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terça-feira, 4 de agosto de 2020

O impacto da ascensão das milícias no funcionalismo da sociedade

De acordo com o Disque Denúncia, entre os anos de 2016 e 2017, mais da metade de ligações anônimas que delatavam sobre organizações criminosas no estado do Rio de Janeiro, referiam-se as atividades ocasionadas pelas milícias. Ademais, esses grupos são conhecidos pela composição de ex-policiais ou militares que cuidam da manutenção da segurança de maneira ilegal em cidades e bairros (boa parte também em periferias) que apresentam a ausência de um poder público ou de fato a negligência do governo, e utilizam-se da extorsão de serviços e do comércio para garantir uma falsa defesa social.

Em primeira análise, ao comparar esse domínio de milícias e o controle exercido por essas corporações na sociedade contemporânea com a teoria do funcionalismo elaborado por Émile Durkheim, é perceptível uma falha no modo funcional do corpo social, que distingue do que o sociólogo defende como ideal para evitar a anomia. Isso porque, o grupo que realmente tem o papel de garantir a segurança da comunidade segundo a Constituição mostra-se insuficiente, ao ponto de ser substituído, por grupos que ao violarem o que a lei determina e ocupar uma posição o qual não possuem legitimidade, fragilizam a coesão social.

Em segunda análise, é nítido como essas organizações afetam o funcionamento da sociedade de maneira negativa, visto que ambientes governado por milícias devem seguir normas paralelas ao que de fato a juridicidade determina. Desse modo, a presença de tais organizações incita indiretamente a coletividade a romper com o pacto social de operar mutuamente seguindo as leis que permitem o convívio em harmonia dos indivíduos. Por conseguinte, o princípio da solidariedade orgânica proposto por Durkheim, pode ser aplicado nessa ascensão das milícias, visto que com o maior desenvolvimento de consciências individuais, passa a ser questionado a efetivação jurídica, influenciando essas corporações a construírem uma nova legislação (popularmente conhecida como “regras da rua”) de acordo com seus interesses que será instituída em determinada área, destoando com esse equilíbrio.

Portanto, essa banalização da desordem e a negligência por parte do poder público de modo a não conter as milícias prejudicam o progresso e a efetivação do direito penal na sociedade brasileira, e particularmente no Rio de Janeiro. Para tanto, essa impunidade de tais organizações da milícia pode causar a desintegração social. Entretanto, na perspectiva de ampliar e construir uma coesão social é viável a implantação de políticas públicas que possam reverter esse cenário, oferecendo oportunidades a populações mais carentes para que esse ciclo - principalmente de jovens em posições subalternas que geralmente são os sujeitos punidos e não fazem diferença nesse sistema corrupto- consiga ser reduzido, a fim de que se rompa definitivamente.

REFERÊNCIAS


VITÓRIA DAYUBE BARBOSA- 1 ANO NOTURNO

A imprecisão do direito brasileiro em professar a organicidade durkheimiana

Postulada pelo sociólogo francês Émile Durkheim no final do século XIX, com base em sua conceituação referente aos fatos sociais de uma sociedade, a solidariedade, isto é, a maneira como os indivíduos de determinado corpo social interagem entre si, é tipificada em mecânica ou orgânica. Na solidariedade mecânica, presente em sociedades pré-modernas de caráter rudimentar, os sujeitos relacionam-se a partir de crenças comuns. Consequentemente, a essência criminal dos ilícitos nessa categoria de coexistência  consiste na ofensa à consciência coletiva, a qual é penalizada por um direito punitivo, em que a sanção é desproporcional ao mal causado. Enquanto isso, na solidariedade orgânica, vigente em sociedades modernas de caráter complexo, em que o capitalismo aparece de modo avançado, os sujeitos relacionam-se a partir da complementaridade das funções, advinda da divisão do trabalho, o que gera a dependência de um ao outro. Por consequência disso, a essência criminal dos ilícitos nessa modalidade de coabitação consiste na ofensa à sua organicidade, a qual é penalizada por um direito restitutivo, em que a sanção, além de ser proporcional ao mal causado, também visa a restituição do praticante do crime ao corpo social. Entretanto, apesar de já ter passado pelo processo modernizador capitalista no século XX, instaurado a partir da década de 30 por Getúlio Vargas, o Brasil é um país que não professa, integralmente, em seu sistema jurídico, o direito restitutivo, apontado pela doutrina durkheimiana, de uma solidariedade orgânica.
Primeiramente, constata-se que, mesmo sendo fruto de uma sociedade moderna, o direito brasileiro apresenta uma cultura punitiva em seu cerne. A título de exemplo, de acordo com a juíza aposentada do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), Telma de Verçosa Roessing, a legislação penal sobre entorpecentes no Brasil apresenta-se de maneira imprecisa, sem definir os parâmetros necessários para distinguir os diferentes graus da participação de um indivíduo no tráfico, o que possibilita, assim, a proferição de penas desproporcionais — no pensamento de Durkheim, peculiaridade de uma sociedade pré-moderna, regida pela solidariedade mecânica —  aos pequenos traficantes por parte dos magistrados:

Realmente não há como comparar a mulher que é flagrada levando drogas para o marido na prisão com uma pessoa que fica vendendo grande quantidade de drogas nas chamadas bocas de fumo. Ocorre que os tipos penais previstos na Lei de Drogas são genéricos e não fazem diferença em relação à posição ocupada pelo agente na rede do tráfico, não havendo proporcionalidade das penas. O juiz fica sem critérios objetivos para nortear sua decisão. (ROESSING, 2013, apud VASCONCELLOS, 2013).
À vista disso, é amplamente notório a adversidade da superlotação carcerária no sistema prisional brasileiro. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), órgão ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, 32,92% dos presos estão detidos por crimes relacionados às drogas, sendo a maioria percentual da população carcerária  no Brasil. Ademais, conforme um levantamento realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2018, 85% da população carcerária brasileira não possui sequer o ensino médio completo. Em consequência disso, ao cumprirem sua respectiva pena, antigos presidiários, tendo em vista a falta de empregabilidade decorrente da escassez de uma formação adequada oferecida pelo poder público, podem voltar à criminalidade,  o que evidencia que, diferente do direito restitutivo de uma sociedade moderna preconizada por Durkheim, em muitos casos, o do Brasil tende apenas a punir infratores, não havendo, portanto, nenhum tipo de processo de ressocialização ao convívio social, característica da organicidade durkheimiana.
Com isso, diante do que foi exposto, conclui-se que, por mais que o Brasil seja uma sociedade moderna, em que a divisão do trabalho aparece de maneira bem definida, seu direito não é totalmente restitutivo, indo na contramão da tese elaborada por Émile Durkheim. Tal condição pode ser explicada pelo fato do processo modernizador capitalista ter ocorrido de maneira tardia em âmbito brasileiro, mais especificamente, apenas a partir da década de 30 do século XX, o que resultou no chamado “capitalismo periférico”, o qual ainda apresenta diversas características de uma sociedade pré-moderna. Por outro lado, países do chamado “capitalismo central”, o qual experimentaram um processo modernizador capitalista mais precocemente, como a Holanda, que participou da Segunda Revolução Industrial no século XIX, possuem o pleno direito restitutivo, expressado pela desativação de presídios nesse país nos últimos anos.

Luís Arquimedes Takizawa Albano - Direito Noturno

Referências bibliográficas:

MENDES, Gilmar. Educação e ressocialização: Estímulo ao estudo é política de segurança pública. Folha de São Paulo, São Paulo, jun. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/06/educacao-e-ressocializacao.shtml. Acesso em: 4 ago. 2020.

NASCIMENTO, Luciano. Brasil tem mais de 773 mil encarcerados, maioria no regime fechado: Presos provisórios são o segundo maior contingente. Agência Brasil, Brasília - DF, fev. 2020. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-02/brasil-tem-mais-de-773-mil-encarcerados-maioria-no-regime-fechado. Acesso em: 4 ago. 2020.

VASCONCELLOS, Jorge. Lei sobre drogas deve mudar para evitar penas desproporcionais à mulher, defende juíza. Agência CNJ de Notícias, [s. l.], jul. 2013. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/lei-sobre-drogas-deve-mudar-para-evitar-penas-desproporcionais-a-mulher-defende-juiza/. Acesso em: 4 ago. 2020.

A carência institucional brasileira

O Estado de anomia social é inerente a  algumas localidades do Brasil.Milhões de brasileiros têm que conviver com poderes paralelos,o que representa uma falha das instituições sociais.Nesses locais,muitos cidadãos não têm o mínimo de direitos,como as diferentes formas de liberdade,o que gera uma perda da dignidade humana.                                                                                                                                            Durkheim teria um ataque de pânico se visse a estrutura social brasileira presente em algumas localidades.Suas ideias de um corpo social funcionando perfeitamente é diametralmente oposta ao que se vê nas periferias das cidades grandes.Em algumas favelas o poder de polícia,que é um dos pilares para organização social, quase não está presente.E quando essa instituição faz alguma ação preventiva,muitas vezes,deixa cidadãos de bem feridos e ,até mesmo,mortos.A lei costuma ser comandada pelo crime organizado,que até dita o horário de funcionamento do comércio.Mas não pense que o Estado anômico é restrito aos grandes centros.                                                                                                                         Nos confins do sertão ainda vale a lei do mais forte.Algumas décadas atrás ,Guimarães Rosa disse "se deus vier,que venha armado".Essa frase,infelizmente,ainda é válida.O poder dos coronéis não respeita nada e ninguém,são comuns práticas,como o trabalho escravo e a morte de quem questiona sua autoridade.Não é atoa que o Brasil lidera o número de morte de ambientalista e é marcado por tragédias envolvendo indígenas.                                                                                                                                 Portanto,o estado de harmonia social proposto por Durkheim,com a presença de fortes instituições governamentais para gerar ordem social é ausente para muitos brasileiros.Esses problemas promovem uma perda de liberdade,como o direito de ir e vir.Além disso,uma espécie de lei do mais forte é criada,na qual todos saem perdendo.                                                                                                                                                                                                                                                                                                             JOÃO VITOR SODRÉ DIAS GALVÃO/ 1ºANO NOTURNO


Direito repressivo ou restitutivo?

Em sua obra “A Divisão do Trabalho Social”, Durkheim nos trouxe uma análise sobre a relação entre direito e sociedade. No contexto do século XIX, o autor conseguiu estabelecer uma perspectiva que é aplicada e exemplificada até mesmo na atualidade, nos acontecimentos políticos e sociais do século XXI. Estudando os fenômenos sociais, Durkheim define o direito das sociedades pré-modernas como direito repressivo ou punitivo, em que a pena é desproporcional e ligada ao emocional, ou seja, a pena é uma reação da sociedade. Já nas sociedades atuais, o direito adaptou-se às complexidades e funções sociais. Assim, o direito serve para restituir as funções e manter a organização social, passando a ser chamado de direito restitutivo. O ordenamento jurídico começa a basear-se na ciência e na técnica, não no estado emocional.

Contudo, na realidade atual, alguns indivíduos negam o direito restitutivo, querendo regressar ao repressivo por esse ser mais emocional, alarmante e impactante. Com esse pensamento, algumas frases conhecidas vão sendo disseminadas, como “bandido bom é bandido morto”. Defendem pena de morte, normas mais severas, indo ao extremo do direito penal. E quando esses pensamentos vão sendo difundidos, alguns acontecimentos preocupantes se sucedem, como a eleição de governantes extremistas e com atitudes antidemocráticas.

Essa questão, no entanto, deveria já estar resolvida desde a Idade Moderna, com Cesare Beccaria. O filósofo mostrava a necessidade da humanização das penas e explicava que torná-las mais severas não resulta necessariamente na diminuição dos crimes. A real solução está na melhoria da qualidade de ensino fornecida pelo Estado aos cidadãos, e na diminuição da desigualdade social, garantindo uma vida digna à população.


Charge e texto criados por:

Mariana Pereira Siqueira – 1° ano Diurno


Um individualismo benéfico para superar os fatos sociais estereotipadores

Émile Durkheim (1858-1917) foi um sociólogo francês que compõe a tríade dos sociólogos clássicos, juntamente com Karl Marx e Max Weber. É de Durkheim a autoria da teoria do Fato Social, que se define como toda maneira de agir suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior. Ou seja, é por meio do fato social que percebemos a consciência coletiva de uma sociedade, que por sua vez é o conjunto da consciência individual de cada um.

Dessa forma, podemos estabelecer inúmeras analogias entre a teoria durkheiminiana e situações contemporâneas que exemplificam e provam a veracidade da teoria do sociólogo francês. Um exemplo de fato social são os estereótipos de gênero. Desde milênios atrás, foi institucionalizado que homens devem se portar de uma maneira e mulheres de outra completamente diferente. Aqueles que fugirem dessa regra, serão duramente criticados e sofrerão sérias represálias. As origens dessa estereotipação deita raízes na religião, envolvendo a discussão da reprodução humana e a forma como a Igreja, originalmente a Católica, tratou de lidar com isso. Aqui evidencia-se a origem desse fato social: geral pois todos os indivíduos eram obrigados a seguir, sem exceções, externo pois não foi criado por um indivíduo e sim por uma sociedade e coercitivo por seu caráter obrigatório e quem não seguia era punido

Por sorte, os movimentos de contracultura que começaram a emergir na segunda metade do século XX contribuíram significativamente para uma desconstrução desse fato social. Hoje, não podemos dizer que vivemos num mundo livre disso, mas felizmente é possível notar que mais do que nunca o ser humano vem aceitando a opção do outro em se portar da maneira que achar melhor. Um dos principais pontos da teoria de Durkhheim é que a sociedade molda o indivíduo por meio do fato social. O que podemos ver no mundo contemporâneo é que, primeiro, a teoria está correta, segundo, cada vez mais as pessoas lutam para fugir disso e sair da dominação dos estereótipos. Ou seja, cada vez mais o ser humano toma consciência de que o fato social não é necessariamente bom (pode ser), e assim ocorre uma onda de um certo individualismo benéfico à sociedade: cada vez mais as pessoas estão parando de seguir as ordens da sociedade de como se portar e estão cuidando de agir conforme as próprias vontades.

Por óbvio, existem fatos sociais que são benéficos e não precisam ser superados. É o caso da lei. As normas que regem uma nação também são externas, coercitivas e gerais. Contudo, ao contrário dos esterótipos de gênero, as leis são criadas para ajudar a organizar uma sociedade, estabelecendo limites e regras que ajudam no bom convívio e funcionamento dentro de um país. Assim, fica claro que o fato social em si não é necessariamente um mal (como é o caso dos estereótipos de gênero), podendo ser proveitoso. No entanto, aqueles que traduzem um preconceito, uma visão maldosa que venha a incomodar, ferir ou desagradar a outrem, esses sim merecem ser desconstruídos e superados por meio deste individualismo benéfico.

Mateus Restivo de Oliveira
Direito - Diurno - UNESP

domingo, 2 de agosto de 2020

A Utopia Durkheimiana

No início do mês de julho, após quatro meses de fechamentos dos comércios, devido a pandemia que se arrasta desde o começo de 2020, a prefeitura do Rio de Janeiro, autorizou a abertura dos bares na zona sul da cidade. Fotos, vídeos e depoimentos de moradores preocupados estamparam as principais capas de revista e noticiários nas manhãs seguintes. As ruas do Leblon, lotadas de pessoas, aglomeradas, sem distanciamento social e sem o uso de máscara, em total desrespeito ao distanciamento social marcam o triste episódio.

O contexto de calamidade pública que o mundo vive, decorre das altas taxas de transmissão do novo vírus. Assim, enquanto os estudos referentes ao combate de tal doença não são promissores, o distanciamento social imposto em todos os países do mundo, se torna a única ferramenta para conter a proliferação e consequentemente a ocorrência de novas mortes. Entretanto, as fotos e vídeos que repercutiram na virada do mês, demonstra a falta de solidariedade com o outro em momentos como este.

A solidariedade segundo o dicionário Aurélio refere-se à qualidade do ser de demonstrar sentimentos de empatia com o outro. Porém, tal termo já se fez presente em outras circunstâncias. De acordo com o sociólogo francês Émile Durkheim, em seu livro Da Divisão Social do Trabalho, utiliza a ideia de solidariedade para auxiliar na conceituação da teoria funcionalista. Embora, tal termo esteja desvinculado de sensações, a solidariedade orgânica, como define o francês, refere-se ao agir dos indivíduos para o equilíbrio social.

A ideia por trás do equilíbrio social, proposto por Durkheim se relaciona com o progresso da sociedade. O sociólogo do final do século XIX observa em ascensão a pluralidade social, isto é, os indivíduos que compõem a sociedade no início do século XX diferem-se um dos outros. Os atores sociais são plurais. Os agentes são diferentes. Portanto, Durkheim concluí, que a solidariedade da pós modernidade se caracterizaria pela individualização crescente da sociedade - o que de fato ocorreu - assim como o altruísmo múltiplo dos seres para o bem social – a utopia durkheimiana.

Assim, as ideias do sociólogo, de uma sociedade especializada, onde os indivíduos cumprindo suas funções sociais conduziria a um suposto equilíbrio é errônea, na medida que determinadas ações sociais impedem a própria solidariedade. Durkheim, acreditava que o sacrifício em prol do bem comum culminaria na harmonia e equilibro social, porém o erro de tal ideia, consiste na exclusão de características negativas do ser. O egoísmo e a negligência podem ser observados no triste episódio anteriormente mencionado. As ruas e avenidas do Leblon, lotadas de pessoas, sem máscara enquanto milhares de famílias lamentam pelo falecimento de seus amigos e colegas sintetiza os aspectos de uma sociedade cada mais individualista e cada vez menos altruísta.


Rafael Bronzatto | 1º Direito - Matutino

sábado, 1 de agosto de 2020

Durkheim no Divã



  28 de outubro de 1916
Por Dr. Sigmund Freud.

Ele se apresentou como David[1], o bigode era vultoso e encontrava-se com a volumosa barba que cobria grande parte do rosto, entretanto era calvo e usava óculos arredondados. Nosso dialogo se fez em francês, David era difícil, respondia poucas perguntas, disse ser professor universitário e que passou a ter sonhos agitados após a morte de seu filho André, morto lutando na guerra em dezembro do ano passado. Os sonhos de maneira recorrente eram associados a símbolos judaicos, como sinagogas e rabinos. David, apresentava um estado quase crítico, em determinado momento pedi que deitasse e fechasse os olhos para se concentrar nas lembranças, entretanto ele de maneira insistente falava: “suicídio, tanto o estudei, mas só agora pareço me ver em sua presença! ”. Comecei a explorar esses devaneios agitados.
David começou a cooperar mais depois de alguns minutos:
–  Por que estudou o suicídio?
– Em minha carreira acadêmica busquei demostrar o quanto que um ato individual como o suicídio, pode ser influenciado pelo meio social que o rodeia, desta forma teria a prova da necessidade de uma nova ciência. – Ele falou com uma certa dificuldade, balbuciava com frequência, o que me obrigou a ficar bem próximo para compreendê-lo –.
Tentei de maneira insistente retornar a temática dos sonhos, o pouco que extraí foi que David pertencia a uma família de longa tradição rabínica, mas tomou para sua vida uma ética ateísta. Segundo David, sempre esteve próximo da família, mas concebia a fé mais como um produto do meio em que vivia do que uma revelação divina, apesar de seu estado, revelava uma grande erudição. Por conseguinte, após uma pausa ele retornou a dialogar:
 Sua família é de qual região da França, Sr. David?
 Épinal, em Lorena, a cidade é cortada pelo Rio Mosela.
 Tem mantido correspondência com sua família ou amigos?
 Não, ando exausto para correspondências, meus dias em Paris resumem-se a sonhos, devaneios e releitura de meus escritos.
 Poderia me contar acerca de seus escritos?
 Einen Augenblick...– ele me pediu um momento, não imagina que falava tão bem o alemão[2], depois de um tempo retornou ao raciocínio – em breves palavras diria que minha dedicação durante meu período intelectualmente produtivo foi demostrar que existem certos fatos sociais que são externos aos indivíduos e que atuam de forma fixa ou não, exercendo coerção sobre o indivíduo, acho que essa é a simplificação grosseira correta – aquele esforço foi extremamente exaustivo para ele, aparentava uma grande exaustão física e mental, com dificuldade, levantou-se do divã, agradeceu com um aperto de mãos e saiu –.
Corri atrás dele pelos corredores, quando o alcancei já estava descendo as escadas, tentei remarcar uma nova análise, mas ele se recusou, disse que precisava retornar o quanto antes para Paris e que não poderia permanecer em Viena. Quando se virou eu lhe disse: 
 Também sou judeu, se isso servir de persuasão para o senhor permanecer em Viena, sei que temos dificuldades em nos revelarmos como judeus atualmente, se é que algum dia não tivemos dificuldades.
 Infelizmente não posso Sr. Freud... adeus!

[1] “David”, era o primeiro nome de Émile Durkheim, nascido em 15 de abril de 1858, faleceu em 15 de novembro de 1917, vítima de um AVC, sua saúde começou a piorar logo após a morte de seu filho André, em 1915. 
[2] em 1885, Durkheim decidiu ir estudar na Alemanha, onde, por dois anos, estudou sociologia em Marburgo, Berlim e Leipzig.

(O diário é ficcional)

Luis Gustavo da Silva/Matutino






quarta-feira, 29 de julho de 2020

A homossexualidade na visão positivista.

(Primeiramente, gostaria de deixar claro que discordo totalmente com o que foi argumentado neste texto e, de maneira alguma, corroboro com esse tipo de posicionamento homofóbico, sendo o texto apenas uma atividade para discutir o assunto sobre o ponto de vista do Olavo de Carvalho e positivista). O mundo contemporâneo está tomado pela desordem social, em detrimento de indivíduos egoístas que, de modo algum, negam seus desejos por um bem maior, ou seja, pelo bem da sociedade. Esses colocam suas vontades acima de tudo, ignorando sua responsabilidade de garantir a ordem social. De acordo com a teoria positivista, os homossexuais são um grande exemplo de uma parcela da sociedade que está dominada por valores imorais, os quais saem do padrão normal e, assim, prejudicam à harmonia social.
O positivismo, sob a ótica de Comte, é uma física social que tem o dever de aperfeiçoar a sociedade e, para isso, é preciso que existam duas condições fundamentais: a ordem e o progresso. A ordem é o requisito para que haja o progresso, e este é o objetivo da ordem. Desse modo, ambos têm uma relação de codependência. Porém, para que haja a organização social, o cidadão necessita exercer seu papel prescrito pela moral. Nesse sentido, torna-se necessária a vigilância dos próprios indivíduos para que estes modelem suas condutas com foco no bem público e não, apenas, na felicidade pessoal. Assim, o positivismo prevê a primazia da sociedade sobre o indivíduo. 
Na contemporaneidade, o homossexualismo vem se difundindo cada vez mais sobre as pessoas, principalmente sobre os jovens, os quais estão mais sucintos a ceder de sua moral e dignidade por meros desejos carnais. Eis o problema: os homossexuais querem se igualar aos heterossexuais ou, ainda pior, querem mais direitos que o cidadão hétero. Tal requerimento é um absurdo porque, enquanto o heterossexualismo tem funcionalidade reprodutiva de garantir a manutenção social dando continuo a humanidade, o homossexualismo não passa de ser, apenas, um desejo sexual. Ademais, é incoerente o pedido por direitos específicos, visto que, considerando o artigo 5º da constituição, todos são iguais perante à lei, e como a orientação homossexual é uma escolha do indivíduo, não deve ser dado à ele privilégios por isso. 
Logo, a relação entre pessoas de sexo diferentes é prioritária e essencial à continuação da vida na Terra sendo, assim, um imperativo humano. Já, a relação entre duas pessoas do mesmo sexo é uma opção, a qual pode - e deve - ser revogada pelo bem comum, pois esta interfere na harmonia social, e, desse modo, prejudica todos os cidadãos, uma vez que o homossexual vive numa posição disfuncional e inadequada e, por isso, não deixa que a sociedade funcione adequadamente. Beatriz Simões - 1 ano noturno

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Olavismo cotidiano


Um dia desses na semana passada, percebi que meus alimentos estavam se esgotando e então, sem outras opções, precisei sair para a rua. Fiz todo o protocolo quase ritualístico necessário atualmente: peguei um frasco de álcool gel, calcei os sapatos que ficam do lado de fora da casa, vesti minha máscara e fui.
Um quarteirão antes de chegar ao mercado avistei ele, Olavo, vestido com uma camiseta do Brasil e um grande crucifixo pendurado no pescoço fazendo par com seu anel de São Bento. Ele é um daqueles conhecidos que o primo de um amigo me apresentou anos atrás e que quando nos encontramos sempre me deixa desconfortável com seu jeito ostensivo. Por um momento, considerei adicionar uma caminhada de 2,5km e rumar para o segundo supermercado mais próximo a fim de evitar o encontro, mas antes que eu pudesse tomar a decisão ouvi a voz já conhecida me chamando:
- Orra, se não é meu pupilo! Como vai você? – disse ele com a máscara no queixo entre tragos do seu cachimbo e com um sorriso enviesado no rosto.
- Tudo certo comigo, Olavo... e você? Faz o que por aqui?
- Eu estava sendo atacado há anos no meu prédio por todos os moradores, sem exceção! Colocaram câmeras no elevador apenas para vigiar o Olavo, então me mudei de lá, faz dez anos! Agora, me mandaram uma conta com juros de todas as taxas de condomínio que eu não paguei! Um absurdo! E quando eu falei com o síndico para me ajudar, ele não fez nada! Achava que nós éramos amigos, mas aparentemente só eu era amigo dele... eu o ajudei a ganhar a eleição do prédio e tudo.
- Entendi... olha, na verdade a instalação de câmeras nos prédios é uma questão de segurança, protocolar. Quanto a cobrança de contas, você realmente tem que pagar, se não é crime.
- Cala a boca, seu burro. Eu falei pro síndico, Jair, que vou mandar um processo pra ele de prevaricação, o idiota nem sabe o que é, mas funcionou, até voltou a me chamar pelo apelido carinhoso que ele me deu, Guru. Agora vou ali falar com o Luciano, dono do mercado, vamos ver se ele quer me ajudar.
- OK, vá em frente. Só mais uma pergunta, sua filha está bem? – e com isso ele saiu sem dizer mais nada e entrou na loja parecendo enfurecido, não entendi o motivo dessa reação.
Então, segui com os meus planos e fui às compras. Vi de longe aquele inconveniente homem colocar alguns itens em seu carrinho, um ketchup, um saco de laranjas, enquanto resmungava ao som das músicas do Caetano Veloso que tocavam no supermercado.
Depois do que pareceram horas, enfim concluí minhas compras, com o prazer redobrado de poder sair daquele ambiente incômodo. Mas é claro que na porta do supermercado estava o Olavo.
- Ele quer fazer uma vaquinha, o Luciano, esse palhaço. – disse entre gestos amplos, parecendo irritado.
- Pelo menos ele vai te ajudar. Até mais Olavo, as sacolas estão pesadas e eu tenho que ir embora.
- AHAHA vai dizer você acredita no que Newton escreveu? Graças a deus você já está indo embora mesmo... e não vou nem te cumprimentar, sabe como são as coisas... precisamos sempre provar que não somos homossexualistas, nesse mundo desigual e injusto que nos invalida.
- É, por isso que não podemos nos cumprimentar agora. Tchau.
No caminho de volta pra casa fiquei pensando nesse encontro com o figurão. Olavo de Carvalho, positivista, católico fervoroso, desordenado, aplica as lógicas do método científico ajustadas à sua análise e sem o menor rigor. Mas faz sentido, se o estado positivo é o mais avançado, o religioso parece o lugar dele como o mais distante da lógica técnica. Infelizmente ainda restam muitos Olavos pelo Brasil, difundindo ignorância e desconhecimento.
Pedro Sousa Salgueiro Pawlowski - 1° ano Direito - Matutino

O positivismo surge diante de um cenário político marcado pelas revoluções burguesas do século XIV, entre 1830 a 1848. Nesse contexto em que não havia conhecimento sistematizado na ciência para domínio do mundo social, a corrente psitivista surge como a física social.

O sociólogo Augusto Comte defende que os objetivos do positivismo consistem em identificar a vinculação entre os fenômenos, e não buscar a essência das coisas. E as pesquisas positivas devem focar na apreciação sistemática daquilo que é, ignorando sua origem e seu destino final. Assim, o método positivista preocupa-se em descobrir as leis efetivas de um fenômeno social, definido pelas suas relações invariáveis de sucessão e similitude.

O positivismo acaba por naturalizar questões problemáticas da sociedade como as desigualdades sociais pois são tidas como necessárias para manutenção da ordem e conquitsta do progresso. Em função de manter a ordem social, o positivismo reforçar cada indivíduo a aceitar seu lugar social e seu papel definido, contribuindo para um cenário desigual, no qual parcela da população usufrui de poder e privilégios, enquanto o restante possui menos direitos, e não há a possibilidade de ascensão social pois deve-se acatar seu suposto status já definido.

Ainda que tenha sua importância, diante das problemáticas apresentadas, o positivismo é uma corrente ultrapassada para a observação de fenômenos sociais. Porém, há autores que ainda utilizam uma visão positivista na sociedade contemporânea, como Olavo de Carvalho em seu livro “O Imbecil Coletivo”. Nessa obra, o autor oculta opiniões extremamente preconceituosas atrás de argumentos positivistas ao dissertar sobre a homossexualidade.

Em seus textos, Olavo de Carvalho se refere á homossexualidade como homossexualismo, termo errôneo devido ao sufixo “ísmo” que configura patologia, e defende a heterossexualidade como o positivo, ou seja o correto diante do incorreto (homossexualidade). Ademais, o autor concentra a discussão na funcionabilidade social, sendo a relação heterossexual funcional na sociedade para a reprodução humana, enquanto a relação homoafetiva é apenas um desejo, não configurando um imperativo humano. Consequentemente, na visão olavista, a homossexualidade é egoísta e não contribui para o bem coletivo nem para a promoção da ordem social.

Diante disso, fica claro o caráter preconceituoso do autor ao afirmar tais absurdos sobre a homossexualidade, sendo esta a orientação sexual de um indivíduo que possui os mesmos direitos do que qualquer outro. E assim como no século XIV, a visão positivista ainda acaba por perpetuar relações desiguais na sociedade, resultando em grupos sendo marginalizados e inferiorizados.

Pedro de Miranda Cozac -1º ano Direito (matutino)


"Cura gay"

 “Não sou obrigado a gostar de ninguém. Tenho que respeitar, mas, gostar, eu não gosto.” , essa foi uma das frases proferidas por Jair Bolsonaro em uma entrevista a revista Playboy, na qual ele afirma que "seria incapaz" de amar um filho homossexual. Tal entrevista dialoga muito bem com o livro "O imbecil coletivo" de Olavo de Carvalho, autor prestigiado pelo presidente, que não tem medo de falar a verdade sobre assuntos polêmicos. Essa afirmação de Bolsonaro tem muito fundamento quando pensamos na ideia do "Direito à repugnância" levantada por Olavo em seu livro, a qual afirma que ao negarmos os fatores científicos e biológicos, estamos nos enganando e é isso que os homossexuais querem, pois assim eles podem ganhar vantagens por meio de direitos específicos e políticas públicas, e continuar a proferir seus desejos sexuais. 
 Além desses pontos, o autor também aponta que a homossexualidade é um desvio, ou seja, uma deficiência (assumida pela OMS como um transtorno até 2019 e que deveria ter continuado assim) que precisa ser corrigida para se manter a ordem social. Nesse sentido, surge a necessidade de implementação de um tratamento para esses cidadãos que não queiram continuar doentes, uma "Cura gay", assistida por médicos e psicólogos que queriam contribuir com a ciência em prol do todo. 
Portanto, a afirmação de Bolsonaro é correta, uma vez que tem fundamento teórico, segue os padrões normais da sociedade, os quais visão a perpetuação da espécie e estão vinculados com a moral e a ciência e não desrespeita nenhum direito vigente, uma vez que ele usa de seu Direito à liberdade de expressão e repugnância.
Julia Dolores - Direito matutino. 
OBS: esse texto não representa a real opinião da autora, sendo apenas uma atividade proposta pelo professor. 

Ideias positivistas e suas influências no mundo atual

Augusto Comte dividiu o Estado em três leis: o teológico (o homem recorre a intervenção das divindades), metafisico (dissolução do teológico) e o positivo (buscar fundamentar as teorias na observação e formulação de leis universais), sendo esse último, o estágio máximo, o necessário para a ordem e o progresso. No Brasil, esses ideais ainda estão presentes como o decreto n°4 de 19 de novembro de 1889 que adotou o lema comtiano “Ordem e Progresso” na bandeira nacional ou alguns feriados nacionais que tem inspiração positivista como o dia da fraternidade universal (1° de janeiro) ou o dia da República (15 de novembro) que tem como objetivo garantir a noção do coletivo.  

A princípio, Olavo de Carvalho em seu livro “O Imbecil Coletivo” em “Mentiras Gays” discute o homossexualismo como apenas desejo no qual a sua supressão levaria apenas a insatisfação do indivíduo, enquanto a da heterossexualidade levaria a extinção da espécie. Um dos exemplos usados pelo autor no tema do preconceito é o de Graciliano Ramos que preferia passar fome em vez de comer algo feito por um cozinheiro gay. Dessa forma, ele levanta o questionamento: “Por que os homossexuais deveriam ter o direito de expressar livremente seus desejos, por mais arbitrários e irracionais que sejam, quando negam esse direito aos que sentem da maneira contrária?”. Logo, é necessário avaliar ambos os lados, não apenas o do homossexual, mas também de quem não concorda com o assunto e tem o direto da liberdade de expressão violado.

Outrossim, em 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea que aboliu a escravidão. No Brasil, em 1988, a Constituição Federal Brasileira, garantiu em seu artigo 5° que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Assim, não existe a ideia de racismo estrutural porque vivemos em uma democracia e o que importa é o agora, não o que aconteceu ou deixou de acontecer no passado, e atualmente, todos são iguais perante a lei.

Dessa forma, pode-se verificar que ideias positivistas ainda são encontradas no Brasil atualmente, apesar de existir grupos que se opõe a ela e prejudicam o ideal de “ordem e progresso” e do coletivo.

PS: Esse texto não condiz com as ideias da aluna.

Referência: https://www.planetaenem.com/o-que-era-o-positivismo-no-brasil-e-como-se-manifestou/#:~:text=Alguns%20dos%20feriados%20nacionais%20que,Rep%C3%BAblica%20(15%20de%20novembro).

Maria Júlia Servilha Hasegawa- 1°ano- noturno


Sobre ciência, religião e futebol não se discute.

Progresso ou retrocesso?


No Brasil de 1889 foi instaurada a Primeira República, dando fim ao regime monárquico que perdurou por quase 70 anos, e em poucos dias após a sua proclamação, o lema “Ordem e Progresso” foi inserido na bandeira brasileira. Tal lema foi inspirado na frase “O Amor por princípio, a Ordem por base, o Progresso por fim” de Auguste Comte, um sociólogo positivista, autor de ideais que influenciaram o Brasil naquela época e continuam influenciando até hoje. Para ele, o progresso da sociedade é natural, linear e decorrente da ordem, que seria proteger e defender tudo aquilo que afeta positivamente o meio social.
Esse progresso foi dividido pelo sociólogo em três estados: teológico, metafísico e positivo. No estado teológico, a sociedade ainda acredita na influência de seres sobrenaturais sobre os fenômenos da natureza e os sociais, recorrendo à religião para explicá-los. O estado metafísico seria o abandono das religiões e a busca pela essência das coisas, ainda sem aprofundamento e comprovação científica, para finalmente chegar no último estado, o positivo, que é pautado na ciência e no método científico para entender as leis sociais e naturais, sendo esse o último estágio de evolução da razão humana.
Para Comte, o importante não é entender como acontecem os fenômenos, mas sim a ligação entre eles. Com isso, a análise feita torna-se muito superficial, pois não busca encontrar a essência do fato e o porquê ele ocorre, fazendo com que muitos problemas continuem acontecendo por serem aplicadas apenas medidas paliativas. Um exemplo disso foi a lei seca nos Estados Unidos, que baniu a produção e a venda de bebidas alcóolicas, apenas aumentando o índice de mortes, pois as pessoas buscavam a substância no mercado ilegal, que vendia um álcool mais forte e com a qualidade mais baixa, e o lucro obtido por esse comércio ilegal apenas aumentou o crime organizado e a violência no país. Ou seja, observar o problema do álcool apenas proibindo seu uso piora a situação, pois não considera o todo.
Infelizmente, esse tipo de ação ocorre com frequência no Brasil hoje em dia. O atual presidente Jair Bolsonaro foi eleito com um discurso pautado em violência e imediatismo, como se as ações militares fossem resolver todo o problema da criminalidade no país. Ele não leva em conta o racismo estrutural, a desigualdade social e a corrupção, considera que apenas eliminar os transgressores vai acabar com o problema, vide sua famosa frase “bandido bom é bandido morto”, mas não considera que, enquanto existirem problemas estruturais, mais pessoas buscarão a criminalidade, perpetuando assim a problemática.
Todo esse problema estrutural é decorrente de preconceitos estruturais, como o racismo, que marginaliza a população preta. Infelizmente, a sociedade brasileira apresenta diversos outros preconceitos enraizados, tal qual a homofobia. Um famoso autoproclamado filósofo, Olavo de Carvalho, que era considerado o “guru” do Jair Bolsonaro, escreveu em seu livro “O Imbecil Coletivo” um capítulo chamado “Mentiras Gays”. Nesse capítulo ele apresenta diversos dados deturpados sobre homossexuais, usa o termo “homossexualismo” que, com o sufixo -ismo, denota doença, diz que homossexualidade “é uma opção; a heterossexualidade é um dado”, tornando a orientação sexual de diversas pessoas um mero fetiche e dizendo ainda que ser homossexual é ser egoísta, pois fala apenas pelo desejo de um grupo, enquanto os heterossexuais “falam em nome da espécie humana”.
Conclui-se que assim como a ciência, a humanidade também deve evoluir e progredir, mas esse progresso deve levar em conta todos os indivíduos de uma sociedade, e não apenas uma parcela dela. A estratificação social existe há muito tempo, e isso não é um progresso. Inferiorizar indivíduos, de qualquer forma, é um grande retrocesso. A corrente positivista ajuda a manter essa situação, pois a ampara no argumento de que é algo intrínseco à humanidade, fundamentando assim os discursos de ódio.

Bianca Vipiéski Araújo- 1º Ano - Matutino.

Amor onde? Progresso para quem?

No decorrer do século XIX, o pensamento positivista, idealizado por Augusto Comte, ganhou força, tornando-se socialmente engajado, sobretudo no meio militar. Consequentemente, o movimento republicano no Brasil também se ligou ao militarismo e tinha por finalidade última conduzir a população brasileira ao Progresso, através da formação de um estado nacional-republicano de caráter positivista. 

Foi então que surgiu a necessidade de construir uma identidade brasileira, manifestada, dentre outras ações, na criação da Bandeira Nacional, idealizada pelo belicista Raimundo Teixeira Mendes. Com isso, “Ordem e Progresso” estampou o centro do lábaro estrelado e preconizou a filosofia social adotada no Período Republicano. Evidentemente, o pragmatismo do lema é notório, contudo, incompleto, pois Comte falava em “Amor por princípio, Ordem por base e Progresso por fim”.

Dessa forma, a concepção comtista era de que, nas palavras do próprio autor “O Amor sempre deve ser o princípio de todas as ações individuais e coletivas, enquanto a Ordem consiste na conservação de tudo o que é bom, belo e positivo, bem como o Progresso é a consequência do desenvolvimento e aperfeiçoamento da Ordem”. Ou seja, a moral humana rege o ordenamento social que por sua vez leva ao Progresso geral da nação. Sendo assim, de modo similar, a conduta comum, manifestada na prática cultural, culmina na finalidade principal: o bem estar social. 

Contudo, analisando dessa maneira, o positivismo revela-se estritamente sistemático, já que ignora em sua formulação a origem e o destino dos indivíduos: a ideia era compreender o que a sociedade significava em si mesma, independe de fatores externos. Do mesmo modo, a harmonia social sobrepõem-se ao sujeito, anulando qualquer perspectiva individual de ascensão estamental, assim como anula a vontade particular dessa ascensão. Portanto, o ideal positivista viabiliza a desigualdade em seu cerne, ao considerá-la não só natural, como também fundamental para a melhora do coletivo humano — não por acaso, foi justamente no Período da República Velha em que as desigualdades mais se acirraram no país, segundo a antropóloga Jacqueline Muniz, professora da UFRJ. 

Nesse sentido, o executivo brasileiro encontra-se novamente nas mãos de militares e de positivistas (Bolsonaro e sua equipe “técnica”) — e mais uma vez as disparidades de renda também voltaram a crescer, depois de uma década de melhoras, segundo o IBGE. Entretanto, é importante ressaltar que o positivismo contemporâneo está maquiado, por exemplo, nos ideais do pensador/astrólogo Olavo de Carvalho que, em 1996, escreveu “O imbecil coletivo”, cuja máxima é de que a ordem social é garantida na reprodução humana. Nesse raciocínio, a homossexualidade é vista como um desejo egoísta, que contribui somente ao desestruturamento da Ordem. O indivíduo LGBT é, portanto, passível de punição pela sua condição em si (repare na restritiva normatização do olavismo, semelhante àquela apontada na formulação da sociedade positiva). Em suma, a história do positivismo se confunde com a história do Brasil na medida em que se mescla com o militarismo e resulta no contraditório delírio contemporâneo proposto pelo olavismo. Ao leitor restam duas dúvidas: Aonde foi o Amor do lema? E a quem o Progresso se destina? 

Por Diego Malvasio Bertolino, aluno do 1º ano em Direito Noturno na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Cientificismo ou Achismo?


A sociedade brasileira desde sua independência passou por diversas mudanças, mas sempre é possível encontrar resquícios dessas alterações, bem como, ideais positivistas. Não só na frase “Ordem e Progresso” que está na bandeira do Brasil, mas também em pensamentos do ideólogo Olavo de Carvalho que segue uma linha de racionalização da moral. Os ideais do positivismo comtiano estão presentes, principalmente, em indivíduos que compõem as áreas militares da sociedade.
 Desse modo, se pegarmos o histórico da Proclamação da República do Brasil. Nota-se que foi realizada por militares, que seguiam os ideais de Augusto Comte, para retirar o sistema monárquico do Brasil. O positivismo comtiano tem como ideia central a Lei dos três estados que são, respectivamente, o teológico, metafísico e o positivo.
Destaca-se a semelhança entre a divisão Lei dos três estados e o pensamento do brasileiros em relação ao Covid-19, primeiro o vírus veio porque Deus queria unir as pessoas, em seguida foi criado e mandado pela China, no final a ciência chega e mostra que é um vírus perigoso, que sofreu uma mutação que permitiu a contaminação de humanos.
O ideólogo Olavo de Carvalho em “Mentiras Gays”, nos apresenta a homossexualidade como uma doença ao fazer referência usando o termo homossexualismo. Logo após, vemos de maneira explicita o racionalismo, já que o autor acredita que os direitos específicos à comunidade LGBTQI+, não devem existir e os membros dela devem ter os mesmos direitos que todas as pessoas da sociedade.  Ademais, a ideia do autor acaba se tornando uma verdade nos moldes positivistas, por que ele racionaliza a moral e apresenta argumentos.
Enfim, é necessário a ordem e o progresso de Comte para a sociedade evoluir nos moldes científicos, eliminando os mitos e as crenças teológicas que impediram por séculos os avanços em diversas áreas do conhecimento. De modo algum, devemos seguir linhas positivistas dos olavistas, pois essas seguem ideias morais e não verdades científicas, podendo muitas vezes oprimir ainda mais as minorias e aumentar as desigualdades entre elas e os julgados “normais”, ou até mesmo fazer com que pessoas ignorem pesquisas cientificas para acreditar que uma doença que matou mais de 648 mil pessoas, não passa de uma gripezinha.



Murilo Augusto Cremonini       1°Ano      Direito Matutino

Desordem e Regresso


A militância a favor das “minorias” está presente na sociedade do século XXI. Desse modo, são comuns os ataques às pessoas que seguem a linha do conservadorismo e, também, buscam direitos aos LGBTs, que não passam de pessoas normais.
Os militantes tentam destruir os movimentos conservadores e muitos, às vezes, alteram sua verdadeira importância. Por exemplo, a Revolução de 1964, que esses comunistas insistem em chamá-lo de Golpe de 64. Ademais, vemos uma inversão de valores, pois temos defesa dos direitos humanos e uma destruição da imagem da polícia, força que mantém a ordem para que ocorra o progresso.
Outrossim, é possível ver o aumento do movimentos LGBTs que além de seguir as ideias acima, busca a desnaturalização da heterossexualidade, opção sexual que permite o desenvolvimento e a continuação da espécie humana. Dessa forma, naturalizando o homossexualismo, opção sexual que é escolhida apenas por desejo e prazer, como diz o filósofo Olavo de Carvalho em “Mentiras gays”.
Vendo o aumento desses ideais egoístas e que visam a opressão de quem não segue essa linha de pensamento, deve-se analisar e barrar urgentemente essa expressão e disseminação de convicções de militância a favor das minorias que se vitimizam na sociedade. Desse modo, é de extrema importância as manifestações de apoio ao nosso presidente Jair Bolsonaro, que é contra esses tipos de balbúrdia que os esquerdistas criaram, já que ele segue os princípios de ordem em progresso da Revolução de 64.



Obs.: O texto não representa o viés ideológico do autor, sendo apenas uma atividade para fins acadêmicos proposta pelo professor para a prática da alteridade perante a corrente sociológica apresentada.


Murilo Augusto Cremonini       1°Ano      Direito Matutino

O Cupim e a Aranha


“A gravidade já existia muito antes de Newton, mas a sua descoberta serviu para comprovar o quão inútil é a ideia de a desafiar”


  

Era uma vez uma clareira, onde havia uma Grande Árvore, alta e com copas fartas, habitadas por pássaros que tinham à sua disposição todas as frutas oferecidas por aquele local. Dentro dessa árvore, diversos insetos tiram proveito dos pequenos espaços e galhos para começar seus ninhos e pegar as sobras que os alimentos que caem das copas mais altas.

        Na base da Grande Árvore, havia uma colônia de cupins, viviam da madeira dela e precisavam lidar com as ameaças vindas de outras partes da clareira, como pássaros que se alimentavam de cupins e por consequência acabavam destruindo parte das estruturas da colônia. Perceptível que a vida de cupim não era muito fácil, mas é a ordem natural das coisas como peças importantes na cadeia alimentar de todo aquele espaço.

            No entanto, havia um Cupim específico, que se destacava como o mais inteligente entre todos. Mesmo que para os padrões de um cupim isso queira dizer que este usa muito bem o espaço de um crânio que tem o tamanho da cabeça de um alfinete, o Cupim era um grande construtor, o melhor entre seus pares.

            Certa vez, enquanto reparava os danos de mais um ataque de pássaros contra a, o Cupim refletia sobre como evitar que essas fatalidades acontecessem de novo, então o Cupim pensou em um plano: Construir sozinho uma estrutura que possibilitasse a sua colônia de alcançar o topo da Árvore. Lá não teria como a colônia ser incomodada, pois estariam dividindo espaço com os pássaros e teriam toda a madeira da árvore para se alimentar, um plano teoricamente dotado de astúcia e ambição, mas nada muito difícil para o construtor mais habilidoso e inteligente da colônia.

O Cupim apresentou sua ideia para a Rainha dos Cupins, que viu nas vantagens uma oportunidade e tampouco se viu na posição de duvidar das capacidades do seu mais árduo construtor, que conduziria a ideia sozinho. Sendo assim, foi dado o sinal verde para que se iniciasse o que seria uma inovação para todos os cupins, conduzida justamente pelo mais esforçado da colônia.

Depois de dias à fio furando madeira e abrindo buracos na Grande Árvore, o Cupim, apesar de cansado, era movido pelo desejo de em algum momento conseguir ocupar as copas mais altas, onde teria a melhor madeira, menos predadores e a segurança que este tanto almejava, e esperava no mínimo ficar com a parte mais alta da colônia caso cumprisse seu objetivo.

Porém, quando terminava uma estrutura na parte intermediária da árvore, uma forte rajada de vento afligiu o Cupim, que pequeno como é, acabou por ser arremessado em direção a teia de uma Aranha. Tenso e desesperado pelo infortúnio, já imagina ali seu destino selado: Virar a refeição de um predador qualquer.

Ao fim da ventania, ainda preso nas teias, o Cupim passou do desespero para o conformismo, mas sem antes usar da astúcia de ser o mais inteligente dos cupins para tentar se livrar do que poderia ser o fim da sua vida. Após refletir um pouco, a Aranha, que antes ocupada protegendo seu ninho do vendaval, agora se encaminhava rumo ao Cupim, uma deliciosa recompensa pelo esforço que precisou fazer para proteger as suas crias.

 - Espere, não me coma! – Disse o Cupim

- Me dê um bom motivo para que eu não o coma – Disse a Aranha, com as suas presas úmidas em veneno, preparada para abater o petisco que caíra em sua teia.

- Eu posso construir uma casa para você! Você sabe como nós cupins somos grandes construtores, eu sou o melhor da minha colônia. – Justificou o Cupim

- Ora, já tenho uma casa, eu mesma sou capaz de construí-la com minhas grandes teias, além de serem muito mais confortáveis que uma casa de cupim.

- Sou a melhor e mais inteligente entre os cupins! Por favor, me deixe ir! Acharei um meio de te recompensar de alguma forma se eu conseguir chegar na copa dos pássaros lá em cima com a colônia. – Suplicou o Cupim.

- Como o quê por exemplo? – Indagou a Aranha.

- Tudo! A melhor madeira, as melhores copas para montar uma teia confortável para sua ninhada, proteção contra outros predadores. Apenas me deixe sair e quando terminar meu projeto, lhe darei tudo o que você precisar. – Implorou o Cupim, pedindo misericórdia.

- Bom, pois agora tudo o que preciso, é de comida para a minha ninhada. – Afirmou a Aranha.

            Antes sequer do Cupim ter a oportunidade de pedir misericórdia pela sua vida uma última vez, ele foi rapidamente envenenado, abatido e servido como janta para a ninhada da Aranha, que naquela noite dormiria feliz e satisfeita por conseguir manter em ordem sua prole durante mais um dia na altura intermediária da Grande Árvore. Dando seguimento a mais uma geração naquele ecossistema único e milenar. Sorte essa que mesmo o mais inteligente dos Cupins nunca mais iria aproveitar, pois ao contestar a lógica da Grande Árvore, pagou com a vida o preço de tentar alterar a ordem pela soberba exagerada que por vezes o fez esquecer que mesmo entre os insetos, ele era apenas um cupim, entre outros tantos que cumprem muito bem a sua função: Ser a base alimentar para o progresso de tantas outras proles e ninhadas de outros animais.   



Lucas Costa Mignoli Ferreira da Silva - 1ºDireito / Noturno