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domingo, 8 de agosto de 2021

A VIDA É DESAFIO

 “Sempre fui sonhador é isso que me mantem vivo

Quando pivete, meu sonho era ser jogador de futebol

Vai vendo!

Mas o sistema limita nossa vida de tal forma

Que tive que fazer minha escolha, sonhar ou sobreviver

Os anos se passaram e eu fui me esquivando do circulo vicioso

Porem o capitalismo me obrigou a ser bem sucedido

Acredito que o sonho de todo pobre, é ser rico

Em busca do meu sonho de consumo

Procurei dar uma solução rápida e fácil pros meus problemas

O crime”

 

    A musica “a vida é desafio” do grupo Racionais MC´s começa com esse depoimento do cantor Afro X que se encaixa em uma ampla parte das pessoas que vivem nas periferias e que infelizmente tem de recorrer ao crime para sobreviver, essa escolha inclui essas pessoas em uma espécie de “estado paralelo” que é formado pelo mundo do crime, sendo que esse estado possui suas próprias regras de conduta.

    A filosofia proposta por Durkheim pode ser amplamente observada no exemplo aqui abordado, há um fracasso das instituições do estado nesse trecho da música “A vida é desafio”, quando Afro X conta seu sonho de ser jogador de futebol e como o sistema limitou o sonho dele, é fácil de identificar aqui um estado que não investe na escola da periferia e muito menos investe no esporte da periferia, essa abstenção do estado demonstra o adoecimento das instituições, que fracassam em seu papel e forçam os jovens de periferia a escolher entre sonhar ou sobreviver em conjunto com o mundo do crime.

    Outros pontos da filosofia de Durkheim podem ser vistos nas sociedades paralelas construídas pelo crime. Durkheim aborda o ato de fazer justiça com as próprias mãos e essa é uma realidade no mundo atual, principalmente em alguns casos dentro do mundo do crime, punir um adultério cortando o cabelo da mulher que cometeu essa infração é um exemplo e serve ainda para coibir o mesmo comportamento em outras pessoas, vale lembrar que Durkheim apenas analisa tudo isso sem fazer juízo de valor.

    É possível ver ainda como certos comportamentos contribuem para a coesão dessa sociedade. Um criminoso que se nega a roubar em seu próprio bairro pois percebe que todos ali estão vivendo juntos acaba observando também que não é vantajoso para si cometer aquele delito ali pois ele corre o risco de ficar mal visto dentro da própria comunidade. Esse ato de se se negar a roubar no bairro em que vive contribui para que a coesão naquele ambiente seja mantida.

    De maneira geral a filosofia que Durkheim se propõe a observar pode ser amplamente vista em nossa sociedade atual, sobretudo nas sociedades menos complexas onde o próprio direito se da de uma forma mais compacta e principalmente no que diz respeito ao direito penal, não necessitando necessariamente de um envolvimento do estado e de toda a burocracia que vem com ele para se punir determinadas infrações.

Victor Hugo da Silva Fernandes  | Turma XXXVIII       | Noturno 

Anomia educacional

 

Recebendo heranças da filosofia positivista de Auguste Comte, o francês Émile Durkheim desenvolveu seu próprio raciocínio acerca do funcionamento da sociedade na qual ele estava inserido. Para isso, utilizou-se de métodos sociológicos que possuíam como alicerce a percepção dos fatos sociais, isto é, as maneiras como os indivíduos agiam de acordo com pressões exteriores (Coerção). Assim, a visão primordial nos estudos de Durkheim está voltada para a coletividade, e sua funcionalidade deve estar em perfeito equilíbrio, ou seja, é necessário o respeito das regras, que mantém a coesão social.

            De acordo com a óptica estabelecida acima, mostra-se de suma importância o papel da Educação na sociedade durkheimiana. Isso porque a anomia- deterioração dessas regras de coesão- deve ser evitada ao máximo, logo, todos os indivíduos necessitam internalizar essas normas desde a infância, para que cresçam em perfeita harmonia com o organismo social estabelecido. Por meio dessa classificação, a filosofia do francês é conhecida como funcionalista, pois associa uma sociedade a um organismo humano, nos quais a harmonia precisa reinar para que possam continuar vivos, portanto, um simples desequilíbrio pode levar a suas desestruturações completas.

            Ademais, não somente a educação é imprescindível para a internalização dos padrões de comportamento, como também é de grande valor para a explicação das causas eficientes, isto é, a funcionalidade dos fenômenos observáveis na sociedade. Tal qual as relações entre crime e punição, uma vez que a última possui como função social a geração de uma consciência coletiva que tema cometer tal crime. Desse modo, a sociologia presente nas escolas demonstra-se de enorme valia para a existência de uma sociedade pautada nas ideias de Émile Durkheim.

            Entretanto, na realidade brasileira hodierna, esse ideal está longe de ser posto em prática. Devido ao novo projeto de implementação do novo Ensino Médio, no qual, segundo a Lei 13.415/2017, que trata da Reforma do Ensino Médio, o ensino da disciplina sociologia torna-se opção dos estados e municípios de mantê-la como obrigatória ou não. Assim, uma enorme mudança na educação brasileira é iminente, pois a educação não será homogênea em todo o país, de modo a instituir uma anomia geral, já que cada município tratará de internalizar as normas de formas distintas, resultando em um aumento nas desigualdades sociais no Brasil, que já se mostravam em níveis estratosféricos.

            É imprescindível, portanto, a percepção de que a lógica funcionalista desenvolvida pelo famoso sociólogo, Émile Durkheim propõe uma visão de sociedade pautada no coletivismo e na manutenção de valores já consolidados, tal qual o Positivismo de Auguste Comte. Contudo, Durkheim evidencia a importância da sociologia como ciência capaz de explicar os fatos sociais não apenas como soluções imediatistas, mas sim como descobridora das causas eficientes, das funções e utilidades desses fenômenos em determinadas sociedades. Dessa forma, torna-se visível que a proposição do Novo Ensino Médio brasileiro de inferiorizar a disciplina Sociologia tende a criar uma enorme anomia.

 

Matheus Granucci Burgarelli- Direito Matutino, 1° semestre

Exemplificando Durkheim

 

Dona Maria leva uma vida simples, tem uma família humilde, mora no interior de São Paulo e teve que abandonar a escola para conseguir ajudar a mãe a pagar as contas quando era mais jovem. Na sua cidadezinha todos se conhecem, e em certo dia saiu uma noticia no jornal local de que uma mulher havia sofrido uma tentativa de estupro quando estava voltando para casa de uma festa; ao se reunir com suas vizinhas não se falava outra coisa senão sobre a roupa curta da moça e que ela estava pedindo por aquilo, Ana Clara, filha do meio de Maria, ficou revoltada com toda discussão, ela não conseguia entender como essas pessoas ainda pensavam dessa maneira. Após uma semana o caso foi ficando de lado, mas a jovem ainda estava tentando digerir toda a situação, foi quando ela percebeu que tais atitudes aconteciam devido aos padrões culturais do local e que estava fora da consciência dessas mulheres que era errado julgar a mulher desse jeito.

Fazendo uma ligação entre o caso descrito e Émile Durkheim, que é um dos principais construtores da sociologia, tem-se um exemplo do que é um fato social e como ele pode causar um choque de cultura. Esse estudo mais aprofundado da sociedade foi um marco muito importante para entendermos a causa das coisas, antes se julgava o caso pelo momento, sem levar em consideração o que levou a pessoa a praticar aquilo.

Outro ponto importante é com relação à modernização das coisas, com o passar do tempo os estudos que deveriam ser mais compreensivos estão seguindo uma linha mais técnica, necessitando de um especialista para abordar o assunto, a exemplo disso tem-se o direito. No Brasil, as prisões sofrem de superlotação, isso ocorre devido à organização mais técnica de se julgar um caso, se a pessoa infringe uma norma, por mais simples que seja ela vai presa.



Julia Piva, Direito noturno - 
1° ano

Reflexão a partir do conceito de direito na sociedade primitiva e moderna

 

             Para Durkheim, a solidariedade se divide em mecânica e orgânica. A mecânica, presente nas sociedades primitivas, é fruto do compartilhamento de crenças e valores iguais entre o grupo, formando uma consciência coletiva. Já a orgânica encontra-se na sociedade moderna, consequência da divisão social do trabalho, sendo mantida a coesão por meio da interdependência dos indivíduos. Nesse sentido, cabe uma análise do direito presente em cada uma dessas sociedades em paralelo à contemporaneidade.

          No meio primitivo, o direito assume um caráter repressivo, a pena está ligada à ideia da vergonha, da reação passional, que atinge também aqueles ao redor. Contudo, na esfera moderna, o direito é restitutivo, o qual admite como papel a volta à normalidade anterior. Sob essa perspectiva, me questiono quando analiso o cenário nacional. Mesmo o Brasil sendo uma sociedade moderna, ainda percebo práticas tendenciosas ao direito da comunidade primitiva. Como exemplo, em Belo Horizonte, um ladrão foi agredido com pedras pelos civis ao roubar uma moto. Toda aquela ideia de penalizá-lo para coibir, quase como um castigo, parece estar presente na atualidade.

Portanto, tendo como auxílio esse caso atual, de poucos meses atrás, percebo que o direito repressivo quase que coexiste com o restitutivo. Posto isso, há uma espécie de persistência da “brutalidade” na pena adotada, de ecoar um sentimento de vergonha como na sociedade primitiva, assim como nota-se a tentativa de volta ao “normal” com a mediação por meio dos órgãos competentes, resultado da divisão social do trabalho da sociedade moderna, que será feita depois desse acontecimento.

Anna Beatriz Hashioka- Primeiro semestre de direito diurno

O papel da educação para o funcionalismo de Durkheim

 

Funcionalismo é um ramo da antropologia e da sociologia que busca explicar a sociedade com base nas funções de cada estrutura social. Tal corrente acredita que os fenômenos sociais têm origem nas funções de cada estrutura, sendo o individuo apenas um substrato para a manifestação destes. Essas funções se complementam e criam um todo coeso, isto é, a própria sociedade. Assim, cabe ao sociólogo e ao antropólogo entender a correspondência entre os fenômenos sociais e suas funções com o intuito de compreender como a sociedade funciona.

Nesse sentido, a educação assume um importante papel para a manutenção dessa coesão.  Isso pois, quando os indivíduos são ensinados desde pequenos como a sociedade funciona, suas regras, suas estruturas etc., eles passam a internalizá-las e não as questionar, mantendo a estrutura da sociedade. Segundo Durkheim, a educação promove uma pressão na criança “pressão mesma do meio social que tende a moldá-la à sua imagem” (DURKHEIM, p. 6). Portanto, para o funcionalismo, a educação não deve induzir a crítica, deve apenas transmitir as regras sociais como dogmas a fim de manter a sociedade coesa.

Na modernidade, a tentativa de tirar matérias como Sociologia e Filosofia é um exemplo desse tipo de pensamento. Essas matérias, ao expor diversas correntes ideológicas, induzem o sujeito a crítica e a reflexão, as quais podem incidir sobre as estruturas da própria sociedade. Na visão funcionalista, esse questionamento é perigoso, pois pode levar a anomia, ou seja, a reformulação das regras sociais e, consequentemente, da própria sociedade. Logo, a criança deve passar “por um intenso exercício de contenção de suas extravagâncias e desejos” mediado por um sistema educacional que “extingue a criatividade, ou os impulsos de natureza investigativa” (CATANI, RODRIGUEZ; 2000). Dessa forma, cortar essa possibilidade de crítica e reflexão torna-se essencial para a manutenção da coesão social.

Dessarte, nota-se, na atualidade brasileira, uma tentativa de promover uma educação não crítica, visto as tentativas de, por meio de reformulações no Plano Nacional da Educação, eliminar matérias que proporcionam o questionamento da realidade e enfatizar as que expõem os fatos como “prontos e acabados”. O resultado é a manutenção da estrutura social brasileira, marcada por desigualdades entre classes e privilégios aos que pertencem às classes mais altas.

Turma XXXVIII - Diurno

CATANI, Fernando Henrique; RODRIGUEZ, Vicente. Durkheim e a Educação Para a Sociedade. Sociologia da Educação, 2000. Disponível em: http://www.lite.fe.unicamp.br/cursos/ep340/t2.html. Acesso em: 07 de agosto de 2021.

DURKHEIM, Émile. “O que é fato social?”. In: As regras do método sociológico (1895). 3a. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Durkheim em uma abordagem mais contemporânea

 

Durkheim procurou entender melhor a sociedade conforme o período e contexto da época em que viveu, porém podemos observar que suas analises também fazem sentido em relação a atualidade. Dessa maneira, nasce a ideia das consciências individuais e coletivas, tendo em vista que essa segunda acaba por determinar fatos sociais, mesmo que muitas vezes de uma forma que não percebemos, pelo fato de ser “imposta” a nós desde o nascimento.

Primeiramente, quando nascemos estamos totalmente dominados por uma consciência individual, porém ao longo da vida aprendemos coisas (fatos sociais) que são resultantes da consciência coletiva do grupo em que temos convívio. Dessa maneira, todas as vezes que cometemos “desvios”, acabamos sofrendo um tipo de coerção, como broncas, tapinhas e até mesmo o velho truque de ficar por horas virado para a parede sem fazer nada. Assim, para Durkheim esse processo serve para diminuir a consciência individual e aumentar a coletiva, para de certa forma moldar o indivíduo para uma esfera maior de convivência social que ele irá ser exposto no futuro, por meio de relações sociais advindas de atividades como a escola e o trabalho.

De forma síncrona, Durkheim sustenta que os fatos sociais possuem três características fundamentais a serem observadas, sendo elas: exterioridade, coercibilidade e generalidade. Para exemplificar a exterioridade podemos dizer que eles existem independentemente da consciência e atitudes individuais do indivíduo, pois já está, de certa forma, enraizado na sociedade. Já a coercibilidade faz relação ao fato social ser imposto ao indivíduo, chegando até mesmo ao ponto de que se ele o descumprir poderá sofrer punições, como por exemplo acontece quando o indivíduo acaba cometendo um crime, o que gera essas punições como forma de coerção por ele acabar gerando um desequilíbrio a sociedade, algo que Durkheim denomina como anomalia. Para finalizar, essa noção de generalidade classifica o fato social como aquilo que submete todos ao seu domínio, pois se direciona para a maioria das pessoas. 

Portanto, percebemos como Durkheim analisa e explica os fatos sociais de uma forma relacionada ao domínio da consciência coletiva em relação a individual. Assim, estabelece também uma visão de que quando um crime for cometido, não devemos apenas culpar o indivíduo presente no momento, mas sim levar em consideração todo o contexto que o fez chegar aquela atitude “desviante”, o que mostra o fracasso de instituições como a educação e família, fato que vem sendo esquecido pela sociedade atual, tendo em vista que boa parte da sociedade pede até mesmo a morte de pessoas que muitas vezes roubaram comida para alimentar seus filhos.

Uma Vanguarda Conservadora


   Émile Durkheim é o "pai da sociologia", um vanguardista que refinou e aprimorou o método de Comte, o primeiro a romper a sociologia das outras ciências e torná-la algo próprio, e como toda ciência, propor o seu objeto de estudo. Na teoria de Durkheim, o objeto de estudo da sociologia seriam os fatos sociais, "coisas" pré-estabelecidas na sociedade que independeriam da vontade dos homens. Embora inegável contribuição para a sociologia, é importante a noção que as ideias de Durkheim possuem caráter conservador, e são obstáculos para a  mudança social no mundo contemporâneo.

   Analisando as obras de Durkheim, existe uma clara diferença entre os fatos sociais comuns, que seriam a norma, e os fatos sociais patológicos. Nessa perspectiva, os fatos sociais patológicos seriam qualquer atitude ou acontecimento que fugisse da "normalidade", rompendo a funcionalidade da sociedade e suas partes. Após entendido e analisado friamente esse desvio da normalidade, era previsto uma repressão para que as funções sociais comuns retornassem. Diante disso, o ideal de Durkheim não toleraria atos revolucionários ou mudanças drásticas no comportamento social, revelando seu caráter conservador.

   Nessa perspectiva, é clara a incompatibilidade do método durkheimiano com a sociedade contemporânea. Uma era de lutas por direitos e constantes mudanças é algo considerado nocivo a sociedade funcionalista de Durkheim, que desafiariam os fatos sociais comuns, como o casamento, a família e o patriarcado, destruindo a suposta hierarquia proposta pelo pensador.

   Em suma, Émile Durkheim é o grande responsável por trazer a sociologia ao mundo como a conhecemos hoje, entretanto, sua análise fria das partes da sociedade representam um perigo para mudanças positivas na era contemporânea, principalmente para as minorias  marginalizadas e as lutas por direitos fundamentais


Matheus de Souza Lusko

Turma XXXVIII - Direito

Período Matutino 

sábado, 7 de agosto de 2021

'Durcain' e os meus castigos.

 Querido diário,

Hoje mamãe me bateu na frente de todo mundo. Eu 'tavo' com muita fome e não tinha nadinha em casa, então fui pegar uma manga na árvore da Dona Marta sem pedir. Mamãe disse que a surra foi para meu próprio bem porque se as outras crianças vissem e pegassem a manga seria um 'pobremão' para nossa vila. Papai me contou a história de que o Brasil não 'tava bão', ninguém conseguia 'trabaiar' certinho e a nossa vilazinha não recebia mais comida para alimentar todo mundo. Por minha causa, mamãe e papai tiveram que ir lá na frente da igreja para conversarem com o Coronel, ele 'tava' zangado e falava que não podia acontecer de novo, que Dona Marta não gostou nadinha d'eu ir pegar a manga dela. Seu Coronel falou 'ingual' minha mamãe "estou fazendo isso porque preciso que os outros entendam que é errado e não façam isso, seria ruim de viver juntos." Quando papai me viu com as pessoas, me mandou ficar  na casa da minha amiguinha Júlia, mas ouvi a mamãe dela falando para outra vizinha que agora meu papai vai ter que trabalhar muito mais e pagar pra Dona Marta um tantão de dinheiro por não sei quantos meses. Escrevendo para você, me lembrei do meu primo Túlio, ele é da cidade e muito inteligente e uma vez falou sobre um tal de 'Durcain' e que o nosso jeito de 'falá', de 'vesti', de 'cumê' aqui na vila era algo que 'agente' não escolhia e era tão forte na gente que se 'agente' não fizesse 'ingual' todo mundo, 'agente' ficava envergonhado e ficava de castigo. Acho que o Túlio 'tava' certo, depois que mamãe me bateu eu não queria mais ir na rua brincá e papai chegou todo triste em casa, até se trancou no quarto. Mas ninguém 'intende' que eu só peguei a manga porque eu não tinha comido ontem, espero que papai me desculpe, nunca mais irei pegar a manga da Dona Marta.


Bruna Soares Teixeira

1º ano Direito - Noturno

O conservadorismo de Durkheim

    Durkheim, em sua visão funcionalista, defende um pensamento visivelmente organicista, segundo o qual a sociedade atuaria como um organismo biológico, composto por fragmentos correlatos e em uma coexistência hierárquica que, para o funcionamento pleno, precisam de um ordenamento. Sob essa perspectiva, caso exista ocorrência de algum empecilho, é sinal de que o desempenho das partes que integram o corpo social não está sendo consumado.  Dessa forma, é dever da Sociologia identificar quais são as esferas que manifestam disfunções na sociedade, indicando os componentes que estariam ‘desalinhados’ e  desagregados da estrutura social. Com isso, o equilíbrio, a harmonia e a ordem voltariam a existir no corpo social.

    À vista disso, Durkheim salienta a diferenciação entre fatos sociais comuns e os fatos sociais ‘patológicos’. Nesse sentido, o que não funcionava com normalidade era considerado patológico; desse modo, as patologias necessitariam ser combatidas a partir do uso da repressão. A coerção perpetra de modo direto na vida do indivíduo quando este realiza ações contrárias às vontades da coletividade, contra a ordem social. Sob esse prisma, pode-se dizer que há um aspecto conservador nas premissas de Durkheim. Partindo desse pressuposto, entende-se que o homem não pode dar início a processos revolucionários, a fim de romper com a ordem, e, justamente por isso, naturaliza a desigualdade social e minimiza questões basilares da sociedade fundada por classes.

    Dessa forma, o pensamento conservador durkheimiano propõe o emprego de normas coesivas, morais, e, em seguida, intervenção por meio do controle social. Sendo assim, os elementos considerados disfuncionais e divergentes da normalidade são identificados como impasses morais, suscetíveis de ‘reparação’ por meio de uma ação social coercitiva. Então, movimentos que contestam a ordem vigente e que pretendem alcançar uma mudança social serão estreitamente reprimidos e rejeitados pelo ideal de Durkheim. Trata-se, portanto, de um plano político conservador.

    Em síntese, é importante romper com esse princípio da análise durkheimiana. Constituída por ideologias naturalistas, organicistas e evolucionárias da sociedade, essa teoria favoreceu a legitimação da ordem social burguesa, corroborando com o rótulo de ‘conservadorismo’ que incide sobre a sociologia de Durkheim.

Clara Crotti Cravo - 1° Semestre - Diurno

Pandemia & Anomia

 

Sem dúvidas Émile Durkheim é um dos nomes mais marcantes da sociologia. Nascido na segunda metade do século XIX, Durkheim teve clara influência do positivismo, que buscava entender a sociedade a partir do estudo das ciências da natureza. Em decorrência disso também, o sociólogo achava que para refletir sobre a sociedade e os fatos sociais que a moldam era necessário certo distanciamento, afastando emoções e parcialidades fazer científico social.

Uma contribuição importante que o sociólogo trouxe foi a reflexão sobre a Anomia social, esta presente em vários momentos da solidariedade orgânica pós-capitalista, outro tema de discussão do autor. Anomia é um conceito criado por Durkheim para se definir a mudança abrupta da sociedade, quando o progresso é interrompido de alguma forma, gerando crises econômicas. De acordo com ele, a anomia ocorre no processo complexo de solidariedade orgânica, com o desenvolvimento das sociedades modernas, que tendem a tornar confusas a relação entre indivíduos, passando da fase pré-industrial para a industrial. Assim, as pessoas perdem a referência momentânea na sociedade, agindo individualmente. Não é difícil encontrar exemplos de momentos em que se deu este fenômeno. Em 1929, durante A Grande Depressão, a maior crise econômica da história dos estados unidos, instalou-se entre a sociedade um intenso momento anomico, assim como na época do governo Collor, devido à inflação e ao fisco que levou ao desespero milhões de brasileiros. Infelizmente, hodiernamente, em maior ou menor grau, a anomia pode ocorrer, seja em escala nacional ou mundial. A pandemia do novo Coronavírus veio à tona para mostrar o quão frágil o ser humano é perante a um vírus tão pequeno, o qual se calcula que todos os exemplares do mundo caberiam em uma lata de refrigerante pequena e ainda sobraria espaço. É evidente que além das mais de 4 milhões de mortes em decorrência da Covid, houve também uma crise de ordem econômica em diversos países. Muitos dos postos de emprego foram fechados, comércios e empresas faliram e muitas outras reduziram a produção, fazendo com que o progresso e a dinâmica da sociedade de uma hora para a outra mudasse completamente, trazendo por consequência um estado de anomia social. Agora, depois de quase dois anos desta tragédia velada que assolou o mundo, é possível enxergar uma retomada na ordem tanto econômica, com os empregos e produção, quanto afetiva e social, com a volta gradual da possibilidade e segurança de haver contato entre as pessoas de maneira presencial.

Fica evidente também que a questão do suicídio abordada por Durkheim não deve exatamente ser levada como verdade absoluta, mas ajuda a compreender a alta desse tipo de ação. Tendo em vista o cenário de distanciamento social, mortes e danos econômicos, o número de afetados por depressão aumentou consideravelmente desde o começo de 2020. O mesmo foi observado nos números de suicídio, que poderiam ser explicados, não descartando também outras explicações para tal ação, a anomia social a qual o país e o mundo vivem.  

Em suma, apesar de toda a dificuldade imposta por crises como a pandemia do novo Coronavírus, espera-se que gradualmente a sociedade supere a anomia sobre a qual Durkheim versava e prossiga com segurança para um momento onde a ordem econômica e social estejam reestabelecidas.


Matheus O. de Carvalho Direito, noturno, primeiro semestre.

Dia doze de Novembro - A Engrenagem Social

 Poucas vezes em minha vida tive a sensação exata de que um certo dia valeu a pena ser vivido... Aquele 12 de novembro era um deles. 

O senhor Silva é alguém que encontro nos bares perto de minha casa há alguns anos. Homem de meia idade, cabelos brancos e família bem estruturada. Estudou nas melhores universidades e fez fortuna Brasil a fora... Diz que só voltou para o interior porque sentia falta da tranquilidade da cidadezinha natal. Apesar de ser um empresário bem sucedido, nunca havia o ouvido se gabar de seus magníficos feitos ou de suas enormes empresas. Ele sempre me pareceu alguém muito humilde e com um coração gigante... Nessa noite, porém, senti que estava um pouco mais apático que o usual. 


- O senhor está bem, Silva?
- Ah, meu filho... quem me dera... Quanto mais velho fico, mais pareço questionar a validade das decisões que fiz até aqui.
- Pô, seu Silva... Como é que pode? O senhor é bem sucedido... fez uma grana aí e tem uma família de dar inveja!
- Vocês que são jovens pensam que isso é tudo? Nunca quis ser empresário, filho... Quando tinha sua idade queria ser artista de rua. Desses que fazem apresentação lá na Paulista, sabe? Desisti do sonho porque ouvi baboseira de todos os lados... Uns diziam que era coisa de vagabundo, que eu não queria trabalhar e que meus pais iam ter que sustentar filho "viado"... Fico mais triste ainda quando vejo que hoje em dia esse discurso tomou conta do país, e tem gente de sobra pra chamar louco de "mito"...
- Ah, mas mesmo assim, né?! O senhor chegou onde muita pouca gente consegue... Pode não ter atingido seu sonho, mas contribuiu bastante para a vida de muitos brasileiros... Quanto é que o senhor já empregou nesse nosso Brasilzão?
- Que é que importa? Fiz dinheiro fazendo pai de família trabalhar dez horas por dia repetindo o mesmo movimento... Ainda por cima, era obrigado a dizer que as coisas eram assim mesmo, que a vida era desse jeito... Tudo funcionando como um corpo humano, em ordem e organicamente, cada um com sua especialidade! Desde quando apertar parafuso e pintar caixa faz alguém ser especial? Um bando de mentira corporativa... Sabe, quando eu fundei a empresa não era isso que eu tinha em mente... Queria inovar e fazer diferente, ser bom com a maioria, de verdade!  Mas você bem conhece esse mundo... Ou a gente se entrega, ou é engolido pela concorrência. Hoje sou esse velho bem vestido aqui, mas já fui idealista! Queria um mundo mais justo, menos desigual... acho que o tempo é que apagou meu brilho.
O que eu quero que você entenda, querido... É que quando alguém disser para você que toda essa desgraça é parte do mundo, e que basta aceitar, você deixa entrar por um ouvido e sair pelo outro, entendeu? O mundo tá cheio de gente ruim achando que sabe demais... Eu perdi muito tempo acreditando na mentira que me ensinaram, que o que importa é ter o verde dentro da carteira e consegui-lo de forma honesta. Aliás, não sei que honestidade é essa que tanto dizem... O que é que difere o grande corporativista que eu sou do ladrão de sabonete? Um deles rouba o tempo da vida de seus irmãos, o outro, um pedaço de gordura... Enfim, eu nunca fui pro xadrez, mas o irmão que queria tomar banho foi... pegou pena máxima ainda. Aposta quanto? Esse é o mundo que você vive, jovem... E ainda tem quem diga que tá tudo funcionando exatamente como deveria...

Sendo sincero, não me lembro bem como é que a conversa terminou. Afinal, era sexta de noite e eu tinha acabado de sair da faculdade... Eu merecia uns shots...
O fato é que talvez o senhor Silva esteja certo... Infelizmente, depois daquele dia nunca mais o vi. Talvez, tenha decidido ignorar o mundo e viver o sonho de ser artista... Só o tempo dirá.
A verdade é que no dia doze de novembro eu aprendi duas coisas. Uma delas é que eu nunca quero perder meu idealismo, porque se existe uma coisa que não me apetece é estar sozinho em um bar questionando minhas escolhas no auge de meus 50 e tantos. A outra, é que mais de três shots já me mandam direto para a cama... vivendo e aprendendo.

Pedro Basaglia - 1° semestre Noturno

Consciência e solidariedade conforme a sociedade.

O fato social é composto pelos costumes e maneiras de agir e de pensar que uma sociedade domina, para Durkheim, essas tradições resultam em regras morais as quais causam uma coesão social. A moral, tanto no Direito quanto para o conceito do sociólogo Durkheim, possui o poder de reprimir os indivíduos a praticar tal ato, quando esse é considerado errado pelo conjunto social. No entanto, o sociólogo aponta duas definições de solidariedade que influencia diretamente na coesão social, são elas: a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica. De acordo com Durkheim, a primeira citada é aquela que caracteriza as sociedades pré-capitalistas, nas quais há baixa consciência individual, predominando a consciência coletiva que controla a sociedade. Contudo, a orgânica caracteriza a sociedade moderna, a qual abrange uma grande divisão de funções, consequentemente há maior independência individual, dificultando a harmonização da sociedade.

Tendo em vista isso, é extremamente notável a atuação da moral no emprego desses dois conceitos de solidariedade em contextos de temporalidade diferente. Para exemplificação disso são utilizáveis os avanços tecnológicos e o surgimento das redes sociais. A sociedade atual está sendo regida pela tecnologia, através de computadores e telefones celulares as informações estão sendo transmitidas simultaneamente, dessa forma, a divisão do trabalho tem sido imensamente maior. Logo, as redes sociais tem sido um espaço que facilita as pessoas se expressarem melhor, muita das vezes através do anonimato, tal característica possibilita maior liberdade para afrontes e intersecções de opiniões, consolidando a solidariedade orgânica.

Por conseguinte, a solidariedade mecânica pode ser relacionada a época que não existia internet e computadores em casa, por isso não ocorria tantas oportunidades para conflitos anônimos, visto que não havia redes sociais e, portanto, dificultava a consciência individual. Com isso, muitos grupos minoritários eram mais prejudicados do que são hoje, uma vez que suas pautas eram frequentemente ignoradas. Numa sociedade mecânica, temas considerados como “polêmicos” dificilmente eram discutidos, como, por exemplo, a legalização do aborto. Todavia, numa sociedade orgânica as redes sociais têm possibilitado essas ações, daí surge mais questionamentos e opiniões diferentes que consequentemente resulta na desarmonia social.

Em suma, Durkheim expõe metodologias da sociologia que são facilmente observáveis. A moral ainda permanece nas sociedades, no entanto, de forma mais aberta, facilitando assim a discussão de pautas que antes eram ignoradas. Antigamente certos questionamentos não eram feitos por receio da moral social e atualmente, não só são feitos como reivindicados. Nesse sentido, a moral possui dois lados, o bom que pode evitar atos realmente repudiáveis, como a violência, mas também possui o mal, que é o de restringir o questionamento de coisas que têm de ser questionadas.

Luana Silva Araújo Souza - 1°Ano Noturno

Uma breve associação entre o ser coletivo, o fato social e a imposição da feminilidade na sociedade capitalista

 


Não é segredo pra ninguém que pra vocês estarem lendo esse texto, escrito por uma mulher, antes muitas mulheres tiveram que lutar frente a diversas castrações que foram impostas ao gênero feminino durante o percurso histórico. Porém, para além disso é primordial estabelecer que o papel social definido as mulheres na sociedade não surgiram naturalmente, mas sim foram logicas impostas para garantir o controle reprodutivo da humanidade, pois seja numa crise humanitária ou numa ascendente progressão econômica há de se prever e controlar a natalidade dentro da lógica capitalista. 

O evento mais marcante e que aqui irei chamar de genocídio das mulheres, em alusão ao debate histórico de Silvia Friedericci em seu livro “O Calibã e a Bruxa”, foi a Caça às Bruxas. É também sabido que o patriarcado e toda a coerção que ele engendra sobre as mulheres não nasceu ali, porém, muito do que é institucionalizado e até hoje age de forma coercitiva nasceu naquele momento. Contudo, pode se admitir que é partir deste momento histórico que a feminilidade, bem como sua leitura social, hoje pode ser entendida como um fato social. 

Para Durkheim, o fato social não se trata necessariamente de um evento, como está no imaginário do que é fato, mas tudo aquilo que é um construto humano, ora, nenhuma menina ao atingir sua maturidade (outro conceito não muito natural) desejaria em sã consciência submeter-se a procedimentos estéticos doloridos, como a extração com cera de seus pelos em partes sensíveis, por exemplo.  

A problemática maior dentro da imposição da feminilidade é que existe uma serie de micro agressões que são naturalizadas em nome de um “bem maior”, em nome de uma estética ideal da fêmea humana na sociedade. Porém para além do que significa idealizar um ser humano, o que o torna mais objetificado, todos esses rituais impostos levam consigo em algum grau a naturalização da dor e do sofrimento para serem atingidos e, portanto, naturalizam pouco a pouco a falácia de que certos sofrimentos são normais para que se possa atingir os objetivos. 

Por fim, o que quero deixar claro aqui é que, o “ser coletivo”, que existe até hoje e imprime represália sobre todos aqueles que fogem dos padrões de gênero que por ele foi estabelecido, nasceu em circunstancias históricas onde o estado e a igreja católica e protestante unidos institucionalizaram a violência e a castração da liberdade da mulher em nome de uma lógica de controle capitalista aos meios de reprodução. O que hoje temos por “correto” para o comportamento feminino dentro da lógica imperativa do senso comum, é um fato social que desde muito antigamente vem sendo exigido e até hoje não ceder a ele, significa, dadas às devidas proporções, ser jogada na fogueira. 


Stephani E. C. Luz

Dom Quixote não fez nada de errado

        Durkheim ainda que rejeitasse formalmente muitas ideias de seu antecessor, Augusto Comte, absorveu seu método e tentou refiná-lo. Sua proposta para os estudos da sociedade, os quais ele próprio inaugurou como matéria acadêmica com o nome dado por Comte; Sociologia, era extremamente similar às dele em muitos aspectos. Seguindo a tendência de sua época, seu método era uma tentativa de cientificizar este campo de estudos por meio de realiza-los baseando-se em dados quantitativos. Teorizando ele que assim, seria possível prever com exatidão quais seriam os efeitos sociais que um dado fato acarretaria, como um aumento da miséria, do desemprego ou qualquer outro.



        Em seu estudo sobre o suicídio, ele buscou verificar a tese de que o suicídio é um ato pessoal. Nela, analisando os dados, descobriu que existiam predisposições para taxas mais altas para certos grupos de pessoas: católicos se suicidavam menos que protestantes, casados menos que divorciados, cidadãos de países mais estáveis menos do que cidadãos de países turbulentos etc.. Porém também notou que quando elas aumentavam ou diminuiam, o faziam proporcionalmente ao seu número inicial. Um país que aumentasse em 20% seu número de suicídios em dado ano, quando estudados os dados mais profundamente, se descobria que os suicídios de católicos, protestantes, casados, divorciados e outros haviam subido em porcentagens semelhantes uns aos outros, ainda que o número absoluto fosse diferente, o que indicava que este aumento era resposta a um fator externo, que ainda que amenizado ou potencializado em seus números por características próprias dos váriados grupos, era comum a todos percentualmente. Comprovando assim, ser este não mais um ato puramente pessoal, pois se assim fosse, esta variação seria randômica entre os componentes dos diferentes grupos.

        Uma das causas sugeridas por ele como causa dessas variações era a desintegração social causada pela sociedade moderna, onde os laços tradicionais entre as pessoas por meio da religião, da família e da comunidade próxima começam a ruir em face as novas dinâmicas sociais da vida moderna, acreditando ele que esta ruína poderia ser remediada com a substituição orgânica destes laços por novos baseados na necessidade de cooperação para a produção nos regimes modernos de divisão de trabalho que esta nova sociedade impõe.



        Porém isto não é o que se apresenta na realidade moderna. Esta crescente modernização das relações criou sociedades doentes, composta por indivíduos literalmente doentes e isolados de seu meio. Hoje não é raro encontrar pessoas que nunca tenham conversado com seu vizinho, ainda que sejam vizinhos há anos, e muito menos raro é descobrir que estas mesmas pessoas tomam anti depressivos ou ansiolíticos diariamente por se sentirem muito sozinhos. A total interação social diária de um crescente número de pessoas do mundo moderno se resume a meia dúzia de palavras trocadas com o caixa do mercado ou da padaria antes de voltar para a mais absoluta solidão em uma sociedade que não se importaria se esta pessoa morresse, obviamente causando graves danos psicológicos e emocionais decorrente desta forma de “solidão compartilhada” do mundo moderno.



        Além dos danos psicológicos desta desintegração, pode ser citado o agigantamento do papel do estado na vida social. Anteriormente relegado a situações de conflito violento, como briga de vizinhos e violência doméstica, hoje é de seu papel em alguns países legislar sobre a altura da cerca de um jardim, horário permitido para uso de equipamento de construção barulhento, como furadeiras ou martelos, que apesar de terem mérito em sí, poderiam e seriam resolvidos há 50 anos atrás com uma breve conversa entre vizinhos ou uma discussão na associação de moradores do próprio do bairro, que nem sempre era amigável, mas que era muito mais próxima e menos robotizada do que a inflexível frieza de uma regra estatal a ser imposta por policiais a quem sequer quem chama conhece.

        Portanto se mostram objetivamente superiores as formas de vida tradicionais para a organização social de forma pacífica e amigável, bem como para a saúde mental e psicológica de seus integrantes. Um radical poderia dizer que a sociedade industrial somente serviu para a perda pelos povos do pouco de liberdade e vivência comunitária que tinham para a concentração de riquezas em grandes grupos por trás das indústrias, empreendimentos de grande porte e seus lacaios na esfera pública em troca de farelos de conforto alienante, que os algema ainda mais à esta cadeia nefasta de produção irracional de bens e serviços que mais e mais claramente se revelam como sendo pagos discretamente com a alma, saúde e liberdade de seus compradores.




Rafael C. M. Martinelli, Direito, Noturno, 1º Sem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Carta para quem não liga

Querida vó, 

Essa já é a centésima carta que lhe escrevo, uma por semana, desde que você entrou em coma. Já são quase dois anos desde o acidente. Chego a pensar que esses escritos parecem mais um diário do que as minhas atualizações de vida pra senhora, mas eu precisava de algo pra substituir nossos cafés semanais. E, sabe, lá no hospital é muito difícil, não consigo falar tudo que preciso pra você com o pai e a mãe por perto, às vezes com o enfermeiro na sala. É como se eu não pudesse ser eu na frente de todo mundo. Então faço as cartas.  

Queria te contar mais em voz alta sobre minha namorada, a Mari, mas ainda não falei pro resto da família que eu sou uma menina que gosta de meninas, sabe, vó? Lésbica, como te expliquei. Você me diria que não tem nada de errado, eu bem sei, falaria que eu sou quem tenho que ser. Mas é complicado...Por mais que eu me entenda comigo mesma, é como se algo estivesse me pressionando pra não falar disso. Assunto proibido. É errado? Pra mim, não, mas eu sei o que significa para as outras pessoas, e é muito difícil carregar o peso de ir contra um comportamento convencionado. 

A Mari parou de depilar a perna essa semana, vó! Você já pensou no porquê de a gente nunca tentar isso? Ela disse que refletiu e entendeu que precisava diferenciar o quanto se sentia confortável sem pelos na perna porque queria se ver assim ou porque queria que as pessoas não encarassem ela de outra forma. É sobre decidir se quer uma ação “de você por você” ou “de você pela sociedade”, ela disse. Mesmo que a linha seja muito tênue, no final das contas. Não acho que a gente tenha alguma vontade não tocada pelas pressões do coletivo, sabe? Mesmo no que é mais particular, a gente traz essa influência do que é externo. Uma mistura que só, vó...O que será que você diria? Sempre falou que não ligava pro que as pessoas pensavam, mas até quem não liga acaba tendo esses pensamentos como referência (pra concordar ou discordar).

Dizem que nesse mundo onde a sociedade influencia muito do que somos, tudo caminha pra um certo equilíbrio. Mesmo que o externo esteja sempre acima de nós, por fazer muita pressão em nossas vidas, isso não seria tão ruim, porque é em nome de uma harmonia...É como se a gente fosse se adaptando ao mundo e ele fosse mudando com o tempo (sempre pra melhor?). Sei lá. Eu não vejo equilíbrio nisso, vó, eu vejo tanta disputa. Uma disputa entre os grupos que dizem como a sociedade deve ser- os mais poderosos- e outros que, ou seguem as regras, ou não ligam pra elas, como a senhora, e, às vezes, quebram as regras. Pra mim, isso é sobre conflito, não equilíbrio, sabe? E me encontro cada vez mais no grupo que não quer ligar pra essas normas, mesmo que ligando, já que elas servem de referência, né? Ainda que para serem transgredidas.

Em harmonia ou conflito, dá pra entender que essas ordens existem. E quando a gente nota, tá sendo influenciada por elas: seja em não falar com você no hospital por não me sentir à vontade com pai e mãe; não conversando abertamente sobre minha namorada com as pessoas, por mais que eu não veja nada de errado em nossa relação ou ainda não refletindo sobre como quero conviver com meus pelos da perna. Queria saber o que você pensaria, vó, do que se lembrará quando acordar e quem será depois de alguns anos não convivendo com tantas dessas regras. Se é que você pensará assim. Afinal, por mais que a sociedade continue existindo com suas normas e a senhora esteja longe delas agora, essas regras permanecem dentro de nossa mente, né? Volte pra me contar.

                                                                                             Abraços,

                                                                                             Sua neta.


Letícia Magalhães, Noturno.

O ponto inicial do estudo sociológico para Durkheim

O estudo da sociedade deve ser objetiva, devemos nos afastar dos dogmas pessoais, das paixões e das opiniões que carregamos em nosso âmago de modo que isso não influencie em nossa definição. A partir disso, o sociólogo Durkheim determinou o fato social como objeto fundamental para a compreensão do tema, sempre desprovido de conclusões pessoais ou psicológicas, já que a sociedade é o fator principal desta discussão para o autor. Para traçar uma comparação entre o pensamento Freudiano, um dos fundadores da psicanálise, que, para compreender os problemas humanos, fazia um análise inteira do ser, diferentemente de seu contemporâneo, para Durkheim, a sociologia deveria ser tratada como uma coisa, um estudo da sociedade na sua forma mais ampla, descartando tais valores individuais ou internos, e, através da observação externa impessoal como objetivo.

Desta forma, o estudo sociológico independe de opiniões, somente assim seria realmente um estudo científico, porque, ao se livrar das amarras pessoais, e observar de fora a sociedade na qual pertence ou apenas estuda, alvitraria a objetividade ao fato social. Se não observar a sociedade como um todo, suas instituições sociais, o fato social se perde, já que, segundo o autor, tal estudo não depende apenas da soma dos indivíduos, ou de determinados grupos, tendo assim sua observação comprometida e maculada.

As instituições sociais, tidas pelo autor como um organismo vivo, são coercitivas, conversadoras e impositivas, conectadas por um conjunto de regras que Durkheim afirma não ser possível haver violação, evitando assim a anomia social. A violação seria a quebra da ordem, mas as instituições sociais seriam o ponto de inflexão que estabilizaria o comportamento através de regras e preceitos. Um exemplo disso, dá-se a partir da compreensão das religiões nas sociedades, que se sobrepõe ao interesse e a vontade individual para assim criar uma instituição social e partir dela prover punição e condutas, independente de qual período ou região tal sociedade pertenceu.

Então, o fato social determina-se, a partir do estudo da sociologia, no entendimento das leis sociológicas para que, independentemente dos indivíduos, respeitasse a ordem natural e assim, através de métodos científicos, compreendesse as ações sociais como um todo, afastando-se de denominações individuais e subjetivas. Esse seria o ponto inicial para o estudo e partir da observação, reconhecer e compreender a sociedade, suas relações, punições de modo que nota-se um equilíbrio e coesão entre elas.

Claudio Marinheiro - Turma XXXVIII (Noturno)

A superlotação carcerária e os reflexos do direito punitivo

     Hodiernamente, no Brasil, há uma superlotação da população carcerária, somado a existência de um direito, predominantemente, punitivo, o qual reproduz aspectos análogos à escravidão. Dessa forma, o pensamento coletivo de que criminosos merecem castigo ou, até mesmo, a morte evidencia o porquê da ocorrência dessas situações precárias no sistema penitenciário brasileiro. Ademais, a estruturação de leis que afirmam preceitos morais de desigualdade resulta em danos à solidariedade humana.

     Primeiramente, na esfera sociológica, Émile Durkheim em sua obra, A divisão do trabalho social, argumenta sobre o direito restitutivo. A saber que este seria o responsável por reinserir o detento na sociedade mediante formas de educação e aprendizado, ou seja, um meio de regular o convívio interpessoal. Com isso, Durkheim estabelece uma relação entre esse método e o sistema nervoso necessário para constituir harmonicamente as funções do corpo.

     Seguindo essa lógica comparativa de um corpo biológico com as interações humanas em uma comunidade, o sociólogo afirma o conceito de solidariedade orgânica, na qual ocorre uma maior divisão do trabalho, tornando os indivíduos mais especializados em suas profissões. Todavia, essa maior dependência entre os seres humanos não se evidencia somente em questões profissionais, mas também na formação de uma moral coletiva. Sendo assim, quando esta consciência predominante é rompida por algum de seus integrantes, considera-se o ato contrário à lei, condenando-o.

  Em suma, a superlotação carcerária é reflexo de um direito punitivo, o qual constitui, majoritariamente, o pensamento jurídico brasileiro, enfatizando medidas de repressão, ao invés de promover uma maior reinserção social da população em cárcere.


Bruno Solon Viana - Direito Matutino Primeiro Semestre

solidariedade orgânica em terras paulistanas numa madrugada fria em quatro quadrinhos

 



O quadrinho exposto acima baseia-se no que Émile Durkheim definia como 'solidariedade orgânica'. Para o sociólogo, a solidariedade seria o fator que garantiria a coesão social. A solidariedade orgânica, em oposição à solidariedade mecânica, seria característica das sociedades modernas, em que predomina a intensa divisão do trabalho, na qual cada sujeito desempenha uma função especializada, o que faz com que o grau de interdependência entre os indivíduos seja ainda maior. Além disso, as pessoas diferem em seus valores e crenças, assim como em seus interesses pessoais e dessa forma, prevalece a consciência individual sobre a consciência coletiva. A sociedade, como Durkheim pensa, seria tal qual um organismo vivo: os órgãos são diferentes entre si, mas dependem um do outro para um bom funcionamento do ser vivo.

Laura Ruas - 1° ano, Direito Matutino

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Funcionalismo: das origens à sociedade capitalista contemporânea

 Definida, a grosso modo, como a ciência que estuda a sociedade e os fenômenos que nela ocorrem, a Sociologia busca explicar os vários fatores que diferenciam o comportamento humano ou, de outra forma, por quais razões grupos sociais distintos tendem a comportar-se de maneira semelhante. Embora Comte tenha sido o primeiro a separá-la das demais ciências humanas, é somente em Durkheim que surgem as regras do método sociológico. Para este, a tarefa da sociologia não é apenas descobrir a causa dos fenômenos sociais, mas a sua “causa eficiente”, sua função/utilidade em determinada sociedade.

Uma forma de ilustrar esse pensamento pode ser feita através da análise da violência urbana. Enquanto o positivismo comtiano atribui a ela o colapso moral e seus desdobramentos, como o afrouxamento da família, do Direito e da Política, o funcionalismo de Durkheim busca a sua causa eficiente no fracasso de instituições sociais, como a escola, o Estado, o mercado de trabalho, gerando o aprofundamento das desigualdades. Outro ponto do pensamento funcionalista destaca que a explicação dos fatos sociais não se vincula exclusivamente à satisfação das necessidades sociais imediatas. Nesse sentido, o casamento, enquanto instituição social, recorre ao amor romântico e à afetividade como um verniz que o caracteriza, mas o que explica esse instituto na sociedade atual é a sua própria sobrevivência enquanto sociedade.

Instituições e práticas sociais não surgem do nada, mas de necessidades, de causas eficientes, que se vinculam ao ordenamento geral do organismo social. Não basta que os indivíduos queiram, mas que hajam implicações internas que condicionem os fenômenos. A função representa, nesse cenário, as necessidades gerais e intrínsecas do organismo social, é a parte que cabe a determinado fato social no estabelecimento da harmonia geral. É possível utilizar esse pensamento para a análise do Direito na complexidade da sociedade capitalista, em especial nos conceitos que envolvem crimes e punições.

No caso da punição, a função desta está vinculada à resposta oferecida não ao delito em si, mas à consciência coletiva. Existe uma utilidade social no comportamento criminoso e desviante, pois ao provocar o desencadeamento da punição, prevista pelo Direito, o crime serve para irradiar a reafirmação contínua moral. Quando a norma penal reprime os atos que parecem nocivos ao grupo social, a pena é aplicada não necessariamente de acordo com seu impacto social. A natureza do crime por si mesma não explica a pena, ela tem relação com a pacificação das consciências coletivas, de modo a se defrontarem com o que pode ser o sentenciamento por colocar essa ameaça na sociedade (a ira divina, por exemplo).

De modo análogo, o perigo das reminiscências durkheinianas pode ser observado quando da pena consistindo numa reação passional e não técnica, por isso pode ultrapassar o criminoso em si, atingindo sua família, seu grupo social, seus companheiros, ecoando de forma mais intensa e significativa. Entre tantos exemplos, temos o conhecido fato do linchamento de uma mulher acusada de bruxaria no Guarujá, ou ainda o caso do menino Evandro, que acabou colaborando para a prisão ilegal de acusados massacrados por uma opinião pública equivocada. Fica evidente, dessa forma, o duplo sentido da pena: destruição do que nos faz mal, mas também instinto de conservação, como sistema de alerta, usando exemplos práticos para impedir que se cometa os crimes já praticados por terceiros.


Laredo Silva e Oliveira - 1º Ano de Direito - Noturno

     No texto de Durkheim, vê-se uma profunda reflexão sobre a liberdade. Pensando sobre, cheguei a conclusão que ninguém é portador dela. Desde quando nascemos não escolhemos nada, não escolhemos a nação, a religião e nem mesmo nossos próprios nomes, somos criados pelo molde de nossos pais e como eles querem que crescemos, para que depois, quando sairmos de casa, vivermos sobre as métricas sociais diretamente -através do Marketing e dos padrões de beleza e ações - que nos prendem como correntes, impossíveis de se quebrar. 

    Com isto, fiz o seguinte poema: 

A inexistência da Verdadeira Liberdade 


Estou perdido, me sinto desolado 

O mundo parece embaralhado e fora de Estado

Parei para refletir durante um instante

Estava sozinho, mas igual a todos os outros bonecos da Estante 


Nos falam de liberdade, somos livres no céu 

Mas acorrentados as suas leis, histórias e crenças 

E mesmo com tudo isto, todas as desavenças 

somos uma noiva, cujo os olhos foram tampados pelo véu 


Casados com uma vida que nem sequer escolhemos

Tudo apenas depende de onde nascemos 

Mas ainda acha que escolheu? Nem o básico


Nome? Religião? Crenças e vontade?

Nem um desses você opinou 

Ainda assim acha que tens liberdade?! 


Carlos Gabriel Pagliuzo, 1º Direito Matutino


sexta-feira, 30 de julho de 2021

O GATO QUE QUERIA LATIR

 


Havia uma sociedade de gatos a beira de uma rodovia, próspera e ajustada, pelo fato de seguir uma linha firme de conduta até um tanto quanto conservadora e tinha como líder um lindo gato branco, gracioso pelo porte e por dar exemplo de como um gato de verdade deveria se portar, de espirito felino por natureza, jamais se dedicou a grandes projetos pessoais mas se dedicava integralmente pela comunidade da qual era líder, naturalmente o gato ao atingir a idade adulta encontrou uma parceira e com ela constituiu família, pois seu pai já era velho e logo ele se veria líder daquela comunidade e que tal líder devia ser exemplo de virtude e tradição e assim aconteceu a morte de seu pai e uma tranquila ascensão a liderança daquela utópica e pequena comunidade.

A sociedade era feliz e a vida era boa, todos sentiam a mesma tranquilidade e podiam passar os dias ao sol se lambendo, a noite todos tinham caçavam gordos ratos e não havia ali gato que quisesse uma vida melhor, era apenas seguir aquele modelo que já vinha de tempos e aproveitar as nove vidas que cada um possuía, claro, nem tudo era uma panaceia e haviam gatos que transgrediam os costumes e normas, mas afinal desde que não fossem muitos gatos esses seriam até uteis para aplicar alguma punição e mostrar aos demais que a vida dentro das normas era melhor, mas ainda assim, o líder gato prudente sempre aplicava medidas voltadas a reparar os desvios e restabelecer a rotina, procurando não deixar reparações entre a gataiada.

A maior preocupação da vida do líder era mesmo dar continuidade ao que lhe fora legado, pois aquela organização já se encontrava pronta, já havia o lugar, os ensinamentos, os costumes, não havia nada para ser mudado e ele também não desejava mudar nada por la e assim como seu pai seu maior desejo era apenas manter aquele modelo estável e entrega-lo em segurança ao seu filho que naquela altura já era um lindo gatinho siamês que o pai tentava fazer pegar gosto e correr atrás de uma bolinha de lã, a qual o danadinho insistia em ignorar.

O tempo foi passando e o jovem felino não correspondia as expectativas do pai, que a princípio achava que aquilo era apenas coisa do fulgor da adolescência e que por si só a situação se resolveria, e ia dando seus pitacos de sabedoria ao futuro líder da comunidade. O tempo foi passando e as preocupações do líder aumentaram, pois o jovem gato era muito questionador e muitas vezes não concordava com os ensinamentos do pai e questionava o porque das coisas, coisas que seu pai nunca se importou de questionar e que desejava avidamente passar ao filho mas de fato não sabia a origem dos porquês.

Um dia o jovem gato conheceu uma cadela e se encantou por ela, seu jeito gracioso de andar, de cheirar as coisas, mas sobretudo sua sede de saber, sua curiosidade aguçada, tudo cheirava e a cada nova descoberta a serelepe se punha a latir com tamanha alegria que o bichano percebeu que o latir era um clímax eufórico da cadelinha curiosa e ele queria muito ser capaz de aprender daquela maneira de se expressar, chegando em casa ele foi direto ao seu pai contar o que presenciou e queria que seu pai o ensinasse a latir, pois ao chegar perto da cadelinha para tentar aprender a mesma fugiu para o meio do mato. O líder quase teve um treco no coração, pois onde já se viu tamanho disparate, seu filho, seu sucessor querendo aprender a latir como um cachorro, seu inimigo natural mortal, a tragédia só não era maior porque a mãe do jovem gato disse que tudo não passava de brincadeira de criança, contudo o gato não se conformava com aquilo e fora procurar saber com outros gatos se algum o ensinaria a latir.

Certo dia estava o líder em sua caçada noturna com outros gatos e ao longe se ouviu um cachorro latir, rapidamente um dos companheiros de caça fez chacota dizendo que seu filho o estava chamando e todos riram do sério e imponente líder, fazendo com que o infeliz piadista quase perdesse algumas de suas vidas com a surra que levou imediatamente, logo todos se calaram, mas nasceu ali os rumores que o filho do líder era um gato que queria latir.

A situação foi se alastrando de maneira silenciosa, como todo gato sabe ser, mas em curtíssimo tempo toda comunidade só comentava sobre o gato que queria latir e isso foi fulminante para o poderoso líder, seu filho, seu sucessor, sendo piada onde ele e seus antepassados governaram com tanto respeito e como já era de se esperar descontou sua raiva no pobre o curioso gatinho, que de maneira triste se viu hostilizado em casa, zombado em seu meio social e não compreendia que modelo era aquele que não se permitia sair dos padrões impostos sem ser massacrado por todos, quando saia de casa era seguido por dezenas de gatos incitando-o a latir, gatos que antes eram seus amigos e bajuladores querendo cair nas graças do futuro líder, mas que agora gritavam seu nome e escarneciam do pobre animal.

O gato no auge de seu inconformismo, viu que nunca poderia latir, ou mesmo cogitar latir, pois fora censurado e cancelado de seu meio e se de fato latisse não poderia voltar para sua casa pois seria morto dentro ou fora dela, desesperado o gato não era mais compreendido ou aceito, e num ímpeto ocasionado pelo frenesi daquela epifania, em que tudo ficou claro na sua frente, não poderia ser o gato que nascera para latir ou para pensar, e pulou embaixo da roda de um caminhão de abacaxis que passava pela rodovia naquele momento, seu pai ao ver a cena respirou aliviado, pois ao se suicidar seu filho enfim tinha exercido um papel compreensível por aquela sociedade e nunca mais correria o risco de ser conhecido pelo gato que conseguiu latir, mas apenas pelo gato que se matou, e com esses pensamentos pôs-se a tratar do enterro de seu amado filho.


NOME: ANTONIO JAIR DE SOUSA JUNIOR

TEXTO SOBRE: O FATO SOCIAL - DURKHEIM

DIREITO MATUTINO

TURMA: XXXVIII