Sempre acreditei que existem duas versões de um mesmo indivíduo: a que ele realmente é e a que ele exterioriza para terceiros. Quando você vive dentro de uma estrutura social desde cedo, aprende que, para ser melhor aceito, precisa seguir toda uma maneira de agir, pensar e sentir que não depende apenas da vontade individual. Você aprende — ou apenas ignora — que virar gado em massa é mais fácil do que ser uma ovelha negra pensante.
O sociólogo Émile Durkheim, há mais de 100 anos, definia que toda forma de agir, pensar ou sentir que existe fora do indivíduo e exerce influência ou pressão sobre ele é um fato social. Ou seja, são regras, normas e costumes da sociedade que orientam o comportamento das pessoas, mesmo que elas não percebam.
Nesse sentido, os fatos sociais atuam de maneira silenciosa no cotidiano, moldando comportamentos, expectativas e formas de pensar. Muitas vezes seguimos determinadas normas e costumes sem sequer perceber que estamos apenas reproduzindo padrões coletivos construídos socialmente.
Quanto mais analiso as pessoas à minha volta e até mesmo a mim mesma, começo a acreditar que Durkheim não estava errado. Antes mesmo de nascer, outras pessoas escolhem uma religião, valores e crenças nas quais você deverá acreditar, e cabe a você, após algum tempo, decidir se continuará acreditando nelas ou não. Porém, não é fácil romper com dogmas e ideias moldadas por terceiros que estão intrinsecamente fundidas em você.
Assim, surge um impasse: ser você mesmo e externalizar esse “eu” para todos ou continuar sendo aquilo que a sociedade espera que você seja, seguindo os mesmos padrões, normas e regras para ser socialmente aceito, correndo o risco de ser rejeitado caso escolha o caminho contrário. No fim do dia, cada pessoa precisa colocar na balança se vale a pena ser apenas uma versão de si mesma ou continuar interpretando uma segunda versão para se encaixar melhor no todo social.
Assim, a reflexão proposta por Émile Durkheim continua extremamente atual, pois revela que a sociedade exerce uma influência constante sobre o indivíduo, moldando suas escolhas, identidades e comportamentos, mesmo quando acreditamos estar agindo de forma totalmente livre.
Mariana Bertholino Barion - Direito Matutino
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