploração capitalista na escala macro (entre países), na visão de Marx e Engels, contudo, isso se reproduz até alcançar a escala de relações individuais, como também foi tratado pelos autores.  

Com efeito, a lógica de dominação capitalista burguesa foi um dos principais objetos de estudo de Marx e Engels, que chegaram ao conceito de mais-valia, ponto essencial que sustenta a opressão do Capitalismo na escala micro (entre pessoas) e que significa a disparidade entre o salário pago ao trabalhador e o valor produzido pelo seu trabalho. Na forma de mais-valia absoluta, o meio utilizado para alcançar isso é o aumento da jornada de trabalho. Na mais-valia relativa (crescente na atualidade) é aplicada tecnologia na produção, visando ao aumento de produtividade. Em ambas as formas, é válido destacar que essa diferença é apropriada pelo capitalista, e que, devido a essa exploração, a contratação do trabalhador só é aparentemente livre, de acordo com a concepção marxista. Feita essa breve análise, é visível o antagonismo de interesses entre trabalhador e capitalista, refletido na desigualdade de classes, como uma amostra de quão inorgânica é essa relação produtiva. Isso permanece hoje, sob novas formas, como analisa Richard Sennet ao tratar da flexibilidade também na esfera individual, isto é, observa-se a predominância de contratos mais flexíveis, carreiras mais instáveis e o risco como uma condição comum do trabalhador do século XXI.Ademais, um enfoque muito interessante para notar a continuidade da exploração no cenário contemporâneo é observar as relações de consumo. O establishment é reforçado pelo componente imagético, sendo que a diferenciação entre as classes é fortemente destacada pelo boom da propaganda. Não basta ter um carro ou um celular que estão funcionando plenamente, é necessário que sejam de última geração, caso contrário, não possuem valor. E quem dita isso? A propaganda, que atua a nível psicológico ao ponto de não mais serem suficientes ao trabalhador as condições materiais (entendidas aqui como na visão de Marx, meios estritamente necessários à vida), é necessário também adquirir esses símbolos supérfluos carregados de status, caso contrário, o valor do indivíduo trabalhador em meio às relações sociais será nulo. Tem-se, então, o fenômeno marxista da reificação: o indivíduo tem seu valor medido a partir daquilo que pode ou não adquirir. Essa lógica sempre se reproduz aplicada a produtos novos, por exemplo, as especiarias que motivavam expedições longas e árduas até a Índia, hoje, são facilmente encontradas em qualquer supermercado, logo, desprovidas do valor que outrora tiveram. Além disso, o uso da obsolescência programada (encurtamento proposital da vida útil dos produtos) é uma ferramenta aplicada por grande parte das empresas de hoje e que ajuda a manter esse “abismo” entre classes, sempre pautado no aspecto das “coisas”, e, por fim, constituindo mais um exemplo de como a visão materialista da história permaneceu contemporânea.

Como complemento, duas charges (fonte: pictoline) que amostram 1. novas formas de exploração no ambiente de trabalho e 2. obsolescência programada

 

Isabela Mansi Damiski - turma XVIII - primeiro semestre

Reificação das pessoas: pré- requisito para personificação das coisas

 Na mitologia grega, Procusto, é um ferreiro, filho de Poseidon, que possuía uma cama, em que nenhum hóspede tinha o tamanho ideal, e por isso as torturava a fim de que se adaptassem (coubessem na cama). Analogamente, o sistema capitalista, movido pelo lucro, busca essa mesma padronização dos indivíduos por meio da personificação dos objetos, com valor simbólico, que depende da reificação dos seres humanos a partir, através do esvaziamento da sua capacidade reflexiva. Dessa forma, o indivíduo, cada vez mais alienado, transpõe seus sentimentos aos objetos e  sustenta o mecanismo lucrativo do sistema.

Essa reificação dos seres humanos consiste na perda da capacidade reflexiva sobre os processos nos quais estão inseridos. Isso acontece por meio da alienação em que o trabalhador é estranho ao produto de sua atividade, com longas jornadas exaustivas de trabalho repetitivo, que produzem a perda de sua humanidade. Somado a isso, têm-se a indústria cultural, que atua na busca de ocupar o tempo livre do indivíduo, de forma a fortalecer, também nesses momentos, sua alienação e perda de individualidade, atingindo o lucro e controle das consciências, simultaneamente, tal como na lógica industrial para construir a massificação com consumo padronizado. Desse modo, a coisificação das pessoas cada vez mais padronizadas e massificadas, é observada como característica marcante da sociedade atual, que anula a criatividade individual e passa a estimular o consumo exagerado, projetando nos objetos a falta de sentimentos gerados pelo sistema.

Com isso, a personificação das coisas se apresenta cada vez mais acentuada, uma vez que há a transposição do ser para os objetos que possui e que o representam. A isso, Karl Marx, denominou fetichismo, em que significa que o indivíduo não compra o valor real (monetário) e sim o valor simbólico do objeto, de forma automática e desligado de reflexões prévias. Um exemplo disso é a ampla divulgação de acessórios e roupas relacionados à feminista e comunista, Frida Kahlo, amplamente vendidos não como objetos por si, e sim como ideia de que para ser feminista é preciso comprar aquele símbolo representante do movimento, ainda que esse esvazie completamente a história de resistência da personagem representada. 

Portanto, é evidente que o processo de coisificação das pessoas é um pré- requisito para que a personificação das coisas seja construída. Essa, por sua vez, assim como no caso de Procusto, tortura as pessoas psicologicamente a fim de que se adaptem ao sistema de consumo capitalista, esvaziadas de pensamentos críticos. A solução dessa problemática da sociedade contemporânea, para Marx, seria a luta de classes, que se colocaria contra os mecanismos de exploração do capital e uniria a classe trabalhadora em prol do socialismo.  Mariana Moreira Belussi - 1º ano matutino


Vida Loka. Parte II

 

Às vezes eu acho que todo preto como eu

Só quer um terreno no mato só seu

Sem luxo, descalço, nadar num riacho

Sem fome, pegando as frutas do cacho

Ai truta, é o que eu acho

Quero também, mas em São Paulo

Deus é uma nota de cem

Vida Loka!

É com esse trecho que Mano Brown finaliza a música Vida Loka 2, uma pequena parte de uma grande música. Abordando diversos pontos do capitalismo contemporâneo, a música de Mano Brow está de maneira indireta, amplamente ligada com a filosofia defendida por Marx em suas obras e especificamente nas críticas feitas à filosofia hegeliana, que baseada nessa análise marxista específica é extremamente rasa.

Analisando o trecho da obra acima podemos ver como ela retrata a vontade dos negros na periferia, pretos que não querem as guerras dos centros urbanos, mas sim a paz e a calmaria em uma terra que parece inalcançável para quem vive no mundo capitalista onde o dinheiro dos burgueses possui supremacia e dita o que é possível e o que não é. Marx apesar de ter escrito suas obras há muito tempo aborda certos pontos que são facilmente observados nas entrelinhas dessa música.

Marx em sua análise sobre a filosofia de Hegel também aponta algumas falhas no pensamento hegeliano. É muito fácil se cativar pela liberdade e igualdade que Hegel aponta em seus textos, mas como Marx bem observa essa liberdade que Hegel aponta só é exercida pelos burgueses, esse argumento marxista é sustentado pela letra de Mano Brown, afinal, todo preto quer exercer sua liberdade e ter um terreno só seu, mas nos centros urbanos capitalistas ditados pela burguesia, o capital é a única religião e o sonho do preto se torna inalcançável.

Conclui-se que a única escapatória que sobra aos pretos é correr atrás da liberdade, a liberdade financeira que nunca chega pois os “trampos” exercidos pelas camadas mais pobres estão conectadas as vontades da burguesia, desde as entregas em aplicativos até o estudo, a burguesia controla e fica com o lucro em todos os casos e o proletário, o preto, com nada fica além do sonho de adquirir um terreno no mato só seu.

Victor Hugo da Silva Fernandes  | Turma XXXVIII       | Noturno 

SOCIEDADE CIVIL: A FRENTE CONTRA O RETROCESSO.

 

A sociedade civil, nada mais é que, a constituição de atividades que relacionam todas as pessoas dentro de um meio de convivência, na qual um grupo de pessoas possuem ideais semelhantes, em prol do bem comum, e que engloba todas as instituições que não são empresas, nem mesmo integram o governo. Na modernidade, foi atribuída a Hegel a expressão Sociedade Civil que representa um estágio de relacionamento dialético entre os opostos, o estado e a família, e tornou-se uma descrição para todos os aspectos não estatais da sociedade, enquanto para Marx é a fundação da sociedade burguesa.

A sociedade civil tem ligação intima com a democracia, pois é fundamental e vital que essas organizações que a constituem, como associações, clubes, instituições políticas e não políticas, trabalhem na construção do capital social, e todos os valores sejam compartilhados para a esfera política, e garantem a união e coesão dentro da sociedade. Nesse sentido, tem um papel imprescindível na construção de uma ordem justa e democrática. Para Ernest Gellner, a sociedade civil é composta por instituições suficientemente fortes para repelir a tirania.

Ao se pensar no Brasil dos dias atuais, a sociedade civil é a principal fonte e meio de resistência ao domínio da vida social, pois ela é o centro da dinâmica histórica e não estado. Apesar de que, esse Estado burguês busca, por meio de todo poderio e influência, reforçar a alienação e deixar tudo mais efêmero, que é fundamental para a manutenção da ordem capitalista em toda a sociedade, como por exemplo o retrocesso que se estabelece a cerca das leis trabalhistas, dia a dia, os direitos trabalhistas são revogados, em nome do progresso e da expansão econômica. Além de todas as outras relações sociais que adoecem por essa lógica avassaladora.

Essa dinâmica deve-se porque a sociedade civil dá livre acesso e saída de pessoas as suas instituições, o que possibilita que pessoas que não estão unidas pelos mesmos ideais possam constituir uma instituição e, por meio de influências e condições, materiais e práticas, podem chegar ao poder, nesse caso ao assumir algum cargo político, esse ideal se constrói a partir do “interesse coletivo”, e se racionaliza na podridão e na alienação. Assim fica fácil de entender a ilusão, que Marx atribuía ao Estado como representante “universal” do interesse coletivo.         

Nesse sentido, a sociedade civil pode constituir uma importante ferramenta de enfrentamento aos retrocessos do Estado, nem sempre atuando na proteção dos valores coletivos, em prol do bem comum. Porém, para que atue em constante sintonia com o bem-estar comum, a sociedade civil deve negociar com o Estado burguês, e pode já que obteve um montante de poder político, além de possuir boa parte do das condições materiais, e assim lutar contra toda forma de opressão e alienação imposta pelo Estado.

CÁSSIO GOULART- 1ºSEMESTRE- DIREITO/DIURNO

DOMINAÇÃO MATERIAL NO MUNDO VIRTUAL

 

 

A realidade no século XIX estava envolta em um contexto de revoluções industriais, sociais, políticas, ideológicas. Em meio a tanta ebulição de acontecimentos, a sociologia se moldou como ciência necessária para a compreensão dessas sociedades tão caóticas. Assim, um dos maiores expoentes dessa ciência aparece trazendo um novo método de estudo social, Karl Marx e Friedrich Engels, desenvolvendo o socialismo cientifico, baseando-se principalmente nos impactos materiais que o sistema capitalista surtia na vida de todos. Por mais que essa visão tenha aparecido há, aproximadamente, duzentos anos, seu modo de enxergar o mundo pode ser aplicado na contemporaneidade etérea do século XXI.

            Tal constatação pode ser corroborada no fato de que Marx e Engels propuseram que as condições materiais (Dinheiro, moradia, alimento...) fossem o objeto de estudo desse novo método cientifico. Assim, conseguiram partir da realidade concreta para identificar seus problemas e então, conhecendo suas razões históricas-dialéticas, buscar maneiras de solucioná-los. Entretanto, concomitantemente, a filosofia idealista de Hegel estava a criar adeptos, uma vez que cogitava partir de ideias perfeitas de sociedade para tentar coloca-las em prática, ignorando, desse modo, a concretude. Todavia, essa proposição hegeliana recebeu grande apoio da burguesia da época, isso porque seria ela quem tomaria as rédeas da sociedade, colocariam suas ideias em prática, transformando toda a população em mão de obra para que a riqueza dessa elite se fizesse real, em um mundo de mentiras para os mais abastados.

            Analogamente, a contemporaneidade baseia-se muito mais em idealizações do que na realidade. Efeito esse causado pelo advento da tecnologia, uma vez que trouxe consigo a possibilidade de tornar qualquer tipo de relação em líquida, isto é, não se assumir nenhum lastro com a vida real, pois toda forma de contato será através da tela de um celular ou computador, dessa forma, o virtual, o ideal sobrepõe-se ao real, ao material. Tal transformação radical nos relacionamentos foi trabalhada pelo filósofo polonês, Zygmunt Bauman, em diversas obras, como Amor Liquido e Modernidade Liquida, nas quais a sociedade do Instagram e do WhatsApp é caracterizada pelas relações frágeis, fugazes e maleáveis.

             Visto isso, é possível afirmar que, atualmente, o Estado Burguês se fez verdadeiro, onde a burguesia se tornou grandes corporações, que conseguem alienar as outras classes em um mundo de virtualidades, manipulando-as de forma a manter esse controle pelo maior tempo possível, para assim adquirir lucros e mais lucros com propagandas, parcerias e o novo comércio online.

Dessa forma, ao perceber tamanha manipulação, faz-se imprescindível que a sociedade civil de Marx se uma, de maneira a compreender que essa alienação está insuportável e então esses proletários da atualidade devem se unir e tomar as forças produtivas, tecnológicas através da busca pela liberdade de todos, gerando riquezas coletivas e não de apenas corporações elitistas. Tornando aquele cenário caótico de divisões e relações líquidas em um local de igualdade de oportunidades para usufruir de meios materiais e até imateriais, como a própria cultura, que essa alienação priva os que não se enquadram como dominantes.


Matheus Granucci Burgarelli- Direito Matutino, 1°Semestre

Relações e transformações

      “A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes”. Essa frase foi redigida por Karl Marx no século 19 e, não surpreendentemente, ainda é extremamente atual, afinal, consideramos aqui a história do mundo uma eterna luta de classes. Antes de partirmos em uma análise mais aprofundada, expliquemos  de forma rápida o método dialético de Marx.

    O método dialético analisa a sociedade a partir das classes sociais e a história por trás delas. Para Marx, as relações que os indivíduos estabelecem variam conforme as classes que eles ocupam, nada seria mero acaso do destino. Assim sendo, estabelece-se duas classes importantes: os burgueses - donos dos meios de produção e  os quais compõem a classe dominante - e os proletariados - classe dominada que vende a sua força de trabalho. A dialética seria a contradição proveniente do conflito de ideias dessas classes, ela é a responsável por causar a mudança dentro de uma sociedade. Entretanto, essa transformação só ocorreria quando a classe dominada compreendesse o seu papel de povo explorado e rompesse com a falsa ideologia, ideologia essa que é a expressão do estado burguês defendendo seus próprios interesses.

    Após essa breve explicação, podemos prosseguir para uma interpretação de nossa atual realidade e de como podemos interpretá-la utilizando o método dialético marxista.

    No documentário “Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar” o narrador descreve a cidade Toritama alguns anos atrás antes do fenômeno do jeans na cidade. Antes a cidade é retratada como calma e lenta, um ritmo tranquilo e silencioso. Com a chegada das fábricas de jeans, a cidade torna-se rápida, barulhenta e as relações transformam-se. 

    Casas que antes abrigavam viajantes agora tornam-se pequenos campos fabris. Toda a população tem algum vínculo com a produção em massa e poucas são as vezes que descansam. Quando questionados sobre seus sonhos a maioria se perde, alguns se imaginam quando finalmente conseguirem acumular uma quantia suficiente.

    A população de Toritama não é infeliz. Eles naturalizam os modos de produção e para eles, o trabalho nas produções fabris é uma maneira deles se tornarem “donos do seu próprio tempo”. Porém, a população, na verdade, acaba trabalhando até altas horas e, inclusive, aos domingos. Alguns, inclusive, trabalham em obras para garantir emprego nas futuras fábricas de garagem (termo utilizado pelo narrador).

    Apesar da enorme quantidade de produção, a população, em sua maioria, continua simples e o grande momento de extravagância é o carnaval. Nesse momento eles vendem objetos extremamente importantes, como geladeiras, para poderem passear e ter um momento de lazer.

    Baseando-se na realidade de Toritama, as falsas ideologias são manipuladas para que o trabalhador não perceba o quão explorado está sendo. Apesar do aumento da carga horária com pouco dinheiro recebido, perpetua-se a crença de que os explorados estão sendo donos do seu próprio tempo, como no caso dos motoristas de Uber. As várias formas de exploração variam conforme a época e as ferramentas utilizadas para esse fim. Baseando-se no método de Marx, a transformação só ocorreria quando a classe dominada notasse a exploração que sofre. 

    Na contemporaneidade dos fatos, nota-se que cada vez mais as relações de trabalho e produção têm sido flexibilizadas e precarizadas, fazendo com que a massa seja fortemente explorada sem notar. Os novos meios de exploração são inseridos em um contexto de altas taxas de desemprego, tornando a realidade ainda mais cruel.  Entretanto, as recentes mobilizações em torno da educação tem levantado fortes questionamentos, a reforma do ensino médio corrompe a dialética necessária para a transformação?

Luísa Sasaki - Direito; Matutino - Turma XXXVIII

Uma interpretação materialista de uma realidade etérea : influência da realidade no voto.

 

Seu José era um homem de 55 anos que exercia sua profissão de sapateiro com muito orgulho. Com o fruto de seu trabalho sustentava sua esposa e três filhas, vivendo sempre com o suficiente para não passar necessidade. Sua mulher, Dona Rosa, fazia apenas alguns bicos com costureira, usando esses trocados que ganhava para comprar doces e balas para suas filhas. Apesar de sempre ter pouco, a generosidade e compaixão era disseminada por eles, ajudando muitos vizinhos que as vezes pediam água e comida para eles.

Em mais um dia normal, seu José acordou cedo, tomou seu café e logo pegou sua bicicleta para ir a fábrica onde trabalhava. Chegando lá estranhou-se com os inúmeros “santinhos políticos” que estavam por toda a parte de sua área de trabalho. Era época de eleição para presidente.... Seu José não gostava de política, apenas mostrava seus pontos de vista e baseava-se em todas as notícias e opiniões de amigos.

Ao chegar na máquina onde fazia seu trabalho, se deparou com um papel que dizia o seguinte: “Sua hora chegou! Vamos nos livrar do fantasma do PT, vote 17 para nosso Brasil mudar”. Ao olhar aquilo não entendeu muito bem, porém deu muita importância pelo fato de o mesmo aviso estar presente em todas as mesas de seus companheiros, e além disso por no final estar assinado pelo dono da fábrica.

Seu José trabalhou normalmente durante o dia, até que chegou o horário de almoço. Todos estavam reunidos no refeitório, comentando sobre o aviso que tinham recebido e também sobre a eleição para presidente que estava por vir. As frases que seu José mais ouvia durante o almoço eram: “Não tem como a gente colocar esse povo do PT de novo no governo não”, “Essa mídia aí tenta manipular tudo que o candidato 17 fala”, “Ouvi falar que o patrão acabou demitindo o Sérgio só porque ele rasgou o papel e disse que não ia votar no 17”, “Olha esse vídeo aqui que recebi no zap do mito xingando a mídia tudo”. Dessa maneira, seu José apenas escutava todas essas frases e começava a formular seu futuro voto.

Depois de um longo e cansativo dia de trabalho, seu José chegou em casa, e antes de tomar seu banho para jantar abraçou sua esposa e filhas. Durante o jantar Dona Rosa também comentou que recebeu uma cliente que comentou sobre as eleições e disse para ela que todos deveriam votar no candidato 17, pois ele iria levar o Brasil para frente. Ouvindo isso seu José comentou que na fabrica todos estavam dizendo a mesma coisa e que o patrão havia demitido Sérgio apenas por discordar dessa ideia. Eles conversaram sobre isso e logo depois foram olhar o zap, onde encontravam inúmeras fotos e vídeos que mencionavam o candidato 17 como o salvador da pátria e também com o lema: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!”.

Como todos já imaginam, quando a eleição chegou seu José e Dona Rosa votaram no candidato 17, não por estarem de acordo com todas as propostas e ideias difundidas por ele, mas sim por serem influenciados por toda a realidade em que viviam, na qual suas relações sociais eram engendradas pelas relações de produção do capitalismo. Assim, hoje em dia sabe como eles se estão?

Atualmente seu José está desempregado, pois a fabrica teve que demitir funcionários como consequência da pandemia. E como esta Dona Rosa? Bom, a família sofreu e está sofrendo muito com sua perda, pois ela acabou pegando covid e não conseguiu superar. Dessa maneira, atualmente seu José percebe, ao assistir todas as noticias e pronunciamentos do candidato 17, que seu voto foi manipulado por toda sua realidade e que a pior escolha de sua vida foi votar no que hoje ele apelida de GENOCIDA.

 

Portões da Fábrica

 Portões da Fábrica


Martelos e pregos se chocam na fábrica,
Chefes e patrões lançando olhares do escritório,
"Mais rápido!" diziam eles,
Totalmente protegidos pelas cortinas de seu santuário.

José trabalha lá de operário,
Levanta às cinco e vai embora ás oito,
E pensar que todo aquele calvário
Não era o suficiente nem para um miserável gosto.

Um dia lhe perguntaram:
"José meu amigo, você precisa revidar!"
Sem jeito, o simplório respondia:
"Que isso compadre, preciso trabalhar".

Maltratado e vulnerável,
José sempre escondia suas vistas,
Ao ser convidado para o sindicato, indagava:
"Eu não, isso é coisa de comunista!".

Quatro filhos esperavam em casa,
Simplesmente não havia tempo para se informar,
Mesmo quando o cansaço e a exaustão chegavam,
Não adiantava, existiam parafusos para apertar.

Numa tarde quente, José caiu, 
Fria como um túmulo, na fábrica a morte bateu no portão:
"Venha José, chegou sua hora" disse o anjo.
"Agora não, espere o expediente acabar, ou eu perco as graças do patrão!".

MATHEUS DE SOUZA LUSKO
TURMA XXXVIII - DIREITO
PERÍODO MATUTINO



 

"Trabalhador Brasileiro", além da canção de Seu Jorge

Acordei 3:30 da manhã, o sol nem estava perto de nascer ainda. Tomei um banho para acordar, fiz meu café preto e fui para o ponto do ônibus.

A espera do ônibus, coloquei meu fone de ouvido e decidi ouvi a música de Seu Jorge "Trabalhador Brasileiro" e no meio da correria que é a vida de quem trabalha em fábrica, prestei atenção na letra da música pela primeira vez.

"E sem dinheiro vai dar um jeito

Vai pro serviço

É compromisso, vai ter problema se ele faltar
Salário é pouco não dá pra nada
Desempregado também não dá
E desse jeito a vida segue sem melhorar"
Pela primeira vez, percebi que a música retratava a minha realidade, trabalho desde os meus 13 anos, não tive condições de terminar a escola, desde cedo tive que ajudar a colocar comida na mesa e a pagar as contas no final do mês. E minha realidade pouco mudou ao longo de meus 30 anos de trabalho, ganho só o que dá para pagar as contas, nunca sobra. Não consigo bancar um dia de lazer na praia, mesmo que eu faça horas e mais horas extras, nunca sobra.
Lembrei, que um dia estava assistindo um programa na TV Cultura, e o tema abordado era o pensamento de Marx, que cara genial ele foi, o que ele afirmava é o que segue acontecendo na realidade de hoje. O meu patrão segue me explorando e eu, por necessidade, me submeto a essa condição. O pensamento dominante continua sendo o classe mais rica, que oprime a mais pobre, ou será que tem alguém acredita que os pobres não sofrem nesse país? Será que existe alguém que acha bacana trabalhar o mês todo e não poder tomar um sorvete na esquina, porque descompleta o dinheiro das contas e do aluguel? Não era para ser assim, todos deveriam poder ter um momento de lazer, isso não deveria ser privilégio das classes mais ricas, cujo pensamento predomina na sociedade.
Cheguei no trabalho, depois de 2:30 de trajeto no ônibus lotado, o relógio marcava 6:30, cheguei 30 minutos antes, mas isso de pouco adianta, ninguém valoriza o meu esforço, para o patrão eu sou mais um a ser explorado, a receber o mínimo por dar o meu máximo.
Meu colega, José é pai de 3 filhos, eu preferi não ter nenhum, para não os ver sofrer como eu sofro nas mãos desse sistema capitalista, que oprime e diminue o trabalhador, para que ele caiba dentro da caixa do sistema. Ele me disse, que o filho mais velho dele, Manuel, leu para a faculdade um autor chamado Senette que nesse texto, o personagem principal Enrico muito lembrava José, já que ele sempre batalho para dar o melhor para os seus filhos. E não é a vida que imita a arte, a arte que imita a vida, ou vocês ainda acreditam que tudo isso é fantasia? Convido vocês a virem na fábrica, assistirem nosso esforço e verem nosso salário no final do mês.
Aí vocês vão perceber que o pensamento de Marx não é ultrapassado, que Senett não escreveu uma ficção e que a vida do trabalhor no Brasil é ainda mais difícil do que Seu Jorge canta.

Ellen Luiza de Souza Barbosa 
Turma XXXVIII
Noturno

Na sociedade selvagem!

 A busca da sociedade perfeita é muito mais problemática do que se pode imaginar viver. O homem vive uma constante busca do algo, que diz saber, entretanto, nunca se sabe o fim, apenas que que os meios encontrados para trilhar são voláteis.  O que já foi a um minuto atrás, não acontecerá da mesma forma um minuto depois.

Quando a mente se concentra em uma informação, o mundo digital já empurra outra pílula de conhecimento.... ou seria desinformação? Quem está certo? O que foi contado é meia verdade? Meu Deus que realidade!!! E agora, mais que nunca na velocidade da luz.

Recentemente, além dos pensamentos desencontrados, uma bomba biológica atingiu o mundo, e permitiu uma trágica transformação. O indivíduo além, de seus próprios passos, enfrenta algo que mudou o palco da história da humanidade, uma Pandemia.

A crise sanitária mundial, conflitos nacionais, estaduais, municipais, residenciais e pessoal levou o ser humano ao enfrentamento de uma batalha o qual a possível arma para o extermínio da situação, não estava na mão de cada soldado, mas sim na do Estado.

Hegel e Marx afirmam lidar com a realidade, como, aliás, todo filósofo também afirma. Entretanto, a crítica dirigida a Hegel por Marx é levada para o interior do pensamento hegeliano, pois, assim como o idealismo é verdadeiro em Hegel se for absoluto, para Marx o real precisa ser respeitado pela sua materialidade.

As peculiaridades humanas são tantas, quanto o modo como cada um dos autores citados acima compreendeu sobre a realidade. Tanto a materialidade quanto a idealidade se constituem numa marca que intenta captar a realidade.

Enfim, o conflito da existência humana social, entre espírito e matéria, é levado as mãos do Estado que não deveria ser a racionalização das classes, e sim a expressão de todas as classes. Logo, a sociedade da realidade, com diversas informações, necessita de um bem maior para tanger as desigualdades primeiramente das desinformações, para que então busque o sucesso nos direitos e garantias da existência digna, do trabalho digno, da saúde digna, enfim, uma vida digna a ser vivida.

sábado, 21 de agosto de 2021

Uma interpretação materialista de uma realidade etérea.


O dia do Seu João

    Seu João, um homem de 49 anos, nascido em São Paulo que sempre morou no Capão Redondo, um bairro periférico localizado na zona sul da capital paulista. Um brasileiro nato,  filho da Dona Romilda, a qual descreve como uma baiana batalhadora. Abandonada pelo marido, pai de João, Romilda criou ele e seus cinco irmãos sozinha, com dois empregos e sem qualquer apoio. Era o maior e único exemplo de João, uma lutadora que deixou o mundo após morrer de coronavírus em casa, aguardando por um leito de hospital.


    Atualmente, João está casado e com quatro filhos, ainda sentindo a perda da mãe, aquela que sempre esteve ao seu lado, esforça-se ao máximo para prover a sua família, aquilo que seu desconhecido pai se negou a fazer. Não possui um trabalho fixo, vive de bicos para ao menos conseguir sobreviver e sustentar sua família. O pouco que ganhava por mês, o que mal dava para pagar as contas, com a pandemia, diminuiu ainda mais. Porém, Seu João não desiste, acorda todos os dias pontualmente às cinco da manhã para trabalhar. Pega um ônibus, depois faz baldeação com o metrô em um trajeto que dura mais ou menos duas horas até o centro da cidade. Lá, no centro, Seu João, apenas com um pão com margarina na barriga, inicia seu longo dia de trabalho como homem-placa. Placa que carrega com os seguintes dizeres: compro ouro, vendo ouro e pago bem.


    Enquanto o dia passa, Seu João segue trabalhando embaixo do sol. No termômetro que visualiza na praça, já marca mais de trinta graus. A sensação é de cansaço, mental e físico, porém, desistir não é opção, ao invés disso, mantém-se firme e sonha que algum dia possa ter seu próprio negócio. Isso mesmo! Seu João sonha em ser empreendedor. Quer abrir um açougue no seu bairro, aqueles com balcão, vitrine de carnes, bem tradicional. Quando tinha um trabalho fixo, seu último emprego de carteira assinada, cerca de oito anos atrás, trabalhava no estoque de uma loja de materiais para construção. Chegou a guardar um dinheiro durante esse período na esperança de conseguir abrir seu próprio negócio, porém, depois que foi demitido, usou tudo que tinha guardado para pagar as dívidas que contraiu com um empréstimo no banco, as quais ainda não conseguiu terminar devido aos altos juros que correm todo mês.


    As 18 horas, chega ao fim mais um dia de trabalho de Seu João, que cansado e morto de fome, precisa atravessar a cidade novamente até sua casa, e aliás, está com o aluguel atrasado. Recebe os 20 reais diários, conquistados após um dia inteiro no sol e parte rumo ao Capão Redondo. Metrô e ônibus lotados, e, mesmo com corpo está exausto, precisa fazer uma parada antes de ir pra casa. Assim, passa no mercado com a única nota que recebeu, mas percebe que algo está errado, resmunga baixinho sobre o aumento de preços. A carne, os ovos, até o arroz e feijão João não consegue mais comprar. Então para na padaria, pega apenas alguns pães e volta pra casa desolado.


    Entrega os pães para a esposa lamentando com os olhos, diz que é isso que conseguiu para o jantar e pede para ela providenciar. Pão com margarina será o jantar de seis pessoas, seis brasileiros que, enquanto comem, ouvem no noticiário sobre o aumento dos combustíveis, aumento no preço dos alimentos, aumento na conta de energia, além, é claro, observa os comentários sobre as novidades no mundo político brasileiro. Novidades estas, que Seu João não entende, mas questiona-se mentalmente como ser possível roubarem tanto. Os mesmos políticos que na eleição de 2018, ele confiou e depositou seu voto por serem contra a corrupção, sob o slogan de que iriam mudar tudo isso que tá ai. Seu João acreditou, mas nada mudou, aliás, mudou sim, agora não consegue nem comprar uma carne de segunda pra alimentar sua família. Diz que agora carne agora é luxo e pergunta-se o que pode piorar.


Seu João não tem conhecimento de classe, não sabe o que é um proletário ou um burguês, desconhece o que seja comunismo, mas tem aversão só de ouvir a palavra. Também nunca ouviu falar de Marx, já que na escola onde estudou, parou no ensino fundamental para poder ajudar sua mãe com as contas da casa. Cursar uma faculdade é algo tão distante da sua realidade, que nunca cogitou a ideia para si ou para seus filhos. Fala que é o trabalho que dignifica o homem, mas desconhece como o sistema neoliberal, que cada vez se expande mais, fez os trabalhos desaparecerem. Mal sabe o que é ou o que significa a palavra capitalismo e as relações de trabalho ligadas a ele, porém acredita que exista oportunidade para todos, apenas aguarda a sua. Seu João só quer uma vida melhor, para ele e sua família e por isso, mesmo mal nutrido e exausto, deita na cama planejando o dia seguinte. Antes de pegar no sono, profere que o próximo dia será melhor que hoje, que amanhã será um novo dia e que as coisas irão melhorar.



Claudio Pacheco Marinheiro - Turma XXXVIII - Direito (Noturno)