Não começo pelo grito,
começo pelos números.
Setecentos mil corpos,
milhares de histórias,
todos reduzidos a estatísticas
que insistem em não fechar.
A cela comporta cinco
mas abriga dez.
Logo, o problema não é moral:
é estrutural.
Se a função é ressocializar,
por que retorna o erro?
Se a pena é correção,
por que o desvio persiste?
Há uma falha no sistema,
e não é invisível
ela se mede,
se repete,
se comprova.
O crime não nasce no vazio:
é variável dependente
de uma equação social mal resolvida.
Faltam termos:
educação,
oportunidade,
presença do Estado antes do delito.
E quando a conta chega,
cobra-se apenas do indivíduo
o resultado de um cálculo coletivo.
O cárcere, então,
deixa de ser solução
e passa a ser sintoma.
Não nego a lei
mas questiono sua eficácia.
Porque punir sem corrigir
é repetir o erro em série,
é transformar justiça
em ciclo.
E um sistema que se repete
sem produzir mudança
não é ordem.
É apenas desorganização
disfarçada de controle.
Sabrina Hilário de Sousa - Primeiro ano de Direito Noturno
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