Total de visualizações de página (desde out/2009)

domingo, 22 de agosto de 2021

Coronavírus e a volatilidade da nossa sociedade

 

            Não é segredo que, para provocar mudanças, desde as menores às maiores, faz-se necessário não só o reconhecimento, mas também um profundo entendimento sobre as raízes e estruturas daquilo que se quer modificar. O método para realizar tal aprendizado pode variar de um teórico para outro, como, por exemplo, para os idealistas alemães seguidores de Friedrich Hegel, a base para o conhecimento da sociedade parte do mundo das ideias, então aplicando-se ao mundo real. Já para Karl Marx e Friedrich Engels, em sua concepção materialista, deve-se partir do mundo material, dos indivíduos, suas ações e condições de existência, as quais são facilmente observáveis empiricamente para então formular sua compreensão no mundo das ideias. O segundo método torna-se mais viável à medida que entende o constante processo de desenvolvimento da humanidade, ao analisá-la de forma direta e crua, e o quanto a cultura atual local é primordial para o começo e o fim de sistemas.

              Nossa sociedade é extremamente mutável e, com a atual pandemia que estamos enfrentando há mais de um ano, isso fica ainda mais visível, demonstrando a veracidade da celebre frase do Manifesto Comunista: “Tudo o que é sólido desmancha no ar”. Em tempos de relativa “paz”, tudo parece fixo e imutável, as relações sociais, de trabalho, o mercado e até mesmo as religiões. No entanto, um simples vírus escancarou o quão frágil é o alicerce de nosso sistema e o quão efêmera é nossa realidade, ficou ainda mais fácil enxergar as mazelas que nos rodam, a desigualdade, a fome, a falta de saneamento básico, o desemprego e a exploração da classe dominante. Tal vírus foi o suficiente para abalar a população mundial e tudo aquilo que parecia tão imutável, em segundos era o mais puro éter, volátil, as convicções pessoais e culturais esfumaçando-se diante dos olhos.    

              Toda essa recente turbulência, dentre as várias outras que já existiram na história, em um primeiro momento podem até provocar um senso de união entre todos, mas logo após, instaura-se o cotidiano individualismo, onde prevalece ideais deturpados, como o famoso “antes ele do que eu”, seja tratando-se de empregos ou até de vidas. Logo, apesar do abalo nas estruturas sociais, enquanto as convicções pessoais permanecerem nesse constante darwinismo social, em que um igual tenta obter vantagem no fracasso alheio, a mudança permanecera apenas no plano das ideias.   


- Isabela Batista Pinto- Direito Matutino- Turma XXXVIII

A insuficiência do materialismo-histórico

     Certa vez ouvi que a ideologia era o pensamento artificial que velava a realidade e a impedia de ser contemplada por nós, homens. Marx, de certa forma, concordaria com isso, já que para ele o ideólogo não era ninguém menos que o perpetrador das relações opressivas de classe, através dos pensamentos que arquitetava. Essa seria a superestrutura cultural imposta sobre os proletários, já que os burgueses dominavam a infraestrutura produtiva. 

     No entanto, o que se torna então o materialismo-histórico, uma vez que sai da cabeça de Marx e Engels, senão mais ideologia? De fato, os comandos-maiores dos Partidos Comunistas geralmente se tornam uma nova elite financeira, assim que assumem o poder em seus países. Também costumam colocar as máquinas de propaganda do regime a todo vapor. Mas, é claro, os defensores do trabalhador são dignos de toda a boa-fé. 

     Em resumo, a teoria afirma que a história é movida pelas relações econômicas. Movida! Há um motor material, um impulso que dirige, implacável, os rumos do tempo. De fato, outros pensadores delegariam este poder à divindade ou ao acaso, mas Marx e Engels o entregam às interações de classe. Entenda-se: toda ação humana, todo movimento político, social, toda a história das nações obedeceria unicamente a este caráter, o econômico, e se encaminharia para um final definido: o fim do Estado e a instauração dum novo Paraíso aqui na Terra. 

     A mim isso parece um empobrecimento radical da história, como que para fazê-la caber dentro de uma forma materialista - a essa forma eu chamaria ideologia - além de uma paródia de mal gosto da religião. Pois a experiência humana vai muito além do que vemos nesse mundo: o Amor, a Verdade, a Justiça, são muito maiores do que a mesquinharia imanente, tanto dos marxistas quanto dos próprios burguesesEsse pensamento é um desserviço à vida plena do homem, pois a distorce e diminui. Enfim, é mais um que se soma ao panteão das ideologias, dos que rejeitaram ou fugiram à realidade.


Rafael. M. P. Rosa de Lima - 1º semestre, noturno. 

Uma realidade um tanto surreal

    Acredito que todos já tenham parado pra pensar sobre a felicidade, foi pensando nisso que percebi como estamos vivendo algo fora do normal. Quando foi que normalizamos tudo o que está acontecendo? Algumas pessoas trabalham mais e mais para conseguir transformar a sua realidade, outras saem de casa para lutar por um sonho de sucesso, e há outras que simplesmente se conformam que o "sucesso" não lhes pertence. E qual o resultado dessas tentativas? Na maioria das vezes, só lhes resta o fracasso. Muitos desses sonhadores acabam na rua, deitados na calçada em frente as nossas casas e o pior, eles são incorporados a paisagem como se nada estivesse acontecendo.
    Passamos por pessoas assim todos os dias e acreditamos que elas estão ali porque nunca trabalharam o suficiente para dignificar sua vida. Ou então dizemos que a preguiça domina os mais fracos e justificamos assim a normalidade animalesca que sempre vivemos. O que é mais assustador é como um discurso assim pode ser normalizado e transformado em cotidiano. Orientando dessa forma o nosso jeito de pensar e agir.
    O mecanismo de dominação social mais comum é a criação de um sonho de prosperidade que seria acessível a todos que trabalhassem o suficiente para conquistar o seu espaço no mercado. Mas que mercado é esse que não prioriza o conhecimento? Como pode um estudante sem formação, sem experiência e que não está exatamente na sua área de especialidade ser mais adequado a um cargo simplesmente por ser filho do presidente da empresa? É assim que a sociedade brasileira está justificando a possibilidade de ascensão.
    Baseando todo o seu funcionamento em uma meritocracia falida, que julga como valor a origem social e não a bagagem cultural e intelectual das pessoas. Transformamos todos em números e qualificamos seus valores de acordo com o interesse de retorno. Deixamos que a normalidade tome conta das injustiças e que o discurso dominante renda o valor do melhor preparado ao pensamento: "a minha vez vai chegar...".
    Mas não é só o pobre que se ilude nesse sistema doentio, o milionário que trabalha com a Bolsa de Valores afirma ser feliz. Mas sua vida é movida a cafeína e cocaína. Sua família já tentou todos os tratamentos, mas a desculpa do trabalho ser mais importante sempre convence de que isso é normal. Ele alega que quanto mais dinheiro maior a felicidade da família e que assim eles serão prósperos e completos, afirmando que: "em quanto o dinheiro for bom, tudo vale a pena".
    Pois bem, essas realidades parecem inventadas, certo? A verdade é que essa é a realidade de grande parcela da sociedade, trabalhadores ricos e pobres, acreditam que a felicidade seja oriunda de um sistema dividido em classes determinadas, cuja receita para ser feliz é simplesmente subir para o próximo degrau da acumulação financeira. O custo para esse fim se tornou desprezível. Deixamos de perceber que nem tudo vale a pena, pois afirmamos, piamente, que o trabalho dignifica o homem e o resultado dele é a felicidade. Mas e o preço disso? Um mundo doente, sem pé nem cabeça, famílias quebradas, pessoas perdidas e a fome instaurada. Tudo isso é normal! Desde que você continue trabalhando para ascender ao próximo degrau.
Álvaro Galhanone - 1˚ano Direito Noturno.

Modo de produção e modos de formação social: suas relações e leituras possíveis


 A desregulamentação da indústria e o enfraquecimento das instituições, e de qualquer “jaula” burocrática proposta pelo estado, são engendradas cada vez mais rapidamente pelo modelo neoliberal da economia. A grande questão aqui é, quem propõe e ganha com isso? O que tal realidade proporciona para indivíduos que habitam a periferia da pós modernidade? 

Em primeiro lugar é necessário estabelecer que as relações sociais avançam ou retrocedem, por meio da influência da formação social, o indivíduo urbano e o indivíduo rural, por exemplo, enxergam suas relações de formas distintas e tal realidade nada mais é que a materialidade dos fatos. A sociedade é, portanto, produto da forma de produção à qual pertence. 

Assim como a invasão de Constantinopla e consequente queda do Império Bizantino e a Revolução Francesa que trouxe novas perspectivas político-sociais, o evento que muitos acreditam ser a virada de eras, o que inauguraria de fato a pós modernidade que ensaia há alguns anos, é a pandemia. Num cenário globalizado, de um contexto onde um vírus é detectado em um lado do oceano e a economia do outro continente sente, obriga pessoas a normalizarem a etereidade das coisas, sejam empregos, relações, rotina ou até vidas; a liquidez das relações passa agora por uma institucionalização. 

Ao contrário do que muitos otimistas pensam, o colapso do capitalismo e do neoliberalismo está apenas no seu início, uma vez que, invés de sentirem falta da estabilidade que outrora era uma realidade, agora a população entende que “dá pra viver” dessa forma, e esse fenômeno de acomodação nada mais é que um sintoma do modelo de produção que individualiza todas as responsabilidades e socializa a culpa de cima pra baixo. Para muitos pode parecer absurdo, mas infelizmente há uma massa que sempre viveu com o “dá pra viver”, e quando vieram poucas mudanças que fizeram as minorias enxergarem que existe um outro mundo para se ocupar, enfrenta-se uma crise global de austeridade e restrições. 

Com esta análise não pretendo menosprezar a existência de movimentos que buscam uma revolução, por que inegavelmente há. Porém, a organização dos modelos de produção atual inviabiliza qualquer noção de coletividade e qualquer possibilidade de dialogo fora das bolhas individuais e totalmente personalizadas que cada um acabou formando, pois mesmo que críticos, somos também produtos de uma relação social que existe dentro da lógica neoliberal, portanto há uma dificuldade estrutural de entender a coletividade sem confundir o subjetivo com o individual.  

E no que tange as periferias globais e a falta de estabilidade, antes as mortes diárias por inanição, violência do estado, moradia insegura (quando há) e todos os problemas que afetam as populações negligenciadas; hoje foram aceleradas por uma crise sanitária que afetou a todos e infelizmente dentro da lógica neoliberal há precedentes culturais e até morais que podem transformar as vítimas em culpados, porém não significa que essas populações já não sentiam muito mais intensamente a realidade instável e a ausência das instituições. Não à toa, a moral que sente falta do “senso de responsabilidade”, é rodeada de estereótipos burgueses, pois certas estabilidades que se cobra hoje, muitos morreram sem nem saber que existia. 


Stephani E. C. Luz

Uma interpretação materialista de uma realidade etérea: o cotidiano de muitos.

 

Ao chegarem da escola, Bianca e Alice, 15 e 17 anos, comentam com a mãe Cristina:

-- Mãe, conseguimos um emprego! – disseram.

-- Sério minhas filhas? Que alegria!

-- Sim mãe. Agora vamos conseguir ajudar você e o papai com as contas. – disse Alice.

-- Toda a ajuda é necessária agora que seu pai está desempregado e dependendo de um milagre para conseguir um emprego. E quando vou ver a carteira de trabalho das minhas lindas assinadas? Onde irão trabalhar? – indagou Cristina.

-- Então mãe, vamos trabalhar em uma rede de Buffet infantil, mas não teremos carteira assinada. – falou Bianca.

-- Como funciona então?

-- Nós vamos trabalhar nos finais de semana. A cada festa que nós participarmos, ganharemos 40 reais. Então nós vamos fazer uma festa a tarde e depois iremos para outro Buffet que faz parte da rede, para auxiliar na festa da noite. Precisamos chegar no Buffet da primeira festa às 9h para ajudarmos na organização. Sairemos de lá às 18h e iremos para o próximo lugar. Vamos ajudar na organização até às 20h e depois vamos servir na festa. Acho que até 00h30min já estamos em casa. – explicou Alice.

-- Nossa meninas, isso não é perigoso não? Será que é um bom negócio? – perguntou Cristina, preocupada.

-- Nós ainda podemos comer o que resta das festas mãe, e trabalhar durante a noite de sexta também se precisarmos, e lá perto tem uma linha de ônibus que podemos pegar para voltar para casa e ir para o outro Buffet. – explicou Bianca. 

-- E também nós precisamos né mãe! Foi o que deu para achar por agora. – Completou Alice.

-- Fazer o que né minhas filhas! Então que Deus proteja vocês nessa nova jornada. – Disse Cristina abraçando as filhas.

Isabella Anjos – 1° Semestre - Direito Diurno

Materialismo histórico e a uberização do trabalho


O materialismo marxista é uma forma de análise histórica pela relação de classes. É através da dialética que Marx faz uma reflexão acerca da evolução histórica como um fenômeno mutável e abrangente, pautado principalmente nas formas de produção e de suas consequências.

 

A expansão da produção industrial e a ascensão da burguesia como classe social dominante possibilitou a observação das relações sociais e a formação da ideia de que o sujeito, como parte integrante da sociedade, está intrinsecamente atrelado à sua condição material. Os processos de urbanização e segregação social e econômica tornam, desde o século XIX, essa relação cada vez mais observável.


No século XXI ela é melhor exemplificada pelo fenômeno da uberização. Inicialmente derivada das relações de trabalho propostas pela Uber, hoje essa forma de relação de produção se encontra presente em diversas indústrias e contribui para a expansão do abismo que existe entre classes sociais no que tange às condições materiais. As consequências negativas desse tipo de relação trabalhista são diversas, da precarização das condições de trabalho à falta de estabilidade e segurança (tanto econômica quanto social). 


O caso do entregador de aplicativo Thiago de Jesus, de 33 anos, que morreu em consequência de um AVC enquanto trabalhava, exemplifica perfeitamente esse problema. A empresa para qual ele trabalhava se recusou a pagar qualquer forma de indenização à sua família, argumentando que não havia nenhum vínculo empregatício entre ela e o trabalhador, mesmo que uma porcentagem considerável dos lucros obtidos pelas entregas fosse direto para a empresa.


A falha nas garantias de condições básicas de vida levam cada vez mais pessoas a recorrerem a essa forma de trabalho. Desemprego, precariedade nos serviços de saúde e segurança pública permitem que trabalhadores sejam tratados como ferramentas substituíveis e as empresas contratantes, cujas responsabilidades são repassadas a quem realiza o trabalho, se abstenham de cumprir com o seu papel social.  A relação entre o valor do sujeito e a sua condição material é tão presente hoje quanto era no século XIX. 




“Morreu na contramão atrapalhando o sábado / Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir / A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir / Por me deixar respirar, por me deixar existir / Deus lhe pague”  Trecho da música “Construção” de Chico Buarque de Holanda

Victoria Dote Rozallez da Costa

Turma XXXVIII Direito Matutino


Simulação nº72580 - Planeta Terra

O recruta alienígena da espécie verde começa seu primeiro dia de trabalho após conquistar seu diploma oficial da faculdade no âmbito das pesquisas intergaláticas. Estava animado. Praticamente soltando fogos pelas mãos gosmentas. Cumprimentou todos pelo caminho da base estabelecida a ele, sempre com um sorriso largo no rosto, expondo seus dentes afiados e pontudos. No corpo, tratou-se de deixar suas escamas bem aparadas com o melhor anti ressecamento que poderia encontrar na última viagem cósmica que havia feito pelo próprio sistema solar.

        Qualquer um poderia notar a felicidade de um jovem trabalhador de longe, começando a mais nova etapa de sua vida. Pensava ansioso consigo mesmo sobre qual das possíveis realidades simuladas ele tinha sido encaminhado para estudar. Talvez os Kroogs, com suas incríveis habilidades de raciocínio, destinados a desvendar todo o sentido da vida! Ou quem sabe as Gterks, que conhecem a verdadeira noção de paz, já que nunca tiveram uma única guerra! Ou então...

        — HUMANOS?! — o anteriormente entusiasmado fecha sua expressão de imediato quando seus três olhos veem a designação de trabalho no mural do corredor. 

        Ele passa a andar em passos duros até a sala indicada no folheto, resmungando em seus pensamentos pela quebra bruta de expectativa, porque pelo que sabia da tal humanidade, era um povo cheio de desentendimentos que, em muitas das vezes, eram resolvidos na base do sangue esparramado. Pessoas passam fome e outras enfrentam a obesidade; umas não têm acesso à água nem mesmo para beber e outras esbanjam seu uso para encher piscinas quilométricas… A lista continua por páginas e mais páginas, em uma luta por recursos naturais que o próprio planeta montado forneceu. 

        — Qual é?! Mesmo com as conquistas tecnológicas, ligando a Terra em uma imensa rede de comunicação e a habilidade de construir sua própria história e pensamento, eles ainda têm uma relação desarmônica entre si com prejuízos e vínculos exploratórios. — balança a cabeça de forma incrédula, suspirando ao encarar o painel da simulação terrestre. — Alguns pensadores sociólogos até tentaram abrir os olhos do povo e quem sabe provocar alguma revolução capaz de mudança, como Karl Marx e Friedrich Engels, mas o efeito não é universal… O comunismo, por exemplo, pregando o fim da desigualdade, é motivo de “chacota”. 

        Aparentemente a luta de classes é realmente o motor da história, como Marx mesmo diz. A simulação do Projeto nº72580, o chamado planeta Terra, apenas se movimenta com ela, infelizmente.

Camila Miranda Assi

Direito - Turma XXXVIII

Período Matutino


Brasil: materialismo e dialética

    A concepção materialista da realidade é entendida no sentido de que toda transformação material é alastrada para todas as esferas da sociedade, isto é, uma mudança nas relações de produção também altera o que Marx chama de superestrutura, a política, a cultura, a ideologia vigente. Para ele, a luta de classes, fenômeno dialético, é o que transforma a história em sociedade.

    Nesse sentido dialético e materialista, podemos interpretar a fluida realidade brasileira dos últimos anos. Voltando algumas décadas, para entendermos melhor a atualidade, conseguiremos perceber a presença do fenômeno dialético na política que se aplica até os dias de hoje. Tomemos o Collor de partida. A classe trabalhadora se opõe: lutou contra a perda de direitos arduamente conquistados. A classe burguesa, diante disso, com medo de uma revolução proletária acabasse com seu Estado burguês, também defende a saída do presidente.

    Com um pequeno salto temporal, visualizamos o PT (partido dos trabalhadores) no poder. Partido da classe operária, defendendo sua classe, muitos avanços nesse sentido. Contudo, no aspecto da luta de classe, percebemos um esforço do partido em ter conciliação com interesses da burguesia. A luta entre proletariado e burguesia é camuflada, ficando a primeira sem devida representação ideológica. 

    Somamos a isso a crise econômica experimentada no Brasil, com a recessão de 2014 a 2016, e vemos a mudança da luta de classes no país: não foi uma oportunidade para ascensão da ideologia proletária, mas sim uma imposição da ideologia burguesa. Nas entrelinhas, vemos a exploração da classe trabalhadora como forma de recuperar o capital. Enquanto o posicionamento dos proletários vê-se desorganizado, pela ausência de líderes que, de fato, não combatessem o seu caráter revolucionário.

    Chegamos, assim, na realidade atual, visto que é nesse cenário que surge o bolsonarismo, que nada mais é do que a representação dos interesses burgueses. Bolsonaro, máximo opositor da ascensão da classe trabalhadora, logo na sua posse declara ser o “dia em que o povo começou a se libertar do socialismo”. Entendemos essa defesa do ideal burguês, por exemplo, em sua reforma da previdência (conquista do proletariado)  – aumentando o lucro do capital às custas de mais tempo de exploração dos novos trabalhadores. Ou ainda, na censura da cultura no país, certa perseguição da oposição, ascensão da ideologia religiosa-extrema direita-conservadora, apoio ao armamento (para a elite), incentivo à privatização.

    Interpretando a realidade pela ótica materialista, vemos incontáveis perdas da classe trabalhadora nessa dialética política brasileira. Urge o revide dos ataques, com a luta do proletariado, organização política, resistência. Práxis.

Maria Júlia de Castro Rodrigues - 1º ano/ diurno

 


Uma interpretação materialista de uma realidade etérea

A concepção marxista do materialismo procura explicar o objetivo da produção de bens materiais na vida da sociedade.  Dessa forma, conclui-se que para obter bens materiais importantes para viver, era necessário produzi-lo, assim, se tornando uma condição para a existência da história. Marx e Engels afirmam que tudo aquilo que os homens utilizam na produção de bens materiais, sendo eles, máquinas, ferramentas, instrumentos de trabalhos, etc., são meios de produção. Nesse sentido, entende-se que o homem é um animal que para sobreviver é obrigado a produzir bens e prestar serviços. 

Para Engels e Marx existe uma contradição dentro da sociedade capitalista pois, ele faz com que o proletariado se veja apenas como uma ferramenta de produção sendo excluído dos demais sistemas, como os educacionais e o de saúde, assim, eles produzem e não conseguem ter acesso daquilo deveria ser obrigatório para eles. Fora isso, há uma classe dominante (burguesia), que “controlam” os trabalhadores e não trabalham (de acordo com a concepção marxista), e, além disso, desfruta do que o proletariado produz e possui acesso a todos os sistemas que a classe operária não possui. Dessa maneira, tais problemas fizeram com que Marx e Engels pensassem uma solução resultada do materialismo histórico e dialético.

Outrossim, segundo eles, os trabalhadores deveriam perceber que estão sendo enganados por esse sistema e agir contra ele e, assim, tomar as fábricas da burguesia, assim como, deveriam tomar o poder do Estado que, consoante os dois, serve à burguesia. Consequentemente, Marx definiu tal ação como “revolução do proletariado” sendo a primeira fase daquilo que logo em seguinte se tornaria o comunismo, uma utopia em que não haveria classes e, assim, a eliminação do conflito, uma visão um tanto quanto sonhadora. Mas, para que isso ocorra seria necessário uma ditadura, ou seja, um governo ditador que serviria o proletariado, lembrando que tal ditadura, assim como qualquer outra, suprime e restringe os direitos individuais, a liberdade e nem há participação, ou possui a participação de forma restrita, da população na política. Desse modo, para concretizar  tal ideia seria necessário cortar a liberdade individual dos indivíduos da sociedade e submetê-los a um modo de vida. 

Esse materialismo de Marx busca bater de frente com a ideia idealista, pois para ele esse ideal não consegue fazer alguma mudança significativa na sociedade. Além disso, ele diz que a humanidade é definida por sua produção material e, além disso, ele compreende a história como uma luta de classes, colocando-as uma contra a outra. Sendo assim, na concepção do materialismo dialético entende-se que a sociedade está condicionada à produção material da humanidade e coloca como o principal mal desse sistema, o proletário que trabalha e a burguesia que desfruta de todo esse trabalho sobrando apenas migalhas para o trabalhador.


1º Ano, direito matutino

O tempo de vida e o tempo de produção deveriam ser considerados um só?

Uma das grandes questões na atualidade, quando tratamos da perspectiva do trabalho, é o tempo de produção ter passado a ser o tempo da vida. Tal crítica já foi realizada através de uma análise da teoria materialista de Marx e Engels no mundo hodierno.

A problemática dessa temática envolve diversas esferas: o próprio indivíduo e as suas relações sociais, como amigos e família, por exemplo. Isso porque o universo capitalista obriga as pessoas a trabalharem incessantemente para que tenham condições básicas para uma vida digna. A partir disso, o tempo dedicado ao trabalho torna-se tão vital que as outras áreas da vida tornam-se esquecidas.

Essa lógica capitalista faz com que as pessoas se dediquem integralmente desde jovens para o trabalho, desde a dedicação aos estudos, para que no futuro possam ser trabalhadores dedicados, para servirem ao sistema, até ao caso dos inúmeros jovens que não conseguem finalizar seus estudos devido a necessidade de suprir as demandas básicas da casa.

Dessa forma, o trabalhador torna-se alienado ao trabalho e distante das outras esferas de sua vida que o faria se sentir melhor, como o contato com sua própria família. Um clássico exemplo é dos pais que trabalham o dia todo para garantir dignidade à sua família e acabam se tornando ausentes na vida de seus filhos, prejudicando os laços parentais.

Durante a pandemia do Coronavírus essas questões foram evidenciadas, já que as famílias foram, em sua maioria, obrigadas a passar muito tempo juntas, de forma que as desavenças e as consequências dessa vida corrida e turbulenta que a sociedade capitalista nos obriga a enfrentar foram colocadas em destaque.


Bruna Pereira Aguirre - 1º ano Direito Matutino


Uma breve análise dos meios de produção e das relações de produção na contemporaneidade

 Na perspectiva de Marx e Engels, as condições materiais de existência devem ser o ponto de partida para  a análise de uma sociedade. Isso porque essas condições materiais definem a forma como o homem irá se relacionar com o mundo. Logo, delas originam as relações sociais, o modo como o indivíduo age no dia a dia, e as forças de produção, os instrumentos necessários para que o indivíduo promova sua sobrevivência.

 Nesse sentido, para analisar a sociedade contemporânea é necessário encontrar as condições materiais de existência do individuo hoje. Contudo, o sistema econômico, político e social imposto nas maiorias dos países calca-se na imaterialidade das relações e forças de produção. Chamado de neoliberalismo, tal corrente utiliza a lógica mercadológica da acumulação flexível, isto é, tornar mais flexível o modo de produção com o objetivo de obter lucros e evitar perdas. Assim, as relações sociais tornam-se mais liquidas e as forças de produção são constantemente alteradas.

No plano das relações sociais, o indivíduo encontra-se em constante estado de risco em virtude da possibilidade de mudança permanente – a qualquer momento suas condições de existência podem se alterar ou pela mudança da estrutura produtiva ou das relações de produção e, consequentemente, alterar seus vínculos sociais. Logo, o indivíduo vê-se obrigado a adaptar constantemente a mudanças, não conseguindo projetar sua sobrevivência a longo prazo e nem estabelecendo relações sociais duradouras, seja com o seu trabalho ou com a comunidade em que vivem. O resultado disso é uma crescente onda de ansiedade pois o indivíduo permanece sempre em estado de alerta às possíveis mudanças na sociedade, as quais influenciam diretamente seu modo de se relacionar na sociedade.

Essas constantes mudanças na dinâmica social, econômica e política tem como uma de suas bases a Primeira Revolução Industrial e as subsequentes. A primeira inovou a maquinaria de trabalho, o que promoveu o surgimento de novas formas de trabalho e, consequentemente, novas relações de trabalho. As outras tiveram o mesmo efeito. A diferença das últimas centra-se na velocidade em que ocorreram. Se entre a Primeira e a Segunda, há um espaço temporal de um século, entre a Terceira e a Quarta o espaço foi de menos de 50 anos. Essa rapidez com que as condições materiais se alteram impacta fortemente na sociedade e, consequentemente, no indivíduo.

No plano das forças de produção, há um emprego crescente de tecnologia o que acarreta o desemprego estrutural de muitos trabalhadores. Desse modo, a empresa busca estabelecer vínculos flexíveis com os funcionários em virtude da possibilidade , em breve, substitui-los pela tecnologia.

Somado a isso, há novas modalidades de trabalho que fazem o uso direto da tecnologia, a exemplo das “influencers” digitais utilizam que as redes sociais como seu principal objeto de trabalho para realizar propagandas de diversos produtos. Contudo, o resultado desse trabalho, a propaganda, e o meio pelo qual ela circula, as redes, são imateriais, tornando menos sólidas as relações de trabalho.

Destarte, nota-se uma fragilidade nas relações sociais, as quais podem se romper ou serem substituídas a qualquer momento, e o emprego de meios de trabalho menos sólidos e, portanto, mais frágeis.  Por fim, a realidade torna-se menos material e mais flexível, permanecendo em permanente estado de mudança.

Turma XXXVIII - Diurno

Areia Movediça

Minha vó, trabalhadora do lar. 

Minha amiga, vendedora de bolos.

E eu, por enquanto, estudante. 

Três mulheres e três ocupações.


Vó, que passa horas da rotina

varrendo a calçada da sua casa, 

num ato religioso de lutar contra a

poeira: vive os mesmos dias pra sempre.


E não quer que mude, não 

entende quando a realidade 

ultrapassa a previsão da rotina 

de entrega pra casa e pra família. 


Amiga, que vende bolos com 

seu filho no colo, acostumou-se 

com a instabilidade do novo, ou 

da não garantia de salário no mês. 


Cozinha, limpa, cuida, atende 

clientes, faz um instagram pra loja e 

lá coloca os reels da nossa geração. 

Uma jovem empreendedora, dizem. 


Eu, por enquanto, estudante, 

engulo litros de ansiedade por dia 

na procura de estágios futuros 

e entrega de trabalhos presentes. 


Uma produtividade que assola 

meus instantes traz consigo a 

volatilidade do mercado de trabalho 

e frágil manutenção da universidade. 


Vó, amiga, eu: três mulheres 

em face do tempo-espaço 

feito de areia movediça,

engole até quem resiste. 


Vó foi presa nas amarras 

do trabalho não remunerado

da casa, entregue sempre às 

mulheres, sem ser contestado.


Não escapou da realidade

instável que a faz roer as 

unhas quando o neto não vem 

pro jantar, pra trabalhar na Uber. 


Amiga- também mãe- que trabalha 

na casa e vende bolos pro seu sustento.

Conheceu a pior face do mundo flexível. 

(Des)dobra-se tanto que é mais de uma. 


São três ocupações em uma só mulher, 

fadada por um nome cravado em si: o 

empreendedorismo, maquiagem para o

cansaço de uma vida pouquíssimo digna.  

 

Eu, estudante, que observo o mundo 

e absorvo a amargura de suas relações. 

Os tempos e formas de trabalho mudam, 

a miséria, exploração e opressão continuam.


E até mesmo quem se deu conta de como 

é a vida quando submetida ao capitalismo,

rende-se, de corpo todo atado, na imobilidade

do neoliberalismo: trabalho, trabalho ou trabalho? 


Vendem-nos um discurso de liberdade 

perante à volatilidade dos tempos atuais. 

Em um mundo de imprevisibilidade,

acham que nós fazemos nossas escolhas. 


O que se percebe sobre essas falsas

simetrias entre incerteza e mobilidade, é

que há uma fixidez em tudo isso:

a exploração da maior parte, pelo proveito da minoria. 


Tempos e tempos de mais-valia. 


Letícia Magalhães, Noturno.

Análise marxista da realidade contemporânea

 A fim de realizar uma análise marxista da realidade contemporânea, é necessário compreender o atual sistema econômico, e este é o capitalismo. O sistema capitalista se impõe de maneira global e se expressa na vida cotidiana das pessoas, além da abrangência mundial que tem as condições materiais nessa lógica. De acordo com a obra de David Harvey, o capitalismo passa por um momento de ``acumulação flexível´´, em que a indústria mundial e o setor financeiro passam por flexibilidade espacial e material que acaba por moldar o direito trabalhista. O neoliberalismo seria a definição para a ideologia capaz de operacionalizar essas transformações que o sistema do capital passou nos últimos 60/70 anos.

Nessa nova lógica do capital, a organização administrativa abandona o tipo da ``pirâmide´´ e passa a adotar o pensamento em ``rede´´, de acordo com Sennett. O resultado dessa (re)organização do capital é essa flexibilidade e falta de estabilidade, no que tange a empregos e empresas. O risco passa a ser uma característica do cotidiano que leva a uma visível pandemia de ansiedade e, com isso, é notável uma alienação tão naturalizada que o indivíduo aceita a realidade sem questionar (por exemplo, uma demissão sem causa aparente é justificada como ``parte de como é o mundo de hoje´´ ou ``é a vida, trate de aceitá-la como é´´). Essa alienação é causada pela consciência coletiva que é feita a imagem e semelhança da burguesia contemporânea.

Portanto, a estabilidade financeira é vista como ``algo de outro mundo´´ nos dias de hoje e, assim, a sociedade está cada vez mais exposta diante das tormentas do tempo do capital.

Vitor Raffaini Gheralde- 1 ano direito matutino


Criolo e as histórias do capitalismo etéreo

Lucas Pedro é um rapaz trabalhador, tenta dar orgulho para sua mãe que o criou sozinha. Ele corta a cidade de moto - tão rápido quanto seu pai abandonando a família - entregando comida para um pessoal que está sempre com pressa igual a ele. O símbolo vermelho da empresa para qual trabalha é da cor do sangue derramado em cada acidente do corre, mas não tem seguro de vida, plano médico ou dia de folga para cicatrizar os machucados, a ferida está sempre aberta. As amarras entre empregador e empregado são tão invisíveis quanto Lucas, iludindo o menino o qual se vê como empreendedor independente.

Toda vez que o jovem vai ao mercado é um susto diferente, os preços estão sempre mais altos e a grana que sobra fica mais insignificante a cada compra. Lucas Pedro então “decide” (não é bem uma decisão se ele não tem outra escolha) trabalhar mais para conseguir arcar com as despesas, porém o combustível da moto também só fica mais caro. Às vezes parece que não vai dar pé, que as contas do mês não vão fechar e quando o rapaz pensa nisso é como se lhe faltasse ar. De uns tempos pra cá tem sido difícil até para levantar da cama.


“Ao trabalhador que corre atrás do pão

É humilhação demais que não cabe nesse refrão”


Lucas tenta não deixar que sua tristeza o abale, os “coaches” do Youtube dizem que ele deveria ter uma atitude positiva para ser mais produtivo no trabalho. Ele se lembra também de uma das poucas coisas que seu pai lhe disse antes de sumir: “chorar é coisa de viado”. Por isso ele não chorou de dor quando quebrou a perna ao cair de moto pela primeira vez, nem quando a mulher a qual ele amava terminou com ele, e muito menos quando se deparou com o desespero de tentar sustentar a família. 

No aniversário da irmã mais nova, Lucas Pedro comprou um tablet (parcelado em dez vezes na Amazon) de presente para a menina. Para colocar um sorriso no próprio rosto, comprou um tênis da Nike, o qual ele viu algum famoso vestir no Instagram. Se afogar no consumo parecia a saída para sua dor, afinal, sua alma já pertencia ao banco de qualquer forma. 


“Depressão é a peste entre os meus

Plano perfeito pra vender mais carros teus”


Entretanto, o aperto no peito do trabalhador nunca cessou, fato que, inclusive, o distraía bastante no trânsito, rendendo frequentemente pequenos acidentes aqui e ali. Nessas ocasiões, Lucas levantava a moto do chão, ajustava a bolsa nas costas e voltava a rasgar as avenidas, na esperança de que as pizzas estivessem intactas. Certa vez, todavia, o acidente não foi tão pequeno assim - o vermelho do sangue foi mais intenso, as lágrimas finalmente caíram, a falta de ar parecia eterna (e realmente foi). O SAMU chegou a tempo de fazer o resgate, mas a UTI da Santa Casa estava repleta de pessoas entubadas. A notícia apareceu no Facebook, os amigos da família comentaram: “que Deus o tenha…” e, em menos de uma semana, Lucas Pedro voltou a ser invisível. 


“E todo noite alguém morre, preto ou pobre por aqui”


Caroline Migliato Cazzoli - Direito - Matutino - Turma XXXVIII