Auguste Comte
inaugurou o Positivismo no século XIX com a ambição de transformar a análise da
sociedade em uma “física social”, acreditando que, ao aplicar metodologias
exatas aos problemas humanos, seria possível encontrar leis universais capazes
de garantir estabilidade e progresso.
Assim, ao substituir
a moralidade religiosa por uma moralidade positiva voltada ao “bem comum”, o
sistema comtiano elevou a ordem social à condição de valor supremo,
frequentemente classificando críticas estruturais ou movimentos de
transformação como desvios, “anomalias” ou discursos desprovidos de base
factual.
Essa herança
se revela de forma emblemática no lema “Ordem e Progresso” inscrito na bandeira
do Brasil, expressão direta do pensamento positivista. A promessa de uma
sociedade harmoniosa e em constante evolução, entretanto, contrasta com a
própria trajetória histórica brasileira, marcada por instabilidade política,
rupturas institucionais, períodos autoritários e a sucessiva promulgação de
diferentes constituições. Longe de refletir uma ordem consolidada, essa
história evidencia tensões persistentes e disputas pelo poder.
Além disso, o
“progresso” frequentemente se materializou de forma desigual, beneficiando
determinados grupos enquanto marginalizava outros. Políticas como as cotas
raciais surgem, nesse contexto, como instrumentos de correção histórica,
buscando enfrentar desigualdades estruturais profundamente enraizadas. Ainda
assim, tais medidas são frequentemente contestadas sob o argumento de violarem
uma “ordem meritocrática”, mostrando como a “ordem” pode ser mobilizada para frear
transformações sociais necessárias.
Grada Kilomba,
já alertou que determinadas populações são frequentemente tratadas como objetos
de estudo e estatística, sendo privadas de sua condição de sujeitos produtores
de conhecimento sobre suas próprias realidades. Assim, a promessa de uma
ciência neutra revela seu limite: ao invés de eliminar desigualdades, pode
contribuir para sua manutenção.
Diante disso,
impõe-se uma reflexão crítica: Quem define o que é progresso e quem é abandonado
em seu nome?
Daniel Leonel Alvarez - 1º Ano (Direito/Matutino).
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