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segunda-feira, 16 de março de 2026

Contra o conforto das certezas no pensamento científico

 O individualismo como característica presente na sociedade atual representa a falta de imaginação sociológica, conceito proposto pelo sociólogo americano Wright Mills, o qual se refere à capacidade de ter uma visão de mundo não limitada a particular. Nesse contexto, o Direito, Ciência composta por variáveis humanas, sofre a influência desse ensimesmamento contemporâneo, o que o afasta dos moldes da ciência moderna propostos por Descartes e Bacon. 

  A deficiência da imaginação sociológica deve-se ao conforto da manutenção do status quo. É mais fácil fechar-se em seu próprio núcleo social, em suas experiências, e viver acreditando que não tem privilégios ou deficiências sobre seus contemporâneos. Assim, ao surgir uma ameaça à norma, inicia-se o medo do grupo dominante, que se manifesta em correntes de pensamento conservadoras e na propagação de uma suposta “crise de valores”. Para um homem não é interessante uma mulher poder ocupar os mesmos altos cargos, para uma pessoa branca não é interessante a existência de cotas raciais e para a classe dominante não é interessante programas sociais de assistência a pessoas de menor renda; uma vez que a perpetuação do discurso já conhecido é mais confortável do que se questionar acerca dele. Assim, a dúvida, base da metodologia científica proposta por Descartes, encontra-se suprimida no contexto contemporâneo. Ao colocar as perturbações pessoais em prioridade e as evidências racionais em segundo plano, a análise encontra-se enviesada. Situação constante nos julgamentos atuais, distanciando o Direito da razão.

  Nesse sentido, a luta por um Direito que conte com uma justiça mais ampla e efetiva interliga-se à busca por um fortalecimento da imaginação sociológica, esse olhar atento sobre o outro e a conjuntura social. Dessa forma, assim como houve a virada para a ciência moderna com a inserção do método proposto por Bacon, o qual frisou a importância da observação e análise para a construção de uma interpretação da natureza fidedigna, o Direito poderá acessar uma superfície mais profunda no julgamento de diferentes casos.

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