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segunda-feira, 4 de abril de 2022

Admirável mundo torto

 

Era uma tarde de domingo quando dois homens sentados à beira de uma lagoa discutiam a respeito de coisa triviais da vida, um olhou pro outro e disse

-Como a gente pode concluir que tudo que nossas crenças são verdadeiras?

-Nem tudo que ouve ou vê pode ser considerado real meu amigo, nossos sentidos estão aí pra confundir, o pensamento racional sempre deve prevalecer.

-Mas veja bem, se não são nossos sentidos, como poderíamos se quer obter algum conhecimento sobre as coisas da natureza, eu por exemplo, só sei que uma planta é verde, se eu olho pra ela

-Amigo, você só sabe que uma coisa é daquela cor, porque o seu pensamento racional chegou à essa conclusão, se não fosse assim, eu poderia muito bem dizer que ela é vermelha, ou até mesmo azul

-Não tem como dizer que é outra cor, eu sei que é verde, olha só

-Mas pense bem, se eu fosse uma pessoa daltônica, e enxergasse em preto e branco, como você explicaria pra mim que de fato a cor verde existe?

-Hmm, pensando bem, a gente só consegue fazer uma afirmação se a gente através dos sentidos, criar uma percepção sobre aquilo. Mas se você tem pra você que a cor verde é invenção minha, então a vida é moldada a partir das suas próprias conclusões, não se pode colocar uma verdade absoluta de fato...

-Realmente, se parar pra pensar, a vida de cada um é moldada pelas suas próprias percepções e experiencias, o uso da razão é só uma simples ferramenta pra chegar à uma conclusão, isso me lembra um pouco aquela alegoria da caverna...

-É interessante pensar que milhares de anos atras, duas pessoas como a gente tiveram essa mesma discussão

-Se pensar bem, a tentativa de criar uma forma universal de analisar o universo e de ensinar a forma certa de pensar, ignora toda a experiência individual de cada um e leva cada vez mais pessoas a se distanciar da beleza da vida...

-Apesar do racionalismo tentar trazer uma maneira de deixar as pessoas menos burras, ele acaba criando um paradoxo, quanto mais ele é visto como uma forma universal de educação, cada vez mais pessoas ignorantes são criadas, que não respeitam as crenças individuais de cada um

-É verdade, se cada ponto de vista individual fosse respeitado, a gente teria pessoas mais autônomas e originais, não esse bando de ignorantes, tantas pessoas iguais nesse admirável mundo, todas uniformizadas

Depois de uma longa discussão, cada um percebeu como o mundo fica cada vez mais ignorante à medida que as pessoas não respeitam as vivências individuais, o que aos poucos vai destruindo as sociedades e alienando todos a serem iguais.

 Gabriel Ferreira - Noturno

A contribuição e a limitação de Bacon e Descartes

    No plano cartesiano, há pontos específicos e únicos indicados por coordenadas. A partir destas, a localização de um elemento torna-se clara e metódica. Os pontos são distintos e independentes e são analisados como tal, de forma isolada. Isso é comparável ao método científico, um meio de averiguação da realidade que a divide para melhor compreendê-la, que baseia-se em experiências e em eventos concretos, na racionalidade imparcial e apurada, no afastamento de superstições ou de convicções as quais não podem ser provadas por evidências. O princípio de tal método é o alcance de uma verdade insuperável e definitiva, a fim de proporcionar melhorias e soluções à humanidade e domar a natureza. Essas constatações partem de ideias de René Descartes, escritor de Discurso do Método, que afirmou “Aprendi a não acreditar com demasiada convicção em nada do que me havia sido inculcado só pelo exemplo e pelo hábito” e “As coisas que concebemos muito clara e distintamente são todas verdadeiras”.

O método foi imprescindível, indispensável para o desenvolvimento da Ciência posterior ao século XVII. Ao rejeitar relações e impressões não calcadas na observação meticulosa e na interpretação sóbria, a Ciência conseguiu se tornar muito mais precisa e profunda, com um espaço maior para a sua progressão. O uso de novos procedimentos fez com que houvesse uma ruptura com o momento anterior do conhecimento humano, em que pré-concepções, abstrações e a falta de provas foram obstáculos para um entendimento objetivo e comprovado. Quando Francis Bacon, escritor de Novum Organum, contempla as bases da Ciência que havia em sua época, ele admite: "É preciso que se faça uma restauração da empresa a partir do âmago de suas fundações”. Então, os avanços de pesquisas e de estudos, a partir da Idade Moderna, foram largamente impulsionados por uma transformação da forma de investigação.

No entanto, alguns séculos depois de Bacon e Descartes publicarem suas obras, críticas e ressalvas podem ser feitas ao método descrito pelos pensadores, a partir de um contexto distinto, o atual. No filme O Ponto de Mutação de Bernt Capra, há um diálogo entre um político, um poeta e uma física em uma ilha medieval. Em tal conversa, Sonia Hoffman, a física, expõe o pensamento ecológico, o qual contraria a visão cartesiana. Esse constata que há interconexões entre todos os elementos da realidade, de forma que os problemas da atualidade são multifacetados e complexos, em razão do envolvimento de um grande conjunto de causas e de consequências, de motivos e de agentes. O entendimento citado diverge do método de Bacon e Descartes, pois considera que a percepção holística é fundamental para a progressão humana, ao invés de conceber a divisão em etapas.

Ao considerar a devastação da Floresta Amazônica, entende-se que as razões e as consequências desse fenômeno são muitas e, com alguma frequência, intricadas uma à outra. A priorização do lucro econômico em detrimento à construção de uma sociedade sustentável e igualitária, a revogação de legislação protetiva à vegetação por parte do Congresso Nacional, o enfraquecimento de órgãos fiscalizatórios como o IBAMA e o ICMBio, o suporte de parte da população a líderes que não encaram a sustentabilidade com seriedade, a atividade criminal que desmata a Amazônia para obter produtos estão entrelaçados na produção do problema em questão. O que, por sua vez, resulta na diminuição da umidade em demais regiões brasileiras, no prejuízo às comunidades tradicionais da Amazônia, na emissão de GEEs e na desestabilização do clima do país. Assim, para lidar com um cenário como o apresentado, é insuficiente observar pontualmente e propor soluções fragmentadas. Mas, deve-se agir com uma percepção integrativa, a qual leve em conta todos os elementos que proporcionam a devastação e a relação entre eles. Isso, contudo, não indica que as proposições de Bacon ou Descartes sejam inválidas, apenas, como é dito em O Ponto de Mutação, que possuem as suas limitações.

Alexandra Valle Goi - Direito Matutino - 1º Semestre

O Revolucionário Método Científico

 O Revolucionário Método Científico 

  O fim da Idade Média baseou-se em conceitos de teocentrismo e feudalismo e terminou com o advento da Idade Moderna (séc. XV-XVIII), momento que reuniu diversas descobertas científicas (em astronomia, ciências naturais, matemática, física, etc ).O novo conhecimento passou a ser centrado no ser humano. Assim, esse período foi marcado por uma revolução no pensamento filosófico e científico. 

  A ciência moderna marca a transformação do pensamento medieval, justificado na fé e nas relações entre os homens e Deus, para o pensamento antropocêntrico, marca da modernidade, que eleva a humanidade como um grande aparelho de estudo. Nessa era se destacam dois métodos que foram revolucionários para a ciência, o racionalismo e o empirismo, correntes de pensamento construídas no período, ambas visam dar respostas sobre a origem do conhecimento humano. O primeiro relacionado à razão humana e o segundo, fundamentado na experiência. Dessa forma, cabe ressaltar as grandes contribuições que Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650) fizeram na época ao demonstrar e testificar tais conceitos marcantes. 

  O primeiro deles, Francis Bacon, viveu em uma sociedade de grande instabilidade nos sentidos político, econômico e social, e pode com muita clareza notar que numa situação como aquela a inteligência e a razão eram as verdadeiras armas de combate. Nos seus escritos Bacon sempre teve a dedicação em escrever algo diferentes dos outros escritores da época, que não produziam conhecimento que beneficiassem os homens. Em suas obras tinha a posição de que a ciência moderna deveria dar ao homem domínio sobre a realidade, o método de Francis Bacon não estava mais atrelado as mesmas questões propostas pelos escolásticos, como a metafísica, mas sim pela busca plena da verdade, tendo como base o experimento e a inerência, pare que isso fosse possível era necessário que os pesquisadores se desprendessem dos erros e sentimentos  antigos, que Bacon chamava de ídolos (da Tribo, da Caverna, do Foro e do Teatro), a fim de cessar com essas noções ele formula um método experimental que possui o objetivo de descrever todas as condições para a realização de um evento, como também investigando as possibilidades em que esse evento não ocorra. Sendo assim, o procedimento de estudar determinados fenômenos traz consigo a oportunidade de aprender a como manipula-los, a construção do novo saber implica em que homem pode passar da posição de dominado para dominante em relação a natureza. 

    René Descartes, por sua vez, tem a necessidade de não só usar a teoria para explicar os feitos, mas também poder comprova-los na prática. Descartes acreditava que a dúvida era essencial para que a certeza fosse alcançada, assim nada era tido como certo sem antes ser devidamente pensados, e para que isso ocorra devemos deixar de lado os pré-conceitos, crenças e princípios íntimos ao ser e que o resultado dessa pesquisa não possa ser suscetível de dúvida. Ao fundamentar seu método, diferentes de outros, René Descartes pondera que todos os homens são dotas de razão e capacidade de raciocinar, por isso ele elabora quatro preceitos que, ao serem tidos como regras, favorecem um resultado verdadeiro. 

“...Jamais acolher alguma coisa como verdadeira, que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida; dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las; conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos; e fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir.” (DESCARTES, 1987a, p. 37-38). 

   De tal maneira, com a posse da verdade é possível intervir no mundo, estabelecer uma nova ordem imposta pela razão. Por efeito, esse processo torna a natureza um objeto de estudo, logo demonstra o domínio que os homens tem acerca dos eventos, rompendo assim a conexão e identidade do indivíduo para com a natureza. 

    Por fim, ressalto a importância que Bacon e Descartes tiveram para todo o decorrer do processo científico até os dias atuais, a criação de um método científico baseado em fatos e na racionalidade, no poder da dúvida e questionamentos. Literalmente nos entregaram as condições necessárias para se fazer ciência e buscar o conhecimento pleno e legítimo, concentrados em rejeitar a tradição, buscando a unificação do conhecimento, um método capaz de reedificar o conhecimento, é, em última análise, o propósito de ajudar e salvaguardar o progresso da vida humana. 


Thais Maria Rosario

O homem como prisioneiro das suas próprias convicções

 Descartes e Bacon, apesar de possuírem algumas opiniões e ideias contrárias, mantinham uma ideia central em comum: independente do método utilizado, a ciência deve ser orientada pela razão, não deve ser baseada em senso comum, e deve ser livre de antecipações, sentimentos e pré-noções. Entretanto, mesmo quatro séculos depois, ainda não alcançamos a ciência alvejada, ou melhor, a ciência muitas das vezes é substituída por opiniões sem fundamento ou simplesmente pelo o que é mais conveniente de ser aceito por cada um, e pior de tudo, estamos em uma realidade em que as pessoas acham que detém o conhecimento verdadeiro sobre, conhecem a verdade inquestionável e não estão abertas ao diálogo.  

Descartes, logo na primeira parte de “Discurso do método”, afirma que os homens não desejam ter mais bom senso do que já tem, o mesmo ocorre atualmente com o conhecimento, é cada vez mais frequente observar a população se negar a simplesmente ouvir ideias opostas, seja por intolerância ou pelo simples fato de ter certeza absoluta da coerência de seus posicionamentos, e essa certeza indubitável dificilmente existe. Tanto pelo método cartesiano ou baconiano, uma das ferramentas é a dúvida, tudo pode e deve ser questionado, além de que diálogos com ideias opostas são mais do que a oportunidade de mudar o ponto de vista do outro para favorável ao seu, são oportunidades de obter mais conhecimento, rever seus pontos e argumentos e as vezes até de reforçar aquilo que é acreditado. Se você nem ao menos sabe o que o outro pensa ou acredita, como pode ter certeza de que ele está errado? Claro que em tudo há exceções, e eu, particularmente, não acredito e nem defendo que ideias que oprimem e ferem os direitos humanos e os direitos fundamentais devam ser postas em debate. 

Por outro lado, além dos aspectos trabalhados acima, acho de extrema importância trabalhar outra realidade também muito preocupante, cada vez mais me deparo com o corpo social escolhendo fazer parte de um determinado grupo, associação, partido, vertente... com um determinado conjunto de ideologias e a partir dai, passam a apenas pensar dentro da caixa. Irei explicar melhor, peguemos a política como exemplo, a população normalmente se divide em esquerda e direita (e suas variáveis), não todos, mas a grande parte, passa a enxergar o espectro político de forma semelhante ao método mecanicista de Descartes, como se o espectro fosse uma máquina em que o que é defendido/proposto representasse as peças e não há possibilidade de retirar nenhuma das peças, muito menos trocar por outra de uma máquina diferente, a máquina só funciona com todo o conjunto. O que quero explicar com a metáfora é que as pessoas se fecham dentro do espectro, fecham os olhos para novas possibilidades e para o debate, acham absurdo reconhecer que você pode escolher e acreditar em um lado, mas achar determinada ideia do lado oposto coerente, por fim, o mais preocupante, aceitar toda e qualquer ideia simplesmente por ter vindo de líderes de um respectivo lado político. Exemplo disso é a população que se identificam como de Direita apoiando manifestações nazistas e as de Esquerda apoiando as atrocidades de Stalin. 

Ademais, mal consigo imaginar o profundo desgosto de Descartes e Bacon se pudessem saber que mesmo após tanto tempo passado, além de uma grande parcela da humanidade não questionar suas próprias “verdades”, se deparariam com uma sociedade com conceitos muito deturpados de ciência uma vez que o senso comum ganha cada vez mais força e para tomar algo como ciência não há mais método racional, nem mesmo é necessário a experiência como propunha Bacon ou vencer as próprias convicções como orientava Descartes, agora isso foi invertido, as próprias convicções que determinam o que é ciência, as pessoas passaram a adotar como ciência aquilo que as agrada, seja por suas antecipações religiosas, morais ou políticas. 

Por fim, concluo que o homem se encontra acorrentado pelas suas próprias convicções, antecipações e certezas indubitáveis, de forma que não consegue se libertar para novos horizontes, ideias e visões. Além de só aceitar como conhecimento verdadeiro aquilo que se assemelha e não o faz romper com suas correntes.


Anny Barbosa, 1º semestre de Direito noturno.

 

Análise "Tempo e café" - pt.02

 

Quando René Descartes “bateu as botas”, Issac Newton era apenas uma criança, e quem poderia imaginar o que o futuro guardava para aquela criança. É clássico e famoso, o conto de Newton e o pé de maça. O físico ao observar uma maça que por acaso caiu em sua cabeça imaginou que algo a fizera cair, afinal, ela não poderia cair simplesmente por vontade própria, daí, vieram diversas experimentações, hipóteses, testadas, concluídas e falhas assim como tantas outras comprovadas, com Newton iniciava-se uma fase de descobertas e possibilidade de produção do conhecimento nunca antes vista, consolidavam-se os ideais de Descartes e Bacon, já dizia Francis Bacon: “A natureza supera em muito, em complexidade, os sentidos e o intelecto.”, e Issac Newton, regrou a natureza, decifrou seus mistérios permitindo que previsões quase exatas da influência dela sobre os corpos, por isso, a tecnologia, a produção e o conhecimento cresceram de forma imensurável e quanto mais entendíamos a natureza mais dinheiro retornava aos nossos bolsos, e com isso quanto mais nos apropriávamos da natureza mais satisfação e conforto eram gerados. Resultado: os sentimentos humanos? Esquecidos, afinal se os ideais do século XVII colocavam-nos como atraso e malefícios para o “progresso”, imagine três séculos depois em que o conhecimento está em segundo plano e o que determina o progresso é o acumulo incessante de capital.

 Colocando sobre analise e comparação o contexto geral da escritura do livro “O discurso do método” com o contexto dos acontecimentos recentes em nossa sociedade moderna, nota-se semelhanças – não igualdades – entre as bases e as dúvidas do pensamento cartesiano, com o atual pensamento científico e os questionamentos sobre ele. Imagine uma pirâmide gráfica ou um cone de ponta cabeça, na parte superior (maior) está a demanda, as pessoas anseiam por novas tecnologias, descobertas e melhores soluções para os problemas do dia a dia bem como fazia-se no XVII; em seguida encontra-se as incertezas, a modernidade mesmo sendo a era da tecnologia e teoricamente do “bem-estar” já que teoricamente mesmo alguém com baixa renda viveria melhor hoje do que um rei ou lorde na Idade Média, possui tantas incertezas quanto possuía René Descartes quando escreveu sua obra, a diferença pontual é que  para muitas foram encontradas respostas, mas novas surgiram e algumas com um aspecto diferente que talvez não possam ser sanadas pelo método mecânico que vem dado certo por séculos; conforme essas dúvidas crescem, geram-se confrontos, que podem tornar-se uma crise ou podem aplicar mutações nas ideias que vigoram, quer isto dizer, Descartes confrontou a veracidade, ou, no mínimo a funcionalidade das ideias filosóficas. Utilizarei o texto “O café e o horário do tempo” (também postado nesse blog) para exemplificar um confronto: “Ve-veja be-be-bem, coroa! O horário de verão é fruto de muito tempo de estudo e possui o esforço de muitos estudiosos [...] registrando o fenômeno ano após ano, puderam de fato descobrir que é um fenômeno natural periódico, e que nós seres humanos, poderíamos nos utilizar dessa previsibilidade natural”. Esse trecho é o início da discussão entre o senhor – indignado com o horário de verão – e o jovem que defende a convenção utilizando-se da ciência, como autor julgarei como um juiz onipotente as ações das personagens, seguramente o fenômeno é real, não só observado, mas também estudado e comprovado e naturalmente, isso não exclui as afirmações práticas feitas pela personagem “Sr.Dagoberto” de que a convenção sobre o fenômeno é ou tornou-se ineficiente com o aumento de consumo energético uma vez que foram aumentadas o número de tecnologias – é válido ressaltar que a observação prática foi feita antes da comprovação cientifica – além disso, esse dilema é previsto por Descartes e justificado nas páginas iniciais do livro com a seguinte frase “Portanto, meu propósito não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas somente mostrar de que modo me esforcei por conduzir a minha.

Desse modo é possível a conclusão de que a ciência quando superestimada, e as noções ou sentimentos humanos quando desvalorizados resultarão em dificuldades, instabilidades e perigos à condição humana (Cenário de maior parte dos países), mas, em virtude das três fases do “funil” anteriormente expostas, chegaremos à uma revolução das ideias, como fizeram Bacon e Descartes, e essa revolução pode inovar o método científico mecânico e acabar com a desconfiança e medo da população geral com as respostas científicas. Para não deixar uma lacuna nessa ideia, utilizarei a obra “O ponto de mutação” para exemplificar essa tendência, na obra – mais precisamente, no filme – a cientista Sônia desenvolve ideias que rompem com dinâmica científica, e a responsabiliza em parte por colocar em risco o planeta e as futuras gerações, já que a ciência não responde somente a busca pelo conhecimento, mas passou a responder principalmente ao interesses guiados pelos grandes investimentos capitalistas, essa nova corrente seria o Pensamento Sistêmico.

                                                                      Rodrigo Gabriel Leopoldino Zanuto, Direito - Noturno


Tempo e café - pt.01

Eu bebia o meu café quente, um ritual, o qual era fundamental que fosse realizado todos os dias, sempre no mesmo horário. Contudo, por algum motivo todos os relógios da cidade foram adiantados em sessenta minutos e eu não pude deixar de chegar atrasado no meu destino. Admito, estava incrédulo (como sempre fico essa época), porque mudaríamos o tempo se ele continua sendo o mesmo, afinal, eu fui dormir no mesmo horário como faço todos os dias. O mesmo tempo de ontem foi o tempo que utilizei hoje, mas hoje eu não poderei ver as belas dançarinas do “Teatro do Barro” passeando em fila para sua apresentação na praça, já que alguém decidiu que é útil mudar as horas e elas já estão dançando nesse instante.

Meu café esfriara, o devaneio de meus pensamentos arruinou a única coisa que ainda era certa: esvaziar aquela xícara de café. Stella deve ter percebido que a xícara estava cheia e aproximou-se de mim – Sr. Dagoberto, há algum problema com o modo que o café foi preparado hoje? Posso imediatamente trazer outro para o senhor – Eu respondi com rispidez, sem pensar muito – Stella, minha jovem, diga-me uma coisa, porque todos os anos esses imbecis precisam fingir que mudaram o tempo sendo que ele permanece o mesmo? – Assim que terminei a frase um jovem engomadinho, com o cabelo lambido para o lado direito interrompeu a resposta da jovem garçonete – Ve-veja be-be-bem, coroa! O horário de verão é fruto de muito tempo de estudo e possui o esforço de muitos estudiosos, eles observaram que em determinada época do ano os dias tornam-se mais longos, e registrando o fenômeno ano após ano, puderam de fato descobrir que é um fenômeno natural periódico, e que nós seres humanos, poderíamos nos utilizar dessa previsibilidade natural para com uma simples convenção de: adiantar os relógios em uma hora, pudéssemos economizar energias, em empresas, espaços públicos e prédios comerciais por exemplo – Eu ouvi o que ele tinha a dizer até o final e respondi – Sabe meu jovem, os seus pontos são ótimos, mas eu tenho que discordar, não vejo a eficiência que você diz existir, me parece uma ação para reforçar o politicamente correto – O garoto parece que assustou-se com a expressão, levantou o dedo e reforçou novamente a sua fé na ciência e como o seu método consegue estar acima de todas as coisas, nesse momento Stella interrompeu, ela que é uma jovem esforçada nos estudos e na vida, trabalha durante o dia e estuda em período noturno, muito inteligente e hábil com as palavras – Na verdade, os dois estão certos – ela falou com uma voz suave apoiando duas xícaras vazias de uma mesa vizinha na bandeja – o método científico é maravilhoso e nos permitiu invenções em larga escala, com janelas de tempo cada vez menores, contudo, a ciência tornou-se enrijecida, o Sr. Dagoberto tem razão em questionar a convenção do horário, e você concorda com isso já que o fundamento da ciência é a dúvida – elas alternava o olhar entre o mim e o garoto do cabelo lambido – vocês podem discutir aqui o resto do dia, um defendendo a ciência como uma “entidade”, contrário ao seu objetivo que é ser instrumento para o verdadeiro saber humano e da mesma forma, o outro vai negar qualquer evidência apresentada, mas existe um fundo de razão nisso, afinal o horário de verão não vem se mostrando eficiente na economia de energia, na verdade vem se mostrando quase que insignificante nos últimos tempos. Apresento-lhes o dilema moderno da humanidade, tenham uma boa tarde senhores – despediu-se e saiu levando as xícaras vazia –.

E assim o jovem e o velho passamos mais de duas horas, sentados, as vezes se encaravam, as vezes discutiam, pensando onde estaria a raiz desse dilema, e naquela tarde os dois fizeram ciência, quase como ela nascera (afastando-se dos sentidos e progredindo aos poucos em busca do prazer do entendimento), - concluímos Rubens, aí está a causa do problema, a ciência não é feita buscando entender ou dialogar com o indivíduo e com o mundo, hoje, ela representa a vontade do mercado financeiro e não mais a busca pelo conhecimento, os saberes populares são insignificantes, já que pouco acrescentam para gerar produtos de valor ao mercado e o meio ambiente é uma preocupação somente se não perpassa os lucros – Rubens arregalou os olhos, depois de tantas xícaras de café era de se esperar, ele continuou minha frase – e é por esse motivo que a ciência hoje e tão venerada quanto desacreditada.

                                                                          Rodrigo Gabriel Leopoldino Zanuto, Direito - Noturno

A superioridade da vontade e dos afetos

Na busca pela verdade, utilizemos o método cartesiano para a construção do raciocínio que proponho:

  A humanidade não é um referencial absoluto e universal, ou seja, é raso pautar e justificar qualquer ação a partir de uma hipotética superioridade humana, como defendiam os filósofos modernos. (1-Evidência).

  Nesse sentido, analisaremos essa proposição a partir de duas perspectivas (2-Análise), partindo da mais simples para a mais complexa (3-Ordem\Síntese) e finalizando com a conclusão e retomada de conceitos(4-Enumeração).


  Como primeira parte da questão, constata-se que o Homem não é descolado da natureza, como se assumisse o papel de uma entidade distante e superior: a humanidade é, na verdade, parte integrante desse organismo natural. Nesse sentido, a defesa de um uso instrumental da natureza, pautada no domínio, exploração e tecnicismo por parte do homem, assim como formulado por Francis Bacon, apenas reforça um pensamento predatório que não mais pode ser aceito, como foi na Modernidade.

Como segundo ponto, acrescenta-se que é incoerente que o ser humano justifique uma dita “superioridade” utilizando enquanto critério a posse de consciência e da razão, quando o entendimento desses conceitos está pautado exclusivamente em parâmetros humanos. Por não encontrar, em uma busca superficial, animais que utilizem a exata mesma forma de linguagem ou organização, o Homem logo conclui que todos os demais seres não possuem consciência e que são, portanto, inferiores. Essa constatação racionalista diverge de estudos recentes, como a relevante Declaração Cambridge Sobre a Consciência Animal, que explicitam a existência de diferentes níveis de autoconsciência, linguagem, relacionamentos sociais e sentimentos em outras espécies animais que, apenas por não se expressarem de forma idêntica à humana, são inferiorizadas e exploradas.

Dessa forma, pode-se perceber claramente as incoerências de atribuir ao Homem o protagonismo da existência universal, tanto por conta do seu pertencimento à natureza que afirma explorar, quanto pela simplicidade de seu entendimento acerca de outras manifestações de vida. Assim, os preceitos da filosofia moderna expostos mostram-se obsoletos por serem moldados em prol de uma justificativa de exploração da natureza que não mais se sustenta, indicando que a verdadeira superioridade, pelo menos sobre o Homem, é a dos interesses, de forma que como ressaltado pelo próprio Bacon, “o intelecto humano recebe influência da vontade e dos afetos”.

                                                                                 

Isabella Neves- Direito Matutino, 1º ano


domingo, 3 de abril de 2022

A Crítica como Norte nas Veredas do Racionalismo

 

Com o fim da Idade Média, o Renascimento e o Humanismo surgiram como um modelo que contrapunha, em vários momentos, o ideário cultural manifestado pelo período histórico antecessor que se baseava em um ser supremo, Deus, colocado no centro do universo dos homens que viviam sobre doutrinas, doando suas vidas, seus costumes e suas forças à igreja, com a promessa de que caso agissem como estipulado pelo clero, receberiam vida eterna. Nesse sentido, o Renascimento surge com uma nova proposta de visão sobre o mundo, colocando o Homem no centro do universo, o que gera, consequentemente, a necessidade que formar princípios nos quais os homens sustentem todos os fundamentos, cria-se assim, métodos de pensamento científicos, racionais, que fornecem subsídios humanistas na busca do conhecimento. Nesse ínterim, a razão, considerada, nesse período, maior representação da essência do ser humano, modificou este momento da história e moldou o mundo que se conhece hoje. Dessa forma, é mister atentar que são inegáveis os avanços e as conquistas adquiridas pelo método racionalista de se deter conhecimento, tanto quanto é preciso alertar sobre a falta de criticidade que acompanha, hoje, tal metodologia.

Diante disso, a busca da razão se deu por vários filósofos, entre esses Descartes e Bacon, que discordavam em opostos da maneira com que se apreendia o conhecimento, o primeiro entendia como matéria inerente da razão, já o segundo vislumbrava o conhecimento como adquirido pelas sensações do mundo. De toda forma, viam na razão seu principal objetivo, e depois, com fomento dos Iluministas, a razão, a técnica e a ciência serão vistas como as únicas formas de salvação para os seres humanos. Nessa continuidade, é preciso ressaltar que sem o racionalismo como forma de guiar e produzir ciência não chegaríamos a várias conquistas inerentes ao uso do método cientifico, tais como vacinas, sistemas de computador, internet, carros, energia elétrica e suas tantas formas de obtenção, todas baseadas em métodos e cálculos que possibilitaram sua existência. Logo, é imprescindível atentar as conquistas trazidas pelo racionalismo.

No entanto, embora tenha trazido inúmeras conquistas aos seres humanos, o método racionalista de pensamento moldou também a forma de pensamento atual, sendo fomentado ao indivíduo desde o nascimento pelas instituições sociais, como a família e a escola que, infelizmente, muitas vezes impõem uma forma de pensamento tecnicista não abrindo espaço para o senso crítico. O “racional” molda as vidas de forma com que tudo seja cronometrado, tudo tenha que ser feito a tempo, tudo em nossas vidas deve ser logico, o homem se confunde a uma engrenagem, a um robô, e a comodidade leva a alienação. Tal reflexão pode ser levantada muitas vezes por obras cinematográficas como é o caso do longa “Ponto de Mutação” no qual se é discutido sobre o racionalismo e como várias invenções trazem hoje preocupações para a vida humana uma vez que interferem no meio ambiente, como por exemplo, o consumo desenfreado de carne e a grande poluição inerente ao sistema de locomoção à gasolina, por exemplo, e como maquinas são inventadas para amenizar estes efeitos, ao invés de se investir em métodos profiláticos a esses panoramas. Assim, pensadores da Escola de Frankfurt analisam tal panorama “racional” como uma via de mão dupla,  como no drama trata-se como o mesmo método que pode gerar maravilhas tecnológicas, pode ser cego e indiferente a demandas e perspectivas mundiais, normalmente, de grupos sem muitas condições econômicas, estes pensadores ressaltam também, como a razão vendida à burguesia se torna, muitas vezes, violenta, colocando-se a frente da natureza e tornando o homem violento consigo mesmo no mundo capitalista de produção, no qual só se insere como similar a uma máquina, mais uma engrenagem  racionalista,  ao extremo, o que antes era essência, hoje, desumaniza.

Depreende-se, portanto, que são inúmeros os benefícios e avanços gerados pelo método Racionalista de pensamento e conquista cientifica, no entanto é preciso de crítica sobre essas metodologias tanto no panorama mundial, quanto individual. A Crítica deve ser, portanto, um norte nas veredas do racionalismo.

Ambos os quadros : " A racionalidade leva ao melhor", primeiro em Inglês, segundo em Esperanto.



Larissa Vitória Moreira, Direito - Noturno 

1º semestre