Recentemente, vi na internet que a deputada federal Erika Hilton tomou posse da presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara. Vi a polêmica que isso causou entre as pessoas, e, naturalmente, como toda discussão que acontece na Internet, parece as opiniões se dividem entre dois polos: quem concorda e quem discorda da posse da Erika para a cadeira.
Entre as pessoas que concordam com a posse, elas afirmam que independente da deputada ser uma mulher transgênero, ela tem total competência para tomar frente da comissão pois a sua transexualidade não anula as suas vivências como mulher. Enquanto as pessoas que discordam da posse, entendem que "Erika Hilton não representa as mulheres biológicas" como disse Sophia Barclay (diga-se de passagem que ela também é
uma mulher transgênero). Os contrários a decisão pensam que é necessário que uma mulher cisgênero presida a comissão, pois "A luta das mulheres precisa ser conduzida por quem vive essa realidade desde o nascimento", palavras também da Sophia.
Ao olhar para essa situação, só consigo me lembrar no Bacon e da sua tese da ruptura a autoridade tradicional e da "ciência e poder do homem". Eu entendo que com a Erika assumindo um papel de tal importância dentro da comissão rompe a ideia de uma autoridade tradicional.
Quando Bacon questiona o saber herdado dos antigos, ele questiona a tradição, e uma comissão dos direitos das mulheres já é algo revolucionário por si só, e com uma mulher transgênero presidindo a comissão, tudo se torna ainda mais transgressor, enfraquecendo, mesmo que simbolicamente, o poder que antes não era questionado.
Eu entendo que de maneira (talvez) similar, quando Hilton assume a cadeia, além de ser algo transgressor, ela coloca em prática o conceito de Bacon. Ele diz que quando a tradição não garante mais a verdade, ela passa a ser feita por investigação.
A minha comparação acontece não porque acontece de uma investigação literal, mas porque com a deputada representa uma forma diferenciada de enxergar a sociedade e os direitos das mulheres nela. Logo, os conhecimentos, vivências e estudos da deputada passam a ser um instrumento para transformar o mundo.
O que realmente me intriga no meio de toda essa situação é o preconceito da sociedade diante de Hilton. De certa forma, me espelho na deputada. Apesar de não ser uma pessoa transgênero, ainda me vejo nela pelo fato de sermos duas mulheres negras em uma nação racista. Ainda me vejo nela pelo fato de sermos duas mulheres ambiciosas com grandes sonhos e capacidades. E o principal, ainda me vejo nela pelo fato de sermos mulheres.
Mulheres. Acho que não tem nada mais essencial do que isso. Então quando eu a vejo sofrendo esses ataques, eu me amedronto, porque parece que nada mudou. Mas quando eu vejo quão longe ela foi, eu me fortaleço, porque parece que algo mudou no mundo em que vivemos, por mais minimalista que tenha sido essa mudança.
Isabella Mayara de Góes Salvador - Matutino |
Nenhum comentário:
Postar um comentário