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domingo, 17 de março de 2024

Positivismo ao longo dos séculos


O positivismo, corrente filosófica originada na França no início do século XIX, derivada do iluminismo, baseia-se na ideia em que a verdade está no conhecimento cientifico, tendo como seu principal objetivo o progresso social.  Augusto Comte, pensador francês considerado o pai dessa filosofia, afirmava que a ideia de felicidade está associada ao bem público e que a humanidade está superior ao homem, sendo necessário priorizar o total ao indivíduo. Em um primeiro momento, essa teoria foi altamente prestigiada e nações ao redor do mundo ocidental. Porém, ao longo dos séculos XIX e XX, o positivismo foi revelando-se problemático e tornou-se, em conjunto com o darwinismo social, o centro de algumas das piores atrocidades realizadas pela humanidade. Um exemplo dessa conjuntura é o Nazismo, movimento de extrema direita alemão que, ao se esconder atrás do teor progressista do positivismo, assassinou milhões de pessoas. Esse genocídio foi motivado pela ideia do desenvolvimento da nação perfeita e do progresso da humanidade, o que exigiria a extinção de qualquer pessoa não considerada da “raça ideal”.  Nessa perspectiva, foram diversos os atos desumanos que foram justificadas pelas morais positivistas como necessários para o desenvolvimento da sociedade como um todo, ignorando os danos e crimes realizados aos indivíduos.

No Brasil, o positivismo também foi altamente incorporado, como pode-se observar no lema da bandeira brasileira “ordem e progresso” que sintetiza os principais valores dessa corrente. Nos dias atuais, apesar de assumir um formato ligeiramente diferente, o positivismo ainda está muito presente na sociedade brasileira. Discursos como o da meritocracia, “bandido bom é bandido morto” e “ Brasil acimas de todos e Deus acima de tudo” ecoam os discursos usados no século passado para justificar ódio e racismo, ambos profundamente estruturados.

               Dessarte, é eminente atentar-se aos perigos do Positivismo que apesar de ser embrulhado em uma pílula dourada de crescimento social, tem o gosto amargo de opressão das minorias, dispersão de preconceitos, e uma sociedade estamental.


Beatriz Innocentini Margiotti - direito diurno

 A crise da sociedade contemporânea

A propagação alarmante de fake news, o questionamento da eficácia da vacina, a intensificação das crenças baseadas em senso comum são apenas alguns dos exemplos que caracterizam a crise enfrentada pela sociedade contemporânea. Tal crise originou-se (ou se agravou) nas profundas alterações ocorridas no último século, com o advento da tecnologia e assim, com a velocidade das mudanças e com a constante onda de informações recebidas. Em resultado disso, houve um enfraquecimento dos valores até então vigentes.

Sob essa perspectiva, segundo o sociólogo Wright Mills:"a informação lhes domina com frequência a atenção e esmaga a capacidade de assimilá-la", ou seja, devido a ausência de assimilação das notícias as pessoas reproduzem o que escutam sem duvidarem antes de sua veracidade e em alguns casos, elas negam as verdades comprovadas pela ciência. A ideia do autor se aplica na realidade, uma vez que no contexto da pandemia de covid-19, o uso de cloroquina foi amplamente utilizado mesmo não tendo nenhuma comprovação científica de sua eficácia para o tratamento. 

Com isso, é evidente que nos dias atuais, o uso da razão foi colocado em segundo plano. Nesse sentido, é necessário resgatar as premissas do filósofo racionalista Descartes, o qual desenvolveu um método científico baseado no princípio da dúvida, isto é, primeiramente o indivíduo duvida de tudo e em seguida ele deve buscar verdades que se bastam em si. Dessa forma, a sociedade ficará apta a assimilar as informações e superar a crise desencadeada. 


Sabrina Sanches - 1º ano noturno

Imaginando e pensando o Brasil do século XXI a partir de Wright Mills e Grada Kilomba

 

A imaginação sociológica proposta pelo sociólogo Wright Mills estabelece que para entender a sociedade do recorte temporal em que está inserido, o indivíduo precisa estar entre o coletivo, de maneira a criar um pensamento coletivo. Dessa maneira, há uma diferença entre o pensamento individual e o pensamento coletivo, sendo o primeiro chamado por Mills de “perturbações pessoais” e o segundo de “questões públicas”.

As perturbações pessoais, segundo Mills, C. Wright (1965, p.14) “ocorrem dentro do caráter do indivíduo e dentro do âmbito de suas relações imediatas com os outros; estão relacionadas com o seu eu e com as áreas limitadas da vida social, de que ele tem consciência direta e pessoal”. Ou seja, dizem parte aos valores individuais e que são insuficientes para entender uma sociedade de maneira científica. Já as questões públicas, dizem respeito as preocupações que interferem no coletivo. Atualmente, os valores coletivos no Brasil são de ordem conservadora, e quando esses valores são atacados, Mills diz que se experimenta uma crise, e se todos os valores estiverem sendo atacados, sente-se a ameaça total do pânico.

Dito isso, percebe-se que existe uma interferência das questões públicas sobre as perturbações sociais.  Quando esses valores que passam a ser também pessoais, sentem a mudança que ocorre naturalmente na sociedade, cria-se uma noção de colapso dos valores tradicionais e comentários como do Nelson Mesquita: “Tenho 48 anos, ai que saudade do tempo que as meninas usavam vestido e laço no cabelo. (...) Saudade de cantar o hino nacional uma vez por semana na escola, saudade também das aulas de moral e cívica”.  Esse tipo de comentário expressa a realidade de uma sociedade que é bombardeada de informações -retrógradas na maioria delas- e que não consegue ter a capacidade de desenvolver um senso crítico sobre políticas que são conservadoras, machistas e positivistas. Sobre isso, Mills, C. Wright (1965) havia previsto no seu escrito: “Não é apenas de informação que precisam - nesta Idade do fato, a informação lhes domina com a frequência a atenção e esmaga a capacidade de assimilá-la e digeri-la”

Por outro lado, Grada Kilomba em seu livro “Memórias da plantação: episódios de um racismo cotidiano” traz a ideia de fazer ciência a partir das experiências individuais, priorizando mais o individuo e menos o coletivo. Esse escrito é usado no contexto de luta para conquistar espaço na ciência atual, que põe a margem cientistas negros e prioriza a ciência branca, europeia, do centro. Porém também pode ser pensado como uma forma de ciência alternativa para todos, tendo em vista democratizar o conhecimento e mitigar episódios como o do Nelson Mesquita, que representa a visão de boa parte da população brasileira.

 

Um por todos, todos por um.

           1698,1796,1969. O que essas datas têm em comum? Esses anos foram marcados por grandiosas descobertas científicas, sejam elas a criação da primeira máquina a vapor, da primeira vacina e da primeira viagem do homem à lua, respectivamente.

         Nesse sentido, a ciência moderna, responsável por inúmeras contribuições tecnológicas, foi discutida, primordialmente, pelos filósofos empíricos como René Descartes e Francis Bacon, os quais, futuramente, tornar-se-iam os grandes cientistas modernos. Logo, propondo um método científico baseado na razão empírica e, fundamentalmente, experimental e observatória, esses autores determinaram uma nova face da ciência. A ciência da razão.

         A partir desse cenário, a razão, como fundamento principal para o conhecimento, passou a ser cada vez mais valorizada pelas pessoas. No entanto, vale ressaltar que essa tão apreciada racionalidade se subdivide em duas: a razão pública e a razão privada. Com isso, tendo como base o pensamento de Charles W. Mills, no qual há a defesa da ideia de que o todo interfere o individual, é necessária a atenção no que tange à transição da razão privada para a pública e vice-versa.

        Nessa perspectiva, muitas vezes na história houve essa mudança, na qual um pensamento individual tornou-se público e coletivo. À guisa de exemplo, há os famosos regimes autoritários que vigoraram durante o século XX. Nesses governos, a razão privada de um indivíduo, ressignificou-se para a razão pública, ganhando milhões de adeptos a determinada ideologia. Dessa forma, nota-se a linha tênue entre essa transição, a qual pode acarretar a danos seríssimos à sociedade, principalmente quando essa razão traz consigo o ódio e o repúdio às minorias sociais.

         Nesse contexto, é cada vez mais comum situações e atos racistas, homofóbicos, machistas, aporofóbicos, antissemitas, entre outros, permeando a sociedade e sendo cada vez menos discutidos, reforçando, exponencialmente, um sistema de dominação e opressão. Com essa prática, o “um” passa a representar “todos” e “todos” passam a ser representados por “um”.

Maria Clara Cossentini Campos, 1º ano Direito, Noturno. RA: 241223377

sábado, 16 de março de 2024

POSITIVISMO, 8 DE JANEIRO DE 2023 E IDEOLOGIA

    Representado como o pai da Sociologia, Auguste Comte fora um pensador e filósofo francês do século XIX. Promovendo grande contribuições para o campo intelectual, Comte formulou a “Lei dos três Estados”, teoria que divide o processo da evolução do Estado nos seguintes estágios: Teológico, Metafísico e Positivo.

Operacionalizando uma rápida análise sobre tais etapas, nota-se que o Estado Teológico se relaciona aos moldes das sociedades da idade média: submetidas a precárias condições de vida e uma suprema desigualdade, as populações deveriam se contentar com sua vida inteiramente subjugada por normativas religiosas, o poder político demonstrava ser intrínseco ao religioso e quaisquer casos de desarmonia entre os cidadãos eram plenamente resolvidos com base na força bruta.

   Adentrando ao metafísico, observa-se que tal molde de Estado já apresenta perceptíveis evoluções. Buscando, com maior racionalidade, as certezas da vida, o conhecimento começou a ser incentivado e a revolução científica se aproxima.

   Por último, porém mais importante, encontra-se o Estado Positivo: sendo visto como um exemplo a ser seguido, tal tipo ideal representa um estágio da sociedade inteiramente baseada no saber científico e na consagração da ordem e do progresso.

   Entretanto, revelando-se como uma ciência burguesa, a máscara positivista caiu por terra. Escondendo suas reais intenções por detrás do lema de nossa bandeira, o Positivismo preza, antes de tudo pela ordem. Todavia, qual seria o significado de tal termo? A ordem seria destinada a quem?

   Com o andar da história, tal ciência não fora capaz de esconder que o verdadeiro progresso pelo o qual lutam não é o social, mas sim o próprio elevar das elites. O positivismo não preza pela justiça, pela igualdade e, muito menos, pelo caráter social. O verdadeiro objetivo positivista é, antes de tudo, o anseio das classes dominantes, mesmo que esse signifique o rompimento do Estado de Direito e a tomada das rédeas democráticas.

   Estabelecendo um paralelo com nossa alienada realidade e nosso ignorante povo, evidencia-se que tal ideologia, assim como uma praga, espalhou-se em nosso corpo social. Como concretude de tal fato, vê-se o atentado democrático de 8 de janeiro de 2023: enganados por um governo que se dizia do povo, os indivíduos, tomados pela falsa consciência positivista, tomaram as dores daqueles que perderam o poder. Cegos por sua obediência bovina, diziam lutar pelo Estado de Direito quando, na realidade, estavam contribuindo para sua destruição.

   Portanto, nota-se que o ideal positivista, para além de ser puramente uma ideologia, quando somado à estupidez alheia, torna-se uma ferramenta de destruição.


Emanuel Francisco da Silveira, 1° ano Direito - Matutino. RA: 241220637

   


" Pensar Dói " O fanatismo frente a Ciência

 Um renomado professor da Unesp Carlos Eduardo de Abreu Boucault certo dia em sua aula inalgural disse: pensar dói. Um frase simples, porém, remonta um fenômeno social que aflinge nossa sociedade contemporânea e nos faz, enquanto povo, lamentar os absurdos cometidos em nome de ideias que não se fazem lógicas. Uma expressão dotada de profundo sentido, tão grande quanto a fatídica frase "penso, logo existo", fazendo-nos pensar sobre a relação do fanatismo e a ciência, e como um mundo tão conhecedor se tornou tão superficial. 

Francis Bacon nos apresentou a mais de quatro séculos atrás uma ideia de metodologia científica, um método empírico, que tivesse como base o raciocínio, a realidade das experiências e a fuga de dogmas preestabelecidos pela sociedade, homem que morreu em decorrência a testes científicos, e que merece ser lembrado. Nesse contexto, anos se passaram e a humanidade evoluiu a ponto de levarmos o homem a lua, desenvolvermos vacinas em tempo recorde durante uma pandemia global, e nem por isso, certas pessoas deixaram de ser menos fanáticas, a ponto de negarem o óbvio.

O fanatismo tem sido o grande mal que assola nosso tempo, fanatismo esse que permeia toda uma sociedade, e que não está somente em um grupo político ou em algumas pessoas de classes sociais diferentes, está no circulo familiar. Quando acreditamos mais em pessoas que em ideias, quando debochamos de métodos científicos ao invés de questiona-los a altura. Foram quase 700.000 brasileiros que morreram em detrimento do fanatismo. Com isso vem a pergunta ainda sem resposta: Quantos mais na história teram que pagar o preço pelo negacionismo da ciência? 

O fato é, que vivemos em tempos de facilidade, tudo está a um toque de distância, livros, saberes, conhecimentos e tudo que se pode imaginar. Quando o professor Boucault diz que pensar dói, ele oferece a resposta de um questionamento recorrente: Por que uma sociedade tão "tecnológica" e "conhecedora", mesmo no tempo em que a informação nunca esteve tão fácil e abundante, consegue ser infantil, ao ponto de ainda acreditar em mitos e ideias cujo a mínima razão facilmente desmentiria? Pensar requer tempo, esforço, podendo chegar a ser uma dor física, como já comprovado empiricamente por qualquer estudante de direito. 

Sem dúvida, é doloroso a concepção de uma sociedade que em tempos de ciência, nega aquilo que a construiu, que a pavimentou enquanto sistema. Francis Bacon foi um pilar de um mundo que hoje nem mais o conhece, pai do  empirismo moderno, que criou e cria aquilo que temos hoje. Qual seria a solução do fanatismo e dos empecilhos da verdade, senão a dor de pensar, o tempo de refletir e o trabalho de pesquisar. 

Vinicius de Oliveira David, 1° ano de Direito,matutino, Unesp Franca.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Racismo, um problema de caráter privado ou público?

     Ao ligarmos a TV, acessar o Youtube, ou abrir o Google, nos deparamos cada vez mais com notícias sobre episódios de racismo não só no Brasil, mas também em outros países. Estes episódios reacendem debates acalorados de como é possível resolver esse problema que, devido ao passado não tão distante da escravidão na maioria das sociedades ocidentais, parece estar sempre presente em nosso cotidiano, seja de forma velada ou aberta.

    Dentro das possíveis formas de pensar como resolver o problema do racismo na sociedade, as pessoas se dividem em dois grupos ideológicos que são antagônicos entre si: os que refletem o preconceito racial como um problema privado e aqueles que encaram como um desafio público. O principal argumento que o primeiro grupo tende a utilizar para defender a sua tese é a de que os episódios de racismo acontecem devido a existência de pessoas racistas específicas, que atacam por não saberem conviver com o diferente e, nesse tipo de visão, a punição penal seria a única forma de resolver esse tipo de problema. Já o segundo grupo, apesar de também ser favorável à punição de racistas, entende que os crimes raciais acontecem devido a um processo histórico que enraizou a discriminação na sociedade e, para superá-lo, é necessário o investimento e criação de políticas públicas (como cotas, letramento racial e demais discussões sobre o tema), sendo, portanto, um desafio da esfera pública.

    Como forma de asseverar a tese do grupo que entende o racismo como um problema de caráter público, há o relato da professora e pesquisadora da Universidade Livre de Berlim, Grada Kilomba. No segundo capítulo de seu livro “Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano” (2019), ela narra a sua vivência como vítima de comentários e ações racistas no mundo acadêmico da Alemanha que, segundo ela, deve-se ao fato desse ambiente ser, historicamente, um espaço branco que nega a fala de pessoas negras (p.50), que necessitaria passar por um processo de descolonização do conhecimento que encara o caráter discriminatório através de uma abordagem social e não apenas como um problema privado.

    O entendimento de Kilomba encontra respaldo científico no arcabouço teórico da “imaginação sociológica”, perpetrado pelo sociólogo C. Wright Mills. No livro que dá nome à teoria, o autor defende que, com o seu uso, o cientista social passa a compreender que as ações da vida privada do ser humano são moldadas pelas modificações estruturais da esfera pública (p.17), demonstrando que a visão social é importante para enfrentar situações que afligem o ser humano na suas mais diversas conjunturas, como a econômica, sexual ou, em referência ao tema central do presente texto, a racial.

Dito isso, podemos concluir que, com base nos textos de Kilomba e de Wright, a discriminação racial é um problema de caráter público que pode refletir nas interações privadas dos indivíduos, sendo necessário esforço conjunto da sociedade e do setor público para a superação do imaginário racista que assola diversos países, responsável não só por agressões físicas ou verbais, mas também pelo racismo velado e sutil que passa despercebido por aqueles que enxergam esse problema como de caráter individual.


Daniel Nobre Fernandes da Silva, 1º Ano - Noturno. RA: 241221072


Incessante luta

 Incessante luta 

Há uma linha tênue entre o Positivismo e o Darwinismo Social, já que a corrente determinista ao afirmar que as disparidades sociais eram determinadas em parte, pela natureza, os positivistas legitimaram a discriminação e a opressão contra grupos considerados racialmente inferiores. O racismo foi assim naturalizado e reproduzido através das instituições sociais, das políticas públicas e das relações interpessoais. 

Nesse viés, Grada Kilomba, em seu livro Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano, denota um racismo estrutural enraizado na sociedade, na qual em uma das frases a autora diz se sentir imobilizada porque, como mulher negra, ela é vista como “fora do lugar” e tendo seu lugar de fala impedido devido a consideração, segundo o imaginário social, de subalternização racial. Isso é demonstrado através de passagens, onde Kilomba pensou diversas vezes em deixar a Alemanha ou desistir do seu projeto de tese na universidade devido ao preconceito circundado pelo ambiente social. 

Infelizmente, o caso supracitado não é apenas uma situação isolada, já que casos racistas acontecem de forma corriqueira na sociedade, a exemplo do caso do filho de Mussum, impedido de sair do shopping acusado de roubar a própria moto ou as frequentes injúrias sofridas por jogadores de futebol, a exemplo de Vini Jr. Não obstante, é necessário destacar o passado colonial de exploração e uso da mão de obra escravizada negra como fator preponderante para a perpetuação dos episódios. 

Portanto, é fundamental o reconhecimento dos indivíduos contemporâneos a respeito da desigualdade racial em múltiplos aspectos, sendo um primeiro passo para que a errônea concepção de superioridade branca seja cada vez menos frequente, apagando aos poucos os ideários deterministas do Positivismo no tocante à hierarquização das raças. 

Nome: César Lorenzo Palumbo Damario - 1ºano Direito matutino 

RA:241220441

A rejeição das mudanças e avanços sociais

O crescimento da extrema-direita é um fenômeno que está causando diversos problemas e retrocessos na sociedade contemporânea. Uma vez que esse movimento, de caráter conservador e reacionário, é embasado, entre outros aspectos, no ataque e questionamento à ciência e à produção cientifica. Assim como propõem a anulação das minorias perante a sociedade. Dessa forma, faz com que os indivíduos percam a consciência crítica e com que direitos básicos sejam reduzidos. 

Em primeira análise, o sociólogo Wright Mills, no livro “A imaginação sociológica”, afirma que a velocidade das mudanças no mundo atual gera um colapso dos valores tradicionais. Como essas transformações são resultado da produção científica, surgem esses movimentos de extrema-direita, que reagem de forma conservadora. Por meio da negação de uma mudança de perspectiva que promova um entendimento racional da realidade pessoal dentro da nova estrutura social, metodologia que Mills chama imaginação sociológica, e que é sedimentada pela ciência. A partir disso, a metodologia cientifica é questionada, e o senso comum é trado como verdade, ocasionando diversos distúrbios sociais, como na pandemia do covid-19 no Brasil, em que muitas mortes poderiam ser evitadas se os governos conservadores, tivessem seguido as recomendações científicas. 

Por meio dessa invalidação da imaginação sociológica, os direitos conquistados pelas minorias, pautadas em reivindicação racionais, são anulados nos discursos e ações desses movimentos de extrema-direita. Nessa perspectiva, a escritora Grada Kilomba, no livro “Memória de uma plantação: episódio de racismo cotidiano”, retrata, através de relatos de sua vida acadêmica, como os conhecimentos produzidos pelas minorias são negados dentro da sociedade, pois, mesmo com os avanços sociais, persiste a visão colonial, que as tratam como o “outro” incapaz de pensar. Dessa maneira, os movimentos reacionários utilizam da inferiorização intelectual e cultural para rejeitar esses grupos minoritários dentro da sociedade, perspectiva que está por trás do genocídio praticado pelo Estado de Israel, que é governado por partidos de extrema-direita, contra o povo palestino. 

Por tanto, o crescimento de movimentos de extrema direita surge do questionamento dos avanços e quebras de paradigmas que a ciência proporcionou. Assim, a interpretação racional da sociedade, proposta por Mills, é deixada de lado por esses grupos, e acentua-se o olhar colonial, evidenciado por Kilomba, que anula as minorias. 

Luccas Pinheiro Nascimento- 1° ano Direito Noturno

O Método Científico em um mundo manipulado.

Durante a Idade Média, o conhecimento científico e o senso crítico era um luxo entre os europeus, uma vez que a população não tinha acesso às fontes de conhecimento, nem podiam questioná-las, porque - naquela época - a Igreja Católica detinha o poder e por isso influenciava as massas à seguir os valores cristãos, mantendo os conhecimentos científicos fora das mãos da grande maioria da população. Dessa maneira, a sociedade vivia alienada pelas doutrinas da fé e seguiam em completa ignorância dos fatos. 
           Contudo, essa realidade mudou alguns séculos depois com o advento do movimento Iluminista, o qual criticava o pensamento baseado pela fé e estimulava a pulverização do pensar racional a todos, a fim de estimular o pensamento crítico e garantir mudanças econômicas, políticas e sociais. Foi graças a esse movimento que as ideias defendidas por Renè Descartes - filósofo, físico e matemático francês do século XVII - se espalharam pela Europa. Tal pensamento defendia que o conhecimento verdadeiro só poderia ser alcançado através do Método Científico, ou seja, a partir do questionamento das hipóteses com base na ciência e não com base nas crenças, na fé ou nas experiências pessoais. Nesse sentido, os séculos seguintes ao movimento iluminista foram marcados pelo afastamento do pensamento baseado na fé e a maior aceitação do pensamento racionalista, o qual propiciou milhares de descobertas científicas que trouxeram muitos benefícios para a civilização, tais como: surgimento da eletricidade, do automóvel, a descoberta da gravidade e a compreensão da genética. 
            Entretanto, no século XX e XXI, o pensamento científico foi encoberto novamente pela ignorância, porém, agora é por causa do contato constante que o indivíduo tem com as milhares de informações sobre o mundo, graças a globalização. Nesse novo contexto em que a sociedade se encontra, a população leiga está diariamente sendo expostas a milhares de informações sobre tudo o que acontece no mundo, tendo assim muita dificuldade em discernir o que é verdade do que é falso (fake news). 
            Nesse cenário, a figura de um político surge como uma “salvação” da ignorância, uma vez que uma pessoa detentora de alto cargo é vista como um ser de grande conhecimento e capaz de definir o que certo ou errado; bom ou ruim. Contudo, essa figura não passa de uma nova versão e mais sutil da Igreja Católica na Idade Média, pois, de acordo com Wright Mills: “tudo aquilo de que os homens comuns têm consciência direta e tudo o que tentam fazer está limitado pelas órbitas privadas em que vivem.”. Assim, mesmo a pessoa de maior cargo no país é persuadido pelos seus ideais e acaba por passar essas ideias influenciadas para a população, a afastando ainda mais do conhecimento científico, mesmo que ele esteja ao seu alcance. A exemplo disso, há o caso do movimento anti-vacina que retornou ao Brasil no ano de 2020 devido a pandemia do Covid-19. 
            Durante esse período em questão, o movimento baseado no negacionismo científico ganhou mais força graças ao posicionamento anti-vacina do presidente da época, Jair Bolsonaro. Nesse cenário, de acordo com Glícia Salviano Gripp (professora de metodologia científica e pesquisadora do movimento antivacina), a adesão das vacinas pela população está bastante atrelada a confiança que as pessoas tem no país e nas figuras de autoridade, tal qual o ex-presidente. Assim, ao exprimir o seu posicionamento em seus discursos, o político está influenciando as pessoas leigas a seguir seu pensamento e as manipulando para ir contra a ciência, a qual está pautada na razão e neutralidade e não nos paradigmas pessoais. 
            Em suma, apesar de a civilização humana ter evoluído nos cenários científicos e técnicos, infelizmente, a ignorância continua ser uma realidade. Dessa forma, as massas são facilmente manipuladas pelas figuras de poder e pela falsa ideia de neutralidade e conhecimento [científico] que eles devem ter. Nesse sentido, apesar da ciência se provar eficaz, nada do que se é dito é levado em consideração pelas pessoas que já estão com seu senso crítico nublado ou atrofiado. Dessa maneira, mesmo com todas as descobertas, as grandes massas,lamentavelmente, continuam a ser influenciadas pelos dominantes, nunca saindo desse ciclo vicioso. 


Beatriz Pasin de Castro - 1º ano - Matutino.

DE BACON E DESCARTES A MORO: DEZ ANOS DE LAVA JATO

Iniciada em 2014, a Operação Lava Jato, tratada como a maior investigação de corrupção do Brasil, completa, neste mês de março, dez anos. Dez anos de acumuladas apreensões, condenações e prisões. Dez anos do início de um movimento ritualístico, que consagrou reuniões de família nas salas de estar para assistir ao Jornal Nacional e ver o preso do dia, momento em que se contava até com figuras já carimbadas na televisão brasileira, como a do ex-agente da Polícia Federal Newton Ishii - o “Japonês da Federal”. Dez anos da incorporação de um novo vocabulário para o povo brasileiro, que passou a incluir palavras como delação, receptação e peculato. Mais que tudo isso: dez anos que demonstram a necessidade de um Direito racional e socialmente estruturado.  

Nessa perspectiva, cita-se René Descartes, que, em “Discurso do Método”, revela uma nova forma de produção racional da ciência baseada na dúvida. Depois de duvidar de tudo o que se passa em seu espírito, Descartes percebe que, para duvidar, antes de mais nada, é preciso existir. Logo, a existência vira sua primeira evidência dessa linha de raciocínio racionalista, desbocando em sua máxima: “Penso, logo existo”. Assim, se para o filósofo torna-se imprescindível a manutenção da dúvida para produção da ciência, façamo-nos duvidar da legitimidade com que se conduziu os trabalhos na finada 13ª Vara Federal de Curitiba de Sergio Moro e sua alcateia.

Não se quer, porém, fazer críticas ao combate à corrupção, um mal pungente no Brasil que pensou-se caminhar à extirpação, com a Lava Jato. Quer-se apenas duvidar dos moldes com que se deram os trabalhos durante esses anos. Afinal, pode-se sustentar como justo um sistema em que o investigador, o acusador e o julgador trabalham juntos? Pode-se admitir, sem a menor ressalva ou dúvida, uma Vara Federal movimentando, de forma misteriosa, bilhões de reais? Não se valida o questionamento sobre a legalidade de um julgamento em que o acusado não tem seus direitos resguardados? Talvez o que se deu em Curitiba possa ser visto sob a ótica de Francis Bacon, que, notando pela sua obra "Novum Organum", bem provavelmente teceria críticas à ciência jurídica de Moro, que mais ensejava na vitória sobre adversário político que no resultado da justiça.

Desse modo, o filósofo inglês bem representa uma boa face da produção da ciência que, se tivesse sido utilizada, talvez se estabelecesse uma verdadeira luta contra a corrupção, pautada no estabelecimento de graus de certeza no âmbito da ciência do Direito e utilizando a razão despida de noções pré-concebidas para produzir justiça. Faz-se, portanto, estabelecer, ao modo de Descartes, uma sequência de dúvidas sobre as temáticas suscitadas para que, no futuro, uma verdadeira ciência jurídica, pautada nos termos de Bacon, possa, finalmente, consagrar uma luta anticorrupção voltada para o bem do homem - noção cartesiana - e à consagração de resultados - percepção baconiana.

LUCAS MATSUMOTO
Direito - Noturno