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terça-feira, 7 de setembro de 2021

 Ensaio sobre a Sociologia Compreensiva de Max Weber e Jessé de Souza com uma interpretação compreensiva de um país, às vezes, difícil de se compreender com um recorte especial da realidade sobre a classe média 

 

          
Rubens Chioratto Junior 
RA 211.222.526- noturno 

Introdução: Max Weber e Jessé de Souza 


Max Weber  

O sociólogo alemão Max Weber nasceu em abril de 1864 na cidade de Erfurt, na Alemanha. Faleceu no ano de 1920, na cidade de Munique. Sua formação percorreu o âmbito do direito e economia e, foi professor nas faculdades de Heidelberg e Freiburg. Aprofundou seus estudos para compreender as transformações ocorridas na Europa decorrentes da Revolução Industrial. 

Para compreender a sociologia weberiana, devemos entender que o período histórico vivido pelo autor foi marcado pela intensa industrialização alemã, além da instituição e consolidação do Império Alemão, que propiciou a unificação da Alemanha através da figura de Otto Von Bismarck. 

Principais Obras: Diversos livros e ensaios, entre eles, Economia e Sociedade; A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo; A Ciência como Vocação; Ensaios de Sociologia. 

Jessé de Souza 

O sociólogo brasileiro, Jessé José Freire de Souza nasceu em Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte no ano de 1960. Mudou-se para Brasília, para realizar a graduação no curso de Direito na Universidade de Brasília (UNB) concluída no ano de 1981. Concluiu seu Mestrado na área de Sociologia na mesma instituição no ano de 1986. 
Em 1991, doutorou-se em sociologia pela Universidade de Heidelberg localizada na Alemanha, país onde obteve livre docência nesta mesma disciplina pela Universidade de Flensburg no ano de 2006. (extraído da Wikipédia). Em 2017, recebeu o prêmio Jabuti. 

Principais Obras: entre os 27 livros dele, encontram-se, A Elite do Atraso; Á Ralé Brasileira: quem é e como vive; A Classe Média no Espelho; A Radiografia do Golpe. 

 

 Sociologia de Max Weber 

Influenciada pelo relativismo cultural, podemos chamar a sociologia de Max weber de Sociologia Compreensiva, a qual é caracterizada pela influência, também, do idealismo hegeliano e pela forte crítica ao evolucionismo positivista, ao universalismo, a neutralidade do cientista e a presença das leis sociais.  

Ao olhar para o positivismo, Weber não acredita de formulações de leis sociais capazes de controlar e formular leis gerais para o entendimento da sociologia e transformação social, o autor compreende que a sociedade é complexa, única e imprevisível. Além disso, as culturas são diferentes, não superiores uma em relação as outras, rompendo, então, como evolucionismo positivista.  

Weber é contrário às ideias de Comte e Durkheim quando relacionadas à neutralidade do pesquisador em relação ao objeto de estudo. Para ele, a sociedade não pode ser analisada de maneira comparativa, pois esta é uma realidade infinita de fatos. Portanto, ao estudar uma ação social, o sociólogo estaria extraindo apenas uma parte do tempo e do espaço para análise, e esse simples fato da extração do objeto de estudo, segundo Weber, anularia o princípio da neutralidade e da universalidade. Os eventos sociais, na sociologia compreensiva de Weber, são singulares e únicos. 

Weber também se difere da teoria marxista ao crer na diversidade da compreensão sociológica, contrapondo-se ao universalismo marxista. Ele afirma que o pensamento materialista de Marx seria um Tipo Ideal de compreensão da realidade, e não um valor absoluto. Seria, portanto, uma perspectiva dentre as diversas perspectivas.  Partindo deste ponto, Weber escreve a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, como a demonstração de um novo Tipo Ideal de compreensão da realidade, não mais baseando-se no materialismo dialético, mas compreendendo que as transformações religiosas e culturais contribuíram para o desenvolvimento capitalista.  

É na sociologia weberiana que vemos uma maior autonomia do indivíduo em relação a sociedade. Se Durkheim cria que o indivíduo só é concebido na sociedade e por ela determinado, com Weber, o indivíduo e a sociedade possuem o mesmo tamanho de influência entre si.  

Ação Social 

Ao formular um objeto de estudo para a sociologia, Weber institui a ação social. Para o autor, esta é o objeto de análise do cientista, que tem por definição uma conduta humana dotada de sentido. A partir disso, o sociólogo teria a responsabilidade de realizar uma análise minuciosa do objeto com a finalidade de desvendar o motivo da ação social e prever suas consequências, compreendendo o recorte da sociedade extraído do estudo sociológico.  

Apesar da realidade ser infinita e singular, Weber elenca quatro categorias de ações sociais, com o intuito de nortear o estudo do cientista. São elas: Ação social racional com relação a fins; ação social racional com relação a valores; ação social tradicional; ação social afetiva (emotiva). 

Ação social racional com relação a fins: É classificada como sendo estritamente racional, na qual o indivíduo analisa o melhor meio para alcançar seu objetivo final.  

Exemplo: um estudante, ao formular uma rotina de estudo, para passar no vestibular.  

Ação social racional com relação a valores: O segundo tipo de ação social ainda é racional, contudo, não é o fim que influência a ação do indivíduo, mas sim, seus valores.  

Exemplo: Valores éticos ou religiosos.  

Ação social tradicional: Esse tipo de ação social é irracional, baseada em costumes e hábitos enraizados no indivíduo.  

Exemplo: Superstições.  

Ação social afetiva (Emotiva): Uma ação irracional movida pelos sentimentos. 

Exemplo: Crime passional.  

Além da ação social, devemos também compreender o que Weber chama de relação social. Weber define relação social como o reconhecimento de outra pessoa ou grupo da ação social realizada pelo indivíduo. Uma ação social, para que se torne uma relação social, deve ser transmitida de códigos comuns entre os indivíduos, como a língua gestual ou comunicação imagética. Após um indivíduo, ou grupo, compreender o sentido da ação social, temos a possibilidade da aceitação ou não desta.  

Exemplo: Término de um namoro. Para que este fato social ocorra e se transforme em uma relação social, a comunicação deve ser feita através de códigos reconhecíveis, porém, essa ação pode ser passível de aceitação ou não por alguma das partes.    

Tipo Ideal 

Se a ação social é o objeto de estudo da sociologia weberiana, o tipo ideal é o instrumento para o desenvolvimento do estudo científico. Ele, então, é uma concepção teórica abstrata que o cientista utiliza para elencar características, as quais acredita ser essenciais para compreender a vida social. O tipo ideal é utilizado como forma de ordenação da realidade, dando possibilidade ao sociólogo de ter um meio indutivo para estudar a ação social.  

Tipos de Dominação  

Poder e dominação, apesar de serem palavras com ideias próximas, possuem diferenciação. Poder pode se classificar como sendo a capacidade de um indivíduo de mudar ou influenciar a ação de outrem, por outro lado, a dominação é a disposição de um indivíduo obedecer a uma ideia ou um conceito. Em sua obra “Economia e Sociedade”, Weber postula três diferentes tipos de dominação: Dominação carismática; tradicional e burocrática-legal. 

Dominação Carismática: É um tipo na qual o indivíduo se submete ao dominador baseado na devoção pessoal e nas habilidades exercidas por ele, tornando-a personalista. O que legitima este tipo de dominação são as características pessoais do dominador, o que faz com que ela seja completamente instável, pois nada garante a devoção permanente do dominado.  

Exemplo: Populismo, onde um indivíduo, de caráter messiânico, se elege devido as suas habilidades pessoais e carisma, onde, a população passa a conceder a dominação devido a devoção pessoal ao populista.  

Dominação Tradicional: A subordinação se dá pela fidelidade à tradição e costumes de uma cultura. Como tradições e costumes mudam lentamente, consideramos dominação estável. 

Exemplo: Estado Feudal (relação de suserania e vassalagem), onde o vassalo recebe terras doadas do seu suserano, que, pela fidelidade e necessidade, se vê submetido a ele.  

Dominação Racional-Legal: No terceiro tipo de dominação, a tradição e a devoção pessoal dão lugar à burocracia estatal. O indivíduo obedece a leis e normas, submete-se à hierarquia e à documentação, onde os superiores possuem formação e qualificação em sua função.  

Exemplo: Estados Nacionais Modernos, baseados na burocracia estatal. 

É neste estágio que observamos duas figuras fundamentais: o Estado Nacional Moderno e a modernidade.  

O Estado Moderno para Weber está conceituado no tipo racional-legal de dominação e só passa a existir a partir do momento que há obediência frente a hierarquia burocrática. O Estado é fruto da sociedade moderna, governando de forma impessoal, governantes devem ser escolhidos pelo voto. O Estado é o detentor do monopólio do uso legítimo da força, coibindo qualquer tipo de disfunção social e, impedindo que os cidadãos façam uso da violência de forma não legítima, portanto, uma dominação estável.  

É no estágio de dominação que Weber vê a modernização da sociedade. A modernidade propõe a exclusão da afetividade (carisma e tradição) na composição da organização da sociedade, cria espaço à racionalização e rejeita os valores do mundo. Perde o caráter personalista de organização e ganha o conhecimento técnico-científico.  

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo 

Weber, neste seu livro, postula um estudo entre a racionalidade e a reforma religiosa, mostrando a relação do desenvolvimento capitalista e a reforma religiosa. Seu objetivo era entender como a reforma religiosa propiciou mudança na ação social dos indivíduos e mudanças de valores que influenciaram o avanço do capitalismo.  

A reforma protestante, segundo Weber contribuiu para o desenvolvimento do capitalismo industrial ao introduzir na cultura dos seus indivíduos a ética do trabalho. Diferentemente da cultura católica, que pregava o ócio e a renúncia da vida “secular” como valor relacional religioso, a reforma protestante injetou a ideia da autorregulação, da racionalização e da austeridade.  

         O protestantismo possibilitou uma nova mentalidade nos indivíduos e na sociedade, trazendo uma transformação propícia ao capitalismo. A nova maneira do indivíduo se relacionar com Deus, agora de forma pessoal, e prezando pelas obrigações diárias. O trabalho passa a ser um fim em si mesmo, como forma de honrar a Deus, principalmente, segundo o autor, com as ideias Calvinistas de eleição, na qual, o indivíduo perceberia, no seu avanço material, a vontade de Deus sendo expressa.  

Vemos a influência das transformações culturais e valorais, que possibilitaram uma mudança na psique da sociedade, afetando diretamente a ação social feita pelo indivíduo na vida diária, o que afeta diretamente a vida em comunidade. Cabe ao cientista compreender a relação entre a motivação dos indivíduos e suas consequências na vida em sociedade. 

Crítica à teoria Weberiana 

Como crítica as ideias de Max Weber, Luciano Pellicani desenvolve uma teoria em que o espírito capitalista não advém com a reforma protestante e suas consequências na ação social, mas com a cobiça já presente na Idade Medieval, muito antes do que proposto por Weber. Este autor acredita que a ganância pelo lucro move as ações individuaisnão o dever secular inspirado no relacionamento com Deus. Concordo com isso, pensando na natureza do que conheço do ser humano! Aliás, o relacionamento com Deus, serve de uso como pretexto, ou seja, tem uso ideológico, para justificar tais ações. 

 

Análise social de Jesse Souza e a compreensão de um país difícil de se compreender 

O sociólogo brasileiro, ainda vivo, neste ano de 2021, realiza estudos sociais extensos, principalmente sobre as desigualdades sociais no Brasil, crítico voraz da classe média, fala do papel dela no contexto social e na manutenção dessas desigualdades, a força da ideologia dominante sobre o pensamento do brasileiro entre outros temas relacionados ao pensamento social e a visão das classes sociais o Brasil. O conflito entre classes sociais para Souza é algo latente, que passa despercebido para a maioria das pessoas, como se fosse algo natural, embora na prática do dia a dia seja algo muito presente. 

Souza discorda e rompe com a visão culturalista que enxerga o brasileiro como o ser cordial e bonzinho, capaz de dar um jeitinho para tudo e de um povo unido acima de tudo, inclusive das enormes diferenças existentes. Defende ele que a cultura sofre influência das instituições e não o contrário. 


           

    
É a sociedade, com suas instituições específicas, que cria os indivíduos como eles são, 

 e não o contrário. Para                     todos os grandes pensadores clássicos das ciências sociais, 

essas instituições são duas: o mercado competitivo                     capitalista e o Estado moderno 

centralizado. Sem essas duas instituições fundamentais não temos nem sociedade 

                moderna, nem pessoas modernas guiados por valores e ideias modernas. (A ralé 

brasileira: quem é e como 

vivem -               p.106). 


Jessé Souza acredita que para explicar o Brasil de hoje, só é possível se o explicarmos e entendê-lo desde o seu início. Nesta história cumpre papel importante para a formação do pensamento brasileiro a vinda da coroa e corte portuguesa para o Brasil – que trouxe a semente do Estado centralizado -, bem como a relação comercial com a Inglaterra consagrada no acordo da “Abertura dos Portos” - que trouxe a semente “troca de mercadorias”. 


                  Os “pais” dessa modernização transplantada foram o Portugal ..., que  transplanta a semente do Estado                                  centralizado brasileiro, e a Inglaterra, já  abertamente moderna e burguesa, que transplanta a semente de mercado                 competitivo.  (A ralé brasileira: quem é e como vivem - p.106).

 

Continua a História e Souza acrescenta que o século XIX, nada acrescenta e nem rompe com a conduta e o pensamento social do Brasil colônia, que começa a experimentar transformações na década de 1930 quando o capitalismo e o Estado moderno ganham feições mais maduras. E aí segundo explica ele, é que ocorre a “revolução burguesa” só que velada ou “encapuzada”, ou seja, não percebida pela falta de consciência política dos brasileiros, assim, as pessoas aceitam a realidade como algo natural, não percebendo que são frutos dos interesses econômicos do mercado e do Estado, e que esses interesses econômicos é que permeiam o comportamento e as relações sociais decorrentes. 

Acrescenta Souza, que a partir daí, as nossas necessidades e aprendizado, são orientados para “suprir as necessidades dessas instituições” - mercado e Estado, para em troca obter os benefícios que acreditamos elas possam nos oferecer como bons salários e prestígio social, e quem não age dessa forma acaba estigmatizado e visto de forma pejorativa pelo conjunto da sociedade. 


Conclusões, críticas e um recorte especial da realidade para falar da classe média. 

Jessé Souza no capítulo 6 do livro, A ralé brasileira: quem são e como vivem, defende que Estado e Mercado são os idealizadores e mantenedores da ideologia dominante e que no Brasil, por falta de consciência política de seu povo, ela passa despercebida enquanto ideologia e, é aceita como algo natural e espontâneo, moldando o dia a dia de cada um de nós sem que percebamos isso. 

Diferente de Jessé Souza, Foucault via na manutenção da ideologia de Estado três instituições e criou o conceito que ficou conhecido como o “triângulo de Foucault” como podemos ver no ensaio sobre o livro de Roberto Lyra Filho feito por Nobre e Chioratto, abaixo: 


Em reflexões acerca das relações de poder em obras de Michel Foucault, ele fala dos  diferentes                 modos de poder, perpassando pelas formas de força e disciplina. Foucault,  em seu tempo, história              e espaço, desenvolveu a ideia de um triângulo, que veio a ser  conhecido como o triângulo de                      Foucault (poder - direito - verdade) onde envolve o  Direito como essencial na manutenção das                  relações de poder. Diz Foucault  “... o saber como produção da verdade sempre esteve relacionado               em excesso com o  poder. Também ele se refere ao aparelho de Estado, constata que o poder está                 por toda  parte e provoca ações ora no campo do direito, ora da verdade. Deve ser entendido  como              uma relação flutuante, não estando em uma instituição nem em ninguém,  enquanto o saber está                   numa relação de formas e conteúdo. (p. 2 e 3). 


Diferente de ambos, Louis Althusser - filósofo marxista francês –, define o conceito dos “aparelhos ideológicos do Estado - AIEs”, diferente do aparelho repressivo do Estado que é de domínio público, os AIEs podem ser públicos ou privados e, esses aparelhos ideológicos, atuam no consciente e no inconsciente da população. Gramsci também chegou à conclusão que instituições privadas servem perfeitamente como aparelhos reprodutores da ideologia dominante quando se refere ao conceito de hegemonia. 

Althusser definiu oito Aparelhos ideológicos de Estado, que são, AIE religiosos, escolar, familiar, jurídico, sindical, cultural, político (sistema político e partidos) e de informação (imprensa). Fazendo uma intersecção entre Jessé Souza, Gramsci e Althusser, podemos dizer que através dos “aparelhos ideológicos de estado” o mercado e o Estado, constroem e mantém uma hegemonia ideológica e política sobre toda a sociedade, que busca enquadrar seu comportamento a esses interesses considerando suas atitudes como virtuosas socialmente. 

Um recorte sobre a ideologia que permeia a classe média, uma forma de compreensão 

A classe média e sente especial, se acha culta e inteligente mesmo não sendo, tem a certeza de que nasceu e está predestinada a ser rica ou milionária, só lhe falta a oportunidade que Deus ou seus esforços lhe irão prover no momento apropriado e, que ela – classe média - irá obviamente aproveitar porque é muito qualificada para isso. Claro, o conceito de rico que expresso aqui é o daquela pessoa que não precisa trabalhar e mesmo assim tem dinheiro para viver bem, ou seja, o verdadeiro conceito de ser rico. 

Claro pensa ser melhor que aqueles de condição econômica inferior e ficam com muita raiva quando a estes é dada oportunidade de ascensão e prosperidade, como através de programas sociais, por exemplo. É como se a ascensão desses lhes mostrasse o fracasso de suas aspirações e desmascarasse suas ilusões. Por isso, as expressões “É um absurdo”, “é puro assistencialismo”, ‘querem dar o peixe e não ensinar a pescar”, “estão passando a mão na cabeça de gente vagabunda” 

  Ninguém representa e se enquadra melhor no estereótipo desse grupo do que o homem e mulher, brancos do sul e sudeste. A imagem que tenho desses homens é que o grande sonho deles seja, ser convidado para frequentar a casa e, como se diz no popular “mijar cruzado” com o Eike Batista, Paulo Lemann, Luciano Huck ou o milionário/bilionário famoso da vez. 

Tentam pensar, falar e agir como rico, como se isso gerasse neles a fantasia de sê-lo, porém, é muito comum que antes de dormirem e após acordarem, tomem remédios para manter sua saúde mental ou seu controle emocional, por medo de perderem tudo o que tem de um dia para o outro, como o emprego por exemplo.  

Ocupando cargos de gerência e chefia, por um lado sabem que são empregados, apesar de intermediários entre os proprietários e diretores das empresas e os funcionários subalternos destas, por outro lado, agem e pensam de forma alucinada, como se fossem os donos, cumprindo sem perceber o “papel que lhes cabe nesse latifúndio”, como canta a obra “Vida e Morte Severina”. Dizendo de outra forma, cumprem o papel que a ideologia de forma muito eficaz se lhes impôs e só mais tarde e só alguns chegam à conclusão de que não ficarão ricos conforme pensavam e até passam a trocar sua percepção de prosperidade, pela frase de que “o importante é ter saúde”, de certa forma soa ridícula, ao menos para estes. 

Em resumo, ninguém serve mais os interesses do Estado e do mercado, e também, ninguém incorporou mais a ideologia “velada”, “encapuzada” do sistema do que essa classe média. E, enquanto, não forem conscientizados ou não perceberem a mentira dessas suas ilusões serão um entrave para qualquer mudança seja econômica, social, cultural. Se o pensamento social da classe média não for mudado, qualquer mudança no “status quo” da sociedade corre o risco de retrocesso e, as vezes, como vemos agora, de severo retrocesso. 

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R.A. 211.222.526 - Direito Noturno – UNESP /Franca - e-mail: rubens.chioratto@unesp.br 

 

BIBLIOGRAFIA:  

SOUZA, Jesse. A ralé brasileira: Quem são e onde vivem 

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado, 10ª edição, Editora Graal. 

NOBRE, Edson dos Santos; CHIORATTO, Rubens Junior. Ensaio Direito, ideologia e sociedade: uma abordagem de marxistas. in: Classroom Introdução ao Direito, 2021- UNESP, Faculdade de Direito de Franca. 

FERREIRINHA, Isabela Maria Nunes; RAITZ, Tânia Regina. Artigo: As relações de poder em Michael Foucault; Reflexões Teóricas. 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Uma intepretação compreensiva de um país difícil de se compreender

Jessé Souza, em sua obra A ralé brasileira: quem é e como vive, propõe o rompimento com uma explicação fácil da realidade brasileira e de seu percurso nos últimos séculos, baseada na interpretação culturalista, fechada em si mesma, impermeável aos condicionantes da estrutura social. A identidade nacional singular, comumente chamada como “cultura do jeitinho” não pode ser separada da estrutura econômica patrimonialista e suas respectivas instituições. Os valores e ideias que guiam a ação somente podem ser percebidos se vinculados a determinadas instituições, este é o cerne da dinâmica de racionalização que caracteriza a modernidade capitalista. O Estado tende, nesse contexto e sob uma interpretação weberiana, a se organizar mediante as mesmas ferramentas de gestão utilizadas pelo mercado, refletindo a classe dominante que o mantém. Ainda, a ação social se move, cotidianamente, a partir de um cenário de dominação, condições materiais de existência, representação do coletivo e, principalmente, por um enquadramento das instituições.

A instituição do Direito, da moral, da família, e tantas outras instituições sociais, acabam por determinar o norte da ação social. Isso se dá através da racionalização dominante, que torna tudo muito estável e previsível, características típicas do capitalismo. Um exemplo básico se dá no dever de trabalho a fim de conquistar o capital necessário para a sobrevivência, ou seja, por mais que um trabalhador não queira levantar cedo para trabalhar, assim o faz para garantir o sustento de sua família, abrindo mão de suas liberdades para cumprir um contrato já estabelecido. Assim, as instituições não são externas aos indivíduos ou isentas de valores, mas estabelecem uma hierarquia valorativa em relação ao comportamento dos indivíduos em geral. A dinâmica de racionalização desenvolvida por Weber enxerga esse enquadramento como uma forma de aprisionamento e busca uma antítese na luta pelo rompimento com esses padrões. Na realidade brasileira pode-se observar esse tipo de esforço através de décadas de lutas sociais que trouxeram recursos para ações afirmativas importantes para as classes dominadas, como as cotas para acesso ao ensino superior, por exemplo.

O discurso conservador recorrente em nossa sociedade brasileira atua de forma a valorar as ações ditas como ideais, desprezando e institucionalizando o ódio e aversão a tudo que seja considerado fora do padrão estabelecido pelas classes dominantes. A reprodução de questões ligadas a direitos de família, por exemplo, repudia direitos humanos básicos como o direito à vida (no caso do aborto, visto como pecado e erro material), ou direito à dignidade (no caso de episódios de homofobia). Embora pareça um pensamento irracional, esse modo operante nada mais é do que o aprisionamento em moldes pré-determinados, onde o que foge de seu escopo deve ser ignorado e destacado da cultura dominante. Ainda, o mercado, como grande inviabilizador de tudo aquilo que escapa à perspectiva do padrão, torna tantas questões latentes de nossa sociedade ainda mais excludentes, como a subvalorizarão do trabalho da mulher ou a constante busca pela redução dos direitos trabalhistas de uma forma não tão evidente.

Enfim, a realidade de nosso país pode ser entendida sob uma perspectiva social onde a classe dominante atual se intitula liberalista com comportamentos conservadores. Essa dualidade, própria do sistema e modernidade capitalista, transforma a classe dominada em personagens a serem catalogados segundo a ótica vigente. Diante de tantas incongruências e dificuldades no enquadramento de nosso cenário atual, o patrimonialismo é fruto de uma má compreensão, decorrente de variações culturais em todo Ocidente, próprias dessa dupla fonte moral. O fim último se dá através da disciplina e autocontrole, levando aquilo que é válido e racionalizado para todas as esferas da vida da racionalidade moderna.

(Laredo Silva e Oliveira - 1º Ano Direito Noturno)

Quem vai às ruas no dia 7 de setembro?

     O que faz alguém ir às ruas brasileiras no 7 de setembro de 2021? Penso eu.  Então, me deparo com diferentes respostas para uma mesma pergunta. Encontrei algumas que me parecem mais possíveis de serem aplicadas, sem (tantas?) distorções da realidade. O que faz alguém que eu conheço vestir uma blusa com a bandeira do Brasil e dirigir-se ao Largo do Rosário — em Campinas — para defender sua pátria e pertencer ao exército brasileiro (o povo), como disse o vereador campinense Major Jaime? E o que me faz, Letícia, vestir cores do arco-íris em direção ao Largo do Pará, nesse mesmo dia, para compor o Grito dos Excluídos, existente no Brasil desde 1995? O que nos move e qual o impacto de nossas ações?  

Poderia dizer que o Brasil é uma nação perdida, em que todos os partidos sempre foram e serão farinha do mesmo saco, portanto, os lados das manifestações não se diferenciam. E insinuaria que não existirá consequência sobre os atos do 7 de setembro, pois, em um país onde a corrupção impera, nada há de ser feito para combater injustiças. Finalizaria pensando: uma blusa da seleção brasileira é um símbolo da identidade nacional, local onde o futebol é capaz de unir todas as coletividades, portanto, ela representa a união dada pelos nossos laços culturais. Poderia fazê-lo, mas não acho que esses pensamentos tenham profundidade e sirvam de análise aos Brasis, especialmente ao Brasil de Bolsonaro.  

O que significa um indivíduo que veste uma camisa da seleção, em um contexto em que a bandeira do país foi tomada por movimentos conservadores, que ressaltam o patriotismo? O que representa fazer parte do “exército brasileiro”, na realidade em que um presidente insinua “tem que todo mundo comprar fuzil, pô” e faz constantes ameaças à democracia?  E como se dá a resposta de uma bandeira que não só possui as cores de um arco-íris, como simboliza o movimento LGBTQ+ e toda sua histórica contraposição à necessidade da preservação de um culto à Família e a Deus, clamada pelo conservadorismo? As vestes e adereços que eu e meu conhecido utilizamos, os Largos para que nos direcionamos, estão longe de serem atos que se detém apenas no plano da individualidade — mesmo que instaurados nos corpos de indivíduos — tratam-se de ações de cunho social.  

O que faço do meu 7 de setembro, muito antes, representa a coletividade a qual pertenço, um território de disputas histórico-sociais entre grupos que exploram-oprimem e entre as pessoas que são por esse sistema espoliadas. Por óbvio, um 7 de setembro muito brasileiro, mas nem por isso desvinculado das dinâmicas analisadas em outros países, o que permite compreender sem tantos estereótipos nossas particularidades e não as separar do mundo em que estão inseridas. O meu fazer e do meu conhecido são antes influenciados por instituições que estão envolvidas nas dinâmicas de poder da sociedade: a Família, a Igreja, a Polícia, a Escola, os Partidos Políticos. Quem vai às ruas pela defesa de uma religiosidade acima das pessoas não tem uma ideia dissociada do todo, e é exatamente por isso que ela também não deixa de reverberar nele e de, nas suas formatações, realizar manutenção. Quem vai às ruas pelo grito das pessoas excluídas também não criou seu pensamento do além, mas da necessidade de resistência frente à realidade latente, em que a dominação não pode ser omitida.   

 

-Letícia Magalhães, Noturno.


"O Brasil não muda"

Tenho 20 anos.

 Faz 20 anos que ouço que o Brasil não muda, porque nós (enquanto nação) somos assim: desse "Jeitinho". Diante disso, a primeira questão que me aparece, dentro de tantas, é o que significa mudar? Óbvio que pela tonalidade da conversa, já com aquele desânimo e uma boa dose pessimismo, sei que se trata de mudar para melhor, a sensação é que o Brasil não melhora. Porém, esse melhorar também pode ser um alvo de dúvida, melhorar em relação ao quê? Parecer mais com que lugar? Obrigando a me questionar - e questionar a todos envolvidos com a trama brasileira -  parecer-se menos, por outra via, com quem?

Pensando nisso, busquei como base para edificação dessa reflexão dois autores: Weber e Jessé de Souza, o primeiro um sociólogo alemão do século XIX, e o segundo um brasileiro, feito eu e você, sociólogo contemporâneo Jessé de Souza que busca, mesmo hoje, entender as relações ilógicas que se estabelecem nesse país. Porque nessa conversa, junto com quem me lê tento construir a partir desses pensadores uma forma de compreender esse Brasil e sua sociedade, que parecem ter fáceis traduções, responder essas incógnitas iniciais que me serviram de premissa. Contudo fazer isso lembra a montar um quebra-cabeça de 1001 peças.

Quando trouxe a fraseologia: "O Brasil não muda", ou até indo para além dela, imaginando outras derivadas como: "Aqui é Brasil", "Funcionaria, mas estamos no Brasil", me lembrei das inúmeras circunstâncias, nas quais estive inserida e tais afirmações foram feitas. Na escola, no bar, no domingo de almoço com os tios distantes, inclusive no âmbito universitário. Parece que é unanime esse conceito de que o Brasil é um caso a parte do resto do mundo, um lugar de cultura e relações sociais tão genuínas que impedem um progredir. 

Nesse momento que posso me valer dos autores, começando por Weber, para o sociólogo a ação social, isto é a forma de "conduzir a vida" dos indivíduos é orientada em relação aos outros. De forma que que determinadas ações dos homens apenas ganham sentido, notabilidade se estiverem dentro do contexto de referenciais culturais. Portanto sob esse conceito, alegar que o Brasil enquanto nação e Estado não funcionam toma legitimidade, porque está consoante com uma lógica cultural vigente.

Assim, prosseguindo para Jessé, o ponto de sua obra A Ralé Brasileira, colide com o que aqui desenvolvo no momento em que o próprio sociólogo questiona clássicos pensadores como: DaMatta, Sérgio Buarque de Holanda, os quais dentro desse pensamento de que há um singular tipo brasileiro, ratificam, por entranhas intelectuais, essa premissa de que nós brasileiros somos alheios ao resto do planeta, de que aqui se nasce um homem tipificado, e incompatível com o resto do planeta.

O Jessé é uma âncora, na qual posso me escorar para tentar responder minhas iniciais perguntas de para onde o Brasil não anda, e porque nós não somos meramente "o jeitinho brasileiro". Uma vez que em seu livro mencionado, o autor traz um ponto crucial que quebra com o estigma do Brasil e sua sociedade ser única, sendo essa resposta alternativa para tentar revelar o que se acontece, a relação Estado e mercado. Para ele, assim como para o texto aqui montado, o país não sofre de um "mal de origem", não se trata somente dessa semente colonial trazida há seis séculos, trata-se de uma lógica capitalista, que se acentua em países que habitam a periferia (metaforicamente falando) desse sistema. 

O Brasil não muda, isto é não progride, porque aqui como em outros lugares do globo o mercado segue predatório ao Estado, exigindo cada vez mais que ele se anule. O Brasil não melhora, porque assim como em nações que servem, supostamente, como exemplo de avanço: Estados Unidos, a elite brasileira não quer que o país desenvolva-se de maneira progressista. Muito menos complicado culpar um problema umbilical, do que se por de frente ao fato, para o discurso da elite, da high-society é mais prazeroso dizer em uma festa, que o país nunca será "funcional", por isso o lugar ideal é a Europa. 

Faz parte da oratória dos 3 por cento da sociedade, dos empresários industriais (que usam e abusam de relações patrimonialistas e corruptas do Estado brasileiro), dos latifundiários, da gente que é "Doutor" na Faria Lima e gasta um salário mínimo numa janta, proferir que o Brasil não avança, porque faz parte do nosso traço cultural. Porque ao passo que eles usam desse artifício, a grande massa o reverbera num movimento de alienação, haja visto que se o povo não se enxergar como vítima desse jogo sujo, no qual o capitalismo e suas relações de mercado o ludibriam, melhor para quem está no poder. 

Dessa maneira, o subalterno fica ligado ao um desenho cultural, ao estigma de malandro, boêmio, trabalhador, contudo que usa somente da força bruta para isso. Sendo o rico, um ser humano com direito ao estudo, a vida boa, a riqueza. Porque o mercado quem legitima isso, o mercado por meio dos contínuos movimentos de tentar tirar do Estado os direitos dos cidadãos, usa como resposta a meritocracia. Assim, para qualquer dúvida: o Brasil não funciona, porque ele é desse jeito, o pobre é preguiçoso e não se esforça, os ricos por outro lado, estudam e se dão bem, ou seja: se querem melhorar (enquanto nação) esforcem-se. Essa é a mensagem do sistema capitalista.

Não obstante esforçar-se parece um pedido irônico num país, no qual a massa, os pobres, são desumanizados. Perdem sua dignidade humana pelo mínimo, morrem com seus salários de fome, enquanto a elite, segue sentada com a bunda em cima privilégios pedindo que eles se tentem mais. 

Tentar entender o Brasil, não se trata de criar um tipo, de culpar somente o passado. Entender esse país é Paulo Freire, educar o povo para que se libertem das algemas dos dominantes, é romper com esses dogmas de que APENAS o nosso passados nos impede de progredir. Porque, progredir para os ricos é ter um PIB alto, é o dólar equiparado com o real, é viajar para Disney. Mas, para quem resiste, é pretos nas universidades públicas, comer as três refeições diárias, e portanto: entender essa sociedade incompreensível é culpar esses podres donos do poder. 


Isabella Uehara - 1a semestre noturno  




Devemos armar uns aos outros


Não é difícil de se interpretar o Brasil.

Difícil é o fazer sem enlouquecer. 

Manter os olhos fechados é mais fácil

do que ver tanta gente morrer. 


E essa gente que morre

tem cor e classe definidas.

Uns acometidos pela fome

e os outros: o fuzil ceifa a vida. 


Em meio a esse genocídio,

o cristão piedoso é quem aperta o gatilho.

Enquanto o presidente grita: 

“Troquem o feijão pelo fuzil”. 

E na Igreja se ouve:

“Devemos armar uns aos outros”.


Assim, devemos ter liberdade para nos armar,

mas nunca para nos amar.

Porque “Deus criou Adão e Eva”

e “aberrações” devem queimar.


Ainda falando em liberdade,

no Brasil é seletiva.

Liberdade para matar “vagabundo”.

Mas e o aborto? “Aborto não! Eu sou pró-vida”.


Desse modo se dá o controle dos corpos e das mentes.

Seja dos corpos que caem ao chão

ou dos que não se rendem à tentação da serpente. 

Sempre obedecendo o patrão

Uma figura que se assemelha a esse tal de Deus:

homem cis hétero, branco e com muito, muito poder.


O Estado, o mercado e a Igreja andam de mãos dadas

para edificar o trabalhador perfeito,

mergulhado em ilusões meritocratas

ele faz tudo bem feito. 

Ele se posiciona em favor de moral e bons costumes,

forjados pela burguesia, que os vê como estrume.  


Então o país é desgovernado

por um vírus sem vacina,

de economia liberal e moral conservadora.

Para liberar a exploração e conservar a chacina. 


Caroline Migliato Cazzoli - Direito - Matutino - Turma XXXVIII

 

A dominação dos ratos

    Em uma certa vila, os ratos se organizaram para viverem em harmonia e em conjunto. Para isso, criaram mandamentos capazes de conduzirem a ordem social e, assim, evitar possíveis conflitos entre eles. No entanto, esses mandamentos foram elaborados por uma parcela pequena da sociedade que institucionalizaram suas vontades em detrimento da coletividade. Após a consolidação das regras, os ratos foram submetidos a dominação da cúpula dos ratos poderosos, aqueles deveriam agir conforme as condutas desejadas. As normas desenvolvidas proibiam o casamento entre ratos do mesmo sexo biológico, as ratas eram impedidas de tomarem decisões sobre seu próprio corpo e a cada ano os ratos dominados perdiam condições básicas para sobreviver. Cada instituição dessa sociedade enquadrava a ação social dos ratos, prevalecendo sempre os valores dos ratos poderosos, inclusive com a cristalização dessas ideias em um tal rato "mito" o qual se orgulhava de invocar a moralidade para defender as normas impostas a cada rato e demonizava todos os ratos que buscavam mudar a dominação conquista pela institucionalização dos valores dos poderosos. Esse "mito" conseguiu uma legião de ratos que o endeusam e asseguraram que ele ascendesse ao governo da vila. Desde então, os ratos revolucionários vivem o pior dos seus pesadelos, presenciam diariamente a desarmonia na vila e o privilégio dos ratos poderosos aumentarem, enquanto milhares de ratos vivem a margem da sociedade. Maldita crença de que a vila precisasse de um salvador, graças a ela legitimaram o "mito" e seu desgoverno. A legião do "mito" só esqueceu que são ratos comuns e pouco se assemelham com seu deus, sofrem as mesmas consequências dos "comunistas". Pobre ratos, o poder dos poderosos sempre irá dominá-los. 


Bruna Soares Teixeira 
Direito - Noturno


A ilha de vera cruz atualmente

 "Trabalhe enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham"

Trabalho, trabalho e mais trabalho! O trabalho dignifica o homem!

Max Weber, fundador da sociologia compreensiva, vai vincular religião e politica, vai buscar entender qual é a função da religião na politica na nossa sociedade, e assim percebe que os valores capitalistas são norteados pela religião. O protestantismo vê o trabalho como instrumento de preservação da fé, tendo uma relação entre desenvolvimento econômico e religião, desta forma, o protestantismo modelou o o capitalismo como tipo ideal. O trabalho agora, é visto como um valor social central e é uma forma de reconhecimento social.  

No Brasil, existe essa forte glorificação do trabalho, a ideia de que só o esforço pode fazer com que o homem ascenda na vida, consiga todos os seus objetivos e que, não importe o quão difícil seja, se você se esforçar o suficiente você irá conseguir! Ainda é muito presente na sociedade brasileira a falácia da meritocracia, a desigualdade é legitimada com esta ideia de mérito.

Com essa perspectiva de que com esforço você alcança, que sabemos que é uma falácia e que não importe o esforço, o trabalho duro não é suficiente para maioria das classes periféricas, o "jeitinho brasileiro" aparece para tentar contornar as desigualdades. A falta de acesso que essas classes subalternizadas possuem é que explica o "jeitinho" que elas possuem, não é uma cultura do brasileiro. Esse jeitinho só existe devido as condições de desigualdade existentes no país.

A culpa de tudo isso é colocada em nossa construção histórica, claro que, devemos entender que nosso passado atrapalhou e atrapalha muito o nosso desenvolvimento, mas será que esse é o único fator? É necessário buscar mudanças, não ficar parado culpando os portugueses e aceitando que "as coisas são como são". 

Como exemplo, pode-se citar a corrupção que é vista como intrínseca no governo brasileiro, todo mundo fala sobre ela, mas ninguém procura alterar essas estruturas corruptas. Os brasileiros acreditam que só existe a corrupção em nosso país e que nada pode ser feito para mudar este fato, porém em outros países também existe a corrupção porém ela é vista de uma forma bem diferente. 

IZABELLA DUARTE DE SÁ MORILLO - DIREITO - DIURNO - 1°SEMESTRE

Ciclo Temerário

            O atual modo de vida da maioria dos brasileiros, trabalhar para pagar conta, é constantemente criticado por eles mesmos, todos se dizem cansados da exploração do capitalismo. No entanto, por que continuam nessa forma de viver? De acordo com Jessé Souza, a motivação de continuar nesse sistema opressor, limitado de igualdade social e liberdade individual, é que continuam reproduzindo a aceitação de ser apenas um corpo produtor de trabalho para o capitalismo. Dessa forma, a compreensão está na legitimação da dominação da elite brasileira, a qual ideologicamente impõe a meritocracia.
            Comumente é justificado o mérito de alguém considerando o quanto ela trabalhou e também é usual motivar alguém falando que é “só trabalhar”, ou pior “trabalhe enquanto eles dormem, assim irá alcançar o desejado”. Essa mentalidade capitalista predomina em grande parte dos brasileiros, visto que a “ideologia do mérito”, segundo Jessé, está fixada no inconsciente de grande parte dessa população. A partir disso, surge uma dúvida: de que forma essa mentalidade foi legitimada? Isso pode ser respondido através da teoria de ação social de Max Weber.
            A ação social, de acordo com Weber, é condicionada de quatro formas: 1) a partir de condições ou meios para alcançar fins próprios, ponderados e perseguidos racionalmente; 2) de modo racional intuído por valores, pela crença consciente no valor, podendo ser ético, religioso, estético e etc; 3) de modo afetivo, por afetos ou estados emocionais atuais; 4) de modo tradicional, por costume arraigado. Sendo assim, a ação social é regularizada pelas situações de interesses e dessa forma, a sociedade estabelece seus costumes considerando dessas probabilidades de fatos acontecerem.
            A partir disso, é possível compreender que uma vez fixada todo esse padrão de produção e ação social racionalmente ou inconsciente, é muito difícil de “sair” dessa situação. Atualmente o Brasil é composto por uma tremenda desigualdade social, a qual a grande maioria precisa trabalhar para sobreviver, seja para se alimentar ou pagar um aluguel. Logo, se elas deixarem de produzir sua força de trabalho para o sistema capitalista, irão passar fome ou ficar sem ter onde morar. A ação social, como já visto, é movida pelo interesse, e o interesse do trabalhador brasileiro é sobreviver e, se possível, também alcançar um lugar de prestígio social.
          Portanto, enquanto predominar uma classe dominante se aproveitando de uma classe trabalhadora não haverá saída para esse estado de exploração. A interpretação compreensiva de um país difícil de se compreender está no fato de que os brasileiros, por ora, não têm escolha senão legitimar o sistema em que vivem. No entanto, seria de grande valia para mudar esse contexto uma conscientização de toda população brasileira discorrendo os contras desse sistema, a fim de promover uma mudança contínua e gradual. Sendo assim, não é transmissível a culpa para o proletário, os questionamentos críticos e cobranças devem ser feitos à estrutura e as instituições que produzem essa desigualdade, aos que detém o poder de dominar.

    Luana Silva Araújo Souza - 1ºAno Noturno

A Ética Meritocrática e o Espírito do Capitalismo

 A sociologia é uma ciência que pretende compreender interpretativamente a ação social e assim explicá-la causalmente em seu curso e em seus efeitos. Logo, por "ação" entende-se um comportamento humano relacionado com um sentido subjetivo. Já, "social" significa uma prática que se refere ao comportamento de outros.

Primeiramente, na esfera sociológica, Max Weber em sua obra, Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva, argumenta sobre a importância de se estudar os indivíduos, visto que são estes os formadores da sociedade. Dessa forma, os seres individuais prevalecem sobre o meio social, sendo a sociedade responsável pela compreensão das ações destes. A saber que Weber define o conceito de ação social como uma atitude orientada em relação ao outro, isto é, as relações sociais são constituídas pelo conjunto de interações entre os seres humanos.

Seguindo essa lógica, Jessé Souza em seu livro, A ralé brasileira: quem é e como vive, afirma que as instituições responsáveis pela formação dos entes modernos são o mercado competitivo capitalista e o Estado centralizado. Somado a isso, Souza acrescenta que as instituições não devem ser entendidas como somente prédios e edificações exteriores aos indivíduos, mas também como uma forma de controle e reprodução de valores morais. Pensando nessas questões, na contemporaneidade, o conceito de meritocracia argumenta a justificativa das desigualdades sociais em uma esfera individual e não institucionalizada. Sendo assim, é evidente a influência do mercado capitalista e de suas respectivas estruturas no modo de pensar dos indivíduos modernos, uma vez que os métodos de opressão deste sistema são ocultados através de um discurso, o qual valoriza o esforço e o trabalho extenuante, como forma de "vencer" na vida.

Em suma, hodiernamente, as instituições enquadram a ação social, ou seja, elas expressam as vontades e as normas a serem seguidas pelos integrantes de determinada sociedade. O conceito de meritocracia, por sua vez, enfatiza esse aspecto, pois promove a competição entre indivíduos com diferentes realidade socioeconômicas, sustentando uma ilusória ideologia capitalista de que com esforço e trabalho tudo pode ser alcançado.


Bruno Solon Viana - Direito Matutino Primeiro Semestre 

domingo, 5 de setembro de 2021

A sombra do culturalismo

Tem algo muito estranho no ar do nosso Brasil

Um cheiro diferente, terra em que Messias tem fetiche por fuzil

País da fome crescente, do pai ausente, da criança doente

País que não é pra iniciante, mas a culpa não é nossa

Todo mundo sabe, não é segredo que essa joça 

Só não vai pra frente por causa dos portugueses


Ah... Quem me dera se há 500 anos não tivessem chegado

Só traziam a ralé e, por causa disso, somos amaldiçoados

Afinal, tudo se atualiza, mas a cultura...

A cultura é imutável!

Mas talvez tenha outra explicação, uma mais... mais razoável?


É jeitinho brasileiro ou jeitinho de sobreviver?

Sangue de gente covarde, preguiçosa e mentirosa

Ou sangue de gente valente, trabalhadora e honesta

É tanto discurso vindo da mesma pessoa

É tanta coisa pra decidir, tanta coisa pra entender

É um país difícil de compreender!


Por isso eu bato no peito e digo com orgulho

Sou culturalista! Assim fica mais fácil de viver

Tudo é mais fácil quando se tem quem culpar

A sombra é que conforta

Porque a luz faz o olho arder...


Andrew dos Santos Carneiro, 1º ano de Direito, noturno.

O povo anda com medo, os políticos de jatinho particular

 

 "Moro num país tropical, abençoado por Deus

 E bonito por natureza (mas que beleza)

 Em fevereiro (em fevereiro)

Tem carnaval (tem carnaval)"

Olá, eu sou o Brasil, e como diz a canção eu sou um país tropical, com um lindo litoral, uma linda floresta,que vem sendo destruída por aqueles que acreditam que o lucro e o capital estão acima de todas as coisas. Mundo a fora, conhecem o meu povo, como um povo alegre, feliz e muito receptivo, os turistas estrangeiros ficam apaixonados ao chegar aqui. Minhas comidas típicas são degustadas com muito amor por todos que passam por aqui.

Terra do samba, da caipirinha e do carnaval, eu não me reduzo a características tão boas. Desde de 1500, o meu povo sofre, do nada chegaram por aqui uma galera vinda de terra longínquas que se julgavam superiores aos meus habitantes nativos, exploraram o meu território durante anos, toda a riqueza que foi conquista não ficou aqui, foi levada para o exterior, enriqueceu outras nações, enquanto o povo que aqui já existia ficou a míngua, isso quando não foi exterminado ou escravizado. 

Outro dia ouvi falarem de um tal de "jeitinho brasileiro", e me perguntei o que o caracterizaria? 

Todos os dias milhares de brasileiros são explorados por seus patrões, isso em troca de um salário que não dá nem para pagar todas as contas no final do mês, todos os dias sai no jornal mais uma notícia de violência doméstica, assassinato, roubo e corrupção, todos os dias o Seu José tem medo de sua filha Maria não volte para casa, seja mais uma vítima da violência contra mulher, o povo anda com medo, já os políticos andam de jatinho particular, dinheiro escondido na cueca, fazem churrasco com carne de R$3000,00 e tudo isso enquanto o povo sofre para comprar o pão de cada dia.

Que país é esse?, já perguntava Legião Urbana

E eu tão majestoso, cheio de belezas naturais e riquezas, ainda não consigo responder. Não é justo ver o meu país se afundar, ver o sofrimento estampado no rosto do povo, o medo se espalhar, ver políticos se definirem como "Messias", enquanto o preço da cesta básica só aumenta. Como já dizia Max Weber, que não é filho de minha pátria, mais muito admiro, o tipo ideal é um referencial, não corresponde a algo que deve ser, mas o objetivamente possível, meus habitantes devem considerar isso nas eleições do ano que vem, não acreditar em um salvador, que ao invés de salvar afoga ainda mais o povo. 

Falar desse "jeitinho" é uma maneira de fazer com que o povo não enxergue os seus próprios problemas, e assim a dominação dos políticos e das classes superiores possa se manter, sem que os cidadãos percebam, como diz Jessé de Souza, "não refletimos sobre o ato de respirar, e também não refletimos sobre toda essa moral que somos obrigados a seguir". 

Eu sou lindo, sou rico, tenho uma das maiores florestas do mundo em meu território, o meu povo é receptivo e mantém a cabeça erguida apesar de todo medo, da falta de dinheiro e dos políticos que curtem a vida às custas de seus impostos. Como já dizia Chico Buarque "Apesar de você, amanhã há de ser outro dia", de luta em luta, de vitória em vitória, o povo vai se esquivando da dominação e abrindo o seu entendimento, meus filhos já estão acostumados as lutas, agora devem se acostumar as vitórias. O POVO BRASILEIRO VIVE E BRILHA, apesar dos falsos salvadores, desde antes de 1500. 


Ellen Luiza de Souza Barbosa 

Turma XXXVIII

Noturno


A Terra brasilis

 Entender o Brasil é uma tarefa complexa, mas não impossível. Traçar um paralelo entre o caos atual e nossa construção histórica é algo válido, embora não deva servir como pilar para a sustentação da máxima "somos assim porque somos assim".

 As instituições estão falindo, e mais triste ainda é perceber que isso ocorre cerca de quase 40 anos após o início de seu processo de engatinhamento. Aqui, deve-se atentar ao fato de que a ditadura militar e nosso passado escravista jamais significaram o "despertar" de algo novo, sendo apenas a efetivação do viés colonizador perpassado por gerações de um povo massacrado desde que se entende por brasileiro.

Não há espaço para um Brasil de sonhos intensos e raios vívidos enquanto discutirmos personalismos baratos e delírios consumistas. Ou mudamos, ou mudamos. O caminho para o novo já não parece assim tão demarcado.

Falar sobre o "jeitinho brasileiro" é discutir também a questão meritocrática em nossa nação. Em nosso país se debate desde muito cedo a podridão da política e seus desdobramentos, conquanto pouco se diz sobre um povo miserável relegado às margens desde sua concepção. 

Na bela nação de verde-amarelo, o esforço poucas vezes dá seu fruto, por isso, a constante busca pela "porta lateral". Nos fizeram acreditar que estamos destinados a isso. Que no fim do dia, passar por cima do outro faz parte da construção histórica de nosso país e de nosso povo.

O Estado, ao invés de deglutir seus próprios defeitos e buscar a mudança, exalta feitos do passado e culpa os "não vencedores". Não se debate projetos ou perspectivas, o que se faz é pintar nosso Brasil tão diferente como uma massa uniforme que, claramente, nunca existiu.
Ao raiar do dia seguinte às eleições, alguns partem em seus carros importados em direção à Avenida Paulista, enquanto outros recolhem o papelão no qual passaram a noite anterior nesse mesmo local. Esse é nosso país, que de quatro em quatro anos magicamente se torna "um só".

Finalizo dizendo que nosso povo nem deve, nem vai e nem precisa "ser estudado pela Nasa". A casta intelectualizada bem sabe de onde viemos e como chegamos aqui, e embora não goste de oferecer respostas aos "pedreiros do destino", enchem o papo de predicados para ofender os que - por pura e simples ignorância (a maioria) - elegeram ao mais alto cargo da nação um debilóide. O fato, caros patriotas, é que como todo bom brasileiro (e talvez essa seja a única característica comum em todos os que ainda possuem coragem de se dizerem como tal), possuímos fé. Nossa fé em Deus, no Brasil, no futuro ou em nós mesmos deve nos mover cotidianamente em direção a um lugar incerto, embora com certeza, melhor. Afinal, como mais ou menos disse certa vez um sábio popular, o lado bom de estar no fundo do poço é saber que o único caminho existente é para cima.

Pedro Basaglia, 1° ano - Noturno 

 Por que eu tenho nome estrangeiro? 

        Max chegou da escola e não quis almoçar. Deitou-se na cama, mas levantou depressa, lembrou-se da bronca que a mãe lhe dera na outra semana por ter dormido com o corpo sujo. Dividido entre enfrentar o chuveiro ou acomodar-se no chão, escolheu a segunda opção. Mas torceu para que nenhum dos irmãos entrasse ali, ou ele seria tido como doido. 

    Já repousante, pensou. Será que o Brasil estava mesmo acabando, como a professora havia dito? Os desmatamentos, a crise hídrica, a desorganização socioeconômica dos estados e os desmontes políticos municipais estariam mesmo prestes a arrebentar com a harmonia relativa que  ele conhecia? Aquilo era algo que ele ouvira milhares de vezes em dezessete anos, mas que nunca tinha ressoado tanto nele quanto naquele momento. Esse pensamento foi entrecruzado por outro: o pai pusera nele nome estrangeiro, diferente do "Alencar" que a mãe queria, e, por causa disso, no seu primeiro aniversário, eles já estavam divorciados. Seria aquilo um microexemplo do destino da parcela nacional da humanidade? 

    O velho orgulhava-se de ter conseguido "dar um jeitinho" com o moço do cartório para fazer valer o próprio desejo. Será que o pai era tão maligno quanto os agronegociantes, que desperdiçavam água e acabavam com o país? Tão digno de nojo quanto os riquinhos da cidade, que pagavam uma merreca aos empregados que contratavam? Será que os filhos dos aristocratas goianos e dos endinheirados locais tinham tanta dificuldade de visualizar e aceitar a pequenês de caráter dos pais quanto Max tinha? 

    O menino reconsiderou. O pai dele não poderia mesmo ser tão mau quanto os outros dois. A família dele tinha cinco pessoas, e o país, duzentos e dez milhões. E mais: "Max" soava bem melhor que "Alencar". Por fim, talvez a mãe tivesse adoecido por outro fator, como uma depressão pós-parto, e não por causa daquilo. E ela já estava bem havia muito tempo. 

    O cérebro do garoto parecia trabalhar como o advogado do malandro num julgamento hipotético movido pela mãe. Max lembrou-se do avô e dos tios paternos, corcundas pela lida da roça, que não permitiam sequer que suas esposas escolhessem o corte de cabelo. Como o pai poderia ser diferente tendo sido criado em meio àquilo? 

    E mais: nenhum juiz precisaria preocupar-se em punir o pai para garantir que a atitude dele não virasse exemplo para os filhos, pois esses jovens estavam todos usufruindo de boa educação e vida confortável, o que lhes possibilitaria abraçar comportamentos menos grotescos. 

    Max, já sonolento, absolveu o pai. O senhor em questão não tinha tido a mesma instrução que os engravatados destruidores do mundo. A compreensão da atitude dele, bem como o entendimento de todo e qualquer fato ocorrido nas antigas terras de Veracruz, perpassava a inequidade socioeconômica, gigantesca em todos os cantos da nação. Isso, muito mais do que o valor numérico do dano, diferenciava-o deles. O pai de Max era diferente porque, naquele momento, estava a levar maçãs para vender na feira urbana, enquanto os exportadores de soja aproveitavam um café em Paris e os donos da academia que ele frequentava admiravam um quadro recém-adquirido, de Romero Britto. 

Maria Paula Aleixo Golrks - 1° semestre - Direito matutino