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domingo, 23 de agosto de 2020

Figurinos inéditos, enredo monótono

    

Na obra cinematográfica “Tempos Modernos”, protagonizada pelo cineasta britânico Charles Chaplin, são retratadas as conjunturas sociais e trabalhistas da classe operária na primeira metade do século XX. Nesse sentido, o filme foca no cotidiano do personagem de Chaplin, o qual tem sua rotina de trabalho rigorosamente controlada dentro da lógica do modelo fordista de produção. Nesse contexto, a trama evidencia o quão permeável as massas sociais são aos ideais burgueses, já que todo o ordenamento social seria diretamente influenciado pelas características das relações de trabalho e produção, as quais seriam ditadas por essa classe hegemônica. Todavia, atualmente observa-se que os modelos de produção já não se assemelham mais com o fordismo retratado no filme. Assim, convém analisar, sob a ótica da sociologia marxista, a posição do operário moderno e seus direitos frente a essa nova ordem capitalista.

A princípio, é pertinente reconhecer, em uma primeira análise, que Karl Marx e Friedrich Engels, dois importantes pensadores do século XIX, foram responsáveis pela elaboração de diversas ideias que ajudaram a compreender as relações de poder na sociedade. Isso porque, como se pode constatar na obra “A Ideologia Alemã”, os dois sociólogos europeus formularam a tese do materialismo histórico-dialético, a qual, ao contrário do idealismo hegeliano, encara o meio material como base para o estudo e compreensão da história e das relações sociais. Com base nisso, os pensadores evidenciaram a situação de vulnerabilidade da classe operária frente à ordem capitalista que se desenvolvia acentuadamente desde a Primeira Revolução Industrial no século XVIII. 

Na esteira dessa lógica, foram concebidas, por exemplo, as noções de mais-valia e alienação do trabalho. Essas críticas ao sistema capitalista podem ser aplicadas ao filme “Tempos Modernos” pois o personagem interpretado por Chaplin, embora trabalhasse intensamente, recebia uma remuneração pouco condizente com isso (mais-valia), além de ter de se ver obrigado a vender sua mão de obra ao industrial, sem sequer ter uma percepção adequada disso (alienação do trabalho).

Contudo, o cenário hodierno de ordenação da produção já não se assemelha muito ao retratado no filme estadunidense: com a intensificação do processo de globalização, no final do século XX, e a vinda do toyotismo como o protagonista da trama mercadológica, teve-se alterações notáveis no modo de se produzir. Isso porque, como efeito dessas novas transformações, o rígido modelo fordista cedeu lugar a um modelo mais maleável; as enormes estruturas fabris centralizadas agora dialogam com terceirizadas distantes; e as leis trabalhistas são gradativamente despidas.

Esse reordenamento da produção, de acordo com Richard Sennett no livro “A Corrosão do Caráter”, conferiu ao capitalismo atual uma feição de arquipélago, posto que as tarefas são segmentadas e interligadas entre si. Ademais, Richard também chama atenção para a supressão da “burocracia” a fim de que o livre comércio empresarial possa transcorrer mais facilmente, dando, assim, origem a novas relações trabalhistas. Nesse âmbito, verifica-se que a nova realidade na qual o operário está sujeito ainda dialoga com as ideias de Marx e Engels: ao buscar primordialmente a maximização dos lucros, as grandes empresas tendem a livrar-se dos mecanismos de proteção aos trabalhadores e, por conseguinte, a intensificar a sua situação de fragilidade.

É a partir daí que tem-se a preparação do Estado mínimo e de muitas das características neoliberais a ele atreladas que se fazem presentes na atualidade. Dessa forma, pode-se compreender que o gradual desmantelamento do Estado de bem-estar social encontra-se dentro dessa nova fase do sistema capitalista. No cenário nacional, por exemplo, observa-se essa ideia ecoar na tese de redução do chamado “custo Brasil”, a qual passa, obrigatoriamente, pela flexibilização das leis laborais. A Reforma Trabalhista, aprovada em 2017, é uma das medidas que dialogam com essa noção, uma vez que ela não só legitimou a jornada de trabalho contínua por 12 horas, como também abriu possibilidades para negociações entre o operário e o empregador.

Ora, se o trabalhador não detém coisa alguma dos meios de produção e ainda depende de sua mão de obra para sobreviver, não há razões para acreditar que eventuais negociações se darão de forma equivalente para ambos os lados. Portanto, depreende-se que, na atual ordem do capitalismo flexível, a classe operária encontra-se tão fragilizada como em tempos atuais. Afinal, a impressão que se tem é de que essa contemporaneidade trata-se quase que de uma reprise de uma mesma trama melancólica: os figurinos e os ambientes são outros; os atores e o enredo, porém, são os mesmos.


Fábio Eduardo Belavenuto Silva- 1º ano de Direito- Matutino



Infraestrutura flexível, Superestrutura flexível.

    "Os trabalhadores desejam ganhar o máximo possível, os patrões, pagar o mínimo possível. Os primeiros procuram associar-se entre si para levantar os salários do trabalho, os patrões fazem o mesmo para abaixa-los." Esses ideais que Adam Smith propôs a mais de 2 séculos atrás, estão sendo aos poucos retomados pelo capitalismo neoliberal na contemporaneidade, que como consequência, inicia o processo de deterioração do direito trabalhista. Esse fato é evidenciado pela Reforma Trabalhista de 2017, que modificou diversos pontos na Consolidação das leis Trabalhistas Brasileiras visando diminuir o desemprego e combater a crise econômica no país, porém a reforma apenas serviu para reduzir os direitos do trabalhos e aumentar a desigualdade entre patrão e empregado. Desta forma, é possível afirmar, que o Direito vem perdendo espaço em meio ao capitalismo flexível. 

    No capitalismo financeiro, as empresas perdem seu caráter técnico de outrora e passam ao setor terciário, o que maximiza a uberização do trabalho. Se até a primeira metade do século passado a maior parte do capital estava alocado em empresas que dependiam de vínculos fixos com grande parte dos seus trabalhadores, como indústria que precisa manter fixo seu piso de fábrica, atualmente a economia volta-se para corporações do setor terciário em serviços de baixa complexidade, como Uber, que não necessitam desta solidez e portanto alienam o trabalho mais facilmente. Para Karl Marx, a alienação do trabalho ocorre quando há possibilidade de a corporação extrair do indivíduo seu trabalho, ou seja, desfaz a autenticidade de sua produção e torna-a tanto substituível destituindo seu poder de barganha. Ao mesmo tempo, camufla as estruturas hierárquica por meio da tecnologia mandatória, o que prejudica a capacidade de responsabilizar o patrão por acidentes de trabalho, carga horária excessiva etc. Assim, os direitos trabalhistas encontram-se cada vez mais dissolvidos na contemporaneidade. 
    
   Além disso, a terceirização afasta o agente regulador das relações de trabalho, o que fragiliza direitos trabalhistas. Para Marx, não há paridade entre as partes dos acordos trabalhistas pois o trabalhador possui apenas a sua mão de obra para vender e esta é cada vez mais substituível. Isso significa que a garantia de condições  mínimas ao trabalho exige congregações que auxiliem o trabalhador, fiscalizando o correto cumprimento dos direitos adquiridos pela classe proletária. Atualmente, este sistema mostra-se fragilizado, uma vez que, após a reforma trabalhista, a sindicalização não é mais obrigatória e não há mais amparo legislativo quanto às Leis Trabalhista de carga horária máxima, férias remuneradas, seguro desemprego e amparo aos acidentes de trabalho. Por isso, os trabalhadores mostram-se desamparados neste capitalismo flexível. 

    Dianto dos fatos expostos, é evidente que o direito vem perdendo espaço em meio ao capitalismo flexível, no sentido que a terceirização da economia minimiza sistematicamente a capacidade de barganha do trabalhador pela uberização e afasta a legislação das relações de trabalho. 

    Beatriz Adas Olacyr- 1° ano- Matutino

sábado, 22 de agosto de 2020

Morreu no corredor atrapalhando minhas compras.

Você é fruto das contradições de seu tempo

De tudo o que produz, produziu e produzirá

Dono da força motriz que move o mundo

E que o constrói diariamente

 

Mas, subitamente, tudo muda

A terra em que pisa, não é mais sua

E o seu trabalho contém suas lágrimas, sangue e suor

Mas não mais possui sua marca

 

Antigo servo de sua vida e sua vontade

Agora é servo da vontade de outrem, um proletário

Um senhor invisível, te toma o possível e exige o impossível

Perante ao capital, você é desprezível

 

Você agora vive uma vida flexível

Mas ela nunca foi mais rígida

Deixou de ser humano, você agora é produto

E deve se vender, sem olhar quem te comprará

 

Em um novo mundo, onde tudo pertence a alguém

Nada te pertence, nem mesmo sua própria vontade

E a ética? E o compromisso? Teve de jogar fora

Eram um peso da sua vaidade: útil a toda a gente, mas inútil à coisa

 

Você agora é uma coisa, e jamais questionará seu lugar como coisa

Coisa não questiona, coisa é e pronto

Isso é universal, não são todas as coisas frutos da mesma coisa?

O capital junta coisa com coisa e nasce outra coisa, não é fantástico?

 

Mas a verdade, é que você se tornou menos que uma coisa

Você não é nada

Tudo se constitui graças a você, mas você não se constitui, não se reconhece

É como uma poeirinha inconveniente, uma sujeirinha qualquer que deve ser limpada

 

Por falar nisso, alguém pode limpar esse corredor?

Tem uma sujeirinha ali, que foi coberta com guarda-sóis

Limpem o quanto antes, o mercado não pode fechar

O mercado não pode parar.




Matheus Guimarães Ferrete - 1º Ano Direito (Noturno)

6 de dezembro


"Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada."

"Tabacaria", de Fernando Pessoa.


      6 de dezembro, as muralhes de Kiev sucumbem perante os exércitos mongóis, atravessando milhares de quilômetros, a Horda Dourada de Batu Cã conquista Kiev e inicia seu domínio na Europa do Leste.  Os cronistas ucranianos da época alertavam que a invasão mongol era uma condenação de Deus pelos pecados dos homens (Feuerbach certamente descordaria), mas 6 de dezembro me vem a memória por outra anedota.

          Henrique Villegas, contava-me esses dias que estava em Santa Marta, na Colômbia, alguns anos atrás, bebendo em uma pequena espelunca quando ouviu pelo rádio o relato da morte. Um homem chamado Luis Vicente Gámez, enviou uma carta para ser lida em memória dos trabalhadores mortos da companhia bananeira norte-americana United Fruit Company, no fatídico dia de 6 de dezembro de 1928*.

          Villegas perguntou ao dono da espelunca se o relato era verdadeiro:

– Vicente Gámez faz isso todos os anos, desde 1929. Todo 6 de dezembro essa carta é lida, ninguém sabe direito o que aconteceu naquela greve ou simplesmente preferem não saber.

          Na correspondência lida pelo radialista, Gámez contava que os trabalhadores entraram em greve no início de dezembro, as exigências eram: melhores condições de trabalho, abolição de pagamento por meio de cupons, dormitórios higiênicos e semanas de trabalho de 6 dias. Segundo Gámez, os trabalhadores não eram comunistas ou liberais, mas eram famílias pobres que viviam em condições precárias, enquanto os donos americanos ficavam com o lucro de seus esforços.

       Os proprietários americanos ficaram furiosos quando receberam a notícia da greve, exigiriam que o governo de Miguel Mendéz tomasse providencias para pôr um fim a mobilização. No dia 6 de dezembro, os militares ocuparam Aracataca, colocaram metralhadoras nos prédios baixos da praça principal, fecharam as vias de acesso e abriram fogo contra os grevistas que estavam reunidos na praça após a missa do domingo. Gámez fugiu dos militares se escondendo por três dias debaixo de uma ponte. Quando saiu, viu os corpos dos companheiros jogados em valas comuns, mortos como baratas.

– Em memória de meus colegas Bernardino Guerrero e Erasmo Coronell*, mártires de uma causa desacreditada – assim terminava a carta de Luis Vicente.

          Quando a leitura se encerrou, um bêbado debochou:

 Militares incompetentes, se tivessem feito o serviço direito não teríamos esses comunistas para todos os lados.

– Aquele bêbado certamente era hegeliano, estava completamente tomado pelos seus idealismos, para ele a ideia de Colômbia que seu torpe raciocínio alcoolizado produz representa a verdadeira Colômbia. A Colômbia, assim como as outras nações de nosso continente, não estão lotadas de comunistas para todos os lados, mas de pobres em todas as esquinas. Os socialistas simplesmente questionam quais seriam as razões da pobreza dos homens – comentou Henrique na noite em que nos reunimos.

        Sempre que rememoro essa anedota, penso nas histórias que um dia pode guardar. Seja uma invasão mongol sobre Kiev, uma explosão em um porto canadense* ou um levante de trabalhadores oprimidos em Aracataca. A força que move essas histórias já recebeu diversos nomes, de Deus até de Luta de Classes, mas certamente as versões dessas histórias sempre serão escritas pelas mesmas pessoas: os “vitoriosos”.     

 


*O “Massacre das Bananeiras”, como ficou conhecido, realmente aconteceu. Até hoje não se sabe o número exato de mortos.

*Bernardino Guerrero e Erasmo Coronell foram os dois líderes mortos pelo exército colombiano.

*A “Explosão de Halifax”, foi um desastre canadense ocorrido no dia 6 de Dezembro de 1917 em Halifax. O acidente ocorreu no porto de Halifax, devido à colisão do navio francês Mont-Blanc, carregado de explosivos.


Luis Gustavo da Silva/Matutino.

A Ideologia Chinesa

 

Após anos de guerrilha incessante e de conflitos cansativos com os nacionalistas, Mao Tsé- Tung estava em Nanquim. A revolução de outubro de 1949, afirmava ele, traria novos horizontes para uma China dividida por milênios de submissão aos ditames imperiais e desigualdades trazidas pelo breve período republicano. Como ele e seus auxiliares fariam isso? Pela implantação de um governo popular, baseado na cooperação universal entre os indivíduos, tudo isso sob a tutela justa de um Estado organizado para assisti-los nesse processo.

Para isso, provou-se que seria de primeira necessidade a conversão imediata do povo a uma ideologia proletário-agrária, a fim de permitir o progresso da nação em novas bases produtivas, independentemente dos meios que se tivesse de lançar mão para tal. A essa busca perpétua do progresso aviltada pela revolução e que se estende- de uma maneira ou de outra- até os dias de hoje, daremos o nome de “a ideologia chinesa”.

Mao era marxista. Aliás, era tão convicto em seu posicionamento político que foi agraciado com uma vertente própria dentro desse universo: O maoísmo. Essa linha de pensamento estabelecia o trabalhador agrícola como base da revolução- como já descrito nas linhas anteriores- e formou muitos seguidores ao redor do mundo, como o governo de Pol Pot no Camboja e o movimento terrorista Sendero Luminoso no Peru. Infelizmente, na própria China, essa corrente motivou iniciativas estatais que foram responsáveis pela morte de milhões de cidadãos e perdurou em sua modalidade mais rígida até 1976, ano de falecimento do todo poderoso pai da revolução. Esse se provaria um ponto de virada.

Marx, no entanto, não era maoísta. Isso nem era possível, haja vista que não eram contemporâneos. Ele e seu colega Engels elaboraram muitas obras juntos, dentre elas o famoso manifesto do partido comunista, que seguramente foi lido por Mao e seus colegas do politiburo, mas que não vem ao caso no momento. A ideologia alemã, primeiro manuscrito produzido em conjunto pelos dois alemães, tece críticas ruidosas aos pensadores conhecidos como “Jovens Hegelianos”, grupo de intelectuais revolucionários integrado por Ludwig Fuerbach, Bruno Bauer e outros. Marx e Engels não suportavam o fato de esses sujeitos só destacarem mudanças no plano do pensamento e nunca trazerem para o campo concreto. “A atividade humana é o sujeito da história e não o espírito”, deve ter gritado um indignado Karl durante um banho quente.  

O garboso “proletários do mundo uni-vos”, como enunciado no manifesto, só poderia ser entoado a partir do momento em que os trabalhadores fossem conscientes de que é a vida material que produz a consciência e não o contrário. Somente dessa forma seria possível a instauração do comunismo e a tomada dos meios de produção, por meio da consciência advinda da materialidade. As bases do que seria traçado posteriormente como o Materialismo Histórico surgem ali e, além disso, Marx e Engels dão especial atenção ao quesito da divisão do trabalho.

A China mudou muito desde 1976. Deng Xiaoping, sucessor de Mao, operou alterações estruturais na organização do país. A principal delas foi a abertura econômica ao restante do mundo, por meio das chamadas Zonas Econômicas Especiais. Desse modo, cidades como Shanghai e Guangzhou foram estimuladas a fazer negócios e se desenvolveram a ponto de hoje estarem na lista das cidades mais ricas do mundo. As mudanças foram tantas, que atualmente a China é a segunda maior economia mundial. Mesmo assim, os chineses continuam fazendo reuniões no politiburo e são regidos pelo mesmo Partido Comunista de Mao. Aqui mora a contradição e ela tem a ver com conceitos trabalhistas.

 A República Popular da China contraria o marxismo ao permitir que ainda existam classes sociais e os avanços tecnológicos- notáveis- apenas aumentam as desigualdades que deveriam ser combatidas pelo socialismo. O desenvolvimento de maquinário e de softwares que substituem os indivíduos nos meios de produção, esvaziam o poder do proletário sobre a economia e tornam, assim, inviável a própria luta de classes. Nesse contexto, Marx se reviraria no caixão ao ver sua imagem sendo ovacionada em um comitê de líderes chineses.

A ideologia chinesa, dessa maneira, retira dos proletários a relevância no sistema econômico e os conduz a uma realidade em que a consciência sequer pode ser construída por meio da atividade material. Em um futuro próximo, nem mesmo existirá atividade material para ser exercida por eles. Mao e, principalmente Marx, não puderam prever o momento em que a foice e o martelo iriam drapejar sobre um Estado onde o povo- destituído do título de sujeito da história- possa ter de substituir a consciência política advinda do trabalho, pelas mudanças apenas no plano do pensamento, à moda dos jovens hegelianos.

Fernando Camargo Siqueira- 1° ano- Direito noturno

O Direito na nova relação de produção dentro mídias sociais

 

Na obra “A ideologia Alemã”, Karl Marx e Friedrich Engels explicam como as relações de produção, ou seja, tudo aquilo que os seres humanos produzem a partir das transformações do mundo, são um espelho do modo como o ser humano se organiza no social, logo como o próprio autor diz na obra; “o que os indivíduos são, coincide com sua produção”. Na contemporaneidade, com o advento da globalização e a difusão das mídias sociais, consolidou-se novas relações de produções mais complexas e menos rígidas, diferentes daquelas analisadas por Marx e Engels contudo, verifica-se que a sua essência permanece.   

Uma das características dessas novas relações de produção, é o chamado “capitalismo flexível”, onde o mercado se adapta com muita agilidade. Analogamente a esse pensamento, os meios de comunicação que outrora eram utilizados como um veículo de entretenimento e de interação social, na atualidade fazem parte das novas relações de produção. O Instagram, que inicialmente era majoritariamente usado com o intuito de postar fotos, hoje, se reestruturou e tornou-se além de uma mídia social, um meio de vendas. Não é atípico nessa rede social, as pessoas estarem olhando seus feeds e se depararem com inúmeras propagandas de lojas online, muitas vezes até com determinados objetos específicos de seus gostos, isso porque o Instagram se tornou um meio muito grande de mercado, hoje estima-se que mais de 25 milhões de perfis são voltados para o comércio, sendo que além do Instagram ser um “local” imaterial de compras e vendas, é também onde essas lojas on-line fazem suas propagandas, principalmente através de influencers, esses “produtores de conteúdo”, como assim se autodenominam, acabam vendendo um estilo de vida moldado pelos produtos que as lojas enviam para eles, logo pelo fato de terem muita visibilidade, esses influencers estimulam a compra de produtos on-line mostrando para os internautas os “recebidos do dia” de tal lojas. Ainda dentro dessa perspectiva dos influencers, pode-se constatar uma classe dominante dentro de uma “sociedade virtual”, isso porque de acordo com Marx, uma classe dominante necessariamente precisa transparecer seus interesses ou gostos como se fosse o comum a todas as pessoas, portanto, quando os influencers mostram como aqueles determinados produtos são “incríveis” e “relevantes”, acabam construindo um padrão de vida e de pensar universalmente válidos para todos que os acompanham.

Essa incipiente relação de produção na contemporaneidade das mídias não apenas reestruturou o significado das redes sociais como também alterou a produção dos produtos que são vendidos, já que muitas dessas lojas on-line não possuem uma loja fixa, onde as pessoas podem comprar pessoalmente (como acontecia antigamente), a fabricação dos produtos também se transformou pois está, as vezes, na própria casa do vendedor e as entregas são feitas via correio ou via uber. Tendo em vista toda essa flexibilidade do comércio através das redes sociais, essas lojas on-line carregam uma característica muito grande do capitalismo flexível; a alta facilidade de se decompor e se redefinir, haja vista que, podem se modificar de um dia para o outro, mudando os produtos que são vendidos, e acompanhando a demanda do mercado apenas com a exclusão ou a modificação da conta atual da plataforma online.

Apesar de toda essa facilidade com que o produto pode chegar na casa do consumidor, a questão do Direito dentro dessa nova relação de produção é mais complexa do que se imagina, pois como se pode garantir a segurança jurídica do comprador que está adquirindo um objeto de uma loja “imaterial” onde uma das únicas certezas do produto  são as fotos que são postadas dentro da conta da pessoa que está vendendo? Como a oferta dentro dessas redes é muito grande e a segurança de um produto confiável são poucas, as denúncias por fraudes aumentaram, isso porque é muito fácil enganar um consumidor e lucrar em cima de falsos produtos no Instagram, basta apenas criar um perfil comercial, postar fotos de um determinado objeto e esperar alguém estrar em contato. Após o comprador realizar o pagamento e passado o prazo de entrega, o consumidor tenta entrar em contado com a loja on-line, porém o site que que ele comprou já não existe mais e como muitas vezes as pessoas são direcionadas por alguns anúncios dentro da própria plataforma, o consumidor se quer lembram de qual conta do Instagram ele adquiriu o produto.

É válido ainda pontuar, como citado no primeiro parágrafo que, de acordo com Marx e com outros sociólogos contemporâneos, como Richard Senett -que analisou as atuais relações de produções e sociais- o modo como os indivíduos se organizam no social provém das suas relações de produção. Logo, ao se consolidar uma forma de produção diferente da anterior, verifica-se uma modificação no social do ser humano. Nesse contexto do mercado das mídias alterarem toda a escala evolutiva de produção, pode-se verificar que, ao as pessoas construírem seu trabalho em casa, ou até mesmo as empresas passarem a realizar o chamado “home office”, fez com que os cidadãos se tornassem cada vez mais individualistas dentro de suas relações sociais. Assim sendo, é inegável que os seres humanos estão refletindo nas suas manifestações da vida, as suas condições materiais de produção.

Portanto, é notável que o Direito dentro do capitalismo flexível, ainda precisa ser repensado, isso porque essa nova relação de produção virtual  trouxe muita facilidade para as “lojas on-line” desaparecem dentro das plataformas, e mesmo que uma pessoa tente conseguir o dinheiro de volta, caso tenha realizado uma compra fraudulenta, é necessário que a loja entre em contato com o consumidor, isso com certeza não acontece se o vendedor está agindo de má fé e se quer está realmente produzindo o que é colocado na conta da loja. Logo, o Direito na verdade ainda precisa encontrar o seu espaço dentro do “capitalismo flexível” para que exista uma maior segurança jurídica para o comprador, porém o que se pode afirmar é que as empresas responsáveis pelas redes sociais, precisam aprimorar a veracidade dos anúncios e das lojas. Ademais, além do crescente individualismo -reflexo das novas relações de produção-, outro ponto que surgiu dentro dessa lógica, são os influencers que dominam os valores dentro de uma “sociedade virtual”, e que além de estimularem a compra de produtos, fazem com que seus estilos de vida cada vez mais se tornem universalmente válidos.

Fontes bibliográficas: 

https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/05/23/golpistas-usam-instagram-para-aplicar-fraudes-em-vendas-on-line.ghtml 


Maria Clara Ramos Okasaki- 1ºano-Direito-Matutino 

Xingamentos marxistas e o esclarecimento da população

“Esses estudantes das universidades públicas são todos marxistas!” e cá estamos dissertando sobre isso. Tal temática tem como crítica a idealização de ideias, o que acaba sendo contraditório ao chamar-nos dessa forma, como se ajoelhássemos todos os dias em frente a um altar com a foto de Karl Marx, Friedrich Engels e outros autores importantes dessa linha de pensamento, como Robert Owen ou contemporâneos como Silvia Federici 

Por isso, noção dessa teoria deve ser entendida e estudada racionalmente - assim como todas - a servir, principalmente, como uma ferramenta para o entendimento da sociedade, baseada na compreensão materialista da história. Tal análise encontra subsídios em sua aprovação desde o neolítico, quando as primeiras produções oriundas da sedentarização humana e cultivo agrícola foram estocadas, a gerar uma desigualdade que, porventura, resultou no acúmulo de poder daqueles que detinham mais alimentos sobre outros, a ficarem subservientes por uma necessidade de sobrevida. Assim, com o tempo, a humanidade, numa visão Hegeliana, ia se contradizendo e se dinamizando, dadas as tensões e conflitos que resultavam numa nova realidade. Com isso, a dialética platônica, utilizada nessa análise, acaba por também tangenciar tal tema, uma vez que reafirma o pensamento do materialismo histórico ao ter a síntese dessa nova realidade histórica como a luta entre a tese e a antítese, gerando tal evento a partir de contradições e complementações. 

Logo, passando pela Roma antiga, são vistas oposições entre homens livres e escravos que resultaram no Feudalismo, com seus senhores feudais e servos também antitéticos, a gerar o gérmen do Capitalismo, com sua máxima inequidade entre a burguesia e o proletariado. Dadas as exemplificações, é nítido como a sociedade sempre se compôs, sendo as relações de produção aquelas que definem a posição do indivíduo na sociedade, refletidas na organização da vida social e isso é fato, não qualquer achismo.

E, com isso, é possível permear a realidade brasileira, entendendo o seu âmago de país subdesenvolvido latino-americano, cuja jovem democracia ainda é arrastada em desigualdades e ainda latente naquele velho coronelismo. Portanto, a questão de Infraestrutura econômica cede a todos os âmbitos civis, políticos e culturais seus valores, explicitando como, ao ter desigualdade na infraestrutura – capitalista -, haverá também na Superestrutura, como reflexo dessa. Por isso, direitos políticos, acesso à cultura, à saúde e à educação são tão desiguais, a revelar como essa democracia, ao defender questões liberais, acaba coagindo o impedimento de ascensão e emancipação do povo a partir, principalmente, da Educação e do Direito, posto que o poder sempre pertenceu, majoritariamente, às elite, que se beneficiaram historicamente dele e nunca tiveram pretensão alguma de perder seus privilégios de classe dominante. A realidade brasileira é árdua, uma abertura de olhos extremamente dolorida, mas necessária, ainda mais quando encontramos um abismo social exponenciado pela globalização, como os 27 anos de diferença entre as expectativas de vida de bairros com poucos quilômetros de distância (Cidade Tiradentes e Moema), dado o Mapa de Desigualdade de São Paulo.  

Assim, a mudança por uma melhoria holística não virá conforme as coisas têm se perpetuado neste país. Ela deverá vir a partir da base, mas isso parece ficar mais difícil a cada dia, com governos neoliberais cujos recursos baseiam-se em cortes orçamentários e privatizações imperativas, colocando a economia acima da Lei, em que alguns acabam sendo mais livres que outros, mantendo populações que são cotidianamente esmagadas por essa suposta liberdade. É livre pra dormir na rua, livre para passar fome, livre pra morrer por falta de condições materiais. Qual é dessa tal de liberdade que parece amarrar e abafar o grito ainda mais? Darcy Ribeiro, com sua famosa frase sobre crise da educação brasileira como um projeto expõe nada mais que a constante opressão da tese sobre a antítese. Até quando esperaremos pela síntese, então?


Anita Ferreira Contreiras - 1º ano Direito - Noturno

Castelo de cartas

 Durante a história houve várias explicações distintas para as crises pelas quais a humanidade passou. Nas sociedades agrárias da Antiguidade e da Idade Média as crises eram atribuídas a fatores estranhos à economia, muitas vezes eram vistas como influência do poder de Deus sobre os homens o qual invocava seu descontentamento em forma de longas estiagens que causavam a fome e a miséria da população. Essa visão foi modificada com a Revolução Francesa, uma vez que tal conjuntura foi tão eufórica e gerou tamanha mobilização que levou a mudanças de paradigmas e ao progresso da sociedade, como o fim do Antigo Regime e o avanço da Revolução Industrial. Foi a partir desses acontecimentos que o estudo das crises passou a ter caráter essencial para o desenvolvimento humano. 

 Karl Marx, foi o primeiro grande pensador a apontar a seriedade das crises. Ele foi o precursor da ideia de que elas, ao contrário do que diziam seus antecessores, não eram eventos aleatórios dentro dos sistemas econômicos, mas sim inerentes ao capitalismo. Assim, eventos que afloram as desigualdades e permeiam as sociedades com o desespero por tempos melhores, como a Grande Depressão de 1929 e a Pandemia do novo Corona vírus,  tendem a ser fatais para o sistema capitalista, da mesma forma que um toque suave faz com que um castelo de cartas desabe, pois expõem as falhas e as incongruências de um modelo fadado ao fracasso, que tem como base a desigualdade e a exploração do homem pelo homem.

 Além disso, a pandemia que assolou o mundo em 2020 apenas expôs um sistema que já vinha entrando em colapso desde a crise de 1929, tendo o sistema nesse meio tempo momentos de otimismo e crise. Um fator que contribuiu com essas atribulações foi o "capitalismo flexível", termo concebido por Sennett para caracterizar o modelo econômico e social vigente. Uma das formas que esse sistema se apresenta é o Neoliberalismo, doutrina que defende a liberdade de mercado e restringe a participação do Estado na economia, ou seja, separa a política do sistema econômico. 

 Assim, uma das principais características do capitalismo é que ele apresenta a esfera econômica e a  esfera política como se fossem dois mundos separados e autônomos, que se regem cada um a partir de uma lógica própria. Portanto, o Direito tem papel fundamental nesse raciocínio, já que faz com que o Governo aparente ser um espaço puramente político, em que os homens se relacionam apenas na qualidade de cidadãos, fazendo com que as relações de classe, desigualdade e exploração sejam apagadas e substituías pela igualdade formal. A exemplo disso, tem-se a meritocracia e a ascensão da figura do self made man, ambos aclamados pelos liberais e pela classe dominante. 

 Outros meios utilizados pelo "capitalismo flexível" para agir atualmente são a flexibilização das leis trabalhistas, a precarização das condições de trabalho e os trabalhos sem carteira assinada. Tais medidas contribuem com a "Reificação", termo proposto por Marx para representar a coisificação das relações pessoais e dos trabalhadores, assim, temos a transformação do proletariado em "precariado", o que favorece o sistema, uma vez que a alienação gera a aceitação do capitalismo e a consequente desmobilização política. A Reforma Trabalhista de 2017 é um exemplo de tal situação, pois contém todos os pontos mencionados.  

 Desse modo, quem dispõem dos meios de produção tem o poder de ditar o sistema, ou seja, tem o controle sobre os corpos e sobre as informações que devem chegar até eles, contribuindo cada vez mais para a alienação da população e para a manutenção do capitalismo. A taxação dos livros elucidada por Paulo Guedes é um exemplo dessa política, pois desestimula à cultura e à educação e afeta principalmente as classes mais baixas da sociedade. 

 Assim, o capitalismo é um sistema condenado porque traz em si mesmo os germes da sua destruição, uma vez que não possui bases sólidas e se fundamenta na desigualdade social, alienação e exploração, ingredientes que por si só já mostram os erros desse modelo que são usa própria ruína.

Julia Dolores-Direito matutino. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Classe média: o operário que veste os restos da burguesia


            A modernidade é marcada por duas figuras: o burguês e o proletariado. Somente essas duas. Há uma insistente tentativa de adicionar uma classe a essa analise que, nada mais é do que o trabalhador bem vestido. A tal “classe média”, que gosta de usar esse nome para não se confundir com a ralé operária, é uma cópia malfeita, o xerox barato de uma impressora velha com tinta seca, daqueles que realmente possuem poder de fato.

            A classe média surgiu na modernidade principalmente por conta do capitalismo. A classe operária, depois de tanto ser abusada pelos donos dos meios de produção, começou a perceber o poder que tinha em mãos quando se uniam através dos sindicatos. É fácil despedir um trabalhador que reclama de seu mísero salário, mas se torna muito difícil demitir todos os seus trabalhadores. Se fizer isso, a fábrica seria só um amontoado de metal parado. Com esse tipo de manifestação, os operários começaram a ter um salário minimamente digno e tiveram a possibilidade de trazer melhores condições para a sua família. Essas melhores condições incluíam as universidades para seus filhos, e esse é um ponto crucial para a origem dessa classe média.

            Através da ascensão econômica dos herdeiros dos trabalhadores, a classe média nasce, mas, quase como uma história com um plot twist no sense, esse grupo se vira contra os sindicatos. Ao invés de defenderam jornadas de trabalhos justas, salários dignos, benefícios para os trabalhadores, eles adotaram a perspectiva neoliberal para ver o mundo. Ao invés de defenderem seus pais, eles defendem seus chefes.

Mas por que defender alguém que tem o maior poder? Qual é a finalidade de tentar se aliar aqueles que podem, a qualquer momento, mandar-lhe para a rua? Há uma figura muito semelhante, mas de outro período histórico: o capitão do mato, o negro caçador de negros. Esse sujeito é uma tentativa se assemelhar ao seu senhor, tentando copiar suas ideias e suas vontades, nem que, para isso, seja necessário punir seus iguais. O comportamento da classe média é semelhante. Mesmo que esses dois personagens nunca vão ocupar o mesmo lugar que seu senhor, eles acreditam fielmente que estão chegando lá.

            Assim se comporta a classe média. Simplesmente um cão de caça, cujo dono dá uns biscoitinhos toda vez que repete algumas palavras como “livre mercado”, “sindicatos são um bando de vagabundo”, “sou a favor da reforma trabalhista’, “pela terceirização”, entre tantas outras frases...

Murilo de Oliveira Botaro - 1° ano Noturno

Os moldes trabalhistas no contexto do capitalismo flexível.


Quando os renomados sociólogos alemães Karl Marx e Friedrich Engels escreveram seus famosos textos acerca do modelo capitalista da época, o proletariado, termo usado pelos próprios autores, se encontrava em uma situação de exploração. De acordo com tais pensadores, essa situação se estabelecia basicamente porque a burguesia, ao invés dos próprios trabalhadores das fábricas, era a detentora dos meios de produção. No contexto do desenvolvimento das ideias de Marx, portanto, os operários das fábricas trabalhavam durante horas em um cenário alienante e degradante, além de receberem baixos salários.

Atualmente, um século depois da obra de Marx e Engels, houve um desenvolvimento da ideia de Direito Trabalhista e, nesse sentido, uma análise superficial do atual cenário poderia concluir que a situação do proletário melhorou ao longo dos anos. No entanto, se observarmos as mudanças ocorridas, compreendemos a incoerência de tal pensamento.

Nos tempos do chamado “capitalismo flexível”, os indivíduos são incentivados, por exemplo, a trabalhar em casa, utilizando as novas ferramentas tecnológicas de comunicação. Dessa forma, alguém poderia indagar: “Ora, mas isso é um avanço, não? Estamos trabalhando no conforto de nossa casa! Podemos fazer nossos próprios horários. ”, mas não, não é um avanço. O fato de estarmos mais confortáveis faz com que, sem percebermos, ultrapassemos facilmente o período de trabalho. Além disso, o uso da internet e das outras ferramentas permite que sejamos cobrados 24 horas por dia, em qualquer dia da semana.

Diante de tal problema, um indivíduo também poderia afirmar que, nos moldes do sistema atual, podemos ser “nosso próprio patrão”, basta que criemos um empreendimento ou comecemos um projeto sozinhos. “Ah, a beleza do capitalismo flexível! ”. No entanto, existem muitos empecilhos no processo de criar um novo negócio, completamente inovador e que seja capaz de satisfazer nossas necessidades básicas e ainda os luxos consumistas de nosso tempo.

“Pois então inove, reinvente-se, faça um curso, busque um coach de negócios! ”. A pergunta é: qual é a parcela da população que tem as ferramentas necessárias para “se reinventar” quando preciso, contratar um coach para todos os âmbitos de sua vida e ainda manter a sua saúde física e mental em um cenário tão exigente? É evidente que apenas os mais privilegiados poderiam manter tal estilo de vida.

Para esclarecer o contexto apresentado, avaliemos um exemplo dos moldes trabalhistas atuais. Segundo o IBGE, a taxa de informalidade no mercado de trabalho foi de 40,6% no primeiro trimestre de 2020, atingindo 38 milhões de trabalhadores brasileiros[1]. Dentro desse cenário, uma das ocupações informais em crescimento se refere à dos entregadores por aplicativos, considerado um exemplo desses empregos “flexíveis” da atualidade, os quais não estabelecem vínculos empregatícios entre contratado e contratante.

Em julho de 2019, o entregador Thiago de Jesus Dias sofreu um AVC durante seu expediente e acabou falecendo. O que surpreende no caso de Thiago é que, quando a cliente contatou o aplicativo de entrega para avisar que o entregador estava passando mal, obteve a seguinte resposta: “pediu para que déssemos baixa no pedido para que eles conseguissem avisar aos próximos clientes que não receberiam seus produtos no horário previsto”[2].

O exemplo de Thiago mostra que, apesar de muitos acreditarem que as ideias de Marx estão ultrapassadas, pois não existiriam mais situações de exploração e alienação do trabalhador em tempos de capitalismo flexível, podemos sim afirmar que o estudo de tal pensador se torna ainda mais necessário diante de tal contexto. Dessa forma, podemos classificar a obra de Marx como atemporal, não perdendo e, ao contrário, aumentando sua importância ao longo dos anos.

 Júlia Scarpinati- 1° ano Direito - Matutino.

 

 

 



[1] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-03/informalidade-cai-mas-atinge-38-milhoes-de-trabalhadores. Acesso em: 21 ago. 2020

[2] Disponível em: https://vejasp.abril.com.br/cidades/entregador-rappi-morre-expediente/. Acesso em: 21 ago. 2020

Da utopia ao Junho de 94

 Com a emblemática letra que o fez chegar as mais requisitadas paradas de sucesso no Brasil, o cantor de rap Djonga nos mostra um olhar pela realidade vivida por ele e por diversos homens e mulheres que, assim como o mesmo, nasceram e cresceram em periferias por este enorme país. Especificamente, quando tratamos da música "JUNHO DE 94", em seu segundo álbum de estúdio, este enuncia: "Chegar aqui de onde eu vim/ É desafiar a lei da gravidade/  Pobre morre ou é preso, nessa idade[...]" A afronta se faz logo nos primeiros versos da música, afirmando que apesar de toda a trajetória dolorosa e persistente, conseguiu atingir um incrível sucesso com uma idade não tão avançada e vindo da periferia de Belo Horizonte, Minas Gerais, local não tão de destaque, isso é claro, antes do rapper trazer visibilidade à sua área e vivências.
 Apesar de atual, a letra dialoga muito bem com o Materialismo Histórico e Dialético proposto por Karl Marx, onde definimos, de modo simplório, como a relação de indivíduo e sociedade pode ser demarcada conforme a sua classe econômica e social de nascença, conforme este cresce e passa a ser ele mesmo alguém atuante neste sociedade. Podemos dizer que, aquele que nasce de uma família de poder aquisitivo maior, surge então um leque de oportunidades e facilidades em sua vida, já quando a situação não se encontra favorável, a medida com que "portas se fecham" para o homem e, principalmente, a mulher periférica, é crescente. Uma vez que o Materialismo é a realidade material, ou um conjunto de bens possuídos.
 Se destrinchando na questão Dialética, vemos o contraste entre aqueles que vendem sua força de trabalho à aqueles que possuem os meios de produção (classe operária e burguesa, respectivamente), através da contradições de ideias das classes entre si e umas com as outras, tratando-se de ideias dominantes, que segundo o autor, emergem da classe dominante sobre a classe dominada.
 Podemos então afirmar que os dias de hoje se encontram assim? Talvez, levando em conta que metade da população brasileira não possui nem mesmo acesso à um saneamento básico, como esperarmos da classe então oprimida uma revolução de ideias? A realidade infelizmente ainda não mudou por completo, mas em passos como o de Djonga, através da música, esta tão realística e necessária para alcançar as grandes massas com toda a sua originalidade, observamos que há luz e esperança quando se dá oportunidade para quem tem talento, ou mesmo para quem quer apenas desfrutar de uma vida digna. 



GABRIELLE A. PINHEIRO - 1º ANO DE DIREITO - MATUTINO 


Expresso do Amanhã e a dominância das elites sobre o proletariado

    O filme “Expresso do Amanhã”, dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-ho, conta história de um mundo que sofre com mudanças climáticas, decorridas do aquecimento global, e devido a isso as pessoas passam a viver dentro e um trem que fica rodando o mundo. O trem, possui vários vagões que representam as classes sociais, desde as elites que possuem áreas de lazer, restaurantes e escolas, até a classe dos trabalhadores que que são forçados a trabalharem e viverem na miséria e sem educação, tendo como sua única refeição barras de proteínas feitas de insetos. O conflito do filme consiste, na revolução do proletariado, que cansado de sua situação de exploração decide se rebelar e assumir o controle do tem para assegurar condições igualitárias aos demais passageiros.

   O roteiro do longa-metragem, é fortemente influenciado pela obra dos pensadores Karl Marx e Friedrich Engels, que discorrem ao longo de suas vidas sobre as péssimas condições de vida da classe operária e tecem críticas ferrenhas sobre o sistema capitalista e sua exploração aos que não detém capital. Em suas obras, Marx discute sobre temas como a “mais valia”, processo de extorsão por meio da apropriação do trabalho excedente na produção de produtos com valor de troca e o fetichismo dos produtos, ou seja, os produtos passam a ser objetos de adoração e dessa forma as pessoas passam a possuir uma vontade quase fisiológica de possuí-los como se sem eles suas vidas não fizessem sentido.

   Além disso, é possível estabelecer uma relação entre o materialismo dialético, bem definido por Marx com a classe dos últimos vagões do trem, pois assim como Marx relata, pois os trabalhadores são utilizados apenas para garantir a grande produção das indústrias e sustentar a elite capitalista. No filme os passageiros dos últimos vagões passam suas vidas trabalhando para fornecer energia para o funcionamento de todo o trem, isto é, sustentam todos os passageiros nas costas, passageiros esses que eles nem conhecem ou veem. Assim, temos a reprodução de um modelo capitalista nas telas, no qual a única função do proletariado é de garantir o lucro do patrão.

   Por fim, A relação entre o filme e a teoria marxista chega a ser irônica, visto que o filme é uma mercadoria como as demais, ainda mais por ser tratar de um produto “hollywoodiano”, e ser feito pelo estúdio na crença de que seu produto seja consumido e tenha lucro. Porém, mesmo com isso as críticas ao sistema ainda são muito válidas, visto que em meio a milhares de outros produtos é difícil encontrar aquele, que nos faça refletir sobre a atual organização social. Por isso, esse filme torna-se necessário para a compreensão das desigualdades.



Lucas Passos Duran Netto       1º ano     direito diurno

Uma análise marxista da sociedade

        Karl Marx e Friedrich Engels nasceram num contexto de  bastante efervescência social,política e cultural.Eles observaram os abusos cometidos pelos patrões num contexto de pós revolução industrial.Para tentar mudar essa realidade,tais autores desenvolveram  alguns conceitos na busca de uma sociedade mais justa e com menos exploração.                                                                                            Uma dessas ideias aborda que a história da humanidade é a história da luta de classes.Esse problema pode ser comprovado até os dias atuais,já que inúmeros conflitos ocorrem entre quem tem os meios de produção e os empregados.Um exemplo disso são os protestos feitos pelos entregadores,por melhores condições profissionais,o que os patrões não fazem.Esses donos de empresa buscam sempre a mais valia,conceito desenvolvido por Marx e que representa uma forma de exploração do trabalhador e ganho econômico.                                                                                                                                                 Outro conceito desenvolvido por Marx e Engels e trabalhado por Sennet é a ideia da classe dominante conseguir dominar a forma de ser e também a forma de pensar de toda população.Um exemplo disso ,no Brasil,é visto no uso de alguns produtos de marcas mais famosas.Na maioria das vezes,os ganhos práticos da mercadoria não valem seu elevado preço.No entanto,se uma parte da alta burguesia usar e anunciar nos meios de comunicação,o produto torna se extremamente desejado.Essa influência é proporcionada  entre dois países também,como ocorre pelo Eua sobre o Brasil,devido ao poder econômico dos americanos.Muitos brasileiros são influenciados por esse american way of life ditado pelas propagandas e acabam consumindo produtos na tentativa de imitar hábitos de pessoas com maior capital financeiro.                                                                                                                                       Tal fato pode ser explicado,pois os valores dominantes se tornam universalmente válidos em boa parte da sociedade.Essa falta de senso crítico muitas vezes pode ser problemática,porque muitas pessoas se endividam para seguir um padrão hegemônico,que não passa de uma mera ideia superficial e muitas vezes pouco acrescenta para melhoria social.                                                                                                        Portanto,fica evidente que as ideias de Marx e Engels são uma excelente forma para uma boa análise e entendimento do funcionamento social.Além disso,elas devem ser usadas de forma crítica para questionar estruturas de poder hegemônicas.                                                                                                                                                                                                                                                                                                               João Vitor Sodré Dias Galvão- 1ºANO DIREITO NOTURNO                 

Exegese da apropriação marxista diante do velado conflito de classes presente em "Vida de Inseto"

            Uma das clássicas obras cinematográficas da Pixar, “Vida de Inseto” (1998) tem como enredo a representação de uma colônia de formigas, as quais precisam coletar alimentos para elas e, também, para os gafanhotos, sob ameaça de ataque dos mesmos caso não o fizessem. Entretanto, Flik - uma das formigas operárias que quer ser inventor –, acidentalmente, ao testar uma de suas criações, faz com que toda colheita daquele ano seja perdida ao derrubá-la no rio. Cansado da relação abusiva dos gafanhotos, Flik após ser expulso do formigueiro, sai em busca de outros insetos com intuito de combater os opressores. Nesse sentido, apesar de se tratar de uma animação infantil, observa-se na mesma, metafóricos princípios contidos na ideologia proposta pelos alemães Karl Marx e Friedrich Engels e elementos que permitem, até mesmo, a compreensão da lógica marxista acerca da relação de trabalho por autores hodiernos como Richard Sennett.

            De início, cabe-se enfatizar a comum associação das formigas como alegoria ao operariado, traço evidenciado principalmente através das fábulas. Assim, percebe-se a presença da luta de classes – o motor da História – no reino animal de Flik, no qual o formigueiro descreve o papel do proletariado oprimido pelos gafanhotos (alusão a classe dominante de capitalistas). Tal antagonismo é ressaltado pelo fato de, na animação, as formigas terem como objetivo a coleta apenas do necessário para o consumo durante o inverno, em contraste aos gafanhotos que visavam o acúmulo de alimentos – “lucro” – e sua ostentação, como demonstrado na cena onde o líder Hopper exibe a sua abundante coleção de castanhas.

            Ademais, segundo a percepção de Richard Sennett, é possível inferir que a forma de ser fordista expressa a forma de ser dominante. Desse modo, a forma de organização da colônia das formigas é quase uma referência a mecanicidade fabril exigida no modo de produção sistemático do capitalismo. O personagem alegórico de Flik pode ser entendido como o ente primordial da revolução “proletária” iniciada pela união das formigas contra os gafanhotos, as quais conseguem derrubá-los do poder e estabelecem uma comunidade nos moldes do socialismo científico, consagrado pela emblemática fala de Flik no filme: “Basta de exploração!”

            Além disso, pode-se ressaltar que no materialismo histórico dialético, tese bem enfatizada por Marx junto da totalidade, é perceptível analisar que as relações produtivas inferem na organização da vida social e da composição estatal. Esse processo, depois interpretado por Sennett desenvolve-se na abordagem de que o tempo da produção infere no “tempo da vida”. Isso pode ser observado em “Vida de Inseto”, uma vez que a passagem temporal perceptível do formigueiro é marcada pelo período entre uma colheita e outra, o que também remete a terminologia de Marx da alienação do processo produtivo e de consumo.

            Torna-se claro, portanto, a importância da teoria marxista e engelsiana tanto no meio ficcional quanto na realidade hodierna. Em uma sociedade moderna na qual preza-se cada vez mais pelo individualismo em detrimento do coletivo, é essencial destacar os ideais proferidos na ideologia alemã a fim de estabelecer uma totalidade – rede de relações perante diversos fenômenos que se configura em constante mudança – mais igualitária e justa. Por fim, tal qual Flik para diminuir a exploração consequente e assídua do capital é preciso invocar, na prática, a consciência de que se a classe operária (ou formigueiro) produz, a classe operária pertence.

    Luana Lima Estevanatto – 1º ano Matutino