Muito se questiona sobre a
dialética idealista hegeliana e sobre sua distância para a
realidade tangível das instituições humanas de poder. Muito pelo
contrário, ao considerar o espírito humano como fator preponderante
em todas ocorrências na sociedade, Hegel ressalta a importância
individual das ações na análise do caso, posto que cada alma
individual é composta em conformidade (ao menos em parte) com o seu
demiurgo onipotente: Deus. Inclusive, o processo histórico e
cultural se delinearia também como expressão desse “espírito”
(que não necessariamente se confunde com o conceito de alma em
substância). Partindo então de um processo dialético que parte das
quimeras do imponderável até a mente pífia e ingênua do homem,
calculam-se as inépcias e aprendizados por experiência e que levam
ao ápice da racionalidade.
Ora, como o desenvolvimento irrestrito
do pensamento requer total uso das potencialidades dos sentidos então
a liberdade surge como o alicerce basilar nesse diapasão.
Assim,
com a necessidade de assegurar tal liberdade – justificada
inclusive no dom primaz concedido por Deus: o Livre Arbítrio –,
surge o Direito como expressão maior e inviolável desta estrutura.
O Direito a todos deve tutelar, a todos amparar, de nenhum se
esquivar.
No entanto,
assumindo o Direito como expressão máxima da liberdade, este deve
ser geral, não abolindo as particularidades, mas assumindo que o
ápice da razão leva o coletivo a se sobrepor ao individual – e
por individual aqui leia-se o interesse egoísta no coração de cada
homem. O ideal é então a justificativa para a inviolabilidade da
norma e, ao mesmo tempo, o atestado de confiança na derradeira razão
humana: una, coesa – e não necessariamente única.
Já ouviram
aquele velho ditado, “quem desdenha quer comprar?”
Pois bem,
Marx e Engels compraram sim.
É bem verdade que Marx e Engels
decidiram tomar a estrada de Hegel (também tomada de parte por
Fichte, Shellin) ainda que pelo sentido oposto, mas tomaram.
Imersa
em suas convicções, a dupla dinâmica do capital irá questionar
até que ponto o Direito servirá aos interesses do famigerado status
quo.Aí entramos no nosso
caso, vamos aos autos:
O que vale mais, o direito já positivado
da propriedade privada – base de nosso sistema capitalista?
Ou o
direito a moradia, também mais do que positivado e mais do que
compreendido?
Analisando o sistema legal chegamos a um impasse:
empate técnico (insira aquela carinha triste do whatsapp aqui).Mas
vamos aos critérios de
desempate...opa, só que não!
Detive meus frágeis pensamentos
nesse ponto: por que devo escolher por um dos direitos se o Direito
tecnicamente tutela ambos?
Por quê?
Por que não posso
simplesmente assumir a indissolubilidade de ambos os direitos e
fazê-los cumprir a meta pela qual foram forjados nas entranhas de
cérebros mais perspicazes que o meu?
Ora,
o direito a propriedade já é
algo tão duramente rebatido, mas assumindo sua necessidade
incontestável será
que se ele fosse de fato assegurado e todos tivessem
condições materiais de conquistá-la já não teríamos aí também
o direito a moradia já incluído? (Sim, estou sendo deliberadamente
idealista, só para fins de
ilustração =P)
Mas eis
AÍ o
cerne da questão: o problema talvez não seja a propriedade privada
em si, mas a privação da propriedade – e vejam, há uma
diferença!
A discussão talvez seja o porquê de o direito das
famílias assentadas em Pinheirinho não ter sido assegurado desde o
princípio. E quanto as demais favelas de São José?
Confesso,
interessado pelo assunto, andei pesquisando a quantidade de terrenos
vagos no perímetro urbano em posse da prefeitura ou de particulares
bem como sua avaliação de mercado. Pois bem, fazendo uma conta
rápida na ponta do dedo, considerando um terreno de cerca de 200 a
250 m² como suficiente para a moradia feliz e confortável de uma
família com até 6 membros esta
custaria por volta de 350 mil
a meio milhão de reais. SÓ o terreno, sem edificação. (foi então
que a dignidade da minha pessoa humana se ruborizou).
Será
que o direito a propriedade foi respeitado desde aí? Propriedade
para ESTAS pessoas, logicamente.
Não,
não foi. Por conseguinte a moradia também se fragiliza.
Mas o
erro já começa muito antes: quando um suposto Estado Democrático
de Direito que bebeu na bica e no alambique e se embebedou um
pouquinho que seja do Estado de Bem Estar Social permite que 2
direitos marcantes do homem: a moradia e propriedade sejam reféns
agonizantes de um processo de especulação financeira,
aí tem algo muito
errado!
Além
das famílias do Pinheirinho, quantas outras não padecem de caso
semelhante em outras favelas da região? Quantas outras famílias se
sacrificam para conseguir pagar um aluguel superfaturado simplesmente
para ter onde se assentarem?
Se
olharmos estas perspectivas, não é difícil compreender a decisão
da juíza.
Marx estava certo afinal, o Direito serviu à classe
dominante...
OPA,
calma lá! A discussão não foi justamente a forma como o direito
fora ignorado desde o começo?
Então talvez seja a falta de
cumprimento da
norma que ocasionou todo esse problema. Se
o Direito fosse observado então teríamos tudo bem. Foi a falta de
realização das normas que serviu ao status quo.
Tecnicamente Marx também está errado, não darei o braço a torcer.
HahahahahahaÉ, eu sei
que de qualquer modo chegaremos a um ponto em que admito que Hegel
foi demasiado otimista ao pensar que todas as mentes prezariam pelo
Bem Maior. Em sua última defesa, lembro-vos que Hegel não era um
pré adolescente ingênuo e apaixonado por uma moça chamada
humanidade a quem revestiu de honra e glória pelos séculos dos
séculos. Ele somente tinha fé em uma consciência interior e
anterior ao homem, (Deus) sem a qual a razão pura faria dos homens
escravos de suas egocentricidades. Então de certo modo Hegel já
havia deixado avisado que não era pra acreditarmos totalmente em
suas concepções: a filosofia de Hegel é para homens apaixonados, e
só para estes ela faz sentido. O erro foi, ao que parece, desejar
que um dia todos os homens fossem apaixonados: por si mesmos, pela
humanidade. E por paixão
leia-se a origem paxos que remete a
sofrimento. Logo, um sofrer por gostar. Sofrer por ainda
acreditar.
Na prática, poderia o executivo ter desapropriado
qualquer outro terreno da cidade (e há muitos vagos) para assentar
as famílias. E dinheiro não é problema, pois a caderneta de IPTU
já é defasada em relação ao preço de mercado por conta disso: se
precisar desapropriar, pagará menos, BEM menos.
Poderia a juíza
ter entregue Pinheirinho às famílias. Mas por mais
que eu saiba e todos nós
saibamos que a perda da
propriedade representa bem menos para a empresa do que para as
famílias, cumpre lembrar: que direito tem o governo de espoliar a
propriedade de alguém para suprir sua própria inépcia? Falando às
claras: o quê os acionistas da SELECTA têm a ver com o problema das
famílias?
Calma,
não estou sendo reaça, mas o
problema seria justamente assumir que este assentamento supriria os
problemas. É um paliativo e é medida demagógica. Reforma política
resolve, talvez reformas legais. Simplesmente tirar direito de um
para dar para o outro não resolve. O Estado não é Robin Hood. É
Estado, e deve a todos tutelar.
Até lá, no entanto, reservo-me o
direito de pensar:
A juíza errou em sua decisão, mas de certa
forma não teria muito como acertar. Qualquer
decisão que tomasse feriria um direito importante. E não, embora
pareça-nos bastante sedutor tentar hierarquizar direitos, há de ser
pensar que o DIREITO foi justamente positivado para que não
precisássemos abrir mão de garantias. Ao fazê-lo acabamos nos
conformando com a situação. Matamos a essência do
Direito.
Permito-me
por fim dar meu voto de minerva aos réus:
-
Marx, não te confiro razão: por mim te tiraria do paraíso das
ideias em que te colocaram,
mas já que as chaves do Paraíso não foram dadas a mim, daí não
posso te tirar. Só observo
essa zoeira.
- Hegel,
teu idealismo não condeno. Tampouco elevo-o ao Paraíso. A ti
reservo o reconhecimento do purgatório, que
os anos te tragam melhor fortuna.
Aos
dois, equilíbrio.
Às
famílias: perdão! Perdão
por termos matado o Direito e, mesmo morto, ainda esfaquearmos
repetidas vezes o defunto enquanto sua carcaça se despedaçava.
Torço para que as próximas gerações tragam alguém capaz de
revivê-lo e protegê-lo: e através dele, vocês!
À
humanidade, só desejo mais Paixão. Paixonites ou Paxos (leia-se
Páksos), não importa. Só saiam do coma do inconformismo ao
qual nos relegamos.
E a
verdade é essa: estamos todos em coma.
E
nenhum gigante acordou.
Adolfo Raphael Silva Mariano
de Oliveira Turma XXXI – Noturno.