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segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Reação Teológica na Pós-Modernidade: O Uso do Sobrenatural como Instrumento de Ordem sob a Lente de Auguste Comte

 


No cenário político contemporâneo, um fenômeno desafia a linearidade da Lei dos Três Estados de Auguste Comte: a ascensão de movimentos de ultradireita que se valem do sobrenatural e da fé dogmática como seu principal pilar de sustentação. Sob primeira análise, esse movimento soa paradoxal, pois utiliza ferramentas do Estado Positivo (algoritmos, inteligência artificial e alta tecnologia de comunicação) para reinstaurar a mentalidade do Estado Teológico, onde a vontade divina e o misticismo precedem a demonstração científica.

Para Comte, a evolução da inteligência humana exige a superação das causas primárias (deuses e espíritos) em favor das leis naturais e da racionalidade. No entanto, a ultradireita moderna parece diagnosticar uma "anarquia moral" na sociedade atual — o que o positivismo chamaria de crise de consenso social — e, em vez de buscar a solução na Física Social, retrocede ao fetichismo e ao teologismo para forjar uma unidade artificial. A busca pelo "apoio de fé ao sobrenatural" funciona, aqui, como um substituto arcaico para a coesão que deveria ser provida pela ciência e pelo altruísmo.

Na perspectiva comtiana, a sociedade é um organismo que necessita de Ordem para alcançar o Progresso. Quando a ultradireita evoca o sobrenatural para validar o poder político, ela tenta substituir o "Grande Ser" (a Humanidade) por um "Mito" ou uma entidade metafísica. Esse recurso não é apenas uma escolha religiosa, mas uma estratégia de estática social, pois se utiliza o medo do invisível e o dogma inquestionável para paralisar o debate racional e restabelecer uma hierarquia rígida, blindando o líder e suas decisões de qualquer análise científica ou técnica.

Contudo, para um positivista, essa tentativa de "re-teologizar" a política é uma doença que está infectando o organismo social. Comte defendia que a Religião da Humanidade deveria se basear no amor e na demonstração, diferente do usado pelo fanatismo político, isso é, o emprego do medo como ferramenta de coerção política. Ao ancorar o projeto de nação em abstrações teológicas, esses movimentos comprometem a evolução intelectual, impedindo que a política se torne, de fato, uma ciência aplicada ao bem comum, pois, invés de focar nos problemas sociais, o líder político se torna o foco e o objetivo final, isso é, o fim se torna a ascenção do poder de alguns.

Portanto, o uso do sobrenatural como ferramenta política, por parte da ultradireita, demonstra a decadência da racionalidade e do senso crítico social, dado o caráter metafísico dos argumentos e fundamentações da legitimação do poder de determinados grupos, ao qual a sociedade escolhe acreditar por medo de perder o cômodo status quo ao qual se acostumaram. 


Bibliografia: 


COMTE, Augusto. Sociologia. [Coleção Grandes Cientistas

Sociais] Org. de Evaristo de Morais Filho. São Paulo: Ática, 1978.

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