Total de visualizações de página (desde out/2009)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Positivismo e poder: a construção da ordem e a exclusão do progresso

Auguste Comte inaugurou o Positivismo no século XIX com a ambição de transformar a análise da sociedade em uma “física social”, acreditando que, ao aplicar metodologias exatas aos problemas humanos, seria possível encontrar leis universais capazes de garantir estabilidade e progresso.

Assim, ao substituir a moralidade religiosa por uma moralidade positiva voltada ao “bem comum”, o sistema comtiano elevou a ordem social à condição de valor supremo, frequentemente classificando críticas estruturais ou movimentos de transformação como desvios, “anomalias” ou discursos desprovidos de base factual.

Essa herança se revela de forma emblemática no lema “Ordem e Progresso” inscrito na bandeira do Brasil, expressão direta do pensamento positivista. A promessa de uma sociedade harmoniosa e em constante evolução, entretanto, contrasta com a própria trajetória histórica brasileira, marcada por instabilidade política, rupturas institucionais, períodos autoritários e a sucessiva promulgação de diferentes constituições. Longe de refletir uma ordem consolidada, essa história evidencia tensões persistentes e disputas pelo poder.

Além disso, o “progresso” frequentemente se materializou de forma desigual, beneficiando determinados grupos enquanto marginalizava outros. Políticas como as cotas raciais surgem, nesse contexto, como instrumentos de correção histórica, buscando enfrentar desigualdades estruturais profundamente enraizadas. Ainda assim, tais medidas são frequentemente contestadas sob o argumento de violarem uma “ordem meritocrática”, mostrando como a “ordem” pode ser mobilizada para frear transformações sociais necessárias.

Grada Kilomba, já alertou que determinadas populações são frequentemente tratadas como objetos de estudo e estatística, sendo privadas de sua condição de sujeitos produtores de conhecimento sobre suas próprias realidades. Assim, a promessa de uma ciência neutra revela seu limite: ao invés de eliminar desigualdades, pode contribuir para sua manutenção.

Diante disso, impõe-se uma reflexão crítica: Quem define o que é progresso e quem é abandonado em seu nome?


Daniel Leonel Alvarez - 1º Ano (Direito/Matutino).

Nenhum comentário:

Postar um comentário