O ex-presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, carregava durante sua campanha ao cargo do Poder Executivo o slogan de um governo avesso a qualquer tipo de viés ideológico, salientando a ideologia como uma questão "tão, ou mais grave, que a corrupção no Brasil", com a tentativa de assegurar um governo focado em aspectos técnicos, como justificou a escolha dos cargos aos ministérios federais. Tal estratagema, a separação entre uma abordagem tecnicamente neutra e o envenenamento ideológico, como qualquer discernimento e análise profunda a respeito dos fatos sociais, surge na doutrina positivista, difundida pelo pensador francês Auguste Comte, que reverbera e fundamenta grande parte do pensamento que visa legitimar o status quo da sociedade capitalista moderna.
Comte é caracterizado como o primeiro filósofo a abordar, de maneira sistemática, os aspectos e fenômenos sociais, sendo reconhecido comumente como o pioneiro da matéria acadêmica da sociologia. Entretanto, a abordagem do sociólogo francês busca aproximar a análise sociológica das ciências naturais, como a química, a física e a astronomia, isto é, busca fundamentar essa matéria em "leis naturais invariáveis", concebendo o que o autor denomina de "física social", tendo como seu fim o suposto progresso da sociedade. A nocividade de tal tentativa está justamente na ideia de que, uma vez que a sociedade moderna se encontra em seu estágio mais elevado da construção do conhecimento, a ciência social proposta por Comte seria a única maneira de atingir o progresso. Ou seja, ela seria a responsável por guiar a sociedade ao apogeu de seu desenvolvimento, tratando qualquer outra forma ou reivindicação política como meios que acabam na desordem e na anarquia.
Dessa forma, a filosofia positivista unifica dois pontos que, a priori, pareciam opostos: o progressismo social e um caráter contrarrevolucionário. Esta conquista serve aos interesses da classe dominante do sistema capitalista, tendo em vista que, se a sociedade está em sua etapa final e o capitalismo é supremo e incontestável, não são necessárias nem legítimas grandes revoluções ou transformações sociais. Cabe somente as devidas alterações à ciência política, administrada por um Estado grande o suficiente para, teoricamente, unir as classes sociais em favor do progresso e do bem comum.
No fim, os pensamentos comuns ao do ex-presidente Bolsonaro sugerem que a população brasileira está pronta não para caminhar rumo à ordem e ao progresso, como estampado na bandeira nacional, mas sim para ser dominada pelo Estado burguês e, enfim, assistir passivamente aos interesses capitalistas serem difundidos pela sociedade positiva.
Samuel Firmino, 1º ano de Direito - Noturno
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