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segunda-feira, 16 de março de 2026

Churrasco com... Sentido 

Recentemente, durante uma partida de RPG, um dos membros do grupo anunciou que teria sido convidado para um churrasco, e que iria se ausentar mais cedo do jogo para participar. Gosto de dizer que churrasco mobiliza paixões, mesmo antes de acontecer, e o resto da manhã foi tomada pelo assunto comida, entretenimento, família. Como eu não sou um grande entendedor de nenhum desses assuntos, me mantive calado, até que meu silêncio foi percebido. 

  • - E você Tales, curte um futebol, um churrasco? 

  • - Sim, gosto. 

  • - Ah legal, curte uma carne, uma asinha 

  • - Na maioria das vezes passo a pão e vinagrete. 

  • - Como assim? Você é vegetariano? 

  • - Não sei se posso dizer isso... Eu não como carne. 

  • - Você come peixe? 

  • - Não. 

  • - Come ovo? 

  • - Não. 

  • - Ué, então você é vegetariano. Você nunca falou nada pra gente.  

  • - Pode ser que sim, não sou de ficar falando sobre isso. 

  • - Então você é vegetariano, só não é testemunha do vegetarianismo. 

  • - Gostei da distinção. 


E gostei mesmo... Após as partidas voltei a pensar no churrasco – talvez eu seja a pessoa que não come carne que mais pense em churrasco. E já frequentei vários, mesmo sem comer a carne, sempre acabo me virando com outras coisas, e já cheguei até a levar a minha própria comida. Mas a reflexão era outra. Não me vejo no direito de ficar enchendo o saco dos outros, afinal, não comer carne – ou ser vegetariano – foi uma escolha minha, e eu preciso arcar com ela. E isso não deveria ser um problema, todas as pessoas têm o direito de comer ou não comer o que quiserem. Mas não é o que parece. Refletindo mais a fundo sobre o assunto, percebo o quanto o mundo alimentício está no 8 ou 80.  

As pessoas não podem só ser vegetarianas ou veganas, elas precisam ser testemunhas do vegetarianismo, ou do veganismo. Elas não podem apenas comer carne, precisam fazer parte da seita carnívora. Não basta fazer a própria escolha, é preciso escolher pelos outros. E aqueles que estão no meio, que só querem viver suas vidas, sentem que perderam o direito de apenas comerem o que querem sem dar maiores explicações do porquê preferem margarina a manteiga, ou porque continuam comendo filé de frango à milanesa, se poderiam comer milanesa de abobrinha. Isso sem falar dos terroristas nutricionais. Não pode açúcar, não pode leite, a soja faz broxar (preocupante)...  

Chegamos ao ponto da tutela do medo, da imposição, do apelo aos ancestrais, e da pregação alimentar. Cada um, não apenas exercendo sua livre escolha, mas também tentando escrevê-la como lei, que deve ser seguida por todos, mesmo que a maioria não se importe com nada disso. Qual é o sentido? Deveria existir uma lei dizendo que cada um pode comer o que quiser... Mas isso também não tem sentido, visto que não deveria ser um problema. O conflito pode se fazer em qualquer área, até mesmo nas mais triviais. Por essas e outras, não compartilho minhas preferências alimentares com frequência. Prefiro não me explicar, e apenas continuar comendo meu pão com vinagrete no churrasco com tranquilidade. 

 

Tatiane da Silva - 1º ano de direito noturno 

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